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3. YÖNTEM

4.2. Ġklim Özellikleri

4.2.4. YağıĢ Etkinliği ve Ġklim Tipi

O

utro notável exemplo desta mudança de percepção que singularizou o Ocidente consiste nas transformações ocorridas na estrutura da música. A transição da monofonia para a polifonia traz consigo, de acordo com Szamosi (1988) e Crosby (1999), uma inversão fundamental frente à perspectiva medieval de tempo.

Na Idade Média o tempo, assim como o espaço, era medido pelo conteúdo. Isto é incontestável e, acima de tudo, matriz fundamental para se compreender a inversão de valores que a efervescência da modernidade trouxe consigo.

Tivemos já, neste trabalho, a oportunidade de discutir os conteúdos do tempo medieval. Na perspectiva milenarista de Joaquim de Fiori, por exemplo, vimos o fluxo do tempo sendo medido por três status: o da Scientia – do pai, da lei - , sendo o povo uma criança que precisa da ordenação das leis; o da Sapientia – do filho, da graça – em que o povo de Deus precisa do auxílio exterior da graça; o da Plenitude Intellectus – do espírito e da graça - , em que o povo já espiritualizado chega à perfeição, ao império dos homens contemplativos, dando fim ao conteudísico fluxo do tempo, agora suprimido pela eternidade que se impõe (CHAUÍ, 1988).

Nesta concepção de tempo, há muito da perspectiva aristotélica da transformação da potencialidade em realidade. Aqui, Deus põe em movimento, através de sua perfeição, tudo o que

é portador de uma existência mais elevada e o presente puxa para si, constantemente, um futuro cujos conteúdos já estão pré-dispostos na completude dos desígnios divinos (BURTT, 1991).

Na música, a mediação do tempo pelo conteúdo não era diferente. Sendo monofônica, caracterizava-se, a música, pelo cantar individual da mesma melodia no mesmo diapasão ou em oitavas paralelas (SZAMOSI, 1988). Somados todos os cantos, tínhamos a origem de uma massa sonora única, densa. Demoraria algum tempo para que a intercalação de vozes, ou a sua liberação para que, usando as palavras de Crosby (1999), possam saltitar e brincar, gerando novas melodias, ocorresse de fato. A música monofônica era constituída por uma linha melódica ditada pelo fluxo variável do latim, pelo significado de cada verso na liturgia, e pelo caráter espiritual do culto. O tempo de seu desenvolvimento era medido, portanto, pelo conteúdo que ela tinha por obrigação demonstrar.

A matéria prima musical da polifonia, de acordo com Szamosi (1988), é a coleção de melodias conhecida por cantos gregorianos. Tais melodias formavam o fundo musical dos serviços da Igreja Católica Romana durante todo o período medieval, sendo prescrita pela lei religiosa a maneira como deveriam ser elas cantadas. As letras desses cantos eram traduções latinas dos Salmos e se originaram da liturgia judaica.

A partir do século XI, no continente europeu, foi tomando forma a chamada música polifônica. Nela, destaca Szamosi (1988), melodias diferentes são executadas ou cantadas ao mesmo tempo, de acordo com um sistema conscientemente organizado, permitindo ao compositor criar uma nova música através do entrelaçamento de duas ou mais linhas melódicas.

A música polifônica, portanto, constitui-se na comunhão de diferentes cantos, diferentes melodias se conjugando na criação de uma música mais afeita às possibilidades criativas do compositor.

Tarefa árdua seria concebê-la na plenitude do mundo medieval. Em primeiro lugar, cabe dizer que tal música é fruto dos novos tempos. Novos movimentos da realidade, novos movimentos de concepção das coisas. No interior disso tudo, temos a efervescência do comércio,

vinculada à mentalidade do cálculo; a contestação, pela emergência de novos valores que ascenderam junto com a burguesia, dos antigos conteúdos, autoridades até pouco tempo incontestáveis; o racionalismo escolástico, outorgando ordenação, encadeamento lógico para os conteúdos da herança patrística. Enfim, há uma atmosfera de mudanças que se incrusta na estruturação de um novo vir a ser da sociedade européia, fazendo da abstração da ordem e da medida elementos cruciais. Neste contexto, o entrelaçar de diferentes melodias, gerando a polifonia, dependeria, fundamentalmente, de um medidor externo de tempo que somente se realizaria em uma sociedade que estivesse receptiva à substituição dos seus antigos absolutos por novos, uma velha metafísica por uma nova.

Assim, como destaca Szamosi (1988),

Sem inventar um padrão de tempo, o compositor nunca poderá fazer com que as melodias fluentes se misturem de modo apropriado. Isso significa que cada uma das notas musicais deva ter a mesma duração. Mas todas as durações devem manter uma relação simples e definível com um padrão básico de tempo ou com a duração de uma unidade de tempo. Isso é o que permite ao compositor comparar diferentes intervalos de tempo com várias melodias ou dividir tais intervalos em partes iguais ou desiguais. Somente isso permite a preservação da ordem e da coerência na fluente estrutura temporal da obra (SZAMOSI, 1988, p.106).

A composição da música polifônica envolve fundamentalmente um pensamento cuidadoso acerca de unidades temporais, suas proporções e relações. Nesta perspectiva, um padrão abstrato de tempo surge enquanto necessidade prática, primordial no entrelaçamento de várias melodias e cantos. Não surge, portanto, enquanto abstração filosófica, apesar de trazer conseqüências explícitas para esta. O próximo passo da polifônica música dos novos tempos seria o da criação de mecanismos para transpassar as melodias, demarcadas matematicamente no tempo agora externo, para o papel, incorporando símbolos que significassem diferentes fragmentos melódicos.

Temos, portanto, que a medição é um processo simbólico que, no absoluto do tempo abstrato, exterioridade que mede e arranja o caminho das melodias, opõe-se, claramente, ao conteúdo do tempo medieval. Há, de acordo com Crosby (1999), uma revolução onde o tempo passa a medir o conteúdo e não o contrário, tornando-se, desta feita, padrão de medida com existência independente, com o qual era possível medir coisas e até a ausência delas. Szamosi e

Crosby são categóricos ao afirmarem que, acompanhando a transição da música monofônica pela polifônica, a concepção de tempo transfigura-se, tornando-se, pela primeira vez, abstrata, deixando de ser, o tempo, medido pelo movimento, como em Aristóteles, ou pela apologética estória medieval. Torna-se ele, portanto, padrão universal de medida, vinculando-se, gradativamente, à produtividade do trabalho.

Tais exemplos expressam, em sua individualidade, o espírito da universal mudança pela qual passava a sociedade européia. Tratamos disso até aqui, procurando expressar o entrechoque do novo com o velho, as rupturas que a modernidade trouxe consigo com relação ao período medieval. Se no Renascimento tivemos todo um momento de melindre animista, de exaltação da ação dos astros sobre a vida do homem no corruptível mundo sublunar, podemos encontrar nele também a emergência de mais bruscas rupturas, de discursos providos de uma maior proximidade com a racionalidade científica. Nicolau de Cusa, Copérnico, Giordano Bruno, Kepler, entre outros, expressaram bem isso, sendo considerados peças chaves na construção da história da ciência moderna. Em paralelo à contribuição deles, contudo, a sociedade européia já se transfigurara culturalmente, redimensionando sua visão de tempo, espaço e natureza propiciada pela certa antecipação que as artes promoveram frente ao saber científico eclodido mais precisamente no período seiscentista. Isso em consonância com a mentalidade do cálculo, com a preocupação centrada no bom desenvolvimento dos assuntos “mundanos” que a classe burguesa foi, gradativamente, universalizando. Veremos, agora, a incrustação disso tudo em duas célebres figuras do pensamento científico moderno: Galileu e Descartes.

3.2-Galileu Galilei: espaço, tempo e natureza na ciência moderna

G

alileu Galilei vivenciará, portando, o processo que aqui estamos narrando. Em verdade, operou outras revoluções no efusivo cenário de construção da modernidade, apresentando novidades geradas na processual mudança de interpretação da realidade que a ciência foi criando no movimento de sua real efetivação.

Enredando características de uma ampla mudança perceptiva, traçada brevemente por nós nos capítulos anteriores, Galileu transpôs limites, reafirmando em um sentido único, e mais

amplo, um novo tipo de abstração da realidade, matemática na exaltação dos limites do sujeito e do mundo, na reconstrução teórica de uma natureza agora de aparência outra. É, tal natureza, um repositório de figuras geométricas, como em sua famosa frase deixou transparecer:

Sr. Sarsi, a coisa não é assim. A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante os nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com que está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências, e outras figuras geométricas sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto (GALILEU, 1973, p. 119).

A transição de uma percepção qualitativa para a quantitativa ganha, em Galileu, maior veemência. O livro da natureza, agora aberto aos olhos do cientista que não mais esgota o seu saber nas autoridades do passado, retém em si uma linguagem matemática, expressão geométrica de um mundo não mais animado pelos dramas do sujeito. Deixa a natureza, pouco a pouco, de ser o repositório de uma linguagem divina esquecida, repleta de um significado oculto somente perceptível por um sujeito sempre atento aos seus símbolos. Há muitas implicações nisto tudo.

A frase que citamos de Galileu é endereçada, como toda a obra O ensaiador, a Lotário Sarsi, opositor famoso dos raciocínios galileanos, pseudônimo do padre jesuíta Horácio Grassi (1582-1654).

Antes de escrever tal imortalizada frase, Galileu se defende de inúmeras críticas tecidas por Sarsi (Grassi), principalmente no que se refere à natureza e à órbita de um cometa, situação em que o filósofo natural florentino discordou de algumas das posições de Tycho Brahe. Após tal frase, Galileu continuaria se defendendo de outras inúmeras críticas realizadas por Sarsi.

Não entraremos na especificidade da discussão acerca do cometa. O que para nós se faz mais importante é justamente o fato de que, um pouco antes de reconhecer o livro da natureza enquanto um compósito de figuras geométricas, Galileu questiona o valor concebido às autoridades por Sarsi, referências que estão em todas as críticas que este fez a ele. Nestes termos, Galileu assim se remete a Sarsi, um pouco antes de “matematizar” a natureza:

Parece-me também perceber em Sarsi crença que, para filosofar, seja necessário apoiar-se nas opiniões de algum célebre autor, de tal forma que nosso raciocínio quando não concordasse com as demonstrações de outro, tivesse que permanecer estéril e infecundo (p.119).

A autoridade do argumento de nada valeria na interpretação do livro da natureza. Este era o principal equívoco de Sarsi, embasado na física aristotélica para dar sentido a uma realidade cuja aparência, em Galileu, se transfigura junto com o novo hemisfério da mente que vai sendo desbravado no desenvolver da nova ciência. Como certa vez escreveu o próprio Galileu, mil Demóstenes, mil Aristóteles, não permaneceriam em pé em comparação a qualquer inteligência comum que tivesse tido a ventura de, atentamente, deter-se no verdadeiro. Contra Sarsi, Galileu afirma não crer que um intelecto deva se tornar escravo de algum outro.

Benzer Belgeler