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Tormentosa a análise das origens históricas da ação coletiva, vez que não há consenso doutrinário a respeito do tema.
Recorrentemente a origem do processo coletivo moderno é atribuída ao direito romano, especificamente a uma categoria de ação popular destinada a proteção do interesse ou do patrimônio públicos. Esta, contudo, apresentava uma conformação diferente da ação popular moderna, pois sua natureza era penal.
Para outros, como Antonio Gidi258, os antecedentes históricos remontam ao direito inglês por meio da evolução das courts of chancery em razão de permitirem o litisconsórcio com base na existência de questões comuns. Pontua o autor citado259:
No século XVII, as courts of chancery perceberam que a obediência cega a tal norma em alguns casos produzia insuperáveis inconvenientes e, em outros, era simplesmente injusta. Nos casos em que o número de pessoas envolvidas era muito grande, por exemplo, a intervenção de todos os interessados dificultava o andamento do processo. Ademais, a menos que todas as pessoas interessadas interviessem voluntariamente no processo, nenhuma delas poderia obter proteção judicial. Assim, uma parte relutante em comparecer em juízo, fora da jurisdição do tribunal ou simplesmente indisponível no momento da decisão, poderia impedir que os demais interessados obtivessem a prestação jurisdicional.
Para evitar essas e outras inconveniências, as chancery courts passaram a admitir exceções à regra geral e criaram o bill of peace e passaram a permitir as ações representativas (representative actions), nas quais um ou alguns dos membros do grupo pudessem representar em juízo o interesse de todos os demais similarmente situados. Para que a ação representativa fosse cabível, todavia, era preciso que o grupo envolvido fosse tão numeroso, que tornasse o litisconsórcio de todos impossível ou impraticável, que todos tivessem um interesse comum e que o autor adequadamente representasse os interesses dos membros ausentes.
Aluisio Gonçalves de Castro Mendes, contudo, diverge dessa concepção e afirma que a origem das ações coletivas inglesas remonta ao século XII. Cita o caso ocorrido perante a
258
GIDI, Antonio. A class action como instrumento de tutela coletiva dos direitos: as ações coletivas em uma perspectiva comparada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 41-66.
Corte de Canterbury em que o pároco Martin ajuizou ação em face dos paroquianos e chamou apenas algumas pessoas a juízo para responderem por todos.260
Outros autores que defendem a impossibilidade de se falar na origem remota do processo coletivo261 como concebido modernamente, mesmo sendo possível encontrar no direito romano espécies de ações populares ou precisar o século XII como marco do surgimento das ações coletivas. Todos convergem, entretanto, em reconhecer que as ações coletivas são variantes do "Bill of peace"262 do direito inglês, e procuram demonstrar que a experiência inglesa deu origem a "ação de classe" ou "class action", difundida no sistema norte- americano, especialmente a partir de 1938, com a Federal Rule of Civil Procedure 23263.
No presente trabalho, contudo, tomar-se-á como marco do surgimento do processo coletivo moderno a experiência inglesa, no sistema do common law. Por meio da evolução das courts
of chancery, desde o século XVII, os ingleses admitiram o bill of peace, romperam com o
entendimento de que todos os sujeitos interessados devem participar do processo e passaram a admitir a existência de representantes de grupos que atuassem em nome próprio na defesa do direito de todos os representados.264 Esta, segundo corrente doutrinária majoritária, é a origem das ações coletivas americanas (class action), que tiveram enorme difusão a partir de 1938 com a Rule 23 das Federal Rules os Civil Procedure e suas modificações posteriores, especialmente em 1966, quando se admitiu que um ou mais membros de uma classe promovam ação em defesa dos interesses de todos os seus membros, desde que seja inviável o litisconsórcio dos interessados e que questões de fato ou de direito sejam comuns a todo o grupo. Necessário, ainda, para a admissão da ação, que as pretensões e defesas sejam de classe e os representantes tenham condições de defender os interesses comuns.
No Brasil a ação popular é o gérmen do processo coletivo e teve sua primeira previsão normativa na Constituição de 1934. Posteriormente, apesar de muita resistência e algumas tentativas de por fim a ação popular, sobreveio a Lei 4.717/65 e suas modificações.
260 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 49.
261
ALMEIDA, Gregório Assagra. Direito processual coletivo brasileiro: um novo ramo do direito processual. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 37-45.
262 Op. cit., p. 29.
263 COTTARELLI, Stefano Bertuzzi Gianluca. Class action: le nouve opportunità a tutela del consumatore dal
30 giugno 2008. Napoli: Simone, 2008, p.15.
264
ZAVASCKI, Teori Albino. Processo coletivo: tutela de direitos coletivos e tutela coletiva de direitos. 2. ed. rev. atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 31-32.
Posteriormente se pode citar a Lei 6.938/81 que, ao dispor sobre a política nacional do meio ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, conferiu legitimidade ao Ministério Público da União e dos Estados para propor ação de responsabilidade civis e criminal por danos causados ao meio ambiente.
Os marcos do processo coletivo moderno, contudo, são a Lei 7.347/85, Lei da Ação Civil Pública, e, posteriormente, a Constituição Federal de 1988 que permitiu a defesa dos direitos difusos e coletivos de forma universal e sem qualquer limitação em relação ao objeto do processo265. A Lei 8.078/90, Código de Defesa do Consumidor, criou um microssistema de processos coletivos e permitiu a integração com a legislação processual civis e com a Lei 7.347/90 (Lei da Ação Civil), inclusive no que diz respeito ao inquérito civil, desde que não sejam contrariadas suas disposições.266