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Durante o século XIX, o Brasil experimentou uma mudança acentuada na sua população com a vinda de muitos europeus. A partir de 1840, com o casamento de dom Pedro II, a corte foi tomada por artistas italianos. Na década seguinte, a corrida em busca das minas de ouro na Califórnia (EUA) contribuiu para que muitos estrangeiros viessem ao Brasil, já que Bahia e Rio de Janeiro, em especial, eram pontos de passagem obrigatórios das rotas marítimas de então. Segundo Alencastro, “nos anos 1870, metade da população masculina da corte era

estrangeira, vinda principalmente de Portugal”.469

Os anos da década de 1880 experimentaram o reforço acentuado da imigração europeia, especialmente direcionada para São Paulo.470 Apesar de São Paulo ter recebido grande número de imigrantes, muitos se dirigiram também ao interior de Minas Gerais, notadamente para os lugares que já haviam experimentado algum progresso ou se mostravam potenciais núcleos produtores e exportadores de bens de consumo. É o caso do sul de Minas Gerais, de onde saíam produtos para abastecer principalmente a cidade do Rio de Janeiro desde a instalação da corte na cidade. Com o fim da exploração

aurífera em grande escala, “não se perdeu de vista a necessidade de reconstruir as bases de

organização do comércio vigente, bem como suas vinculações com o mercado do Rio de

Janeiro”;471

verificou-se, ao contrário, um fortalecimento da região. Conforme disse Regina Horta Duarte:

A vinda da Corte para o Brasil fez do Rio de Janeiro um polo consumidor. A necessidade de garantir o abastecimento de tão numerosa e recém-chegada população, e dos inúmeros estrangeiros estimulados pela abertura dos portos, levou a economia mineira a posicionar-se como o centro abastecedor de produtos de subsistência para a Corte. Abandonando o ouro como atividade básica, a sociedade mineira assistiu ao incremento de uma economia até então silenciosa. [...] São João del-Rei formou-se, nesses anos, como importante centro comercial, um destacado entreposto da província. Famílias enriquecidas marcaram a constituição, para a cidade, de uma vida altamente elitista, bastante urbanizada, marcada por um significativo refinamento cultural e pelo consumo de produtos que inauguravam hábitos sofisticados.472

469

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In. Luiz Felipe de Alencastro (Org.). História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 34.

470

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império, p. 41, 51 e 57. 471

LENHARO, Alcir. As tropas da moderação, p. 24. 472

DUARTE, Regina Horta. Os sinos, os carros de bois e a locomotiva em São João del-Rei: notas sobre a vida cotidiana em fins do século XIX. Belo Horizonte: UFMG, Varia História, n. 17, mar. 1997, p. 74-75.

Desde o início do século XIX, “o centro das exportações mineiras tinha sede na praça comercial de São João Del Rey, que, juntamente com Barbacena, constituíam os dois polos do

comércio atacadista, servindo de verdadeiros entrepostos regionais”.473

São João, com a decadência da exploração aurífera, não experimentou a estagnação que assolou outras vilas, pois a Comarca do Rio das Mortes transformou-se em produtora de alimentos para a corte.

“Saíam seis ou mais tropas todos os anos levando mercadorias como carne e toucinho, e voltavam carregadas de sal, tecidos, vinhos, ferramentas”. São João del-Rei, no século XVIII,

viveu do comércio.474 Enquanto a cidade notou uma acentuada transformação no seu aspecto

urbano e arquitetônico, viu fortalecer “um movimento cultural e religioso muito intenso”,

completou.475

A intensidade da atividade comercial, substituta da riqueza que se conseguia com o ouro, garantiu ao lugar, com benefícios para toda a vizinhança, a manutenção de festas religiosas suntuosas o bastante para envolver a sociedade são-joanense que não dispensou as boas músicas que se faziam ouvir desde o início do século XVIII. Quando chegaram ao lugar, os estrangeiros encontraram ambiente e condição favoráveis para continuar a participar dessas cerimônias que já conheciam muito bem de seus países de origem.

Contribuiu decididamente para o progresso da região – cessada já há muito a exploração do ouro – a instalação das fábricas de tecidos (1891)476, a construção da estrada de ferro (1878- 1881) e a chegada de imigrantes europeus, com destaque especial para os italianos procedentes de Bolonha e Ferrara, que se localizaram especialmente em São João desde 1886 para se empenharem especialmente na agricultura. “Posteriormente, grande número de sírios fixou-se no Município, dedicando-se de preferência ao comércio”. 477

O país, necessitando de mão de obra qualificada para substituir a escrava, passou a incentivar a utilização de trabalhadores livres europeus. Vieram famílias inteiras de italianos, sírios- libaneses, alemães, espanhóis e japoneses, principalmente. A situação do momento fez com que fosse empregada uma nova relação de trabalho entre patrões e empregados, ou parceiros, algo impraticável durante todo o período de escravidão vigente na Colônia. Adotou-se, para

473

LENHARO, Alcir. As tropas da moderação, p. 89-90. 474

Antônio Gaio Sobrinho, historiador são-joanense em depoimento concedido ao jornalista Maurício Lara. Jornal Estado de Minas, 7/6/2009, p. 32.

475

Aluízio Viegas apud Antônio Gaio Sobrinho, p. 32. 476

A primeira foi a Companhia Têxtil São Joanense. Cf. Informativo da ACI del-Rei – Associação Comercial e Industrial de São João del-Rei, n. 172, mar. 2001.

477

muitos desses, o regime de empreitada, que possibilitava o acerto prévio de preços dos produtos a serem colhidos. Estima-se que somente em São Paulo, entre 1876 e 1920, tenham chegado 1.243.633 imigrantes italianos.478

A vinda de estrangeiros no segundo quartel do século XIX foi decisiva para o progresso que se pretendia para a região naquela época. A melhoria das estradas e a construção de linha férrea ligando São João ao Rio de Janeiro se transformaram em acontecimento de grande valor. A estação de trem e seu entorno, que ocupa uma área de 60.000 m2, é o resultado da expansão pela qual passou a cidade no fim do século XIX. No dia 28 de agosto de 1881, estando presente D. Pedro II, foi inaugurada a Estrada de Ferro Oeste de Minas, que contava então com as estações de Sítio (hoje Antônio Carlos), Barroso, São José e São João del-Rei. A expansão e a qualificação do conjunto arquitetônico marcaram o segundo momento de expansão da cidade, no final do século XIX, “quando o município sentia os efeitos da Revolução Industrial”,479 realçando a importância histórica da área e do entorno iniciado desde princípios do século XVIII. Para completar esse surto desenvolvimentista,

em seis de julho de 1900, realiza-se a inauguração da luz elétrica na cidade. [...] Abrilhantaram as solenidades as bandas Orquestra Lira Sanjoanense, Banda do Asilo de São Francisco de Assis (1920), Orquestra Ribeiro Bastos e a Banda do 28º Batalhão, sob o entusiasmo de grande massa popular.480

Benzer Belgeler