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Muito confundida com o conceito estrito de dumping, a precificação predatória seria uma segunda caracterização do dumping, que enseja a aplicação de direitos antidumping, mas que não necessariamente acontecerá sempre que houver o dumping. Ela consiste na imposição de preços abaixo do custo, com vistas a intimidar e/ou eliminar concorrentes num esforço de, no futuro, poder relocoar um preço maior para o produto. Isso aconteceria de forma artificial ou distorcida, ao contrário do que aconteceria com o preço, caso ele viesse a adquirir determinado patamar no curso normal de mercado.

As legislações antitruste certamente proíbem a precificação predatória, que se caracteriza quando um vendedor se utilizada de preços predatórios (“predador”) para prejudicar a competição conduzindo outros vendedores do mercado e adquirindo poder de mercado. Uma vez que o vendedor predador ganha poder de mercado, ele restringe suas vendas e ganha lucros de monopólio. Entretanto, e ainda com base no mesmo princípio, a legislaçãoa antidumping não necessariamente proíbe esta prática, caso a precificação predatória esteja ocorrendo em ambos os mercados, sem que haja a diferenciação dos preços.

De todo modo, a precificação predatória é improvável de ocorrer com frequência e por longos períodos de tempo (o que prejudicaria financeiramente também o praticante), tornando-a inviável e irracional, a não ser que certas condições estruturais muito favoráveis estejam presentes. Além disso, mesmo se o “predador” for bem sucedido ao retirar seus concorrentes do mercado, ele pode enfrentar concorrência com uma nova onda de concorrentes, impedindo assim a recuperação dos prejuízos incorridos na fase em que os preços estiveram artificialmente baixos.

Além disso, as alegações de precificação predatória também são de difícil aferição: Concorrentes não satisfeitos podem automaticamente assumir que há práticas predatórias quando o preço de um concorrente é menor que seus custos, não levando em consideração a

possibilidade de que o alegado custo predatório é bem abaixo de seu próprio custo (destes concorrentes não satisfeitos) e mais do que coberto por seu preço145.

Os ganhos da precificação predatória são ainda mais incertos no cenário internacional. Para que um predador consiga um monopólio em seu mercado de exportação, deve retirar do mercado de exportação não apenas concorrentes do mercado doméstico, mas também outros competidores estrangeiros de todas as partes do globo. Exportadores estrangeiros concorrem entre si tão vigorosamente quanto o fariam em relação aos concorrentes domésticos no mercado de exportação ou até de forma mais vigorosa. Além disso, a chance de um produtor atingir um monopólio global é remota146.

Mesmo que uma verdadeira precificação predatória internacional possa ocorrer de forma rara, a sua ocorrência acaba por prejudicar o mercado do Estado importador, especialmente em mercados não tão desenvolvidos, com competidores domésticos ainda incipientes. Em termos de eficácia, nessas situações, as medidas antidumping poderiam ser justificadas sob a alegação de proteção frente à precificação predatória. Na prática, essa situação é de difícil auferição, como foi comprovado ao se analisar 30 casos de 1984 a 1989 nos quais o Canadá impôs medidas antiduming147. Atualmente, é mais utilizada a interpretação de que medidas antidumping são impostas quando “os custos totais alocados” no mercado doméstico do exportador excedem os preços praticados no mercado do Estado importador, mas não necessariamente de forma predatória.

Ademais, mesmo a precificação abaixo dos custos marginais realizada pelo exportador não necessariamente reflete uma intenção predatória subjacente. Quando o exportador toma suas decisões de produção, ele estima que o preço de sua produção será eventualmente percebido pelo mercado de exportação. Desde que o preço estimado do mercado de exportação exceda seu custo marginal, ele vai produzir mais produtos para vendas no mercado de exportação. Em alguns casos, a precificação abaixo do custo marginal pode até promover a competição. Dependendo do produto, os vendedores podem ser atraídos por uma precificação abaixo do custo marginal pra competir e dividir mercado.

145 AREEDA, P. e TURNER, D.F., Predatory Pricing and Related Practices Under Section 2 of the Sherman Act

(1975) 88 Havard Law Review 697, p. 698.

146

BARCELÓ, J. Antidumping Laws as Barriers to Trade – The United States and the International Antidumping

Code (1972) Cornell Law Review 491 pp. 501-3

147 HUTTON, S. and TRABILCOCK, M. J., An empirical Study of the Application of Canadian Antidumping Laws:

Além das questões eminentemente de preço, consumidores são afetados por questões pscicológicas, como já demonstrado pela Economia Comportamental. Como evidência disso, sabe-se que os consumidores podem pagar mais por “produtos com experiência” em sua segunda compra ou seguintes, do que o fariam em sua primeira compra. Assim, para induzir consumidores a testar seus produtos pela primeira vez, como estratégia de entrada no novo mercado, podem os vendedores inicialmente precificar seus produtos abaixo do custo marginal. Essa precificação abaixo do preço marginal pela “experiência” ou “aprendizagem com prática” dos produtos é típica para vendedores expandindo em novos mercados e não pode ser vista como intuito predatório.

Ainda, mais considerações econômicas são importantes de serem mencionadas, como situações nas quais os exportadores, vivenciando recessões em seus mercados domésticos, poderiam exportar tais recessões aos seus mercados de exportação através de produtos com o preço abaixo do custo, e, assim, medidas antidumping seriam seriam também eficazes para como política anticíclica e de competitividade em escala global.