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organização da comunidade educativa dessas instituições, bem como ter uma visão cada vez mais clara dos objetivos de pesquisa e do que buscava como campo investigativo, isto em razão da necessidade de explicar para as pessoas o que pretendia fazer na instituição e qual seria a participação de todos. Também pude constatar que muitos dos problemas evidenciados na dissertação, como mobilidade de professores e salas e crianças sem professoras durante o ano letivo, ainda persistiam, demonstrando que a busca por uma Educação Infantil pública de qualidade no Município de Fortaleza ainda é um grande desafio.

3.2.3 Escolher e ser escolhida: a instituição e as professoras, um achado

Na primeira visita realizada à instituição, antecipadamente agendada com a direção, fui encaminhada à sala de professores, onde também trabalham a diretora e a vice-diretora. Fiquei agradável e sinceramente surpresa com a receptividade; com o interesse pelo meu trabalho manifestado pela diretora, vice-diretora e supervisora; com o espaço físico diferenciado da escola e com o clima amistoso entre a direção e as professoras na reunião na sala dos professores. De tudo o que mais me cativou lá foram, porém, a confiança e o destemor das crianças ao buscarem ajuda na sala da diretoria e dos professores e a forma pela qual elas foram escutadas e acolhidas em suas reivindicações. Pensei naquele momento que talvez essas interações ocorressem da mesma forma em toda a instituição, especialmente, nas salas com as professoras. Para quem estava vindo propor um trabalho com base em projetos, essa escuta e a possibilidade de as crianças se manifestarem seriam ações essenciais.

Em conversa particular com a diretora e a supervisora foi apresentado, em linhas gerais, o trabalho: seus objetivos, as ações previstas e a forma de participação das professoras. Sobre a participação das professoras, a supervisora fez questão de apresentar dificuldades com relação ao tempo disponível, principalmente aos sábados de planejamento. Como um sinal de que havia uma organização na instituição, por exemplo, no cumprimento do calendário e das ações previstas, aceitei como positiva a aparente rejeição da supervisora sobre a utilização do sábado de planejamento, porém, argumentei que poderíamos fazer alguns arranjos. A diretora, acreditando nessa possibilidade de estabelecer acordos, entregou-me o calendário letivo da instituição, uma agenda com as salas de Educação Infantil, os nomes das professoras e marcou o dia

da reunião com as professoras. Como, de acordo com a supervisora, não haveria possibilidade de aproveitar o sábado de planejamento, a diretora sugeriu que a saída das crianças fosse antecipada na sexta-feira mais próxima, para que as professoras ficassem disponíveis.

Para o primeiro encontro direto com as professoras de Educação Infantil, foram necessárias algumas ações: confecção e entrega pessoal de um convite entusiasmado a cada uma das professoras, diretora e supervisora (Apêndice 1); a elaboração e entrega de um bilhete destinado aos pais, justificando a saída mais cedo das crianças, e a escolha de um espaço adequado para ocorrer a reunião. Todos esses previsíveis cuidados tomados foram importantes porque, mediante essas atitudes de respeito e compromisso para com todos os envolvidos, pude antecipar em que bases o trabalho iria ser desenvolvido. A surpresa e o estranhamento da diretora e das professoras quando cheguei antecipadamente à instituição, com os bilhetes para os pais das crianças e com os convites, pareceram demonstrar que não estavam acostumadas a essas iniciativas na instituição. A diretora falou que não precisava ter tido essa preocupação com relação ao aviso para os pais, porque ela iria pedir que as professoras anotassem o recado nas agendas das crianças, na quinta-feira somente. Os convites foram entregues às oito professoras e ficou combinado que seriam duas reuniões para contemplar os dois horários, isto é, uma reunião pela manhã e outra à tarde, com quatro professoras.

Embora tivesse combinado anteriormente com a supervisora que a reunião ocorreria na sala de informática, quando cheguei à instituição, a supervisora não se encontrava e a sala de informática estava ocupada. Consegui uma sala no espaço da Educação Infantil, não muito adequada, porque só contava com as cadeiras pequenas e a professora ainda se organizava para entregar as crianças aos pais. Duas das quatro professoras que iriam participar da reunião pediram desculpas, pois não poderiam participar porque tinham outro compromisso. Quando a diretora chegou para também participar da reunião, disse estar muito envergonhada pela falta de compromisso das professoras, pois as crianças haviam saído mais cedo para que todas tivessem oportunidade de participar. Pedindo desculpas, saiu da sala e logo a vice-diretora chegou para ficar em seu lugar. As duas professoras se interessaram muito e com expressa boa vontade aceitaram participar, tirando suas dúvidas sobre o tempo de desenvolvimento do trabalho e acerca de qual seria o tempo destinado para isso nas suas rotinas. Apesar da presença de poucas professoras, da ausência da supervisora e do

constrangimento da diretora, a conversa com o grupo foi muito proveitosa e as dificuldades apresentadas não reduziram meu entusiasmo pela instituição.

A reunião da tarde foi realizada no mesmo local, na sala de uma das professoras, e contou com a presença de quatro professoras e a diretora. Esse grupo que pareceu mais interessado, talvez porque contasse com duas professoras que já tinham tido experiência com projetos na rede privada de ensino, também aceitou o desafio e exprimiu todas as dúvidas com relação ao tempo disponível. Sobre essa questão do tempo, a diretora foi taxativa em dizer que não abriria mão do tempo em sala com as crianças e que teríamos que nos organizar utilizando os sábados. Mostrando a importância de as professoras participarem de um processo de formação para a instituição, consegui, com a ajuda das professoras, convencê-la a pensar na possibilidade de reservar pelo menos um dia da semana por mês, com arranjos nos horários das crianças, para nossos encontros. Argumentei que tudo seria planejado e que os pais seriam avisados muito antecipadamente quando as crianças tivessem que sair duas horas mais cedo.

Naquele momento da primeira reunião com os grupos, com a apresentação cuidadosamente preparada com slides, mostrei toda a proposta de trabalho, os objetivos, um panorama geral de algumas ações a serem desenvolvidas, sem muitos detalhes, já que seriam a experiência e os dados coletados que orientariam o caminho a ser percorrido. Por fim, esclareci a importância de manter com as professoras um contato mais pessoal e estreito, o que implicaria a observação do seu trabalho no contexto de sua vida profissional e, consequentemente, a minha aceitação como pesquisadora. Alguns fatos ocorridos ao longo do trabalho, como a declarada negação de uma professora em me aceitar em sua sala para observar sua prática, por exemplo, me levaram a questionar até que ponto as professoras compreenderam o que havia proposto.

Um fator importante para minha aproximação com as pessoas da instituição foi ter deixado claro, desde o início, que o relacionamento teria como base o respeito e a democracia. A participação de cada uma seria, de fato, tendo como base o diálogo, uma expressão de vontade, que fugia à obrigatoriedade. De forma implícita, foi elaborado um mútuo pacto: da minha parte, com o compromisso de respeitar os desejos, tempos e espaços das professoras. Do lado delas, a garantia da participação nos encontros e atividades propostos. Ao longo da convivência com o grupo, passei por muitos testes de confiança para avaliar o meu compromisso com os acordos celebrados, isto é, “se seria capaz de aceitar incondicionalmente o outro permanecendo coerente.” (BARBIER,

2007, p. 128). Esse exercício democrático demandou muito envolvimento compreensivo, muita criatividade, paciência e persistência diante das dificuldades surgidas.

O grupo ficou formado, inicialmente, com cinco professoras. Das seis que participaram da reunião, uma desistiu porque iria se ausentar por motivos de saúde. Dessas cinco professoras, três eram efetivas e duas substitutas38. Além da formatação do grupo, também ficou acordado que o tempo destinado ao trabalho seria de um dia na semana por mês e dois sábados, um destinado ao encontro pedagógico 39 e o outro ao planejamento, apesar da relutância da supervisora. No transcurso da pesquisa, porém, e em decorrência de vários fatores que serão detalhados posteriormente, houve modificações na composição do grupo, que, finalmente, ficou formado com três professoras, uma efetiva e duas substitutas.

Após a concordância das professoras em participar do desafio, fiquei aliviada, satisfeita e agradecida. Sabia da importância desse momento delicado, que é a escolha do campo de estudo. Com base em critérios estabelecidos, tem-se a sensação de que a pesquisadora é que faz a escolha, mas, na realidade, é escolhida. Sem essa escolha por si e por seu trabalho, a pesquisa não acontece.

O contato direto com a instituição e as professoras ocorreu de maio de 2008 até fevereiro de 2009. Excluindo-se o mês de julho, mês das férias de 2008, participei da vida do grupo durante um período de nove meses. No decurso de todo esse tempo, foram realizados 54 encontros na instituição para o desenvolvimento de variadas ações, uma média de seis encontros realizados por mês (Apêndice 9). Todas essas ações foram sugeridas, planejadas e desenvolvidas tendo em vista os objetivos de pesquisa, ou seja, analisar as possibilidades de o trabalho com projetos constituir estratégia de formação continuada e contribuir para o desenvolvimento profissional do professor de Educação Infantil; mais especificamente, investigar de que forma o trabalho com projetos tanto pode contribuir para que, em sua prática educativa, o professor se torne mais sensível para atender melhor as crianças, estimule mais adequadamente as suas aprendizagens e lhes propicie maior autonomia como também para que ele se torne mais sensível às suas

38 A categoria professora efetiva diz respeito às professoras concursadas e com vínculo empregatício com

a Prefeitura Municipal, enquanto a categoria professora substituta diz respeito às professoras que, apesar de terem participado de um concurso público, têm vínculo temporário com a Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente essas categorias serão mais explicitamente detalhadas.

39 De acordo com a diretora, nesse dia, todas as professoras da instituição, do Ensino Fundamental, da

Educação Infantil e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), se reúnem e estudam um texto sugerido pela supervisora. No dia em que participei da reunião, o texto versava sobre avaliação.

próprias demandas, desenvolva a sua autonomia e amplie os seus conhecimentos; também foi propósito desse trabalho investigar que fatores influenciam, para que a realização do trabalho com projetos contribua para o desenvolvimento profissional do professor de Educação Infantil.

Benzer Belgeler