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A literatura padrão de dumping em geral considera apenas razões econômicas ou baseadas na eficiência para a proibição de dumping. Entretanto, razões baseadas na própria eficiência podem reforçar o coro contra as medidas antidumping, ainda que, em alguns casos, de forma duvidosa. Como exemplo, um Comitê do Senado dos EUA chamou o dumping de “pernicioso”, e as cortes americanas têm caracterizado dumping como uma prática injusta de

comércio em situações pontuais151. Entretanto, o aumento global em ações antidumping pode, então, refletir a crescente objeção doméstica à injustiça das importações estrangeiras a baixos preços. Embora lembrando que noções de justiça podem oferecer justificativas diferentes.

Justiça é um conceito complexo152. Bhagwati caracteriza a terminologia da justiça na legislação antidumping como “inerentemente vaga”153 e relembra que ela “reflete o humor psicológico de uma nação perdendo sua hegemonia na economia global”. A injustiça percebida no dumping não predatório pode resultar dos impactos danosos que as importações com preços baixos causam na indústria doméstica e nos trabalhadores.

Hutton e Trebilcock examinam a justiça distributiva e comunitária como justificativa para leis antidumping154. Leis antidumping devem ser justificadas com base em justiça distributiva se seu objetivo for aumentar o bem-estar dos membros menos avantajados da sociedade155. O grupo dos menos avantajados deve incluir trabalhadores sem casa própria, sem formação e com baixos salários. As leis antidumping devem ser justificadas com base em justiça comunitária se elas minimizam os efeitos danosos na importação em comunidades estabelecidas e suas redes de relacionamento social e familiar156.

Importante também salientar que, apesar das questões técnicas relativas aos preços com dumping, muitas medidas antidumping tiveram como cerne inicial a negação de acesso equivalente ao mercado doméstico do Estado exportador. Esse tipo de conduta não merece prosperar, uma vez que qualquer política de liberação ou restrição de mercado, sob a égide do GATT, deve ser pendente de negociações mútuas e não medidas de defesa comercial.

Contudo, tanto teórica ou empiricamente, as leis antidumping não podem ser sustentadas nestas razões não econômicas e técnicas. Embora exista o argumento de que não haveria razão principiológica que distigua o dano causado por um dumping não predatório e aquele causado por uma importação com preços baixos sem características de dumping, argumentos não econômicos falham em justificar a proibição contra o dumping. Além disso, autoridades parecem ignorar tais

151 Bingham and Tayor div. Va. Industries, Inc. VS United States, 815 F.2d 1482, 1485 9Fed. Cir. 1987). Veja

também Matsushita Eletric Industrial Co. VS United States 823 F.2d 505, 509 (Fed. Cir. 1987).

152

HUDEC, R. E. Mirror Mirror on the Wall: The Concept of Fairness in United States Foreign Trade Policy, in “Proceedings of the Canadian Council on International Law”.

153 BHAGWATI, Jagdish. Protectionism (Cambridge MA: MIT Press, 1988) p. 50.

154 HUTTON and TREBILCOCK. Op. Cit. p. 124. A discussão ali gira em torno de se as leis antidumping seriam a

ferramenta apropriada para justificar tais conceitos (de justiça distributiva e comunitária). De acordo com os autores, comparadas às ações antidumping, ações salvaguardas e políticas de assistência doméstica de ajuste são vias mais adequadas para lidar com tais impactos. Isto é melhor discutido ao longo do cap. 10 da obra.

155 RAWLS, John. A theory of Justice (Cambridge MA: Belknap Press, 1971). 156

bases quando da imposição de direitos antidumping, como já se constatou em alguns estudos empíricos157.

Uma diferente linha de justificativa não econômica para as leis antidumping (e de defesa comercial de maneira geral), foi desenvolvida por Skyes numa análise de “escolha pública/política” destas leis158. Ele defende que ao invés de tentar imputar uma lógica econômica a elas (leis antidumping) ou interpretá-las, aplicá-las ou refiná-las a formas economicamente racionais, é mais interessante e convincente vê-las como parte de um grande e complexo pacto político entre as maiores nações comerciantes. Segundo ele, nesse sistema, no sentido de facilitar maiores concessões de liberalização, no que diz respeito a medidas alfandegárias, como tarifas e restrições quantitativas, os Estados, por acordo, reservaram a si mesmos regimes unilaterais de autoexclusão contra a contingência dos impactos da competição na importação (particularmente em setores que provam ser politicamente instáveis). Na falta destas autoexclusões ou de válvulas de escape, os governos têm sido mais relutantes em assumir os riscos políticos das iniciativas de liberalização comercial.

Os atuais regimes antidumping podem buscar evitar a discriminação internacional de preços, a precificação internacional predatória, e o dumping intermitente. Entretanto, apenas a precificação predatória, segundo alguns doutrinadores como Trebilcock e Bagwati, daria origem a uma análise econômica legítima para a proibição de dumping, pois, quando o dumping é apenas discriminação internacional de preços, o mercado de exportação se beneficia. Já o dumping intermitente pode vir a ocorrer apenas raramente, e seus efeitos líquidos de bem-estar são ambíguos e de difícil auferição159.

Bases não econômicas para as leis antidumping, como as que dizem respeito à justiça distributiva ou impactos comunitários de importações a baixos preços, são melhores relacionadas a regimes de salvaguardas ou a programas assistenciais de ajustes domésticos, do que efetivamente de defesa comercial. Há ainda uma possível alegação defendendo que a discrimação de preços não deveria ser regulada de forma internacional, mas apenas pelas legislações internas antitruste, o que se comprova pelo movimento nesse sentido acontecendo internamente em blocos regionais, como na UE e em acordo bilaterias (como o entre Chile e Canadá).

157 LINDSEY BRINK: The US Antidumping Law: Rhetoric versus Reality (2000) 34 Journal of World Trade. 158

SKYES, Alan. The economics of injury in antidumping and countervailing duty cases (1996) 16 International Review of Law and Economics.

159 HOCKMAN B. M. and LEIDY M.P. Dumping, Antidumping and Emergency Protection (1989) 23 Journal of the

Contudo, há que se aceitar que a prática de dumping, seja com base em qual característica, pode efetivamente prejudicar mercados domésticos com indústrias nascentes, que não conseguiriam suportar muitos períodos de competição a preços artificialmente baixos, especialmente predatórios, ou, ainda, intermitentes. O parâmetro da discriminação de preços serviria apenas como base de comparação para a averiguação inicial dos indícios dessas duas práticas.

De toda forma, o que preconiza a OMC e consubstancia o GATT e o ADD é o fiel cumprimento das regras internacionais, especialmente no que tange aos procedimentos de investigação, para que se evitem arbitrariedades “neo-protencionistas”, para a preservação do regime multilateral de comércio internacional, que também se atenha e preserve os princípios concorrenciais.