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Como bem têm mostrado os últimos estudos sobre a temática (KRAMER; NUNES e CORSINO, 2011; CORREA, 2011; NEVES; GOUVÊA E CASTANEIRA, 2011; CAMPOS; BHERING; ESPOSITO, GIMENES; ABUCHAIM; VALLE E UNBEHAUM, 2011), inegavelmente a ampliação do Ensino Fundamental e a antecipação do ingresso da criança de 6 anos neste segmento gerou uma série de efeitos, tanto na educação infantil como na forma de pensar esta etapa do ensino e suas práticas. Estes estudos mostram que os efeitos têm sido prejudiciais, uma vez que o processo de ampliação está se fazendo sem considerar a realidade da escola e sem prepará-la para as mudanças.

O que se percebe é que principalmente aqueles que se dedicam a pesquisar a Educação Infantil se posicionam com mais veemência sobre as modificações advindas com a implantação do EFNA. Isto acontece em função da crença de que a Educação Infantil, que historicamente tem dificuldades em consolidar uma identidade própria por ser entendida, equivocadamente, como uma etapa de preparação para o Ensino Fundamental, no sentido de treino, seria ainda mais prejudicada por essa situação que tende a reforçar a ideia de treino e preparação para a etapa seguinte (CORREA, 2007; CORREA, 2011).

Outro argumento pauta-se na compreensão de que o EF, que já tem tantas dificuldades para cumprir suas funções mais básicas de ensinar a ler e a escrever, não teria as condições necessárias para promover o desenvolvimento das crianças de 6 anos (CORREA, 2007). Além disso, alguns pesquisadores vêem o EFN anos como uma forma de legalizar uma prática que já vinha ocorrendo, a de colocar crianças de 6 anos no EF e não na EI, já que no primeiro caso elas representam mais recursos e, no segundo, ônus (CORREA, 2007; ARELARO, 2005; 2011).

A maior preocupação daqueles que se ocupam da educação infantil é o risco de que o ingresso mais cedo da criança no EFN anos possa “configurar-se em uma antecipação das práticas utilizadas no ensino, fato que pode aumentar a exclusão e antecipar o fracasso escolar” (AMARAL, 2009, p.4) .

Correa (2007) aponta vários desafios para o EF que sinalizam uma incerteza de como essas crianças de seis anos seriam recebidas nessa etapa do ensino. A pesquisadora pontua a dinâmica na qual estão estruturados os tempos de aula, 4 horas de aulas expositiva, e o espaço físico, salas apertadas com carteiras enfileiradas, chamando atenção para o fato de que manter a mesma organização no EFNA inviabiliza, por exemplo, a brincadeira e o atendimento mais individualizado, tão necessários à faixa etária.

Em pesquisa realizada por Correa e Hayashi (2009), com o intuito de investigar se o direito da criança à brincadeira estava sendo garantido com a implantação do EFNA, não só como expressão, mas como meio mais profícuo de aprendizagem, observou-se que aquele que era um receio está se tornando um fato, pois o que se verificou no estudo foi que este direito da criança estava sendo negligenciado na escola estudada.

Correa e Cambi (2010), ao discutirem resultados de uma pesquisa que tinha como objetivo avaliar a situação da pré-escola com a antecipação do ensino obrigatório, tecem considerações as quais sinalizam que o processo de implantação EFNA poderia ser implantado com mais vagar para não prejudicar as crianças da faixa etária. O estudo aponta uma desvantagem para a pré-escola com o EFNA, principalmente ao que se refere ao currículo. O que acontece é que a entrada precoce das crianças no primeiro ano do Ensino Fundamental faz com os professores da educação infantil antecipem a alfabetização com anseio de prepará-las para a próxima etapa, sem considerar as características de desenvolvimento dessa faixa etária.

Amaral (2009), ao fazer pesquisa com crianças que estavam passando pela transição do EF de Oito para Nove anos, conclui apresentando restrições a essa política e, principalmente, à forma como estava sendo implantada no Estado do Paraná, de forma desrespeitosa aos direitos das crianças e até às determinações legais, uma vez que crianças de 5 anos estavam sendo matriculadas no EFNA.

Santos e Vieira (2006), ao pesquisarem a situação do Estado de Minas Gerais que, desde 1994, possui uma política de antecipação do ingresso da criança no EF, manifestam preocupação pontuando que é preciso analisar os efeitos do EFNA a curto, médio e longo prazo, sobretudo observando as consequências para a educação infantil, visto que as políticas de investimento no EF tendem a desorganizar e fragilizar a oferta na educação infantil.

Gorni (2007), após realizar pesquisa sobre como está sendo implantado o EFNA, entrevistando professores e dirigentes, apresentou preocupações também em relação à maneira com que está sendo feita esta transição, sem uma formação adequada para os professores e sem considerar outras questões tão básicas para o bom funcionamento do EF.

Fach (2009) também discute o EFNA, fazendo uma interface com o direito à educação. A autora, assim como todos os outros autores, debate que a política de implantação em si não seria nociva, pelo contrário, poderia representar um avanço para a educação brasileira, mas a implantação sem discussão e sem os devidos cuidados poderia culminar em mais política que impacta os sistemas de ensino sem trazer benefícios reais, só prejuízos, inclusive em relação ao direito de todos a terem acesso e permanência em um ensino de qualidade.

A nossa posição não é diferente das expostas acima. Não temos argumentos e nem justificativas para nos opormos de antemão à ampliação do ensino, mas também compartilhamos da preocupação com a forma como está sendo feita e, principalmente, ao fato da ampliação estar sendo feita em detrimento de direitos já adquiridos pela sociedade e pelas crianças.

Benzer Belgeler