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A tarefa de proteger a saúde da população deve ser exercida em conjunto pelos entes componentes da federação brasileira: União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Esse esforço conjunto encontra-se disciplinado principalmente na Constituição de 1988 em diversos dispositivos. Conforme já visto, é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cuidar da saúde e assistência públicas (CF/88, art. 23, II), cabendo aos três primeiros a incumbência de legislar concorrentemente sobre proteção e defesa da saúde (CF/88, art. 24, XII), ficando para os Municípios o encargo de, com a cooperação técnica e financeira da União e dos Estados, a prestação de serviços de atendimento à saúde da população (CF/88, art. 30, VII).

Registre-se que o respeito a essas disposições, precipuamente no que atine à aplicação correta dos recursos destinados às ações e serviços de saúde, é elevado a um patamar imprescindível, integrando o núcleo imutável da Carta Magna. Depreende-se isso,

v.g., do artigo 34, inciso VII, alínea ‘e’, e do artigo 35, inciso III, ambos da CF, os quais determinam que constitui hipótese de intervenção federal ou estadual, conforme o caso, a não aplicação do mínimo exigido nas ações e serviços públicos de saúde.

Mais à frente, o artigo 167, inciso IV, excepciona a destinação de recursos para ações e serviços públicos de saúde da regra de não vinculação da receita de impostos. Até porque o artigo 198, §2º da CF/88, determina que recursos mínimos serão aplicados, anualmente, pelos entes federativos nas ações e serviços públicos de saúde, conforme percentuais a serem estabelecidos em lei complementar. O Projeto de Lei Complementar nº 01/2003, destina-se a regulamentar esse dispositivo, mas até este momento ainda está em tramitação. Contudo, já há Resolução do Conselho Nacional de Saúde disciplinando a matéria. Trata-se da Resolução n. 322/2003, que já vem sendo utilizada, a despeito da não aprovação da Lei Complementar, e traz em seu bojo as matérias que deveriam ter sido reguladas pela lei complementar.

Outrossim, a saúde constitui apenas uma das áreas de atuação da seguridade social. Esta se constitui num conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos não somente à saúde, mas também à previdência e à assistência social (CF/88, art. 194, caput).

Por derradeiro, insta trazer à baila alguns dados estatísticos em termos orçamentários. Em 2011, conforme a Lei Orçamentária Anual – Lei 12.381/11, o orçamento da União ficou no montante de R$ 2.073.390.152.400,00 (dois trilhões, setenta e três bilhões, trezentos e noventa milhões, cento e cinquenta e dois mil e quatrocentos reais), dos quais ficaram reservados ao Orçamento da Seguridade Social (o qual engloba saúde, previdência e assistência social) R$ 475.967.715.602,00 (quatrocentos e setenta e cinco bilhões, novecentos e sessenta e sete milhões, setecentos e quinze mil e seiscentos e dois reais), ou seja, aproximadamente 22% do orçamento. Constava no texto do projeto de lei orçamentária anual de 2011 um gasto especificamente para a saúde de R$ 68,5 bilhões.42

Já para 2012, conforme o Projeto da Lei Orçamentária Anual, estima-se que a receita da União fique no montante de R$ 2.225.103.838.471,00 (dois trilhões, duzentos e vinte e cinco bilhões, cento e três milhões, oitocentos e trinta e oito mil, quatrocentos e setenta e um reais). Desses, há previsão de R$ 588,7 bilhões a serem destinados ao Orçamento da Seguridade Social. Além disso, discricionariamente serão destinados mais R$ 2,5 bilhões somente para saúde. O montante total efetivamente destinado à saúde em 2012, conforme o PLOA, será R$ 79,5 bilhões43, ou seja, apenas 3,57% do orçamento geral. “Os dados apresentados sugerem que o financiamento do SUS pode estar aquém do necessário e também que o desempenho não tem sido ótimo com a utilização dos recursos disponíveis.”44

Em outras palavras, estima-se que o orçamento geral da União aumente quase 7% de 2011 para 2012. O aumento do gasto com a seguridade social, em tese, aumentará aproximadamente 8%, e o especificamente gasto com a saúde aumentará pouco mais de 8,5%. Ficando, porém, ainda muito aquém do necessário e do esperado pela população.

Segundo o Portal da Transparência do Governo Federal, o Ministério da Saúde teve, até o momento, um gasto da monta de R$ 15.284.309,29, no ano de 2011, decorrente do cumprimento de sentenças judiciais.45 No que atine especificamente aos recursos retirados do

42 Orçamento Federal ao Alcance de Todos. Sítio do Ministério do Planejamento do Brasil. Disponível em: <http://www.planejamento.gov.br/secretarias/upload/Arquivos/noticias/sof/orc_fed_alcance_todos.pdf> Acesso em: 22 out. 2011

43 Sítio eletrônico do Ministério do Planejamento do Brasil. Disponível em: <http://www.planejamento.gov.br/secretarias/upload/Arquivos/sof/ploa2012/110831_orc_fed_alc_todos.pdf> Acesso em: 22 out. 2011

44 FERRAZ, Octávio Luiz Motta; VIEIRA, Fabíola Sulpino. Direito à Saúde, Recursos Escassos e Equidade: Os Riscos da Interpretação Judicial Dominante. In: DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 52, nº1, 2009, p.230

45 Sítio eletrônico do Portal da Transparência do Governo Federal. Disponível em:

Fundo Nacional de Saúde, de onde partiu a maior parte dos recursos, percebe-se que a maioria dos favorecidos é constituída de pessoas jurídicas (fundações, associações, prefeituras etc.), e não apenas de pessoas físicas, como se poderia pensar num primeiro momento.46

Por fim, é bom lembrar que quando comparado o Brasil a outros países, até mais desenvolvidos, por vezes depara-se com valores menores que os aplicados aqui, o que leva a crer que o problema esteja não somente no volume de dinheiro aplicado, mas também em uma aplicação ineficaz. “Em relação aos demais países da América Latina, os dados sugerem que o Brasil pode estar aplicando seus recursos com menos eficiência.”47

3.3 Importância do Sistema Único de Saúde para a efetivação do