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A história utilizada para avaliarmos a evolução da aprendizagem da oralidade e da escrita de Pedro é A Guardadora de Gansos, pelas razões seguintes: ele reconta a história na segunda etapa, mas na quarta se recusa a recontar e reelabora o texto escrito.

Essa criança assumiu, no grupo de reconto coletivos, na primeira etapa, o papel de questionar a atividade do grupo. Os pares se apoiavam nele como sujeito suposto saber; ao menor gesto negativo dele, os colegas entravam em conflito na ação de narrar e recorriam a ele para referendar suas ideias acerca dos fatos que estavam sendo narrados. Ele não falava, a não ser para discordar e fazer o grupo retomar a coerência na história a ser narrada, como se pode observar nos turnos seguintes:

218: Pedro: não tinha lobo mau... 222: Pedro: não tem lobo mau... 237: Pedro: não tem Bela e Fera... 244: Pedro:... o príncipe... 253: Pedro: não tem Bela e Fera...

284: Pedro: comeu? ela não comeu... comeu não... 286: Pedro: comeu não...

297: Pedro: você já foi... 299: Pedro: você já foi... 321: Pedro: não tem lobo mau... 330: Pedro: tem...

334: Pedro: tem não... (Etapa 1 - 23/06/2006).

Considerando que essa criança não assumiu o papel de narrador na primeira etapa, a produção da segunda é surpreendente em quantidade e qualidade de linguagem. Além disso, Pedro encontra-se apenas com um colega que não faz parte da pesquisa e, portanto, reconta sozinho essa história com abundância e riqueza de detalhes, e sem haver necessidade de nossa mediação, a não ser para dar início à atividade de reconto.

Pedro inicia seu texto oral pela Complicação, reconstituindo toda a trama, conservando a tensão dramática que caracteriza essa história. A troca de identidade é narrada

com traços de autoria: “... aí a outra pediu pra ficar com::: a roupa da outra... aí a noiva falsa

194 .... aí ela falou assim... é só uma mulher que vive como criada... (...) aí o rei ele tava... ele

tava... querendo que a verdadeira noiva falasse pra ele o que era...”

Na Resolução, traz detalhes muito importantes no contexto geral da história, como, por exemplo, o fato de a princesa não poder contar o segredo ao rei e o fato de ela haver falado para si mesma em voz alta e o rei haver escutado e revelado ao príncipe. Há coerência interna, em quase toda a sua narrativa, além de obedecer a sequência temporal e causal dos fatos.

A Situação Final também é contemplada. O fato de a criança antecipar o casamento, a punição da falsa noiva, parece coerente com a versão do seu texto oralizado,

senão vejamos: “... aí ela não... aí ela disse que ela não podia falar... ela disse que vai lá pra

um lugar... aí fala... aí o rei lá de fora ouviu tudo... aí ele chama o príncipe e falou toda a verdade, aí ela PEgou e se casou com o príncipe aí...” Essa era a urgência, a solução do grande conflito, que a verdadeira princesa retomasse seu lugar de honra junto ao príncipe. Parece que, nesse conto, a antecipação desse fato não compromete o enredo, embora o narrador conclua seu texto com uma punição e não com um final feliz, característica dos Contos de Fadas.

A Coda é referida com um comentário externo à trama: “aí termina a história...”

Tabela 36 - Etapa 2 - A Guardadora de Gansos - 01/12/2008 ORIENTAÇÃO

COMPLICAÇÃO Pedro: é assim... a... noiva disse que ela vai caindo no cavalo com... com outra mulher... aí ela tava com sede... aí tinha um rio aí ela pegou aí a outra mulher... ela pediu pra outra pegar o copo de ouro dela aí ela assim... desça você mesmo e beba água... aí depois a outra pegou o copo de ouro dela e deu... aí depois ela avistou outro rio que ela ainda tava com sede aí ela esquecendo a grosseria da outra... ela pegou e falou de novo... desça e pegue o meu copo de ouro... ela você tem dois pés e duas mãos... aí ela pegou desceu e bebeu... aí o copo de lenço dela caiu aí a outra ela achou bom... aí a outra pediu pra ficar com::: a roupa da outra... aí a noiva falsa foi lá e aí a outra foi e falou assim... não... aí o rei falou assim... quem é aquela que está alí? .... aí ela falou assim... é só uma mulher que vive como criada... aí ela pegou... aí ela pegou... o rei e ele pegou e colocou ela pra trabalhar com um cara que ele guardava os gansos... aí pegou... a princesa falsa falou assim.... que mate um falante... aí mataram um falante e penduraram a cabeça do falante... aí ... aí a outra falou assim que o chapéu... aí ele pegou... aí o chapéu foi rápido e o cara não conseguiu pegar o chapéu... aí... aí o rei ele tava... ele tava... querendo que a verdadeira noiva falasse pra ele o que era...

RESOLUÇÃO Pedro:... aí ela não... aí ela disse que ela não podia falar ela disse que vai lá pra um lugar... aí fala... aí o rei lá de fora ouviu tudo... aí ele chama o príncipe e falou toda a verdade...

SITUAÇÃO FINAL Pedro: aí ela PEgou e se casou com o príncipe aí... aí a mulher falou assim... que::: a// outra mulher fosse pendurada e morre... e morresse aí mais depois ela fez acontecer com uma mulher...

CODA Pedro: (...) aí termina a história...

195 Na terceira etapa, Pedro não parece disposto a falar e reduz sua produção a dois aspectos narrativos, a Resolução, sob nossa mediação, com uma narrativa parcial, e a Coda. Vejamos:

Tabela 37 - Etapa 3 - A Guardadora de Gansos - 16/11/2009 ORIENTAÇÃO

COMPLICAÇÃO

RESOLUÇÃO Pedro: a MUlher mandou cortar a cabeça do falante porque ele viu tudo e ia contar....ela ficou no relógio chorando falou tudo e o rei ouviu.... de//pois ele fez uma charada pra mulher...

P:como é que termina a história?.... Pedro: ele cortando a cabeça dela... P: e o quê que acontece com a princesa? Pedro: ela se casa...

SITUAÇÃO FINAL

CODA ...e pronto... (...)

Fonte: Produzida pela autora com base no reconto da criança pesquisada

Na quarta etapa, a criança não se dispôs recontar A Guardadora de Gansos, mas escreveu e leu o texto da história.

Desse modo, a figura a seguir sintetiza a produção oral dessa criança, no que se refere a esse reconto, em relação aos aspectos narrativos e produção de linguagem oral:

Gráfico 8 - Evolução da estrutura narrativa oral - CASO 8 - S5E1 - PEDRO

Fonte: Produzido pela autora

Algumas crianças, dentre elas essa, por exemplo, disseram que não gostavam mais desse tipo de histórias e que preferiam histórias de dragão, de Homem-Aranha, de super- heróis. E perguntavam por que a pesquisadora não lia histórias diferentes e, em vez do “de

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novo, de novo”, solicitando que recontássemos a história mais uma vez, como o faziam no período da creche, reclamavam: “de novo!”. A fase de encanto e magia cedeu lugar a

aventuras, com novos heróis, com seus efeitos especiais. Assim, era necessário explicar para elas o motivo de repetir a mesma história para que elas aceitassem realizar a atividade.

Na primeira etapa, Pedro não fala durante a atividade de reconto, a não ser para orientar o grupo sobre a coerência da história. Desde a segunda etapa, narra as histórias com encadeamento causal, inclusive a mais complexa em trama e desfecho, com riqueza de detalhes expressa a escrita alfabética.

Um dos fatores intervenientes na aprendizagem são as características do próprio indivíduo, uma vez que ele é o sujeito da aprendizagem, que internaliza, reformula os conhecimentos, modificando-os e sendo modificado pela cultura (VIGOTSKI, 1998b).

Essa criança difere das demais em um aspecto muito peculiar. Ela desenvolveu uma atitude de autonomia diante dos adultos que se expressava pela não subserviência. As demais crianças, embora não se sentissem tão confortáveis, às vezes, em realizar as tarefas solicitadas, cediam sem reclamar. A atitude de Pedro era oposta. Antes de iniciarmos as atividades, ele esclarecia para nós o que estava disposto a realizar do que ele já sabia que iríamos lhe solicitar. Assim, temos narrativas orais e não temos o texto escrito da mesma seção; como temos também textos escritos e não temos o texto oralizado correspondente. Desde a primeira etapa, essa característica de líder está presente em Pedro, como relatamos no início do caso.

Desse modo, a oscilação em suas produções orais não pode ser utilizada para deduzir sua evolução no discurso oral, uma vez que a redução ou a ausência deste é resultado de decisões conscientes do sujeito.