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O objetivo deste texto é analisar o conceito do direito moderno entre o mundo da vida e o sistema em Habermas. Com base nos conceitos de racionalização e de racionalidade em Weber, a função de uma lógica não estabelece abertura de reconstrução social, dado que nas “sociedades modernas se impõe princípios de ordem jurídica e moral, que se distanciam cada vez mais das formas de vida concretas” (HABERMAS, 2012b, p.265-266). A consequência disso é a tensão do direito positivo que, por um lado, é manifestado por um direito vinculado na ação social e, por outro, ordenado de modo sistêmico.

Estabelece-se a implicação na racionalização da vida, identificada no progresso econômico e no sistema burocrático estatal, tornando-o independente dos fundamentos práticos e morais. Isto impossibilita a participação da esfera intersubjetiva das formas de vida, pois o “sistema jurídico expande-se, isso sim, mediante o anseio de acompanhar um sistema econômico e administrativo que se torna cada vez mais complexo” (HABERMAS, 2012a, p.439). Esta perspectiva implica num sistema fechado do direito positivo, que avança nas ações socioculturais, tornando cada vez mais complexa e regulatória a vida social.

Em sociedades modernas se formam sistemas de ação em que tarefas especializadas da transmissão cultural, da integração social e da educação são elaboradas de modo profissional. Max Weber destacou o significado evolutivo dos sistemas de ação culturais (para a ciência, o direito e a arte) (HABERMAS, 2012b, p.266).

Ao admitir a autonomização dos sistemas de ação social, Habermas está criticando o processo irreversível de realização da racionalização dos direitos simétricos. Esta situação, tendo como característica fundamental o princípio da conservação e da manutenção do sistema,

culmina na colonização do mundo da vida.

Na contramão, o próprio Habermas diz que o processo de descolonização do mundo da vida parte do princípio de que a “inquestionabilidade do mundo da vida, que torna possíveis nossas ações, também depende da segurança que o ator experimenta a partir de solidariedades comprovadas e de competências experimentadas” (HABERMAS, 2012b, p.247). Ou seja, a capacidade argumentativa acerca da esfera do mundo da vida não está em questão, já que é considerada uma categoria simbólica para expressar sua especificidade.

De acordo com Habermas, o uso pragmático universal da razão pelo mundo sistêmico impede as implicações sociais do direito de serem atendidas ou reconstruídas, permitindo a reprodução interna da lógica racionalista de um agir orientado para fins. O direito é desvinculado do contexto de mediação social, pois o fim último não é o entendimento entre as pessoas. Ao admitir a autonomização dos sistemas de ação, por sua vez, o direito e a moral agem apenas do ponto de vista do mundo da vida racionalizado.

Ora, tais instituições de base provocam uma série de inovações no nível de uma evolução, cuja admissibilidade implica o pressuposto de que o mundo da vida já se encontra suficientemente racionalizado e de que o direito e a moral atingiram um correspondente nível de desenvolvimento (HABERMAS, 2012b, p.313).

Neste entendimento possível, o horizonte de compreensão do direito deve buscar uma orientação de recuperação dos pressupostos do mundo da vida que possibilite ampliar o debate comunicativo nas sociedades complexas.

Podemos dizer que a concepção do direito e da moral, orientado pelo mundo da vida social, é uma possibilidade de assumir posições independentes, pois qualquer “novo nível de diferenciação sistêmica necessita obviamente de uma nova base institucional em que a moral e o direito assumem funções pioneiras” (HABERMAS, 2012b, p.280). Possivelmente, o questionamento sobre a racionalização do mundo da vida permite uma reinterpretação da estrutura jurídica e prática, dando ao homem a oportunidade de procurar um direito e uma moral com perspectiva de reconstrução a partir do mundo da vida social. De acordo com Habermas,

Quando tal tendência à separação entre sistema e mundo da vida é transladada para o nível de uma história sistemática das formas de entendimento, torna-se possível descobrir a ironia que se oculta no processo de esclarecimento da história mundial, a saber: a racionalização do mundo da vida intensifica a complexidade do sistema (HABERMAS, 2012b, p.280-281).

sistema. O resgate do ideal de esclarecimento emerge para a complexidade do sistema, tornando a esfera do mundo da vida racionalizada. Neste sentido, o mundo da vida se comporta como um sistema, não dependendo do discurso comunicativo que leva em consideração um saber de fundo com vista ao entendimento social.

Assim, sobre o que foi postulado por Marx, Habermas compreende que tanto uma política liberal quanto um capitalismo levam a humanidade ao exílio. O direito e as esferas sociais são orientados para tradições liberais de desigualdade dos direitos e do individualismo jurídico, uma vez que:

Os direitos resultam de todas as normas de ação reconhecidas socialmente; já o direito se refere somente ao tratamento das transgressões de normas tidas como tão graves que não podem ser reparadas imediatamente nem toleradas sem mais nem menos (HABERMAS, 2012b, p.316).

Habermas se apropria do conceito de alienação de Marx ao afirmar a existência da destruição tradicional das formas de vida. Isto é, a noção de reificação de Lukács se assenta na racionalização do mundo da vida moderno. Assim, os direitos políticos universais são resultados do plano de individualização e não da integração de estruturas sociais.

Since Marx bases his concept of alienation on the destruction of traditional forms life, he cannot distinguish the rationalization of modern lifeworld from the reification of post-traditional ones. Habermas, who rejects Marx´s vision of species being, insists that the pain of individuation, of integrating personality structures and social roles, is not alienation. The communication processes of rationalized lifeworld offer individuals adequate opportunities to from social connections, to create solidarity10(LOVE, 1995, p.56).

Pode-se dizer que o processo de deformação das formas de vida assume a forma de uma comunicação reificada nas sociedades capitalistas. O desafio do sistema para o mundo da vida é promover uma maior acessibilidade de participação que possibilite a solidariedade social. Nas palavras de Habermas:

Enquanto a moral desinstitucionalizada e internalizada liga a regulação de conflitos de ação exclusivamente à ideia do resgate discursivo de pretensões

10“Uma vez que Marx baseia seu conceito de alienação na destruição das formas tradicionais de vida, ele não

consegue distinguir entre a racionalização do mundo moderno da vida e a reificação das formas pós-tradicionais. Habermas, que rejeita a visão de Marx do ser da espécie, insiste que a dor da individuação, de estruturas integrada de personalidade e papéis sociais, não é alienação. Os processos de comunicação do mundo racionalizado oferecem aos indivíduos oportunidades adequadas para, a partir das conexões sociais, promover a solidariedade” (tradução nossa).

de validade, isto é, a procedimentos e pressupostos da argumentação moral, o direito coativo – destituído de conteúdos morais – impõe um caminho de legitimação que possibilita o controle do agir social através de meios (HABERMAS, 2012b, p.326).

De fato, em vez de educar positivamente para a transformação social emancipadora, o agir estratégico não só encobre os processos do direito sem coação moral, como também inverte as relações humanas e as manifestações da vida social.

A perspectiva da emancipação social habermasiana deve ser um procedimento comunicativo e transformador do direito moderno. Se o agir comunicativo comporta o agir estratégico, na relação entre sistema e mundo da vida, a função social do direito pode funcionar como um intercessor entre o normativismo jurídico e as esferas de vida sociais. A construção de uma vontade livre, para que as pessoas sejam educadas intersubjetivamente para reconstrução de uma sociedade autônoma possível, deve estabelecer os processos de cooperação mútua entre sujeitos que colaboram entre si para os efeitos de uma comunicação social do direito legítimo.

Para Habermas, o modelo teórico de comunicação social busca um conceito de liberdade individual que engloba a ideia de liberdade reflexiva. A liberdade social está no centro de uma concepção de justiça que exige dos procedimentos deliberativos e reconstrutivos, justificar as decisões jurídicas mediante a construção de uma formação da vontade pública. Desde modo, o sujeito individual e o coletivo só podem realizar um discurso reflexivo mediante a liberdade social. A circunstância institucional, neste caso, é o discurso comunicativo, agregado ao conceito de liberdade de vida pública, para almejar a concepção de justiça social.

Contudo, Habermas não se opõe a existência de uma liberdade individual, pois as decisões jurídicas e morais são compostas de decisões individuais e coletivas. O modelo de uma liberdade social é decisivo para a construção de uma formação da opinião e da vontade pública, pois a reconstrução das demandas normativas e sociais são processos deliberativos no Estado de direito democrático.