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1.2 Aile ĠĢletmelerinin Genel Sorunları

1.2.6 Yönetim Devri Sorunu

Vale enfatizar, que as mudanças responsáveis por imprimir uma imagem de progresso à cidade, demoraram a transgredir os hábitos provincianos da capital do estado. Durante todo o processo de transformações urbanas, sociais, até as renovações das artes e da arquitetura, Natal conviveu segundo Araújo (1995), com situações conflitantes, a de província, cidade colonial, bombardeada por ideais e ações modernizantes e pelo choque entre o passado e o futuro, entre a tradição e o progresso. Mesmo assim, acredita-se que a chegada dos primeiros elementos da modernidade criou, acima de tudo, um suporte intelectual e um clima sensível ou, no mínimo favorável ao modernismo.

Antes mesmo de a modernidade chegar ao cenário arquitetônico local, no âmbito das artes, por volta de 1925, após a participação da sociedade intelectual e artística de São Paulo na Semana de Arte Moderna de 22, os valores modernistas que se tornaram estandartes com aquele movimento cultural já podiam ser apreciados em Natal através do trabalho de alguns artistas plásticos e escritores potiguares que formavam a minoria intelectual de Natal.

A movimentação que se dá, na aproximação dos anos cinqüenta, ocorre num momento em que algo de novo se verifica também no âmbito das artes plásticas na capital potiguar. É que, tal como acontecera há quase trinta anos na paulicéia, dois eventos com a marca polêmica, são realizados na perspectiva de uma adiada modernidade. Provocando intensa repercussão, ocorreu uma mostra de artes plásticas, a ‘Primeira Exposição de Desenho e Pintura’ de Newton Navarro, um jovem e irrequieto pintor que vinha de uma temporada de estudos em Recife e que, literalmente, escandalizou a cidade (desenho de 48/ janeiro de 49), logo seguida do ‘II Salão de Arte Moderna do estado’, reunindo, em 1950, trabalhos do mesmo Navarro, agora em companhia de outros dois jovens e talentosos artistas: Ivan Rodrigues e Dorian Gray Caldas. Embora tais exposições possam hoje ser consideradas anacrônicas, os quadros nelas expostos, não causaram espanto menor que os da Malfatti e dos outros intrépidos artistas que em 22 participaram da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo (GURGEL, 2001, p. 78).

Enquanto as artes seguiam o caminho de aprimoramento das tendências modernistas dos anos 20 até meados do século, os veículos de comunicação pouco divulgavam sobre as novidades arquitetônicas difundidas pelo resto país e até mesmo em Natal. Os jornais mencionavam notícias sobre teatro e cinema, mas os feitos arquitetônicos quase sempre não eram divulgados. Constata-se, portanto, como primeiro obstáculo, a dificuldade em manter os projetistas atualizados e a sociedade familiarizada com as tendências arquitetônicas do período. Mesmo assim os poucos exemplares de revistas e jornais que chegavam à cidade

foram os principais responsáveis pela disseminação da arquitetura do Rio, São Paulo e, mais tarde, de Brasília, nossa principal referência modernista, junto aos estudantes e profissionais na década de 6036.

Em Natal, coube ao Escritório Saturnino de Brito a introdução da estética moderna através da construção, em 1937, - portanto, contemporâneo ao Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro - do Edifício Sede da Comissão de Saneamento (figura 12), localizado na Ribeira. O edifício apresentava inovações formais e tectônicas que o colocaram como um marco do movimento vanguardista da cidade. A racionalidade, as linhas puras e simples, bem como a ausência de elementos decorativos, tornaram o estilo arquitetônico do prédio muito semelhante àquele adotado por Le Corbusier. Segundo Ferreira (2000), o caráter inovador também se refletia no uso de novos materiais, como os painéis de vidro, o revestimento em marmorite e as lajes impermeabilizadas. No mais, a implantação da edificação permitia a visualização de sua forma geométrica, do jogo de volumes prismáticos e cheios e vazios. Inaugurava-se assim, a primeira modernidade potiguar, fase de arquitetura pública, com os novos edifícios localizados no bairro da Ribeira.

36 Em seu depoimento, o arquiteto Moacyr Gomes da Costa afirma que a Faculdade Nacional de Arquitetura da

Universidade do Brasil – RJ (fundada após o desmembramento do curso de arquitetura da ENBA – Escola Nacional de Belas Artes), responsável pela formação da maior parte dos projetistas da época, foi uma forte referência para a formação da modernidade em Natal, pois se tratava de um expoente bastante representativo no âmbito da arquitetura moderna brasileira.

FIGURA 12 - Edifício Sede da Comissão de Saneamento, projeto do Escritório Saturnino de Brito (1937)

De fato, o bairro da Ribeira surge como o primeiro expoente da arquitetura moderna em Natal com a consolidação do eixo da Av. Duque de Caxias através da construção de edifícios públicos de linhas modernizantes. As residências, e outras construções representantes da arquitetura privada, surgem com a expansão dos novos bairros, Petrópolis e Tirol, que já nasceram “modernos”.

Após as inserções precursoras da arquitetura moderna, observa-se um hiato na produção modernista potiguar que se estende dos anos 40 até a chegada da década seguinte, quando se inicia a disseminação do moderno em residências. No geral, durante esse período, a cidade viu-se dominada por construções de linguagem eclética.

Antes mesmo das mudanças formais atingirem o âmbito da arquitetura residencial, as tendências modernistas foram apresentadas através de projetos pontuais, que logo se tornaram ícones de um momento de inovação e transformação de uma paisagem ainda marcada pelo primarismo de linhas e modelos passadistas.

De fato, os anos cinqüenta viram, finalmente, a chegada em Natal da arquitetura moderna, nos projetos de linhas arrojadas, geométricas, com as fachadas desprovidas de ornamentos que caracterizam a estética e a tectônica racionalista, assinado por profissionais que se firmaram como formadores e representantes do estilo moderno potiguar: o Edifício Presidente Café Filho ou do IPASE (1955)37(figuras 13 e 14), de Raphael Galvão Júnior; o

Cine Nordeste38 (1958) (figura 15) e a Sede do ABC Futebol Clube (1959) (figura 16), de Agnaldo Muniz; a Sede da ASSEN – Associação dos Subtenentes e Sargentos do Exército de Natal (1963) (figura 17) e o antigo Terminal Rodoviário da Ribeira (1956) (figura 18), de Raymundo Costa Gomes; a Sede da AABB (1964) (figura 18), de Moacyr Gomes da Costa.

37 Em 1953, ou seja, dois anos antes da construção do Edifício do IPASE - Instituto de Pensões e Aposentadorias

dos Servidores do Estado, foi construída uma vila ferroviária, conhecida como vila do IPASE, que apresentava casas igualmente modernistas, com plantas padronizadas. Esse mesmo projeto, de autoria desconhecida, também foi implantado no bairro do Alecrim. Atualmente as casas do IPASE também sofrem com a mutilação de seu traçado original. Sobre o assunto ver Medeiros (2001).

38 A fachada do edifício da Rádio/ Cine Nordeste em muito se assemelha àquela do Teatro de Cultura Artística

de São Paulo, projetada por Rino Levi e Roberto Cerqueira em 1949, já que ambas possuem painéis decorativos, sendo nessa última de autoria de E. Di Cavalcanti.

FIGURA 13 - Edifício Presidente Café Filho ou do IPASE, de Raphael Galvão Júnior (1955) Fonte: MEDEIROS, 2001

FIGURA 14 - Casas da Vila Ferroviária do IPASE (1953)

Fonte: MEDEIROS, 2001

FIGURA 15 - Rádio/ Cine Nordeste, de Agnaldo Muniz (1958)

Fonte: JAECI FOTOS

FIGURA 16 - Sede do ABC Futebol Clube, de Agnaldo Muniz (1959)

Fonte: JAECI FOTOS

FIGURA 17 - Terminal Rodoviário, de Raymundo Costa Gomes (1956)

Fonte: JAECI FOTOS

FIGURA 18 - Sede da ASSEN, de Raymundo Costa Gomes (1963)

Vale salientar duas características deste período. A primeira diz respeito ao caráter das obras modernistas, pois se ainda são erguidos edifícios públicos, tornam-se marcantes, nesta fase, os edifícios de propriedade privada, porém de uso social coletivo, como os clubes. A segunda relaciona-se à formação dos autores destas obras marcantes, que eram engenheiros, como Munir Aby Faraj e Ary Guerra Cunha Lima; desenhistas, como Arialdo Pinho e Agnaldo Muniz; ou arquitetos, como José Maria dos Santos Fonseca, Manoel Coelho, Raymundo Costa Gomes e Moacyr Gomes da Costa, os três primeiros com formação no Recife e o último no Rio de Janeiro39.

Dentre estes profissionais, o nome que parece mais ter se destacado é o de Arialdo Pinho, considerado na imprensa da época como o “[...] arquiteto que revolucionou e modernizou a cidade do Natal [...]”40(A REPÚBLICA, 1959, p. 7),

dando continuidade ao trabalho iniciado pelo Escritório Saturnino de Brito no manuseio do léxico modernista.

Através dos seus trabalhos,

especialmente das diversas residências que projetou a sociedade foi se habituando ao “estilo funcional”, representado pelos volumes cúbicos e linhas sóbrias; telhados embutidos; paredes laterais inclinadas e pelo telhado borboleta. No fim dos anos 50 e início da década de 60, a atuação do profissional ganhou mais prestígio e mais clientela ao mesmo tempo em que arquitetos como Ubirajara Pereira Galvão, João Maurício de Miranda e Daniel Hollanda - o primeiro formado no Rio de Janeiro e os outros dois no Recife - complementaram o grupo mencionado anteriormente.

Foi durante esse período de crescimento do prestígio profissional que surgiu a parceria entre os arquitetos Moacyr Gomes da Costa, João Maurício de Miranda e Daniel Hollanda,

39 De acordo com Marques (1983), até 1946, no Brasil só existia o curso de arquitetura da ENBA – Escola

Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e os cursos de engenheiros-arquitetos na Mackenzie e na Politécnica de São Paulo, além dos de Salvador, Recife e Porto Alegre.

40 Em seu depoimento, o arquiteto Moacyr Gomes da Costa afirma que Arialdo Pinho, parceiro em diversos

projetos, foi um desenhista autodidata; no entanto, o jornal A REPÚBLICA sempre se refere a esse profissional como arquiteto. De certo esta denominação não possui relação com a sua formação profissional, mas refere-se apenas ao trabalho com projetos e construções. Vale dizer que o mesmo jornal aponta outras atividades exercidas pelo projetista além da arquitetura. Arialdo Pinho era também criador de cenários para o teatro e não era raro ver seu nome envolvido em exposições e eventos ligados ao repertório artístico popular e às artes plásticas. Além disso, o projetista Agnaldo Muniz afirmou em entrevista que Arialdo Pinho era modelista de roupas quando chegou à Natal.

FIGURA 19 - Sede da AABB, de Moacyr Gomes da Costa (1964)

FIGURA 20 - Sede do América Futebol Clube (1959)

Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de

formando o escritório Planarq – Planejamento Geral de Arquitetura Ltda. O Planarq se tornou muito representativo pela realização de projetos importantes, como a passarela entre a Avenida Beira-Mar e o Forte dos Reis Magos e a urbanização da área próxima ao Forte, ambos encaminhados ao então DPHAN – Departamento do patrimônio Histórico e Artístico Nacional, chegando esse último a ser apreciado e modificado pelo diretor do órgão na época, o arquiteto Lúcio Costa.

Se, de uma maneira geral, como aponta Lara (2001), o território brasileiro sempre foi favorável à recepção da arquitetura modernista em todas as regiões e estratos sociais, em Natal, a proximidade de Recife, cidade de forte tradição modernista desde os finais dos anos 1920, favoreceu mais ainda essa recepção das idéias mais inovadoras da arquitetura da época. Muitos arquitetos atuantes em Pernambuco foram requisitados por clientes em Natal, como foi o caso de Delfim Amorim, que aqui projetou a Sede do América Futebol Clube, em 1959

(figura 20), como também da equipe formada pelos arquitetos Valdecy Fernandes Pinto,

Antônio Pedro Pina Didier e Renato Gonçalves Torres, que projetarou, entre outras obras, o Hotel Internacional dos Reis Magos, construído em 1962 (figura 21).

Apesar de ter havido uma propagação dessas idéias inovadoras, ora disseminadas pela mídia escrita, ora pela incidência em outras cidades, Natal não contou com um “movimento modernista” nos moldes de grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, etc.

FIGURA 21 - Hotel Reis Magos (1962) Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de

Segundo Moacyr Gomes, a cidade não contava com a força de uma elite universitária e intelectual, bem como de arquitetos que propusessem reuniões, conferências ou publicações, e isso dificultou a realização de discussões sobre as novas tendências da arquitetura brasileira que estavam aportando na cidade41.

Mesmo diante da dificuldade em trocar idéias, os conceitos modernistas foram absorvidos de forma positiva; todavia, a aceitação por parte da sociedade só aconteceu com o tempo, afinal, as soluções inovadoras não propunham somente a substituição das fachadas com ornamentos pela sobriedade dos prismas, mas também requeria alterações na organização interna e programática. Mudanças muito complexas para uma sociedade ainda acostumadas às conversas em cadeiras na calçada e a criar galinhas no quintal. Ainda assim, muitas pessoas passaram a querer usufruir o “estilo funcional”.

A prática da arquitetura moderna em Natal - enfatizada neste trabalho pela construção de residências - ocorreu em três fases: a década de 50, período de disseminação das idéias modernistas; a década de 60, momento de consolidação e maior domínio sobre as possibilidades do léxico formal e da técnica construtiva moderna; e por fim, a década de 70, fase do brutalismo potiguar e de dispersão do ideário modernista42.

Benzer Belgeler