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a Idade Média, de acordo com Crosby (1999), as pinturas expressavam a convicção de que o status das pessoas que lhes serviam de tema era de maior importância do que os efetivos traços de seus rostos, a cor dos seus olhos, enfim, dos verdadeiros traços físicos que davam constituição para o indivíduo representado. Expressavam-se, por intermédio de tais pinturas, significações que enredavam o sujeito na orgânica hierarquia social, reflexo, de certa forma, da hierarquia divina esparramada sobre a Criação.Como já destacamos anteriormente, com base em Lenoble (s.d.), o cristianismo deu para cada alma um valor infinito, querendo, também, que a matéria participe à sua maneira da vida mística. O olho, receptor de luz, não era, neste contexto, capacitado para a captação de cada ser particular, divinizado na realização do seu ser diante do conjunto. Há a ligação vertical, de que fala Brunschvicg, que vincula os efeitos visíveis a causas invisíveis. A emanação destas causas invisíveis era, no caso da pintura, amalgamada no conteúdo representado, se sobrepondo aos efeitos visíveis, aos materiais traços físicos.
O espaço medieval – cremos que tanto o geográfico, representado cartograficamente, quanto o da pintura – consistia naquilo que ele próprio continha, sendo, como já dissemos, amalgamado ao conteúdo representado. Faltava-lhe, em contraposição à concepção moderna, a noção de espaço absoluto, vazio, tridimensional, EXTERNO. Era o espaço, na Idade Média, dependente do conteúdo nele presente, sendo medido, contido, nos a prioris do saber religioso, não existindo de maneira independente daquilo que representava.
No Renascimento, entretanto, tal situação se transformará. A geometria, ainda distante de ser transfigurada na abstração matemática moderna, com seus símbolos universais, possibilitou uma imitação precisa da natureza. A tridimensionalidade proporcionou uma precisão nas
distâncias, facilitando a representação das formas agora enfocadas na universalidade de um espaço externo, absoluto, abstração que dispensa, em nome da verdadeira sensação ótica52, os
conteúdos antes prioritários.
Szamosi (1988) demonstra que esta novidade na percepção do espaço começa a se desenvolver na Europa em meados do século XIV. Contrariando a perspectiva simbólica medieval, pintores como Giotto (1266-1337), na Itália, e Jan Van Eyck (1390-1441), nos Países Baixos, já enfatizavam uma observação detalhada da natureza em nome de um realismo ótico. O salto adiante nisso tudo seria dado na Renascença pela universalização da perspectiva que conseguiu estabelecer uma correspondência entre percepção e representação simbólica, apurando a representação daquilo que fora experimentado pelo olho. Neste sentido, Szamosi (1998) destaca que o desenvolvimento das artes visuais foi a atividade mais importante durante os séculos XV e XVI. Nestes termos, o referido autor destaca que
A introdução e o uso difundido da perspectiva linear conseguiram nada menos que emancipar a visão humana dos preconceitos dos filósofos. Muitos dos mais influentes filósofos, de Platão em diante, enfatizaram que os sentidos humanos são imperfeitos e, portanto, não podem transmitir informações confiáveis sobre o mundo. Mas, se fosse possível incluir o sentido da visão entre as faculdades racionais da mente, seria possível mostrar que Platão e os outros estavam errados. As artes estavam dando prova visível de que, assim como abrangendo uma infinita variedade de sensações visuais, muitas vezes acidentais, organizando-as em padrões úteis, o olho humano também obedece a leis simples, mas exatas (SZAMOSI, 1998, p.125).
O espaço neutro, organizado da época da Renascença não mais se baseava, portanto, em símbolos e valores imaginários de uma sobrenatureza, mas em regras mensuráveis e matematicamente descritíveis da percepção visual (SZAMOSI, 1998). Fica, a alegoria visual, em um segundo plano, e os olhos da fé são substituídos pela percepção visual que se limita exclusivamente ao mundo humano. Constitui-se a pintura, como em Leonardo da Vinci, no verdadeiro espelho do real.
52 O olho, através do qual a beleza do universo revela-se à nossa contemplação, é de tal excelência que alguém que
se resignasse a perdê-lo estaria privado de conhecer todas as obras da natureza cuja visão faz a alma estar contente na prisão do corpo; graças aos olhos, que lhe representam a infinita variedade da criação: quem os perde abandona essa alma numa prisão obscura, na qual acaba a esperança de rever o sol, luz do universo (...) (LEONARDO DA VINCI, 1991, p.181).
Tem um espelho que reflita ao mesmo tempo tua obra e teu modelo e julga dessa maneira. A pintura deve parecer uma coisa natural vista num grande espelho. O espírito do pintor deve ser semelhante ao espelho que se transforma na cor dos objetos e se enche de tanta semelhança quanto nelas existe, diante dele. Bom pintor, deves ser senhor de imitar com tua arte todas as formas que a Natureza produz e não poderás fazê-lo se não as guardares de cor. Quando quiseres ver se toda tua pintura está de acordo com o objeto natural, toma um espelho e fá-lo refletir o modelo vivo, comparando esse reflexo com a tua obra; bem verás se o original é conforme à cópia (LEONARDO DA VINCI, 1991, p.153).
O espaço, no Renascimento, é criado primeiro, sendo os objetos concretos do mundo arrumados no interior de sua absoluta externalidade. Limita-se tal pintura, portanto, ao espaço explorável pelo mundo dos sentidos (SZAMOSI. 1998), rompendo o laço vertical que na Idade Média ligava os efeitos visíveis às tais das causas invisíveis. Revigora-se, portanto, o pensamento da finitude, do mundo visível, concreto que tem na pintura um seu fiel espelho, como defendera Leonardo da Vinci. Dissolve-se, aqui, o simbólico.
Ilustração 13. A Anunciação (1472), de Leonardo da Vinci. Fonte:
www.planeta.terra.com.br/arte.