O lugar é muito alegre e capaz de se fazer nele morada estável, se não fosse tão longe do mar. (André João Antonil)436
Figura 8 – Desenho de uma vista parcial de São João del-Rei feito por Johann Moritz Rugendas em 9/6/1824.437
As impressões de Rugendas438 sobre a Vila de São João del-Rei, nos anos iniciais do Brasil Império, revelam um lugar pitoresco, com poucas casas, cortado pelo Córrego do Lenheiro e, na banda direita, pelo Rio das Mortes. Era, no entanto, a sede da Comarca do Rio das Mortes,439 uma das três primeiras existentes na capitania das Minas Gerais, instituída em 1714.440Possuía em 1818, segundo John Luccock, “cerca de 6000 habitantes dos quais apenas um terço [...] de brancos e o restante de negros e mulatos”.441 O quantitativo dessa população estimado por Luccock contrasta com a listada por Eduardo Lara Coelho em sua pesquisa de
436
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil, p. 183. 437
Disponível em: <http://www.acervos.ufsj.edu.br/site/fontes_civeis/galeria/0006.html>. Acesso em: 4 jun. 2012.
438
RUGENDAS, Johann Moritz (1802-1858) foi um desenhista alemão que esteve no Brasil entre 1822 e 1825 retratando povos e seus costumes. Especializou-se na arte do desenho em Munique e, em 1824, visitou São João del-Rei.
439
A comarca do Rio das Mortes, criada em 1714 – depois que São João foi elevada à categoria de Vila em 1713
–, existiu até 8 de abril de 1892, quando foi substituída pela Comarca de São João del-Rei, em decorrência da
reorganização judiciária pela qual passou o Brasil após a Proclamação da República. 440
A comarca estendia-se pelo centro-sul, a sudoeste da capitania compreendendo os termos de São José del-Rei, Jacuí, Baependi, Campanha da Princesa, Barbacena, Queluz, Nossa Senhora de Oliveira, São José do Rio das Mortes e Tamanduá. No início do século XIX, já se configurava como a mais extensa em área habitada e a mais populosa da capitania. Informações obtidas em: <http://www.documenta.ufsj.edu.br>. Acesso em: 20 ago. 2012. 441
que “a cidade de São João em 1821 contava com 31.029 almas, sendo 20.152 de livres e
10.877 escravos, para uma população de 213.617 habitantes em toda a Comarca do Rio das
Mortes”.442
A visão que teve o reverendo Robert Walsh em 1829, cinco anos depois de Rugendas tê-la representado em desenho, foi a de uma vila com “várias ruas íngremes, que seguem pelas ladeiras acima e são cortadas por outras, mais planas, paralelas ao rio. As ruas são pavimentadas com pedras arredondadas e geralmente têm, de cada lado, uma calçada em
plano mais elevado, feita de Lages”.443
O que se viu em São João del-Rei na primeira metade do século XIX pôde ser observado nos arraiais e cidades vizinhas emancipadas no início do século XX. Nas primeiras décadas daquele século, as características de locais sem infraestrutura básica, como água encanada, luz elétrica, ruas calçadas e serviços de transporte coletivo continuavam como antes.
Muitos caminhos foram criados ligando os arraiais e vilas ao longo do século XIX, que tanto
serviram para circulação e escoamento de mercadorias, “normalização das condições de
abastecimento do mercado carioca e da projetada ação integradora do Centro-Sul”.444 Utilizando esses novos caminhos, os viajantes começaram a anotar os seus registros, ressaltando a flora, a fauna e as condições topográficas e de vida das pessoas com seus costumes.
O viajante inglês Lucoock voltava de Vila Rica em direção a São João del-Rei e, ao passar por Alagoa Dourada,445 não deixou de observar:
Depois de avançar por vinte e cinco milhas rumo ao sul, a jornada do dia terminou em Lagoa-Dourada. O morro em que se acha a vila não tem ligação alguma com qualquer outro e, quando visto a distância, dá a impressão de extremamente áspero. [...] Consta com cerca de duzentas casas caiadas, de qualidade vurgar, das quais algumas pequenas e umas poucas nada melhores que simples choças. Possue três igrejas e sete capelas; farta munição, não resta dúvida, para as públicas devoções de cerca de dois mil habitantes. Vivem da produção de minas de ouro, parecendo ter obrado com sucesso maior que muitos de seus vizinhos, pois que em lugar algum, ao norte de São João d‟El-Rei, vi eu tantos sinais de conforto. Todavia o povo, em sua
442
COELHO, Eduardo Lara. Coalhadas e rapaduras: estratégias de inserção social e sociabilidades de músicos negros. 2011. Dissertação (Mestrado em História)-Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, 2011, p. 63-64.
443
WALSH, Robert. Notícias do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1985, p. 74. 444
LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da corte na formação política do Brasil – 1808- 1842. São Paulo: Símbolo, 1979, p. 38. (Coleção Ensaio e Memória, 21).
445
generosidade, dava mostras evidentes de ignorância, frivolidade e indolência, embora não destituído de espírito de curiosidade.446
Enquanto permaneceram em Lagoa Dourada, comentou que “uns poucos músicos pretos vieram ter à nossa estalagem e a execução de um deles no flautim, e de outro à guitarra, não foi nada desprezível; o terceiro fabricara para si um instrumento passável, algo parecido com
uma flauta, de um gomo de „taquara‟”.447
No decurso da cavalgada em direção de São João e São José, do caminho em que estavam, inclinando seu olhar para o Oeste, avistaram a “aldeia da Lage, que fica sobre uma eminência
elevada e aparentemente seca, a cerca de seis milhas à direita”. A impressão que tiveram foi a de um “lugar grande e sem conforto, sem calcáreo, árvores, nem água”.448
Luccock tinha razão, pois, José Augusto de Rezende, escrevendo do local já em pleno século XX – entre os meses de abril e junho de 1920 –, anotou que:
Não sendo Rezende Costa, antiga Lage, logar de ouro a explorar, os primeiros habitantes se entregaram à vida agrícola e pastoril, que, forçosamente, teve de iniciar-se em pontos diversos do districto, reservando o centro para suas reuniões e para o culto religioso, o contrario do que se davam com os logares visinhos, como: Lagôa Dourada, S. José, Prados em cujas sedes cuidavam do ouro e, por isso, esses logares, a principio progrediram mais rapidamente, devido ao acumulo de povo.449
Disse José Lopes Pereira que, pelos séculos XVII e XVIII, os bandeirantes, “à procura de
ouro na Minas Gerais, assinalaram sua passagem em nossa região com as fundações de Prados, Tiradentes e São João del-Rei. Não estacionaram na zona dorense onde verificaram a
inexistência do ouro de aluvião que aflorava em outras partes”.450
A microrregião ficou assim dividida entre aquelas vilas e arraiais onde se minerava o ouro e os que viviam como pontos de passagem, de apoio aos desbravadores empenhados na agricultura e na criação de gado e porcos. Essa perspectiva vai de encontro com a ideia daqueles que afirmam ter sido junto aos caminhos e nas margens dos cursos d‟água, e não somente das minerações, que nasceram as primeiras aglomerações mineiras.451 Esses lugares, no entanto, amargaram um desenvolvimento bastante inferior ao daqueles que tiveram ouro
em fartura para lhes garantir sustento e propriedades.
446
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro, p. 349-350. 447
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro, p. 352. 448
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro, p. 353. 449
REZENDE, José Augusto de. Livro de pállidas reminiscências da antiga Lage, p. 41. 450
PEREIRA, José Lopes. Na terra da figueira encantada, p. 35. 451
Onde houve ouro em abundância, surgiram edifícios e obras de arte, músicos e músicas em quantidade que destacam as três vilas das da região. De certa forma, beneficiaram-se todos os arraiais que estavam no seu entorno e que a elas se ligavam por afinidade administrativa. O povoado da capela de Santo Antônio da Lagoa Dourada, por exemplo, era ligado à freguesia de Prados, que, por sua vez, pertencia a São José del-Rei. Assim, pode-se dizer que, desde o início do povoamento, até avizinhar-se o século XIX, a região possuía duas vilas principais – São João e São José – às quais pertenciam os demais. Se nos atentarmos para a realização das
festas, e mais propriamente da Semana Santa, o que se fazia nos pequenos arraiais “obedecia”
ao que era idealizado pela sede. Não foi por acaso que, ao observarmos a circulação de pessoas e também repertório, notamos os traços dessa relação administrativa e religiosa, que se transpôs para o as práticas musicais abordadas neste trabalho.
Dois momentos se destacam na emancipação dos municípios da microrregião. O primeiro é o do início do século XX e o segundo, poucas décadas depois, pelos idos de 1950-1960. Até então, Prados, São João e Tiradentes eram sede e os demais arraiais agregados às mesmas, exceto Santana do Garambéu, Madre de Deus e Piedade do Rio Grande, que se vinculavam a Andrelândia. A primeira vila a ser emancipada foi a de São José del-Rei em 1860. Ainda no século XIX, foi a vez de São João del-Rei e Prados (1891 e 1892) conquistarem o título de cidade. Somente no século XX, seus arraiais obtiveram autonomia político-administrativa e foram alçados à condição de cidade. Desfeitos os laços administrativos, permaneceram os afetivos, econômicos e culturais. São João del-Rei, cidade maior e mais desenvolvida, assumiu a sua condição de líder, ponto de convergência de todos os municípios vizinhos. Em se tratando da música, as experiências vividas em épocas passadas não só permaneceram, mas também se solidificaram.
Registre-se, nos nomes das cidades, forte presença da igreja católica, com sua toponímia relacionada ao culto santoral (9), bastante superior ao de pessoas da política, lideranças locais e nomes de família (5), de sua paisagem ou recursos minerais (1).452 Foi ao redor dos templos
452
O município de Conceição da Barra foi emancipado com nome de Cassiterita em 1962. Em 1989, foi rebatizado e adquiriu o atual nome. Não raro, ouvimos pessoas se referindo ao município pelo seu nome antigo em detrimento do mais novo. Santana do Garambéu mistura nome de Santa com palavra de origem tupi. De todos os municípios da microrregião – que tende mais para o lado de Barbacena do que propriamente para São João – é o que tem suas origens mais desconhecidas. A referência mais segura é a da construção da Capela de Santana erigida no século XVIII, quando bandeirantes se estabeleceram no lugar em busca de pedras preciosas.
Consta, também, nos arquivos do Museu Cultural do Município, o registro do antigo povoador, um tal “Capitão José Viçoso”. Garambéu é uma palavra de origem tupi, onde seu significado teve aglutinação de duas expressões “Caá” (mato) e “Mbaé” (o que, que coisa). Segundo os tupinólogos, a melhor tradução é “que mato tão
que se desenvolveu a forte religiosidade trazida e implantada pelos portugueses desde as iniciativas desbravadoras no local.
Quadro 3 – Cidades da Microrregião de São João del-Rei.453
Cidade Início do
povoamento
Subordinação Emancipação População em 2010 1 Conceição da Barra de Minas,
Antiga Cassiterita
1725 São João del-Rei 31/12/1963 3.954 2 Coronel Xavier Chaves, Antigo
Mosquito, depois Canoas,
erroneamente grafado como Coroas
1711 Tiradentes 30/12/1962 3.301
3 Dores de Campos, Antigo Povoado do Patusca
1717 Tiradentes 17/12/1938 9.299 4 Lagoa Dourada, Antiga Santo
Antônio da Lagoa Dourada
1715 Tiradentes 6/6/1912 12.256 5 Madre de Deus de Minas, Antiga
Cianita
1753 Andrelândia 12/12/1953 4.904 6 Nazareno – Antiga Nazaré 1850 São João del-Rei 12/12/1953 7.954 7 Piedade do Rio Grande, Antiga
Nossa Senhora da Piedade do Rio Grande
1748 Andrelândia 12/12/1953 4.709
8 Prados, Antigo Arraial de Nossa Senhora da Conceição dos Prados
1704 Tiradentes 24/5/1892 8.391 9 Resende Costa, Antiga Nossa
Senhora da Penha do Arraial da Laje
1749 Tiradentes 2/6/1912 10.913 10 Ritápolis, Antiga Santa Rita do Rio
Abaixo
1713 Tiradentes 30/12/1962 4.925 11 Santa Cruz de Minas, Antigo
Porto Real454
1702/04 Tiradentes 21/12/1995 7.865 12 Santana do Garambéu Sec. XVIII Andrelândia 30/12/1962 2.234 13 São João del-Rei Antigo Arraial
Novo do Rio das Mortes
1704 Vila em 8/12/1713
13/11/1891 84.469 14 São Tiago, Antiga Vila de São José 1750 São João del-Rei 27/12/1948 10.561 15 Tiradentes, (São José del-Rei)
Antigo “Arraial Velho de Santo Antônio” e “Vila de São José do Rio das Mortes”.
1702 Vila em
19/1/1718
7/10/1860 6.961
182.696
abrangente é esse”. Cf. mais informações na página do IBGE na internet. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 25 jun. 2012. 453
Fonte: IBGE. Cf. <www.censo2010.ibge.gov.br>. Acesso em: 25 jun. 2012. Quanto às datas de início do povoamento, é preciso levar em conta que, durante muitos anos, permaneceram poucas casas em torno de uma capela sem experimentar desenvolvimento significativo. Dores de Campos, por exemplo, em 1856 (passados 139 anos do dito início do povoamento), “achava-se em estágio embrionário, pois contava apenas com cinco casas”. Cf. PEREIRA, José Lopes. Na terra da figueira encantada, p. 42.
454
Santa Cruz de Minas é o mais novo e o menor município da microrregião. Era um bairro situado entre Tiradentes e São João, denominado “Porto Real” em virtude do ponto de cobrança de impostos instalado no local. Foi nesse lugar de primeiro povoamento que, desdobrado, originaram-se o Arraial Velho e o Arraial Novo, respectivamente as vilas de São José e de São João.