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– KAMUYU AYDINLATMA VE ŞEFFAFLIK

Belgede FAALiYET RAPORU 2011 (sayfa 67-70)

Os estudos sobre o conceito de risco têm sido alvo de discussões nas últimas duas décadas nas ciências humanas (BECK, 1997; SPINK, 2001; LA MENDOLA, 2005), juntamente com o conceito de vulnerabilidade, muitas vezes atrelado e posto como sinônimo de risco. Nesse contexto, é possível observar uma forte relação entre os sentidos históricos do risco com as mudanças nas formas de controle social, onde a linguagem dos riscos mostra-se a partir dos seus contextos de uso, configurando-se através de três dimensões:

Uma forma de se relacionar com o futuro, uma forma de conceituar risco e uma forma de gerir os riscos. Considerando, inicialmente, o risco como uma forma

específica de se relacionar com o futuro, nunca é demais reiterar que a palavra risco emerge na pré-modernidade, ou seja, na transição entre a sociedade feudal e as novas formas de territorialidade que dariam origem aos Estados-nação (SPINK, 2001. p. 1279).

Ainda segundo a autora, a humanidade ao longo de sua história enfrentou diversos desastres naturais, como também aqueles decorrentes das guerras ou os riscos decorrentes do “estilo de vida”, entretanto, esses eventos não eram denominados riscos, mas referidos como perigos, fatalidades ou dificuldades, até porque a palavra “risco” ainda não constava nas línguas indo-europeias. A própria emergência da palavra risco nas línguas latinas dataria do século XVI, pensado a partir da possibilidade de controle de eventos futuros.

Para Ruotti, Massa e Peres (2011), na modernidade se produz uma nova forma de lidar com o futuro, abandonando as formas utilizadas anteriormente e, a partir daí, instaura-se o risco como referência central, cujo sentido diz respeito “[...] a possibilidade de prever probabilisticamente os acontecimentos futuros (cálculo de riscos) e agir de forma colonizadora em relação a este futuro, mesmo considerando a imprevisibilidade que lhe é intrínseca (RUOTTI; MASSA; PERES, 2011. p. 383)”.

É esse tipo de relação com o futuro que gera o clima propício à incorporação plena da perspectiva do “risco”. Não que haja uma ausência de qualquer disposição ante o futuro numa economia pré-capitalista. Trata-se, entretanto, de um futuro pautado na “previdência” – a habilidade de “ver de antemão” a partir da inscrição na própria situação, a partir da identidade entre tempo de trabalho e tempo de produção (SPINK, 2001. p. 1279).

A possibilidade de usar o conceito de risco como estratégia de governo envolveu um longo processo que se desenvolveu em paralelo à teoria da probabilidade, com início no século XVII e, posteriormente, da estatística. A estatística aparece inicialmente como um ramo da ciência política, que tinha por missão colecionar e categorizar fatos relevantes e encontrará sua primeira função na Ciência da Polícia dos estados alemães dos séculos XVIII e XIX (SPINK, 2001). Ainda de acordo com Spink (2001), o ápice da primeira fase da gestão dos riscos data do século XIX, na ciência sanitária, que formará o Estado do Bem-Estar Social e, em meados do século XX, vemos uma progressiva passagem para o domínio da epidemiologia que permitirá, por meio das análises de risco,

Estabelecer associações probabilísticas de distribuição populacional de um determinado agravo entre diferentes condições objetivas, mensuráveis, como idade, sexo, renda, etc., apresentando caráter eminentemente quantitativo e populacional. Trata-se, neste sentido, de uma categoria abstrata e analítica que pressupõe certa relação de dependência entre um fator de exposição (fator de risco) e um efeito à saúde, segundo o modelo de raciocínio causal. A identificação de fatores de risco a um determinado agravo constitui, assim, um eixo fundamental das análises que sustentam as práticas preventivas em saúde (RUOTTI; MASSA; PERES, 2011. p. 279).

Essa evolução do conceito de risco resultará no aperfeiçoamento de um campo de saber denominado gestão de riscos,um campo que resulta do casamento entre o cálculo de probabilidades e a herança da função política da estatística, e que irá gerar os sofisticados modelos de análise de riscos. (SPINK, 2011. p.1280).

O campo conceitual dos riscos englobou, na década de 1950 do século XX, três áreas de especialidade: a primeira, o cálculo dos riscos, comentado anteriormente; a segunda especialidade voltou-se à percepção dos riscos, buscando influir nos comportamentos danosos para a saúde do corpo e do meio ambiente; e a terceira perspectiva, a gestão dos

riscos, que vem de uma evolução e aperfeiçoamento das demais e nos interessa para esse

estudo em particular. “A gestão dos riscos compreende quatro estratégias integradas: os seguros, as leis de responsabilização por danos, a intervenção governamental direta e a autorregulação, progressivamente, passou a incorporar também a comunicação sobre riscos (SPINK, 2001. p. 1280).”.

A gestão de cada pessoa está vinculada à gestão da informação em uma sociedade que prescinde de instituições educativas. Com isso, a exigência para a produção de sentidos no cotidiano implica a criação de novas formas de vigilância, contida no autocontrole do

estilo de vida, que se difunde, por exemplo, por meio do monitoramento de diagnósticos preventivos em saúde (SPINK, 2001).

Temos como exemplo em Ayres (apud RUOTTI; MASSA E PERES 2011) a estigmatização ocasionada pelos estudos no campo do HIV/AIDS, principalmente aqueles realizados no início da epidemia nos anos 1980. Nestes estudos, certos grupos passaram a ser identificados como “grupos de risco” e, com isso, o conceito adquire um caráter individualizante, marcado pela pertinência de sujeitos a determinados grupos, com características específicas que passam a ser alvo privilegiado das ações preventivas. Essas características e ações demarcam fronteiras identitárias, controlando, apoiando e criando medidas de isolamento e abstinência sexual.

La Mendola (2005) ainda acrescenta a perspectiva que atenta para o cuidado em tratar a dimensão do risco atrelada a pressupostos negativos

O deslizamento do significado do termo “risco” para seus possíveis resultados negativos oculta os pontos nodais da questão: como se Colombo quisesse naufragar ou como se um empresário, que funda sua própria identidade social no fato de assumir o risco do empreendimento, desejasse o fracasso de sua atuação econômica. É preciso, ao contrário, partir da ideia de que o perigo é uma condição imanente da vida individual e social, e que faz parte do conjunto de fatores que se interpõem entre as ações dos agentes e a tentativa de alcançar os resultados desejados explícita ou implicitamente. (LA MENDOLA, 2005. p. 60).

La Mendola (2005) complementa a abordagem dos estudos sobre risco, ao dizer que o apaixonamento moderno pelas atividades de risco nasceu da desvalorização dada aos sentidos pelo mundo contemporâneo, somado à perda de legitimidade dos referenciais e dos valores, numa sociedade onde tudo se torna fugaz, passageiro, instável e fluido. Ao tempo em que a autonomia se amplia, traz consigo o medo, o sentimento de vazio e a solidão, provocando instabilidade no panorama social e cultural.

A afirmação de uma escolha juntamente com a responsabilidade dos seus resultados é tomada individualmente, não estando isenta de culpabilização, uma vez que é mediada por processos sociais. Então, embora proporcione certa margem de liberdade ao abrir novas possibilidades, impõe o peso de uma responsabilização individual, nem sempre possível de ser sustentada. Assim, o controle dos riscos se vincula cada vez mais a estratégias individuais, já que, socialmente, há uma maior isenção em relação à responsabilidade coletiva de gestão dos riscos, assentando sobre os indivíduos o ônus pelos possíveis efeitos negativos (LE BRETON, 2007).

Neste sentido, a construção do risco como possibilidade de previsão do futuro, tendo como objetivo o controle das situações, vem de um longo caminho, delineado e aperfeiçoado por meio de teorias da probabilidade, da estatística e, posteriormente, da epidemiologia, repercutindo nas estratégias formuladas para a prevenção em saúde, assentadas e legitimadas na centralidade do indivíduo.

Essa dinâmica incidirá sobre alguns públicos na sociedade, em especial sobre um tipo de juventude que se encontra vulnerável nas periferias e é, em sua maioria, negra. Essa será irrevogavelmente culpabilizada por seus males e controlada pelos riscos que poderá trazer a si e ao outro.

Belgede FAALiYET RAPORU 2011 (sayfa 67-70)

Benzer Belgeler