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A disciplina, considerada uma modalidade de poder que envolve um conjunto de técnicas e instrumentos, pode ficar a cargo das instituições totais que dela se servem para um determinado objetivo. No caso dos seminários, como o de Nossa Senhora da Boa Morte, tal objetivo é a educação, cuja potência: “ (...) na sucessão dos dias (...) e dos anos pode regular para o homem o tempo da vigília e do sono, da atividade e do repouso (...) o tempo da oração

346FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 149. 347FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 149.

(...)”.348

Como foi visto, os seminários procuram controlar, através de seus regulamentos, a vida dos seminaristas, em seus mínimos detalhes, visando formar indivíduos submissos, prontos a obedecer a qualquer desejo da autoridade. E, tal obediência implica a renúncia de si mesmo, da própria vontade, em nome de Deus e da Igreja, cuja palavra o seminarista é obrigado a reproduzir.

A obediência e a renúncia são reforçadas pelo processo educacional dos seminários, no interior da concepção destas instituições como baluartes, perante a devassidão do mundo; e também da idealização do futuro sacerdote como homem de Deus, e que não pertence a esse mesmo mundo. Nesse compasso, pode se tomar como exemplo a explicação, de D. Viçoso, dos principais artigos do Regulamento do Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte.

Esse texto teórico-doutrinário evidencia o seminário como local privilegiado para se saber se tem ou não a vocação para o estado eclesiástico, considerado divino, e onde os seminaristas devem estar cientes de suas obrigações; despir-se do espírito do mundo e revestir-se do de Jesus Cristo, tornando-se: “(...) dignos cooperadores de Deus na grande obra da santificação (...).”349 Desta maneira, o eclesiástico deve refletir sobre seu estado, evitando desviar de suas funções sagradas, pois: “(...) aquilo que em um secular seria culpa leve, e até as vezes (...) permitida, vem a ser pecado considerável em um eclesiástico (...).” 350Na condição de futuro pastor de almas, incumbido da sagrada missão de viver e pregar o Evangelho, o seminarista é exortado por D. Viçoso, através do referido texto, a fugir dos bens, das honras e dos prazeres mundanos, pois a felicidade somente existe em outro mundo.

Esse discurso que destaca o seminário como “(...) oásis de 'perfeição' e felicidade no

348 Embora tal citação se refira ao sistema penitenciário, pela abordagem acerca da vida interna do Seminário de

Mariana, também é adequada a este tipo de instituição. LUCAS, Charles. De la réforme des prisons, 1838, pp. 123-124. Apud. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 199.

349Explicação motivada dos principais artigos do Regulamento do Seminário Eclesiástico de Mariana. Parágrafo

1. Pasta de D. Antônio Ferreira Viçoso. Armário 3. Gaveta 2. Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana.

350Explicação motivada dos principais artigos do Regulamento do Seminário Eclesiástico de Mariana. Parágrafo

meio (...) da podridão do 'mundo' (...);”351 e o sacerdote, como homem que não pertence a esse mesmo mundo, não deixa de expressar uma verdade imposta pela autoridade da Igreja Católica, a qual busca inculcar no seminarista, sua concepção de mundo, apresentado como: repleto de pecados e perigos. Tal concepção pode trazer conseqüências negativas, especificamente para a vida dos ex-seminaristas. De acordo com GOFFMAN (1987, pp.68- 69), os indivíduos que saíram de prisões ou de hospitais psiquiátricos, adquiriram como internados um baixo status e, em decorrência disto, carregam o estigma, isto é, trazem a marca do tipo de instituição onde estiveram confinados. Porém, no que tange à presente pesquisa, deve-se ter cautela, ao se aplicar o conceito de estigma, no sentido empregado por Goffman, ou seja, utilizado em relação a um atributo depreciativo352. No caso do seminarista, principalmente se for religioso, que sai do seminário após longos anos, e cai no meio de um mundo novo, ao qual terá de se adaptar, o estigma é semelhante ao do ex-presidiário ou ex- interno em sanatório de doentes mentais. Não obstante o ingresso nos seminários possuir, em geral, um caráter voluntário, o ex-seminarista pode se tornar estigmatizado.

Conforme FERNANDES (1953, p.107), o ex-seminarista, educado em um ambiente um tanto artificial, leva um choque ao se deparar com as coisas mundanas, as quais vislumbrava como inimigas da alma. E, o conhecimento rápido e quase instantâneo de coisas que no seminário ignorava, provoca desorientação. A princípio, se sente envergonhado, deslocado e ridículo.

De acordo com TAGLIAVINI (1990, p.387) os indivíduos, assim que deixam o seminário, sentem dificuldades para encarar o mundo. Enfrentam problemas de relacionamento, por causa de bloqueios na época de formação; de sobrevivência; em suma, de

351TOMELIN, Victor. Pedagogia do silêncio. O tamanho do medo. Campinas: Papirus, 1986, p. 64.

352Pode-se mencionar três tipos de estigma: as deformidades físicas; as culpas de caráter individual, como

distúrbio mental, prisão, vício, entre outras; e as marcas de raça, nação e religião, que podem ser hereditários e contaminar todos os membros de uma família. Em todos esses exemplos, um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social do dia-a-dia possui um traço que pode chamar a atenção e afastar aqueles que ele encontra. Ele possui uma característica diferente da prevista, ou seja, é um estigmatizado. GOFFMAN, Erwin. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 14.

falta de preparo para o mundo. E, como não se bastasse, perdem suas referências e sentem-se confusos, perdidos. Esses jovens que, de repente caem no mundo, após terem permanecido por um tempo considerável no seminário, tendem, segundo FERNANDES (1953, pp.106-107) ao fracasso, sentimento que perseguiu Tomelin, o qual passou um bom tempo de sua vida no interior de diversos seminários. Segundo TOMELIN (1986, p.89), em sua referida obra, a qual trata de sua experiência como seminarista, relata que, mesmo após ter deixado o seminário, este o acompanhava o tempo todo. Além disso, trazia consigo a marca de ex- seminarista: “(...) quieto, tímido, falava baixinho e estava sempre preocupado com alguma coisa; os trajes e o modo geral de ser não deixavam mentir (...).”353 O autor ainda se refere à sua dificuldade de relacionamento na vida familiar, profissional e social, e como evitava aparecer nos atos sociais, pois estes ameaçavam desvelar seu passado. Observa-se, então, uma tentativa de encobrimento:

(...) Quando o estigma de um indivíduo se instaura nele durante sua estadia numa instituição, e quando a instituição conserva sobre ele uma influência desacreditadora durante algum tempo após a sua saída, pode-se esperar o surgimento de um ciclo específico de encobrimento. Por exemplo, num hospital de doentes mentais descobriu-se que os pacientes que reingressavam na comunidade freqüentemente planejavam encobrir-se até um certo ponto (...).”354

Deste modo, Tomelin havia se tornado estigmatizado, depois de passar por um processo autoritário de educação, principalmente no que se refere ao silêncio imposto. Assim, “(...) o autoritarismo se impõe pela negação da palavra e se autoperpetua através dos silenciados, incapazes de assumi-la (...) bem como explicitar as condições para o rompimento de sua perpetuação (...).”355

A partir de agora, serão abordados possíveis reflexos que o Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte, enquanto instituição total, deixou em alguns de seus ex-alunos que ali estudaram no recorte temporal proposto.

353TOMELIN, Victor. Pedagogia do silêncio. O tamanho do medo. Campinas: Papirus, 1986, p. 136.

354GOFFMAN, Erwin. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar,

1982, p. 105.