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Como mencionado no Capítulo 02, assim como ocorreu com a arquitetura moderna brasileira em geral, a produção residencial modernista do país teve como celeiro a região Sudeste, ou seja, a formação do quadro residencial modernista do país também foi influenciado pelas Escolas Carioca e Paulista, cujos representantes se destacaram como os “ditadores” do modelo que viria a ser difundido e assimilado pelo resto do país.

Após a exposição dos aspectos gerais da casa moderna brasileira no Capítulo 01, e seguindo a esteira da linguagem modernista nacional, partiremos para a análise mais detalhada dos ícones da modernidade residencial do país sempre considerando os itens de avaliação mencionados para o referencial metodológico, ou seja, os elementos formais, espaciais e construtivos característicos ao modelo nacional.

Para selecionar uma amostra que representasse da melhor forma a casa moderna brasileira diante de uma produção tão diversificada, optou-se por escolher as residências mais divulgadas e estudadas pela bibliografia especializada; nesse caso, a idéia foi seguir os passos de autores que se detiveram em divulgar a modernidade residencial brasileira mais detalhadamente, fazendo análises e descrevendo características que ajudaram a compor uma matriz para a realização da análise principal deste trabalho: o paralelo entre o modelo nacional e o local. Seguindo esses requisitos estão Mindlin (2000), Bruand (2002) e Cavalcanti (2001), autores que se destacam no estudo da modernidade residencial brasileira51.

Arquitetura Moderna no Brasil, de Henrique E. Mindlin, propõe, ainda na década de 50, o esclarecimento do que era o Modernismo no Brasil e o reconhecimento do valor da produção arquitetônica modernista brasileira. Através de uma abordagem histórica, o autor seleciona os edifícios mais representativos da arquitetura moderna brasileira, que estão reunidos de acordo com o uso para o qual foram destinados. A análise desse acervo é antecedida por um breve histórico de todo o contexto do surgimento e disseminação do modernismo no Brasil, a partir das vertentes européias, destacando-se, também o vocabulário modernista brasileiro construído a partir dos condicionantes locais e do talento dos

51 Segawa (1999) não foi incluído nesse referencial teórico porque o autor não discorreu sobre as características

profissionais brasileiros no manuseio do léxico modernista, diferenciais que consagraram a Arquitetura Moderna Brasileira no cenário nacional e internacional.

O livro ‘Quando o Brasil era moderno: guia de arquitetura, 1928-1960’ de Cavalcanti, Lauro, apresenta 125 projetos divididos entre construídos, não construídos e demolidos. A idéia de criar um guia/ manual do modernismo sugere ampliar a percepção da produção modernista através das experiências particulares de importantes arquitetos que reinterpretaram a linguagem modernista européia. Nesse caso, tão importante quanto a apresentação das obras modernistas brasileiras, representantes do novo pensamento europeu - de suas vertentes e influências, é a apresentação de um conceito de moderno que demonstra o talento dos arquitetos brasileiros em pensar sobre o moderno de formas diferenciadas, experimentais, poéticas ou apenas independentes dos dogmas do momento, como menciona Heloísa Buarque de Hollanda no texto de apresentação do livro.

O clássico ‘Arquitetura Contemporânea do Brasil’, de Bruand, Yves, apresenta-se como uma das fontes de consulta mais importantes para o estudo da arquitetura do início do século XX. A sua análise abrangente e detalhada da história do modernismo brasileiro, suas tendências, influências, ícones e protagonistas constituem um referencial para a construção do conceito de moderno, portanto, tornou-se fonte obrigatória de consulta para diversos estudos sobre o Modernismo no Brasil.

Diante da escolha do referencial teórico, a coleta das informações foi feita exclusivamente a partir dos comentários feitos pelos próprios autores, não cabendo a utilização de nenhum outro tipo de avaliação ou julgamento, mesmo quando o enriquecimento da caracterização de cada residência fosse possível de ser feito. A idéia era mostrar exatamente a casa brasileira a partir da crítica arquitetônica dos autores escolhidos.

Considerando a sua divulgação na bibliografia destacada, 70 exemplares projetados até a década de 60 foram escolhidos como os representantes do Paradigma Residencial Brasileiro, e as suas características mais marcantes foram extraídas e organizadas com base nos critérios de análise, mencionados no referencial teórico:

a) A relação entre implantação e lote:

As soluções em lotes de campo e urbanos, em casas sobre encostas e a utilização de pátios, jardins e recuos respondem às especificidades físicas (topografia, orientação, etc.) dos terrenos para os quais as residências foram projetadas juntamente com a legislação pertinente a cada um deles. Tais condicionantes incidem diretamente sobre os aspectos formais e espaciais dos edifícios.

b) Aspectos estéticos e formais:

A incidência dos jogos de volumes geométricos, a influência do cubismo corbusieriano e das linhas horizontalizantes de Wright. A ocorrência de fachadas cegas em terrenos exíguos; a orientação, os jogos de planos e texturas (mescla de materiais) nas superfícies das fachadas definindo uma hierarquia ou em detrimento da incidência do sol e dos ventos52.

c) Aspectos construtivos:

Os aspectos construtivos são os que mais denunciam a síntese entre o tradicional e o moderno. A inovação do concreto armado, vidro e aço convivem em harmonia com a pedra, o tijolo aparente e a madeira. Quanto às soluções construtivas, as lajes, pilotis e outras estruturas em concreto armado, possibilitaram a concretização das mais variadas e arrojadas formas, ao passo que os beirais, revestimentos em cerâmica, telhados coloniais foram reformulados para atender às exigências do clima ou para atribuir um caráter simbólico à edificação53.

d) Aspectos espaciais:

A organização dos ambientes é determinada, principalmente, pela incidência de ventos e raios solares. O zoneamento, diferencial das residências modernas brasileiras ante o modelo europeu, tende a valorizar as áreas sociais enquanto segrega as de serviço54.

A partir desses critérios será possível compor um quadro analítico para a conceitualização do modelo residencial brasileiro. Mas antes disso, será apresentada as residências, que serão referência para este estudo. Em ordem cronológica e com a citação de seus projetistas, proprietários, localização e fontes de consulta55 têm-se os exemplares das

residências paradigmáticos brasileiros demonstrados no Quadro 156:

QUADRO 1

EXEMPLARES RESIDENCIAIS PARADIGMÁTICOS BRASILEIROS

Data Identificação Autor Local Fonte de Pesquisa

01 1928 Casa de Gregori Warchavchik Gregori Warchavchik São Paulo CAVALCANTI (2001, p. 110) BRUAND (2002, p. 65)

52 Paradigma da Forma: AMORIM, Luiz. Escola do Recife: três paradigmas do objeto arquitetônico e seus

paradoxos. 2001. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq012/bases/03tex.asp>. Acesso em: 13 de maio de 2001.

53 Id., 2001. 54 Ibid., 2001.

55 A citação das fontes de consulta permitirá o acesso a fotos e desenhos gráficos (plantas, cortes, perspectivas)

que estão bem representadas na bibliografia utilizada como referência.

56 Para uma melhor visualização, as informações colhidas na bibliografia de referência foi diferenciada por cores,

02 1929 Casa de Max Graf Gregori Warchavchik São Paulo BRUAND (2002, p. 68)

03 1930 Casa Modernista ou da Rua

Itápolis Gregori Warchavchik São Paulo

CAVALCANTI (2001, p. 114)

BRUAND (2002, p. 68)

04 1931 Casa Norchild ou da Rua

Toneleros Gregori Warchavchik Rio de Janeiro

CAVALCANTI (2001, p. 118)

BRUAND (2002, p. 70)

05 1932 Casa sem Dono Lúcio Costa CAVALCANTI (2001, p. 183) 06 1937 Casa de Roberto Marinho Lúcio Costa Rio de Janeiro BRUAND (2002, p. 125)

07 1938 Casa de Oswald de Andrade Oscar Nimemeyer São Paulo CAVALCANTI (2001, p. 252) BRUAND (2002, p. 156)

08 1939 Casa de Roberto Lacase João Vuilanova Artigas São Paulo BRUAND (2002, p. 271)

09 1941 Casa de João Arntein Bernard Rudofsky São Paulo CAVALCANTI (2001, p. 73)

10 1942 Casa Hungria Machado Lúcio Costa Rio de Janeiro

MINDLIN 2000, p. 44) CAVALCANTI (2001, p.

191) BRUAND (2002, p. 125)

11 1942 Casa da Sra. Roberto Marinho Lúcio Costa Petrópolis BRUAND (2002, p. 125)

12 1942 Casa de Celso da Rocha

Miranda Alcides da Rocha Miranda Petrópolis CAVALCANTI (2001, p. 59) 13 1942 Casa de Oscar Niemeyer na

Lagoa Oscar Niemeyer Rio de Janeiro CAVALCANTI (2001, p. 262)

14 1943 Casa de Juscelino Kubitschek Oscar Niemeyer Belo Horizonte BRUAND (2002, p. 111)

15 1943 Casa de Praia do Conde Raul

Crespi Gregori Warchavchik Guarujá MINDLIN 2000, p. 46) 16 1944 Casa Paranhos João Vilanova Artigas São Paulo BRUAND (2002, p. 272)

17 1944 Casa do Barão de Saavedra Lúcio Costa Petrópolis BRUAND (2002, p. 125)

18 1945 Casa de Luiz Antônio Leite

Ribeiro João Vilanova Artigas São Paulo BRUAND (2002, p. 273) 19 1946 Casa de Rino Levi Rino Levi São Paulo

MINDLIN (2000, p. 48) CAVALCANTI (2001, p.

329) BRUAND (2002, p. 273)

20 1946 Casa de José Pacheco de Medeiros Filho Aldary Henrique Toledo Cataguases MINDLIN (2000, p. 50)

21 1947 Casa de Ítalo Eugênio Mauro Ítalo Eugênio Mauro São Paulo MINDLIN (2000, p. 52)

22 1949 Casa de Carlos Frederico Ferreira Carlos Frederico Ferreira Nova Friburgo CAVALCANTI (2001, p. 77)MINDLIN (2000, p. 54) BRUAND (2002, p. 143)

23 1949 Casa de Heitor Almeida João Vilanova Artigas Santos MINDLIN (2000, p. 56)

24 1949 Casa de João Vilanova Artigas João Vilanova Artigas São Paulo

MINDLIN (2000, p. 58) CAVALCANTI (2001, p.

137) BRUAND (2002, p. 296)

25 1949 Casa de Campo de George Hime Henrique E. Mindlin Petrópolis CAVALCANTI (2001, p. MINDLIN 2000, p. 59) 127)

26 1949 Casa de Oscar Niemeyer Oscar Niemeyer Mendes CAVALCANTI (2001, p. 276) 27 1950 Casa de Campo de

Hildebrando Accioly Francisco Bolonha Petrópolis

MINDLIN (2000, p. 62) CAVALCANTI (2001, p.

100) BRUAND (2002, p. 140)

28 1950 Casa de Paulo Candiota Lúcio Costa Rio de Janeiro BRUAND (2002, p. 125)

29 1951 Casa de Lina Bo Bardi Lina Bo Bardi São Paulo CAVALCANTI (2001, p. MINDLIN (2000, p. 64) 167)

346)

31 1951 Casa de Osmar Gonçalves Oswaldo Corrêa Gonçalves MINDLIN (2000, p. 68)

32 1951 Casa do Embaixador Walther

Moreira Salles Olavo Redig de Campos Rio de Janeiro

MINDLIN (2000, p. 69) CAVALCANTI (2001, p.

241)

33 1952 Casa de Guilherme Brandi Sérgio W. Bernardes Petrópolis CAVALCANTI (2001, p. MINDLIN (2000, p. 72) 342)

34 1952 Casa de Domingos Pires de Oliveira Dias Arnaldo Furquim Paoliello São Paulo MINDLIN (2000, p. 74)

35 1952 Casa de Carmem Portinho Affonso Eduardo Reidy Rio de Janeiro CAVALCANTI (2001, p. 42)MINDLIN (2000, p. 76) BRUAND (2002, p. 235)

36 1952 Casa de Arthur Monteiro

Coimbra M. M. M. Roberto Rio de Janeiro BRUAND (2002, p. 172) 37 1953 Casa de Olivo Gomes Rino Levi e Roberto Cerqueira César São José dos Campos BRUAND (2002, p. 281)

38 1953 Casa de Campo de Lotta de

Macedo Soares Sérgio W. Bernardes Rio de Janeiro

MINDLIN (2000, p. 78) CAVALCANTI (2001, p.

337)

39 1953 Casa de Oswaldo Arthur

Bratke Oswaldo Arthur Bratke São Paulo

MINDLIN (2000, p. 80) CAVALCANTI (2001, p.

311) BRUAND (2002, p. 282)

40 1953 Casa de João Paulo de Miranda Neto Lygia Fernandes Alagoas MINDLIN (2000, p. 84)

41 1953 Casa de Milton Guper Rino Levi e Roberto Cerqueira César São Paulo BRUAND (2002, p. 274)MINDLIN (2000, p. 86) 42 1953 Casa de Canoas Oscar Niemeyer Rio de Janeiro

MINDLIN (2000, p. 88) CAVALCANTI (2001, p.

292) BRUAND (2002, p. 162)

43 1954 Casa de Campo de João

Antero de Carvalho José Bina Fonyat Filho e Tercio Fontana Pacheco Petrópolis

MINDLIN (2000, p. 90) CAVALCANTI (2001, p.

163)

44 1954 Casa de Stanislav Koslowski

Thomaz Estrella, Jorge Ferreira, Renato Mesquita dos Santos e

Renato Soeiro

Rio de Janeiro MINDLIN (2000, p. 91)

45 1954 Casa de Olivo Gomes Rino Levi e Roberto Cerqueira César

São José dos Campos

MINDLIN (2000, p. 92) BRUAND (2002, p. 281)

46 1954 Casa de Campo de Geraldo

Baptista Olavo Redig de Campos Petrópolis MINDLIN (2000, p. 94) 47 1955 Casa Joly Oswaldo Arthur Bratke São Paulo BRUAND (2002, p. 284)

48 1955 Casa de Paulo Antunes

Ribeiro Paulo Antunes Ribeiro Rio de Janeiro

MINDLIN (2000, p. 80)

49 1955 Casa de Ernesto Waller Paulo Antunes Ribeiro Rio de Janeiro MINDLIN (2000, p. 98)

50 1955 Casa de Martin Holzmeister Pires e Paulo de Tarso Paulo Everard Nunes

Ferreira dos Santos Rio de Janeiro MINDLIN (2000, p. 100) 51 1955 Casa de Luiz Forte Miguel Forte e Galiano Ciampaglia São Paulo MINDLIN (2000, p. 102)

52 1955 Casa de Campo de Lauro

Souza Carvalho Henrique E. Mindlin Petrópolis MINDLIN (2000, p. 104) 53 1955 Casa de Paulo Hess Rino Levi e Roberto Cerqueira César São Paulo BRUAND (2002, p. 277)

54 1956 Casa de Homero Souza e Silva Carlos de Azevedo Leão Rio de Janeiro CAVALCANTI (2001, p. 81)

55 1957 Casa de José Macedo Acácio Gil Borsoi Fortaleza CAVALCANTI (2001, p. 28)

56 1957 Casa Fleider Oswaldo Arthur Bratke São Paulo BRUAND (2002, p. 284)

57 1957 Casa de Raymundo de castro

Maya Wladimir Alves de Souza Rio de Janeiro CAVALCANTI (2001, p. 359)

59 1958 Casa d eValéria P. Cirrel Lina Bo Bardi São Paulo CAVALCANTI (2001, p. 174) 60 1959 Casa de Castor Delgado Perez Cerqueira César e Luiz Rino Levi, Roberto

Roberto Carvalho Franco São Paulo BRUAND (2002, p. 280) 61 1959 Casa de Affonso Eduardo Reidy Affonso Eduardo Reidy Petrópolis CAVALCANTI (2001, p. 52)BRUAND (2002, p. 162) 62 1960 Casa de Francisco Matarazzo Sobrinho Oswaldo Arthur Bratke Ubatuba BRUAND (2002, p. 285)

63 1960 Casa de Nadir de Oliveira Carlos Milan São Paulo BRUAND (2002, p. 311)

64 1961 Casa de Sérgio W. Bernardes Sérgio W. Bernardes Rio de Janeiro CAVALCANTI (2001, p. 354) BRUAND (2002, p. 289)

65 1962 Casa de Gaetano Miani

Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de

Gennaro São Paulo BRUAND (2002, p. 313) 66 1963 Casa de Cunha Lima Joaquim Guedes São Paulo BRUAND (2002, p. 306)

67 1964 Casa de Boris Fausto Sérgio Ferro São Paulo BRUAND (2002, p. 317)

68 1964 Casa de Paulo Mendes da

Rocha Paulo Mendes da Rocha São Paulo BRUAND (2002, p. 314) 69 1965 Casa de Oswaldo Arthur

Bratke Oswaldo Arthur Bratke São Paulo BRUAND (2002, p. 286) 70 1965 Casa de Eduardo Longo Eduardo Longo Guarujá BRUAND (2002, p. 292)

De acordo com o Quadro I, pode-se perceber que algumas residências tiveram maior destaque dentro da bibliografia de referência. No entanto, a idéia não é hierarquizar a amostra de acordo com as número ou tipo de abordagens, mas sim reunir os aspectos mais recorrentes referidos pelos autores, ou seja, relacionar o maior número de informações sobre as casas modernistas brasileiras sem a intenção de destacar umas e outras.

Após a coleta de informações sobre os exemplares acima citados, tem-se a seguir A constituição de uma seqüência de tabelas que apresentam a caracterização sistemática do Paradigma Residencial Modernista Brasileiro. O Anexo A apresenta as características de cada casa modernista da amostra tais como foram comentadas pelos autores escolhidos e citados anteriormente, seguindo os critérios de análise e o esquema de cores para cada autor. No Anexo B, encontramos nas linhas sobre cada exemplar, um resumo da caracterização feita pela bibliografia especializada, ou seja, as informações de cada autor foram cruzadas para possibilitar a caracterização de cada casa em particular. Por fim, a Anexo C traz as características recorrentes na casa modernista brasileira e apresenta-se, portanto, como o Quadro Geral do Paradigma Residencial Modernista Brasileiro que servirá de base para a análise da casa modernista potiguar a partir do paradigma residencial modernista brasileiro.

Uma síntese conceitual do repertório residencial modernista brasileiro alinhava o exposto no subitem “Sobre a Casa Modernista Brasileira” do Capítulo 2 e o trabalho de análise dos exemplares paradigmáticos brasileiros apresentado neste capítulo. Em resumo, a

caracterização que irá direcionar o paralelo entre as casas brasileiras e os exemplares locais reafirma quatro características recorrentes:

a) Caráter nacionalista: arquitetura como símbolo e identidade nacional

De certo modo, a procura por uma linguagem arquitetônica que refletisse o movimento nacionalista dos anos 30 foi a mola propulsora para o desenvolvimento de uma maneira original de fazer uma arquitetura moderna que pudesse atribuir personalidade à produção brasileira.

Excluindo o caráter monumental característico dos prédios estatais, a criação de uma expressão símbolo da identidade nacional - no âmbito da modernidade residencial - abriu mão de cópias de estilos históricos e manteve-se vinculada às recriações e invenções locais em que a força da tradição e a leitura do ambiente local foram determinantes.

b) Linguagem diferenciada: plasticidade da forma

Sem dúvida, foi no desenvolvimento de uma linguagem diferenciada da arquitetura moderna que os arquitetos brasileiros obtiveram mais êxito e, conseqüentemente, mais reconhecimento.

Transpondo os limites formais do cubismo racionalista e, principalmente, da cartilha formal corbusieriana, a inventividade plástica nacional - carregada de intuição, valores nacionalistas/ tradicionais e respeito à integração com o lugar - foi transformadora dos prismas elementares e enriquecedora do vocabulário canônico. A flexibilidade de volumes, as

formas livres que combinavam retas e curvas harmoniosamente e a estrutura com intenção plástica caracterizavam uma estética modernista que reinventava o racionalismo a partir de

uma liberdade plástica ilimitada, representada através de poesias “escritas” pelo concreto armado.

c) Vínculo com o passado: tradição

De certa forma, a síntese entre o tradicional e o moderno permeia os outros pontos característicos da arquitetura moderna brasileira, já que foi a ponte para a formação da identidade nacional, buscando elementos e soluções da herança nativa e colonial portuguesa, e para a adaptação do modelo modernista europeu ao clima tropical. Sendo, portanto, tão abrangente, a mescla entre passado e futuro pode ser vista tanto na representação da forma e emprego da técnica quanto na organização do espaço.

Desse modo, telhados tradicionais com beirais - substitutos dos terraços-jardins eruditos, varandas e alpendres - elementos de aclimatação - e azulejos, dentre outros empréstimos da casa colonial portuguesa comprovadamente eficazes no clima quente e

chuvoso, transformaram volumes e fachadas das construções modernas brasileiras e contribuíram para a formação de um vocabulário formalmente novo.

Nessa esteira de síntese, materiais novos, como vidro, concreto e aço, convivem harmoniosamente com os tradicionais, como pedra, madeira, telhas coloniais, etc., propondo variados jogos de cores e texturas que, além de remeter à arquitetura do passado (artesanal e vernacular), também reforçam o vínculo com o lugar.

No âmbito espacial, se por um lado os novos espaços refletiam a tônica modernista dos planos contínuos e livres que propunham a superposição de atividades, por outro, adaptavam-se à tendência brasileira à divisão por setores, demonstrando o vínculo com o passado através da segregação dos ambientes e acessos de serviço, uma prova de que o zoneamento e a continuidade espacial comprovam que a síntese entre o passado e o futuro também obteve a sua tradução na formação dos espaços modernos no Brasil.

d) Vínculo com o lugar: adaptação ao clima

Dessa forma: “sem dúvida alguma, foi o clima o fator físico que mais interferiu na arquitetura moderna brasileira” (BRUAND, 2002, p. 12). Como conseqüência, houve uma tendência em reinterpretar o modelo europeu no intuito de melhor adequá-lo ao clima tropical.

Seguindo os passos corbusierianos, a idéia de racionalismo desenvolvida pela arquitetura moderna brasileira estava em respeitar as especificidades e exigências do lugar e, como visto anteriormente, a síntese entre o tradicional e o moderno foi a principal ponte para a inserção do legado modernista erudito no ambiente brasileiro.

Nesse sentido, as adaptações locais, além de constituírem uma continuidade da preocupação de Le Corbusier transmitida aos arquitetos brasileiros desde o Ministério da Educação e Saúde em 1936, mantiveram estreita relação com os valores e soluções tradicionais - testadas no passado e (re) consideradas eficazes na nova arquitetura - principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento e retomada de mecanismos para controle climático (luz e calor). Destaque para os brises corbusierianos que, além de ganharem a sua versão local - os cobogós desenvolvidos em Recife por Luiz Nunes - somaram-se às venezianas, treliças e muxarabis na função de proteger painéis envidraçados e garantir o conforto dos ambientes.

Tem-se aqui mais um exemplo de que o vínculo entre o moderno e as reminiscências do passado tornou-se determinante para a formação de uma linguagem original, transformadora e, por isso, reconhecida internacionalmente.

FIGURA 33 - Vista aérea de Petrópolis e Tirol, década 60. Fonte: JAECI FOTOS

Benzer Belgeler