Natal como tôdas as velhas capitais – e Natal é uma das mais velhas – já possui seus palacetes, ‘chalets’, chácaras e mansões edificados em sua maioria em fins de século passado e nos primeiros anos do presente, no fim da ‘belle époque’. Depois, o tempo avançou e foram aparecendo novos estilos arquitetônicos, belas mas simples casas, depois os chamados bangalôs, vieram posteriormente as construções como dizem – funcionais -, e, finalmente, as modernas construções de hoje, os grandes blocos de cimento e ferro, apartamentos para habitação coletiva. Ainda há porém inúmeras construções de casas simples nos bairros longe do centro, casas populares financiadas pelo Banco Nacional de Habitação. Mas o tempo de palacetes, chalets, etc., passou, deixando apenas a saudade daquelas edificações tão bonitas (PINTO, 1971, p. 71).
41 De acordo com Moacyr Gomes da Costa, projetos padronizados de repartições federais que vinham do Sul
também contribuíram para a demonstração das novas possibilidades, embora que em menor escala. Também eram comuns as palestras ministradas por ele e por Arialdo Pinho em reuniões de clubes particulares, como o Rotary Clube de Natal.
42 O recorte temporal da pesquisa de dissertação não engloba a década de 70, portanto, serão relatadas apenas as
Os anos 50 viram assim em Natal, uma prática edílica marcada pela concomitância de estilos, pois os modelos ecléticos - com destaque para o neoclássico, o neocolonial e o art-
noveau - continuavam a dar feições aos edifícios paralelamente ao moderno: “Os padrões
arquitetônicos estavam sobre a influência do ‘art-noveau’ (sic). Raros prédios de mais de três andares. Alguns sobrados – residências e casas de comércio – estas à Av. Tavares de Lyra” (ONOFRE JÚNIOR, 1984, p. 16).
Um exemplo da pluralização de estilos na Natal dos anos 40 e 50 são demonstrados nos resultados obtidos no inventário realizado, em 1998, no bairro de Petrópolis. Nele, Ramos (2000) apontam para a proliferação do estilo “chalezinho” definido como as “construções construídas entre os anos 40 e 50 do século XX, de um ou dois pavimentos, constituindo uma extensão do estilo eclético” (RAMOS, 2000, p. 64), “[...] cujas superfícies externas variam em aspecto desde os excessos decorativos ecléticos à austeridade ornamental emergente na linguagem proto-moderna, [...]” (RAMOS, 2000, p. 58) (figuras 22 e 23).
Ainda durante a década de 60, essa situação não era muito diferente, como afirma um jornal da época: “Natal é uma cidade de arquitetura difusa, sem linhas definidas, sem estilo predominante. Em toda a cidade, das Quintas a Santos Reis, da Cidade Alta ao Tirol, há uma promiscuidade de estilos arquitetônicos facilmente constatável” (A REPÚBLICA, 1960, p. 6). Mesmo assim, os bairros de Petrópolis e Tirol se destacavam pela paisagem que vinha se transformando e modernizando desde os anos 50:
Sómente (sic) de algum tempo pra cá, principalmente no bairro de Tirol e parte de Petrópolis, constatamos a predominância do estilo moderno FIGURA 22 - Chalé à Rua Mossoró.
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 23 - Chalé à Rua Potengi.
contemporâneo com linhas funcionais, em certas e determinadas construções residenciais. (A REPÚBLICA, 1960, p. 6).
Assim como havia se desejado na época do Plano Polidrelli, a área referente aos bairros de Petrópolis e Tirol trilhava o caminho para a construção de uma ‘cidade nova’, marcada, não somente pelo traçado diferente da cidade antiga, mas também por uma arquitetura que rompia com o ecletismo vigente e passava a buscar uma sintonia com a produção nacional. Nesse processo de renovação, o desenvolvimento e o fomento do mercado imobiliário e da construção promovido pela II Guerra provocaram a ocupação dos lotes demarcados desde 1904 e lentamente ocupados até os anos 40. Na década de 50, Petrópolis e Tirol, segundo Pinto (1971) e Miranda (1981), continuavam como os bairros que abrigavam residências luxuosas e mansões de uma arquitetura bastante requintada.
Esses foram anos marcados pela transição da arquitetura eclética para o modernismo e pela consolidação da segunda modernidade potiguar que do projeto do espaço público e social se estende para o âmbito doméstico.
A modernização das residências natalenses não foi abrupta. Quase 15 anos depois das primeiras experiências modernistas realizadas por Saturnino de Brito, ou seja, somente nos primeiros anos da década de 50, assistimos a uma “simplificação” de linhas em residências: há menos detalhes e menos elementos decorativos nas composições tradicionais. Contudo, no final da década de 30 já havia quem desse os primeiros passos no caminho da vanguarda arquitetônica residencial, pois em 1938, na Rua Seridó, 454, surgia a primeira casa potiguar a apresentar linhas modernizantes43. Tratava-se
de:
[...] um exemplo muito precoce, pois sabe-se que na década de quarenta foi quando começou, no Recife, a se disseminar o gosto modernista em casas residenciais (TRIGUEIRO, 1989, p. 55)
(figura 24).
43 De propriedade do Sr. Pedro Coelho, o projeto dessa residência é de autoria do arquiteto Manoel Coelho,
formado em Recife.
FIGURA 24 - Primeira casa modernista de Natal, Rua Seridó, 454 (1938)
Progressivamente, aparece a composição purista, cubista, assimétrica, de volumetria concebida segundo uma perspectiva tridimensional como foram às vanguardas modernistas. No entanto, muitas vezes mesclavam o novo estilo com elementos da arquitetura pré- modernista, marcada ainda pelos ornamentos do art nouveau.
A segunda metade da década de 50 trouxe a difusão e a consolidação da Arquitetura Moderna para a cidade. As edificações, agora com linhas mais sóbrias (retas) conquistaram uma leveza advinda principalmente da grande predominância de vazios e da utilização de panos de vidro.
[...] Em geral, percebe-se que os novos materiais construtivos, principalmente o concreto, proporcionaram uma melhor acomodação das edificações no terreno: as construções se desprendem dos limites dos lotes, permitindo uma maior liberdade de planta. Isso se deve também ao fato de que as paredes, inicialmente exercendo uma função de sustentação e rigidez das edificações, passam agora a funcionar apenas como elemento de vedação. Percebe-se o uso muito freqüente de lajes de piso e cobertura em concreto, em substituição às estruturas de vigas em madeira e soalhos de tábuas. [...] Outras características comuns às residências analisadas são as colunas de formato em “V”, [...] que refletem uma influência da arquitetura de Oscar Niemeyer. O uso de cobogós também aparece com bastante freqüência, seja utilizado nas varandas, seja formando os muros de algumas residências. As janelas, em muitos casos, apresentam-se envolvidas por cercaduras, ou molduras, destacadas por cor diferenciada. (MELO, 1999, p. 6)
Ainda como características das construções dessa época, podem-se apontar: o uso abundante de aberturas para garantir a comunicação com o exterior, a platibanda como elemento de acabamento para a cobertura, os revestimentos em pedra e os painéis de azulejos que, assim como em obras consagradas como o Palácio Gustavo Capanema (Ministério da Educação e Saúde) e Pampulha, propunham, segundo Bruand (2002) realçar e completar a arquitetura “a public affirmation of local materials and of Brazilian modern art” (CURTIS, 1996, p. 386). Em Natal, os painéis propostos por Cândido Portinari foram substituídos pelos mosaicos de cerâmica de artistas igualmente reconhecidos no plano local, como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas. Os temas sugerem cenas cotidianas da região (figuras 25 e
É fato que os anos 50 trouxeram transformações representativas para a arquitetura residencial em Natal. No entanto, o estreito vínculo dos profissionais potiguares com a estética modernista talvez não tenha sido devidamente demonstrado através das encomendas da clientela. A obra do arquiteto Moacyr Gomes da Costa, principalmente aquela não concretizada, traduz esse descompasso.
Divulgador do modelo da Escola Carioca e autor de muitos projetos residenciais, Moacyr Gomes foi um mestre da “arquitetura de papel”. Observando algumas propostas que se mantiveram apenas na prancheta, percebe-se o quanto elas são mais eruditas e ousadas do que aquelas idealizadas para clientes e construídas de acordo com solicitações específicas.
A história da arquitetura moderna apresenta exemplos de profissionais que mantiveram essa atitude visionária. Lúcio Costa idealizou projetos residenciais para clientes inexistentes ou hipotéticos no intuito de testar a filosofia moderna, enquanto Vilanova Artigas projetou para si, casas muito mais arrojadas e revolucionárias do que aquelas propostas para seus clientes, talvez por se sentir mais livre para exercitar a linguagem moderna ou por possuir uma maior familiaridade e aceitação diante das mudanças estéticas, construtivas e
FIGURA 25 - Painel com mosaico de azulejos (pesca), Rua Joaquim Manoel com Dionízio Filgueira.
Fonte: MELO, Alexandra Consulin Seabra de
FIGURA 26 – Painel com mosaico de azulejos (salinas), Rua Afonso Pena com Açu.
FIGURA 27 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
FIGURA 28 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
FIGURA 29 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
FIGURA 30 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
FIGURA 31 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
FIGURA 32 - “Arquitetura de papel”, de Moacyr Gomes da Costa, década 50.
Fonte: COSTA, Moacyr Gomes da
sociais inerentes ao pensar moderno. Nesse sentido, as “casas sem dono” de Moacyr Gomes, demonstram, em forma e técnica, uma arquitetura diferenciada se comparada à produção modernista local e colocam-se totalmente à altura das casas que constituem o paradigma residencial modernista brasileiro (figuras 27, 28, 29, 30, 31 e 32).
Quanto à questão tectônica, o diferencial encontrado nesses projetos não executados está no domínio absoluto da técnica do concreto armado, explorando com o máximo de arrojo toda a plasticidade que lhe é característica. Por outro lado, há uma demonstração de utilização do apelo estético das estruturas em soluções bastante inovadoras se comparadas àquelas empregadas nos exemplares construídos em Natal. O conjunto estético e tecnologia podem ser visualizados nas grandes lajes de cobertura impermeabilizadas, formando cascas em concreto
(figura 27 e 30); nos terraços-jardins, que nos projetos reais foram substituídos por telhados
em telha cerâmica, amianto ou alumínio (figura 31); nos pilotis, que efetivamente desprendem a edificação do solo, retomando a premissa de Le Corbusier 44; e na ossatura
livre, outro preceito que aponta para uma maior erudição com relação às matrizes de referência (figura 29). Também se observa que, diante da inexistência de limites dos terrenos hipotéticos, os projetos apresentam-se completamente desprendidos dos lotes, com recuos que destacam a edificação na paisagem e levam o arquiteto a uma preocupação redobrada no tratamento de todas as fachadas, levando ao extremo o caráter tridimensional do objeto a ser visualizado. Essa relação entre implantação e lote também remete à tônica da continuidade espacial que, nos exemplos acima, é atenuada pelo uso abundante de panos de vidro presos a finos caixilhos metálicos, como os utilizados por diversos arquitetos brasileiros, mas que não foram retomados pelos profissionais em Natal por causa restrições impostas pela indústria da construção local.
Em Natal também pudemos assistir às reapropriações que o modernismo brasileiro operou de elementos tradicionais que haviam sido herdados da arquitetura doméstica eclética, como o terraço e a varanda, característicos do período colonial oitocentista e dispensados no período que antecedeu ao modernismo, as famosas re-introduções que segundo alguns autores atestam o caráter de nacionalidade que Lúcio Costa conferiu aos projetos modernistas, no Brasil, tornando seus edifícios mais familiares e lançando mão de uma mescla do repertório erudito modernista europeu, tradicional nacionalista e vernacular para criar uma identidade moderna brasileira sem faltar com o compromisso racionalista. “O uso da arquitetura luso- brasileira como fonte iconográfica afirma a fertilidade da exploração do vernacular autóctone sem dissolver o elo com a máquina” (COMAS, 2000)45.
44 No Capítulo 4, será visto que o uso de pilotis em Natal se diferencia daquele visto na arquitetura moderna
internacional e nacional por abandonar a função estrutural de desprender o edifício do solo, tornando-se apenas uma sustentação para varandas e terraços.
45 COMAS, Carlos Eduardo Dias. Lúcio Costa e a revolução na arquitetura brasileira 30/39: de lenda (se) Le
Corbusier. 2002. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq022/arq022_01.asp>. Acesso em 24 de março de 2002.
Os projetistas da moderna arquitetura natalense seguiram o exemplo de arquitetos como Oswaldo Bratke, no Rio de Janeiro, e Delfim Amorim, no Recife, que lançaram mão de soluções tradicionais como o telhado colonial para garantir a funcionalidade, o baixo custo e a praticidade das suas casas modernistas, sem considerar uma atitude comprometedora da essência da arquitetura anti-passadista. Elementos como brises e cobogós, também utilizados no modernismo pioneiro em Natal, mostraram-se de grande utilidade face às condições climáticas. Pode-se assim dizer que a utilização desses elementos, assim como das amplas esquadrias, uma alusão da fenêtre en longueur corbuseriana, tornaram as construções modernistas bem adequadas às condições do clima local, caracterizado por um forte índice de irradiação solar e inverno chuvoso. Além disso, os terraços e varandas46, finalmente
incorporados à volumetria, contribuíam para essa aclimatação, confirmando-se resquícios das adaptações da casa portuguesa ao clima tropical47. A presença de beirais e alpendres que
garantiam a formação de um micro-clima e a proteção contra as intempéries nas casas coloniais se prolongou até as casas modernistas potiguares assim como ocorreu nos modelos nacionais.
Mas as venezianas e esquadrias em madeira simbolizavam, muitas vezes, juntamente com as coberturas em telha canal, os limites impostos pelo padrão construtivo, a tecnologia, os materiais e, sobretudo a mão-de-obra tradicional – por muitas vezes desqualificada. Com efeito, um dos grandes problemas enfrentados pelos pioneiros potiguares dizia respeito ao uso de materiais disponíveis e da mão-de-obra local, ambos limitados. Como resultado, torna-se comum que os projetos executados demonstrem um desacordo entre a disponibilidade técnica e a concepção de soluções mais arrojadas. Assim, por um lado, era fácil utilizar o concreto armado, material que se tornou símbolo da arquitetura moderna brasileira, sobretudo porque na escala doméstica requeria pouco arrojo. Por outro, adaptando-se às inovações estéticas, destacamos o uso maciço da pedra, que podia ser encontrada com facilidade na região48.
Tratava-se da incorporação harmoniosa do material tradicional ao conjunto estético modernista.
46 O terraço e a varanda, característicos do período colonial oitocentista e dispensados no período que antecedeu
ao modernismo, ressurge na arquitetura moderna potiguar, “[...] criado na fachada frontal, mas ainda não apresentando-se integrado à volumetria do corpo total das edificações, apresentando-se como um apêndice dessa.” (MELO, 1999, p. 7).
47 Ao comentar sobre o Paradigma Ambiental, Amorim (2001) aponta para as soluções encontradas por diversos
arquitetos do Recife na tentativa de adequar a arquitetura moderna ao clima quente e úmido lançando mão do experimentalismo e da inventividade.
48 O uso excessivo da pedra como revestimento de paredes tem uma suposta relação com a tradição do município
de Parelhas (RN), onde a extração do material é abundante e o seu uso é uma marca registrada das residências da cidade.
O quadro construtivo resultante é bem contraditório, dada à aliança de elementos inovadores como o vidro e o concreto e as limitações do padrão construtivo. Um exemplo evidente deste quadro é o caso das platibandas: as alturas exageradas denunciam as inclinações das coberturas em cerâmica, e as empenas acompanham as águas da coberta.
Paralelamente a reapropriação de elementos tradicionais da arquitetura, houve uma preocupação em preparar as residências diante da presença do automóvel, constante, desde os anos 20, como signo da modernidade. Com isso, não somente as garagens passaram a manter um vínculo importante com o resto da casa, mas também os acessos e a ligação com a rua.
A década 60 surge como o período de melhor domínio, por parte dos projetistas, sobre o legado modernista, ou seja, os profissionais passaram a usufruir de todo o arsenal formal e do avanço técnico/ construtivo proposto pelo movimento moderno na idealização dos projetos residenciais. Daí a justificativa para que as residências passassem de um estilo moderno popular, característico dos anos 50, para uma expressão mais técnica e erudita encontrada na década seguinte. No entanto, essa transformação não se mantém por muito tempo. Em meados da década de 60, observa-se o aparecimento de casas que somam um toque diferente ao moderno difundido nos anos anteriores. Isso aponta para o fato de que, passados os anos áureos do modernismo residencial, de 1950 até 1965, ocorre a perda do entusiasmo modernista e, com isso, o aparecimento de outras tendências. Dentre elas, a que mais se destaca é a que propõe a retomada de elementos do neocolonial, estilo que, por ventura, tornou-se característico do escritório Planarq. Veríssimo; Bittar (1999) apontam essa mesma mudança de estilo nas casas modernas brasileiras a partir da década de 70:
Muitas dessas mais recentes habitações unifamiliares começam a abandonar as formas geométricas simples, o concreto aparente, o grande pano de vidro, as lajes planas. Enfim, o dito ‘moderno’ está à procura de elementos plásticos que lembrem a arquitetura colonial: as telhas de capa e bica, as grandes varandas, as janelas de madeira e vergas arqueadas, os pisos de tábuas corridas, as lajotas, [...] (VERÍSSIMO; BITTAR, 1999, p. 44).
Segundo dados do AMN – Arquivo Municipal de Natal, a década de 60 - mais precisamente os anos após 1963/64 - também apresenta uma baixa dos projetos destinados a Petrópolis e Tirol. A partir disso, o bairro que se destaca como disseminador do modernismo residência passa a ser o Alecrim, muito embora os projetos mais arrojados continuem a ser destinados aos bairros precursores da arquitetura residencial moderna. Assim, embora no Alecrim se construísse mais, em Petrópolis e Tirol se construía com melhor requinte e fidelidade à cartilha modernista.
No final da década de 60, já com o modernismo inicial bastante transformado devido à adoção de outras tendências, começa a se fortalecer a tipologia da cobertura com telha de amianto aparente, mesmo com a platibanda ainda sendo utilizada com freqüência para disfarçar telhados coloniais.
Analisando os aspectos espaciais da casa modernista natalense, encontramos um reflexo do paradigma do zoneamento, apresentado como uma especificidade da casa moderna brasileira, pois, como é sabido, a hierarquia sócio-espacial que o zoneamento reproduz tem relação com a manutenção de valores tradicionais que se refletiu na representação estética e espacial da modernidade no Brasil. Sobre esse assunto, Amorim (2001), em seu estudo a respeito de casas modernas no Recife, afirma que o paradigma dos setores não somente estabelece procedimentos projetivos para a elaboração do plano, mas define regras sociais e arranjos espaciais que diferenciam hábitos e períodos arquitetônicos:
As residências pré-modernas (coloniais e ecléticas), eram caracterizadas por planos de alta permeabilidade e grande flexibilidade quanto ao uso de seus espaços. Um abrir e fechar de portas podia restabelecer relações de profundidade e visibilidade entre espaços contíguos e relativamente distantes (AMORIM, 2001) 49.
Já nas casas modernas, “[...] em um novo ambiente doméstico, mais fluído e sem portas, é a organização espacial que define as barreiras entre visitantes e moradores” (AMORIM, 2001)50. Agora, no lugar das regras de conduta social, são os arranjos espaciais que dificultam os acessos.
Em Natal, o Paradigma dos Setores se repete a partir do momento em que a divisão espacial – social, serviço e íntimo – define e privilegia áreas “nobres”, como os ambientes sociais e íntimos, ao mesmo tempo em que segrega as áreas de serviço, como cozinha e quartos de empregada. Esse tipo de residência não possui a mesma continuidade espacial em virtude das novas exigências com relação à privacidade que levaram as zonas íntimas – agora, com suítes – a estarem isolados do resto da casa. Nessa esteira de privacidade, observamos que o grau de interface exterior/ interior diminuiu em relação às casas ecléticas. Essa tendência para selecionar ou isolar ambientes, a exemplo do que ocorreu em Recife, recria
49 AMORIM, Luiz. Escola do Recife: três paradigmas do objeto arquitetônico e seus paradoxos. 2001.
Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq012/bases/03tex.asp>. Acesso em: 13 de maio de 2001.
mais um ponto de semelhança da modernidade potiguar com modelos modernos disseminados no país.
No mais, os ambientes sociais seguem a tradição como espaços funcionais e de transição, embora agora existam áreas destinadas exclusivamente à passagem e circulação, como os halls e corredores. Quanto às acomodações dos empregados, tanto em edículas quanto locadas sob o mesmo teto, continua tendo ligação somente com a cozinha, uma prova de que a herança escravagista perdura até hoje e apresenta-se também na era modernista pela