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Sahanın Hidrografik Özelliklerine Sayısal YaklaĢım

3. YÖNTEM

4.3. Toprak Özellikleri

4.5.5. Sahanın Hidrografik Özelliklerine Sayısal YaklaĢım

N

ega-se a infalibilidade de toda e qualquer autoridade. Isto não é pouco e, em verdade, se constitui em um ponto fundamental para a construção da novidade da ciência. Negou-se, fundamentalmente, o aristotelismo, demonizado por Bruno, exorcizado por Francis Bacon.

Há muitos motivos para este tipo de negação. Transfigura-se a realidade, altera-se o tipo de aparência que precisa ser explicada. A racionalidade que se embrenha pela economia transgride o corpo de interpretação da natureza, como já destacamos, fazendo-a, neste sentido, destituída das antigas hierarquias de valores condizentes com uma realidade já desfalecida.

A física peripatética é negada, superada no novo tipo de abstração matemática da realidade que é alçada também para o plano da interpretação do funcionamento da natureza.

A geometrização do espaço, obra inusitada da Revolução Científica, de acordo com Koyré (1991), tende, neste contexto, a substituir a concepção aristotélica de um espaço cósmico qualitativamente diferenciado e concreto.

Galileu, assim como Descartes, não afirmou a infinitude do universo, como o fez Giordano Bruno, que pagou com a vida tal “excentricidade”. Contudo, há a sugestão para o indefinido, para a extensão de difícil delimitação, uma vez que caem as esferas concêntrico- cristalinas53, postas sólidas ao redor de uma Terra que agora não mais habita o centro do universo pela sua situação natural de elemento mais pesado. O movimento dos corpos não mais carrega consigo qualquer tipo de devir, de transmutação qualitativa e, nem mesmo, expressa uma volta para o seu lugar natural na harmonia de um etéreo mundo lunar.

O centro metafísico poderia estar em toda a parte e em parte alguma, como defendera Nicolau de Cusa, mas o físico, foco do saber científico, não mais podia ser misticamente justificado pela “sabedoria” irradiante do “governador sol” ou, simplesmente, pela simplicidade matemática do sistema heliocêntrico. Os conteúdos do mundo são, gradativamente, outros.

A geometrização do espaço, inspirada em Euclides, opõe-se à clássica noção de harmonia grega que convencionou a idéia de cosmos para dar sentido ao mundo em que vivemos. Não há regiões determinadas para cada tipo de ser, uma imperfeição sublunar e uma perfeição lunar. Por toda a parte, operariam os mesmos princípios, tendo como pano de fundo o absoluto receptáculo de um espaço geométrico, componente externo aos corpos, independente de seus conteúdos, como a pintura renascentista já demonstrara. Os próprios conteúdos do mundo parecem negar a citada distinção entre mundo lunar e sublunar: Galileu vê, em O ensaiador, montanhas na lua, vales em outros planetas e manchas no sol que inebriam a perfeição e a imutabilidade dos céus.

Dissolvida a harmonia cósmica respaldada em papéis distintos de diferentes conteúdos, desfaz-se, também, a convenção de se conceber o mundo enquanto finito (KOYRÉ, 1991). Cada coisa deixa de ter o seu lugar próprio, envolvida na universalidade do espaço geométrico, que a todos equipara. Há muita semelhança entre estas transformações e as alterações surgidas em boa parte das classes sociais européias! A nobreza deixa de ter o seu lugar próprio, devendo lutar, em certa igualdade de condições, para a aquisição também de um certo privilégio de posição.

53 Em sua obra O ensaiador, Galileu afirma: nós não admitimos aquela multiplicidade sólida até agora aceita, mas

consideramos difundir-se nos imensos campos do universo uma sutil substância etérea e por meio da qual os corpos sólidos mundanos vão vagando com movimento próprio (p.190).

Em suma, a física aristotélica, amparada nas sensações, razoável para as informações que constroem o senso comum, não mais consegue dar sentido para uma realidade de dimensões distintas, que angaria repousar sobre uma outra metafísica de valores. A matematização da interpretação da natureza, passo que conduz ao mecanicismo e, fundamentalmente, à retirada do homem do mundo da natureza, em termos teleológicos, se fundamentaria em consonância com uma realidade já transfigurada no cálculo de vantagens pelo qual opera o burguês. Neste sentido, o aristotelismo era inócuo, desprezível. Sagredo, personagem do Diálogo sobre os dois máximos

sistemas do mundo ptolomaico e copernicano, obra galileana de 1632, expressa, não sem

escárnio, a insustentabilidade do aristotelismo frente às novas interpretações propostas por Salviati, personagem que representaria Galileu no diálogo. Assim, referindo-se a Aristóteles, disse:

Sinto por ele a mesma compaixão que por aquele senhor que, durante muito tempo, com enorme despesa, com o emprego de centenas e centenas de artífices, construiu um suntuoso palácio, mas o vê depois, por ter sido mal alicerçado, ameaçado de desmoronamento; e para não ver com tanta aflição desfeitas as paredes adornadas de belas pinturas, caídas as colunas que sustentavam majestosas varandas, destruídos os forros dourados, arruinados os marcos, as fachadas e os frisos marmóreos construídos com tanto dispêndio, tenta com correntes, troncos, reforços e arcos de ferro salvar tudo da ruína (GALILEU, 2000, p. 136)

Uma matematização da realidade, oposta ao indutivismo aristotélico, só seria possível se seus fenômenos pudessem ser, todos, mensuráveis nos termos de um espaço e tempo que atuassem enquanto medidores externos, contendo, absolutamente, todos os conteúdos do mundo sem ser por eles determinados. É isso que a geometrização do espaço – operação já feita pelos pintores do Renascimento – fará, insistindo na incoerência da física peripatética. Aqui, como destaca Szamosi (1988), a nova noção de movimento seria de fundamental importância.

Em Aristóteles, como já foi ressaltado, tinha-se que um objeto comum possuía somente o repouso enquanto estado natural. Um corpo só se moveria caso algo o movesse. Galileu, e depois Newton, romperá com tal perspectiva. O movimento uniforme, em linha reta, será considerado tão natural quanto o repouso. Um corpo se moverá, naturalmente, até que algo o pare. Este é basicamente, de acordo com Szamosi (1988), o princípio da lei da inércia, que, por necessidade, exigia a necessidade de um espaço absoluto, referencial, “pois se um corpo devia continuar

movendo-se para sempre em linha reta e com velocidade uniforme, então devia existir alguma coisa que determinasse o que era uniforme e o que era reto (p.137). Tal “coisa” seria, justamente o uniforme espaço absoluto, contínuo numérico que somente mediria a passagem de um corpo que tenderia a caminhar em linha reta caso sobre ele não se interposse algo. Tal passagem, movimento dos corpos, só seria plenamente compreendida, também, caso se redimensionasse a noção de tempo. E ele se torna também absoluto.

Se, como destaca Szamosi (1988), a distância entre dois pontos, no espaço absoluto, era definida por estes dois pontos uma vez por todas, não importando quanto, por que, em que circunstâncias e por quem, o mesmo haveria de valer para o intervalo de tempo entre dois eventos. Seria o presente, nestes termos, um mero nó que enredaria o passado e o futuro, este fluentemente sendo criado no fluir uniforme de um tempo que não pára, se espalhando, como o espaço, pelo infinito – ou pelo indefinido – , independentemente da existência ou não de matéria. Nestes termos

Sob esse ponto de vista, a passagem do tempo era um processo da natureza soberano e fundamental, não condicionado por qualquer outra coisa no ambiente. Isso implicava que o movimento tinha que ser descrito em termos de tempo, não o tempo em termos de movimento. Estava também implícito na orientação de Galileu que o fluxo de tempo era uniforme, isto é, podia ser matematicamente regulado. De outra maneira o tempo não poderia ter sido a variável independente (SZAMOSI, 1988, p.93).

Tempo e espaço seriam, no sentido absoluto, externos, independentes de nossa percepção, assim como eram independentes também das coisas do mundo. Mediriam, em termos métricos, as distâncias entre os pontos, a ocorrência dos eventos, sem a intervenção dos conteúdos bíblicos, das autoridades predestinadas, que se interpunham, como vimos, ao espaço e tempo medievais. Em Galileu, o espaço e tempo absolutos apareceriam quase que naturalmente, uma vez que a pintura em perspectiva e a música polifônica, em consonância com a emergência dos novos valores burgueses, já haviam operado a mudança de percepção necessária para que a ciência eclodisse...

Benzer Belgeler