Na entrevista individual da terceira etapa, Lia disse que não sabia ler, entretanto, quando questionada sobre o conceito de ler, se contradiz, e relata sua experiência de sala de aula e o quanto está feliz com sua aprendizagem:
Lia:é:: aprenDER a gente quer muito aprender só que não consegue por causa que os me-ni-nos... enquanto que as crianças querem aprender a ler os outros ficam atrapalhando... conversando igual a L eu e a F quer aprender a ler e ela fica conversando... a gente quer aprender a ler mas só que a L não deixa e é chato isso... aí quando a gente tá conversando com/ pra ela não aprender a ler... ela vai lá e fala pra tia... aí a gente também acha ruim quando a gente quer fazer uma coisa ela não coisar.... não ajudar a gente ensinar por que ela já sa-be... já sabe só falta ela coisar mais um pouquinho aí eu também já sei ler só falta eu ter... eu terminar de ler por que eu já sei ler tudo... aí::: to lendo ainda as plaquinhas que eu vejo na rua né... e é muito bom ler...
Sobre material escrito disponível no ambiente doméstico, disse que há revistinhas (da Turma da Mônica) do irmão e revistas grandes. E informou que somente a mãe sabe ler, porque o pai nunca estudou.
Sobre a aprendizagem da escrita, disse que sabe escrever “mais ou menos”: P: Como é mais ou menos?
Lia: É::: es-cre-ver mais ou menos... às vezes eu escrevo certo e às vezes errado... no ditado eu faço bem certinho...
P: Como foi que você aprendeu?
Lia: Com meu pai... por que quando ele chega do trabalho ele me ensina... ele pega o caderno vai lá bota as palaVRInhas e manda eu LER... depois manda eu es-cre- ver...
P: Mas você não falou que ele não sabe ler? como é que ele lhe ensina? Lia: Me ensinando...
187 Quando questionada sobre o que aprendeu na escola, responde: “Aprendi a LER, a
se AQUETAR e também.... éh::: aprender a escrever e ler...” (ENTREVISTA Individual em
23/11/2009).
Na quarta etapa, Lia diz que sabe ler “mais ou menos...”
P: (...) porque que você acha que você sabe ler mais ou menos?
Lia: porque várias... porque várias... é::: coisas eu leio e coisas.. .algumas coisas eu não consigo ler...
P: e o que é ler, S2?
Lia: ler é:::: aprender pra quando ficar gran:::de...quando ficar grande trabalhar e fazer o que é pra fazer...
P: explica melhor pra eu entender... Lia: ((risos)) eu não sei como é ler... P: não? como foi que você aprendeu?
Lia: aprendi com a minha tia... com a minha mãe e com o meu pai... P: hum rum...e para que serve ler?
Lia: pra ajudar os outros... P: como?
Lia: como assim... minha avó não sabe ler eu estou ajudando ela a aprender...
Quando lhe perguntamos que tipo de material lê ou tem para ler, respondeu:
“hum::: várias coisas...só não leio palavra que tem w...k...w...k...x”. E, em seguida, após
esclarecimento, afirmou que
Lia: leio livro... caderno... tarefinha que eu levo pra casa.. .eu não... minha mãe não me ajuda não... quem sozinha é eu... aí quando ela che:::ga ela o:::lha... se tá tudo certo... aí tá tudo certo... aí eu levo... aí eu trago pro colégio com a tia aí pron::to... P: é:::...quais são os livros que você lê?
Lia: Chapeuzinho Vermelho...é...(O Camundongo da Cidade)...Iara...
Nessa escola, segundo Lia, elas participam de feiras de livros, há prática de empréstimo livros na biblioteca da escola e, além disso, tem revistas em casa, mas se contradiz, dizendo que lê revistas sobre bebês porque é o único material que tem para ler ou que depois de ler tudo gostaria de ler mais; então, como não tem mais opções, fazia leitura de revistas sobre bebês. E narra uma história que disse conseguir ler:
Lia: o menino... o cachorro... tem dois livros... esses livros que eu falei... o menino tem duas estórias é:::... a da... a do menino que queria um cachorro e a do cachorro que queria um menino... aí... ( ) o cachorro... bateu na porta do menino... aí o menino abriu... e o cachorrinho e ficaram felizes para sempre... aí essa estória eu consigo ler...
Sobre a aprendizagem da linguagem escrita, diz que sabe escrever e que aprendeu com a tia materna: “escrevendo... um pegava na minha mã::o... escrevia... aí eu fui
aprendendo... aprendendo... aprendendo... aí eu consegui...” e que gosta de escrever, mas que não gosta de copiar e cita uma situação envolvendo a professora: “(Ela) botou um bocado de
parágrafo pra gente coisar o texto todinho... apagar o texto todinho pra fazer tudo de novo...aí
188 De acordo com Lia, desde a terceira etapa ela sabe ler e escrever. Durante o processo, desenvolveu o interesse pelos livros e gosto pela leitura. As interações com o material escrito em casa e na escola e a mediação dos adultos parecem ter favorecido sua apropriação da linguagem oral e escrita.
A seguir, analisamos a evolução da apropriação do sistema alfabético, mediante testes de escrita referentes à segunda e à terceira etapas da pesquisa.
Na segunda etapa, sua escrita é pré-silábica. Na terceira, sua escrita é silábica- alfabética. A grafia da palavra dissílaba, entretanto, não se mantém, quando ela a escreve no corpo da frase. O conflito cognitivo que Lia está enfrentando incide sobre o eixo qualitativo, o problema da relação grafema-fonema, ou seja, “a identidade de som não garante a identidade de letras, nem a identidade de letras a identidade som.” (FERREIRO, 1990, p. 27).
Tabela 34 - Evolução da escrita nas etapas 2 e 3 Figura 28 - Evolução da escrita na etapa 2 - 2008
Fonte: Produzida pela autora Teste:
Rei/bola/castelo/bruxaria
A princesa se casou com o príncipe.
Figura 29 - Evolução da escrita na etapa 3 - 2009
Fonte: Produzida pela autora
Fonte: Produzida pela autora
Na quarta etapa, escreve textos com duas laudas, como o fez ao escrever a história de Chapeuzinho Vermelho e de uma lauda, A Bela e a Fera. Elegemos essa história para avaliá-la por apresentar maior complexidade, tanto na trama em si e também por ser menos
189 utilizada no cotidiano escolar e, sobretudo, porque Lia registrou grande evolução na estrutura narrativa na terceira e quarta etapas.
Lia conservou a noção de gênero: era um lindo dia... que caracteriza o texto narrativo. Situando o tempo e as personagens principais, a viagem que o pai da princesa devia fazer para resolver problemas em seus negócios.
Na Complicação, registra a chegada da personagem ao castelo encantado, com todo o suspense característico dessa narrativa, seguido do ápice do conflito, - a Fera surpreende seu hospede, subtraindo uma flor do seu jardim e lhe impõe o castigo de entregar a filha para ela.
Na Resolução, a narradora registra o beijo de amor e a transformação da Fera em príncipe, porém, torna esses eventos incoerentes, pelo fato de afirmar que a Bela encontrou a Fera morta. Assim, na resolução, não há encadeamento lógico causal, mas contradição pela morte da personagem.
Consideramos que a criança revelou alta evolução, tanto em suas narrativas orais quanto em sua narrativa escrita, sobretudo, pela diferença entre oralizar e escrever, o que já mencionamos no caso 5, com Daiany.
Desse modo, Lia apontou evolução contínua na oralidade e na escrita. Considerando também que essa é uma das narrativas mais complexa entre as três utilizadas nesse trabalho, Lia expressou alta evolução ao narrar os fatos em sequência temporal e causal e, progressivamente, ampliar sua produção em quantidade e qualidade pela contemplação de todos os aspectos narrativos na última produção oral e na última produção escrita, contemplar, com riqueza de detalhes, dois aspectos do conto de A Bela e a Fera, como podemos constatar na tabela a seguir.
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Figura 30 - Etapa 4 - A Bela e a Fera - 18/10/2010
Fonte: Produzida pela autora
O texto de Lia traz a compreensão de gênero narrativo pelo início canônico, que caracteriza, especialmente, não só o gênero narrativo, mas, dentre eles, os contos de fadas. Há também a sequência começo, meio e fim, porém, a personagem responsável pelo conflito é introduzida sem tensão e de modo difuso. Desse maneira, a Complicação é narrada sutilmente, sendo necessárias a cooperação interpretativa e o sentido compartilhado do texto pelo leitor para que seu texto seja compreendido.
Na Resolução, Lia entra em contradição e a Fera, apesar de haver sido encontrada morta pela Bela, é ressuscitada com o beijo de amor e se transforma em um príncipe. Desse modo, não há sequencialidade causal em sua narrativa escrita, mas quebra de elo causal, o que descaracteriza sua produção como texto narrativo.
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Tabela 35 - Etapa 3 - A Bela e a Fera - 18/10/2010
ORIENTAÇÃO Era um lindo dia e três filha é uma linda menina É um homem que tava avendo
Uma festa è o homem resebel uma Carta desendo seus negoso estava Muito ruim e ele presisava Viaja para e cueda do trabalho Dele
COMPLICAÇÃO e encontrol um lindo Castelo e batel na porta e E neiuma pessoa aparecel A porta para ele e ele entrol E encontrol um meza cheia de Coeza. E uma cma arumada E deitol na cama e dronio E no oltro dia ele encontro Um lindo e se lembrou da Filha dele e pegol a flor Para sua filha e Fera vil Ele. Pegando a flor você Vai taze a sua filha e o Pai foi para casa e contol As suas filha
RESOLUÇÃO e a Bela
Eu vol chegando lá encontrol A fera mota pelos casadore E a bela segurol na mão Dele e del um beijo na mão
E a fera se tranfomol num lindo prinsepo
SITUAÇÃO FINAL CODA
Fonte: Produzida pela autora com base no reconto da criança pesquisada Gráfico 7 - Evolução da estrutura narrativa escrita - CASO 7 - S2E2 - LIA
192 Com amparo nesse texto, concluímos também que Lia já compreendeu a lógica do sistema alfabético e agora está enfrentando desafios quanto à ortografia. É uma criança produtora de textos. Escreveu em duas laudas completas a história de Chapeuzinho Vermelho. Ressaltamos que somente na quarta etapa seus textos são convencionais. Percebemos, entretanto, que desde a segunda etapa, ela estava curiosa e interessada em compreender o sistema de escrita alfabético.
Desse modo, a escrita acompanhou o desenvolvimento da oralidade, porque a criança utiliza com muita competência as duas modalidades de linguagem para se expressar e narrar os acontecimentos em textos formais, o que, sem dúvida, o faz também em relação ao cotidiano.
No EF, na escola que Lia frequentava, o trabalho com o texto literário era sistemático, em função de programas de acesso a leitura e programas de alfabetização (PAIC). As crianças tinham acesso aos livros na escola e em casa, pelo empréstimo de livros que realizavam na biblioteca da escola.
Salientamos que o ingresso da criança no EF com o acesso sistemático aos livros, trabalho com a leitura e a escrita, a fez avançar significativamente na oralidade e na escrita.