Ainda não existia a banda de música no séc. XVIII e nem o contexto permitia essas liberdades artísticas. A banda surge no século XIX e depois ela passa até a substituir, em alguns lugares, os grupamentos musicais nas igrejas, pela própria dificuldade da manutenção em si, a banda de música passa a ser isto (Aluízio José Viegas).455
Houve a entrada de muitos e variados instrumentos musicais no Brasil durante o período colonial trazidos por portugueses e padres das congregações que aportaram no Brasil. Se observarmos o trabalho que o pintor Ataíde deixou no teto da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, notamos a sua rica variedade. Nas mãos dos putti, o artista retratou instrumentos de sopro, percussão, cordas friccionadas e partituras largamente usadas na capital durante o século XVIII.
Em Minas Gerais, no princípio do século XVIII – como em outras partes do Brasil –, também já se fazia uso do termo banda. Está registrado em livro do Senado da Câmara de São João del-Rei de 1717 que “a banda de Antônio do Carmo esperou no alto do Bonfim a chegada do Senhor de Assumar à Vila de São João d‟el Rei”.456 Em Vila Rica, no dia 24 de maio do ano
de 1733, na realização da festa do Triunfo Eucarístico, “com toda a população de Ouro Preto e arredores presente”, houve “uma grande apoteose de sinos tocando, bandas musicais, fogos
e cânticos em homenagem ao Divino Sacramento”.457
Para a festa, que se desenrolou durante vários dias em virtude da inauguração da nova Matriz do Pilar, as ruas encheram-se de gente para a trasladação do Santíssimo da capela do Rosário
para a sede da igreja reformada. “O longo cortejo constituiu uma colorida trama coreográfica”,458
para o qual se reuniram pequenos conjuntos de instrumentistas de “negros
tocando charamelas, caixa de guerra, pífanos, trombetas”, até um “exímio figurante alemão
rompendo com sonoras vozes de um clarim o silêncio dos ares”.459Na procissão, “viam-se em trajes de gala as inúmeras irmandades locais com seus estandartes e santos padroeiros,
precedidas de conjuntos musicais”, abrilhantando os festejos.
455 Idem. 456
Registro do Senado da Câmara, folhas 44 V do livro 2°, de 1717. A edificação das primeiras igrejas de São João del-Rei são dessa época, início do século XVIII. A coincidência de datas não são mero acaso, pois onde havia uma igreja, havia festa.
457
MACHADO, Simão Ferreira. O Triunfo Eucarístico: exemplar da cristandade lusitana. Lisboa: Companhia de Jesus, 1734, p. 41.
458
ÁVILA, Affonso. Iniciação ao barroco mineiro. São Paulo: Nobel, 1984, p. 8. 459
CAMPOS, Adalgisa Arantes. O Triunfo Eucarístico: Hierarquias e Universalidades. Revista Barroco, Belo Horizonte, n. 15, 1992, p. 461-467.
À crescente solicitação de música para festas civis ou religiosas responderam os músicos que precisaram se organizar em grupos vistos com frequência em comemorações coletivas quando se fazia necessária a utilização de instrumentos músicos460 para dar brilho e destaque a eventos. Essas demandas abalizaram em definitivo o nascimento dessas corporações musicais civis e suas assistências em cerimônias públicas desde meados do século XIX. Curt Lange foi um dos primeiros estudiosos a reconhecer o valor desses conjuntos na década de 1940. Escreveu ele:
As Bandas representam no Brasil, desde o começo do segundo Império, uma soberba instituição. A Banda, especialmente a do interior, foi, e ainda o é em muitos lugares, alma expansiva do povo aos domingos, à hora da retreta; era o comentário ou anúncio prévio dos grandes acontecimentos festivos e dos atos políticos e revolucionários. A função de amálgama social, de educação musical prática para os componentes e incentivo para os ouvintes tem sido notável. Se o Brasil possui hoje uma musicalidade a toda prova – falamos do povo – e milhares de músicos capazes, deve isso às suas bandas, civis e militares.461
Em se tratando de Minas Gerais, onde proliferaram inúmeras bandas de música, recorremos a uma frase atribuída a Heitor Villa-Lobos: “se queres encontrar um bom músico procure-o nas
bandas de Minas”.462
Rezende, em suas memórias, lembrou que a banda do regimento com suas tocatas para o povo alegre da cidade da segunda década do século XX cumpria sua função social:
Quando, aos domingos e quintas-feiras, a Banda do Vinte e Oito Batalhão, depois Onze Regimento, fazia retreta defronte do antigo quartel, sede hoje do grupo Maria Tereza, atraindo a fina flor da juventude são-joanense, sem faltarem melindrosas e almofadinhas, só não comparecendo meninas de famílias em extremo recatadas, que, vivendo nas estufas dos lares, só saíam com seus pais ou com quem suas vezes fizesse.463
Há quem diga que “a primeira banda de música a tocar em Minas Gerais foi a de Mariana, isto em 1774”.464
Na vizinha Vila Rica, Francisco Gomes da Rocha (1754-1808), músico militar na função de timbaleiro – também fagotista e cantor –, escreveu “marchas” festivas “para os
460
Nome que se dava a grupos de instrumentistas. 461
LANGE, Francisco Curt. A música em Minas Gerais: um informe preliminar, p. 99-179. (a citação encontra- se entre as páginas 176-177)
462
Cf. Jornal O Globo / Projetos de Marketing, p. 7. Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1998. 463
LARA RESENDE, Antônio. Memórias: da serra do Caraça à Serra do Véu da Noiva. v. 2. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1972, p. 47.
464
Palavras do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, em discurso nos jardins do Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, durante a solenidade de doação de instrumentos musicais pelo Governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Estado da Cultura, para bandas de música civis de Minas Gerais, no dia 1º/7/2009.
felizes dias dos anos de Vossa Alteza Real”,465
em fins do século XVIII, demonstrando, dessa forma, que já se compunha música para instrumentos no Brasil antes mesmo de 1808. Fato raro, pois não nos restou música instrumental não-religiosa registrada em papel, sendo desse período, em sua quase totalidade, as obras reservadas para coro a capella ou com orquestra. Algumas partes musicais ou notícias sobre repertório específico são insuficientes e não formam um corpus capaz de nos dar certeza do que compunham e tocavam os instrumentistas na virada do século XVIII para o XIX no Brasil.
Desde então, destacou-se em São João, São José e Prados uma música de qualidade e abundante, capaz de responder às necessidades dos fiéis em suas festas. Surgiram novas igrejas em pontos estratégicos para tornar as vias públicas que ligavam umas às outras palco para as procissões e apreciação da música que se praticava. Devemos considerar que:
A fé católica em Minas [desde esses tempos mais distantes] não se resumiu aos interiores e aos frontispícios das igrejas imponentes que, muitas vezes situadas em cima dos morros, obrigavam os fieis a uma penitência para atingi-las; periodicamente, a fé em longas e impressionantes procissões.466
Criado o cenário para as encenações da Paixão de Cristo, faltavam ainda, nos primórdios do século XVIII, o repertório e o conjunto musical específico para conferir pompa e incrementar o fervor dos fiéis do lugar nessa festa maior da Igreja Católica. A riqueza do ouro e a religião imposta pelos colonizadores fizeram da região um ponto privilegiado, rica em edifícios, esculturas, pinturas e música que, juntas, proporcionaram as melhores condições para a teatralização das cenas da paixão, que chamam a atenção desde meados do século.
Tanto é que nomes de alguns autores continuam presentes e mantêm-se como referência da boa música que se fazia na capitania: Manoel Dias de Oliveira, de São José del-Rei; José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, da Vila do Príncipe, atual Serro; Jerônimo de Sousa Lobo e Inácio Parreira Neves, este, possivelmente de Vila Rica; Marcos dos Passos Pereira, Antônio dos Santos Cunha e Lourenço José Fernandes Braziel, de São João del-Rei, todos nascidos no século XVIII e falecidos no início do século XIX. Não compuseram marchas fúnebres visto que a música instrumental em grupo ainda não era uma realidade da Colônia,
465
LEONI, Aldo Luiz in Banda Euterpe Cachoeirense: acervo de documentos musicais – música sacra manuscrito. Organização Mary Ângela Biason. Coordenação técnica Waldeci Luciano Ferreira. Ouro Preto: Museu da Inconfidência, 2012, p. 26.
466
BARBOSA, Elmer C. Corrêa. O ciclo do ouro e o tempo e a música do barroco católico. Rio de Janeiro: MEC FUNARTE: XEROX, 1979, p. 42.
mas nos deixaram os melhores exemplos da música de igreja que se ouvia naquela época, especialmente missas, Te Deum, responsórios, ladainhas, motetos ou outros, invariavelmente para a formação coro, solista vocal e reduzido grupo de instrumentistas, quase sempre de cordas.
Com a atuação de brasileiros, enquanto surgiam as criações dos nascidos na Colônia, muito do que se ouvia era música portuguesa trazida pelos reinóis e padres da Companhia de Jesus ou outras congregações. Poucas são as músicas instrumentais. Assim sendo, deles não conhecemos uma peça sequer de caráter fúnebre. Nenhuma surpresa, pois, da forma como já apresentado, a marcha fúnebre quando trazida para o Brasil, muitos deles já se encontravam idosos, senão, falecidos. Enquanto morriam esses senhores, nascia os são-joanenses Ireno Baptista Lopes (1828),467 Martiniano Ribeiro Bastos (1834) e João Francisco da Matta (1848), o pradense Estevão José da Costa (1843) e os tiradentinos Francisco de Paula Vilela (1845?) e Antônio de Pádua Alves Falcão (1848), homens dedicados não só à música de igreja, mas à de banda, notabilizando-se como autores de primorosos exemplos de marcha fúnebre da região. Resume-se que, entre 1858 e 1892,468 foi o período em que se formaram as primeiras bandas de música da microrregião. Deve-se, pois, ao desenvolvimento das vilas e sua independência os motivos para a criação desses conjuntos habilitados. Esse momento coincide com o fim da escravidão e da imigração em território brasileiro. E em São João del-Rei, a população ficou maior com a chegada dos italianos que trouxeram consigo seus costumes e principalmente sua música. Fato é que, até a década de 1970, apesar do grande número de compositores da terra, era de italianos e franceses parte significativa do repertório tocado e cantado nas igrejas.
467
O próprio Ireno, em muitos trabalhos que realizou na Lira Sanjoanense, como copista, grafou seu nome como
IRENEO, segundo me disse Aluízio Viegas, maestro da orquestra. “Eu sempre coloquei Ireneo Baptista Lopes,
pois assim ele assinou muitas cópias que fez para a Lira Sanjonanense. O nome foi comum em sua família, pois tinha um irmão também registrado como Ireneo Pio Baptista Lopes. Acredito que a grafia correta seria: Irineu,
mas como ele assinava Ireneo (muitos músicos antigos que conheci aqui pronunciavam: Irêneo”. Aluízio José
Viegas, por e-mail em 12/3/2013. 468
Época em que as vilas se emanciparam, isto é, tornaram-se cidades: Tiradentes em 1860, Prados em 1891 e São João del-Rei em 1892.