Conforme La Mendola (2005), o risco assume forma e relevância particulares para a fase juvenil, na medida em que representa as primeiras experimentações de um processo de construção e afirmação da própria identidade, traduzida por meio de um prolongamento da transição à vida adulta, no âmbito de uma dinâmica de desinstitucionalização do curso da vida.
Para as autoras Lemos; Scheinvar e Nascimento (2014), o risco passa então à cena política de proteção às crianças e aos jovens, como modo estratégico de defesa e prevenção, que se materializa nas práticas de diversas instituições. Essas conceituações vão sendo fabricadas ao considerar o risco como um acontecimento que pode trazer danos e, por isso, precisa ser medido para diminuir as possibilidades de problemas futuros. Os cálculos de risco se vinculavam à produção de estimativas estatísticas e o uso de estratégias de conscientização da população por meio de informações sobre os fatores de risco. É como se a exposição ao risco fosse o resultado da ausência de conhecimento de algumas informações e aos modos de acessá-las.
Nessa maneira de analisar o acontecimento risco, havia uma desqualificação daqueles considerados culpados pelos riscos a que ficavam expostos, por ignorarem os perigos que cercavam seus modos de vida e atitudes. Tratava-se de uma abordagem que individualizava a produção de riscos e engendrava estigmas (LEMOS; SCHEINVAR; NASCIMENTO, 2014. p. 159).
Nessa transição da sociedade disciplinar para a sociedade de risco, como afirma Spink (2001), ocorrem deslocamentos importantes, mudando a natureza dos riscos, os
mecanismos de gestão das populações e as estratégias de gestão das pessoas, principalmente no que concerne à juventude. Assim, Lemos; Scheinvar e Nascimento (2014) apontam que "estar em perigo" e "ser perigoso" geram duas possibilidades de ação. A primeira situação provoca a necessidade de proteção para a garantia de um futuro, enquanto a segunda gera a necessidade de controle desse alvo, desse indivíduo que se torna ameaça para o funcionamento de um cotidiano de normas e regras, podendo ser eliminado para que se cumpra o estabelecido.
A primeira promove ainda um "[...] cordão sanitário ao redor da infância, em nome da promoção do seu desenvolvimento, compensando possíveis deficiências de um processo evolutivo [...] (LEMOS; SCHEINVAR E NASCIMENTO, 2014. p. 162)”. Os perigos e os riscos vão sendo medidos para potencializar mecanismos de segurança. A gestão dos riscos promove ainda um tipo de investigação sobre a infância e a vida familiar, com o objetivo de determinação do sujeito em função dos antecedentes que formaram sua história, portanto, qualquer acontecimento ocorrido ao longo da vida, que esteja fora da norma, pode colocar sua vida sob suspeita. (LEMOS; SCHEINVAR E NASCIMENTO, 2014).
Nessa perspectiva, o PPCAAM, como locus do nosso estudo, ao compor a rede de proteção social, faz uma análise sobre a ameaça de morte direcionada a uma criança ou adolescente levando em consideração tanto a história pregressa do adolescente, que o levou àquela condição, como ao funcionamento do conjunto de serviços destinados a essa população. Portanto, temos um conjunto de práticas constituídas e orientadas para a gestão de segmentos específicos da população, que aparecem através de ações e normas sutis no cotidiano.
Porém, no PPCAAM, mesmo sob a lógica formada em torno do controle para a proteção, são inventadas formas criativas de escape à vigilância. Os adolescentes e suas famílias encontram, frequentemente, formas de renegociação e até de resistência ao estabelecimento de normas e regras previstas no acompanhamento, exemplificadas na pactuação do horário de volta para casa do adolescente pela noite; no uso das mídias sociais e de outras formas de comunicação, que são restringidas no ambiente da proteção.
Ainda nesse campo de discussão, não podemos perder de vista a inclusão de uma breve abordagem sobre o campo da vulnerabilidade social em diálogo com o risco e a proteção nas práticas sociais, uma vez que risco e vulnerabilidade, muitas vezes, apresentam-
se associados, e a proteção passa a ser entendida como pressuposto para a superação das condições anteriores.
A abordagem da vulnerabilidade é caracteristicamente interdisciplinar, ancorada nas ciências humanas e sociais e busca compreender a dimensão dos sentidos e dos significados da exposição dos sujeitos a determinadas situações de risco, bem como as implicações e os efeitos diferenciados dessas exposições nas trajetórias individuais e interativas (RUOTTI; MASSA E PERES, 2011).
Rivero e Torossian (2009) alertam para o problema em considerar aspectos relacionados à vulnerabilidade social a partir dos índices de pobreza, indicando que é urgente voltarmos o olhar para a inclusão ou não da população nas políticas públicas em geral. Dessa forma, os sentidos de vulnerabilidade podem contribuir tanto para igualar uma determinada população, mantendo-a em um lugar de risco, como construir estratégias de empoderamento e autonomia que apontem para aspectos positivos, a partir de relações estabelecidas em determinados contextos.
Conforme Correa e Souza (2011), a vulnerabilidade social, no sentido mais usual, sintetiza a ideia de uma maior exposição e sensibilidade de um indivíduo ou de um grupo aos problemas enfrentados na sociedade e reflete uma nova maneira de entender as dificuldades de acesso a serviços sociais como saúde, educação, segurança e justiça de algumas pessoas e grupos específicos.
Ampliando a discussão, Abramovay (2002) trata o estudo da vulnerabilidade social como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas e culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado repercutirá em uma série de desvantagens para o desempenho e mobilidade social de alguns grupos sociais.
A discussão apresentada por Guzzo et al. (2013) nos posiciona em uma sociedade que se configura sob a égide do capitalismo, ou seja, fundada na exploração do homem e da mulher, por meio da sua força de trabalho, tendo como finalidade máxima o aumento do lucro e da acumulação de riquezas, produzindo a alienação de quem trabalha e impondo condições de desigualdade entre as pessoas que, por sua vez, transformam as relações humanas e distorce valores de cooperação e coletividade.
Assim, a violência permeada pelas relações de trabalho, estrategicamente instalada em prol do interesse e enriquecimento de poucos, tem feito o homem centralizar em si a culpa por sua infelicidade, pois são incutidas as ideias de igualdade nas oportunidades disponíveis. Como na prática isso não se confirma, sentimentos de exclusão e não pertencimento são comumente vivenciados, principalmente por adolescentes e jovens, ao darem início as tentativas de inclusão nas tramas em que a sociedade se estrutura.
Castro e Abramovay (2005) complementam nosso entendimento acerca do conceito de vulnerabilidade ao saírem da referência única atrelada a “riscos”, demonstrando que, quando se amplia o debate em torno das desigualdades sociais e dos problemas estruturais dos jovens como sujeitos de direitos, é possível haver pertinência entre os enfoques dados pelas políticas públicas juvenis às situações de vulnerabilidade. Acrescentam também o sentido de alerta que as situações de vulnerabilidades sugerem, como desencantos, pedidos de socorro, falta de referências e projetos coletivos que mobilizem os jovens.
Por último, as autoras acima discutem a concepção de “vulnerabilidades positivas”, que podem ser caracterizadas como formas de agitos, rebeliões ou outros tipos de manifestações, ou seja, algumas formas de ser dos jovens, entendidas muitas vezes pelos adultos como negativas, mas que colaboram para singularizar processos de afirmação e engajamentos político. “É quando se traz para o debate um quarto enfoque, o da participação dos próprios jovens, por vetores que não se confundam com clientelismo ou manipulação política, mas se o equacione com acessibilidade a distintos recursos, inclusive o de fazer e de mudar o fazer política (CASTRO; ABRAMOVAY, 2004. p. 02)”.
Isto posto, as noções de risco e vulnerabilidade voltadas à infância e à adolescência se materializam na prática de diversas instituições como estratégias de proteção, como o PPCAAM, por exemplo. As concepções de vulnerabilidade ao trazerem elementos relativos às desigualdades sociais e às questões estruturais contribuem na formulação de políticas públicas que podem gerar tanto empoderamento e autonomia como podem manter certos grupos sociais sob as mesmas condições de dificuldade de acesso aos direitos básicos, gerando desvantagens na mobilidade social.