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O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.

4 LIÇÕES APRENDIDAS

Em nossa intenção de investigar as práticas de educação em saúde desenvolvidas na ESF vivenciamos um processo singular de experimentação. É como se ausentar e permanecer observando nossa própria prática. À medida que nos aproximávamos dos processos de trabalho das equipes, significados e reflexões iam se delineando, dando sentido ao nosso fazer cotidiano e aflorando desejos cada vez maiores de mudança, ampliando nosso olhar, conferindo maiores implicações. As inquietações que mobilizaram as reflexões vão se recriando, renovando-se e cedendo lugar a novos conhecimentos e a novas questões. A cada mergulho na literatura, descobertas encantadoras e inquietantes.

A ideia mobilizadora do presente estudo de que as ações de educação em saúde devem se dar em caráter de complementaridade ganhou reforço e nos colocou diante de um grande desafio. A complementaridade dessas práticas deve se dar numa relação de interdependência com as ações clínicas assistenciais, de prevenção e de promoção da saúde, rompendo com a fragmentação que é condição essencial para a construção da integralidade na produção de saúde. Nesse sentido, reafirmamos que todo ato de saúde deve se dar numa perspectiva dialógica e pedagógica.

O desafio a que se propõe a ESF em se constituir o eixo estruturante da Atenção Primária e ser porta principal do sistema, pressupõe ações reflexivas e dialógicas em sua organização. As ações de promoção, prevenção, cura e recuperação ao serem desenvolvidas com vistas à integralidade do cuidado devem ser mediadas por uma prática educativa que estimule a construção de autonomias e de responsabilidades. Portanto, a produção dos atos de saúde requer uma articulação dos diversos saberes de todos os atores, no sentido de que esses saberes sejam mediadores dos momentos de produção da saúde. Nesse propósito, reforçamos a necessidade de permanente formação voltada para os processos de trabalho em saúde que dê respostas concatenadas às mudanças nas concepções de saúde-doença presentes na sociedade. O processo de educação permanente pode ser grande impulsionador para a constituição dos coletivos voltados para o desenvolvimento de atos de saúde responsáveis.

Evidenciamos nas práticas e nas falas dos atores que há mudanças significativas nas concepções de saúde-doença na perspectiva do conceito ampliado de saúde. É perceptível certo grau de compreensão de que a saúde resulta de fatores intrínsecos ao modo de vida das pessoas e da correlação com as políticas públicas, tanto pelos profissionais como pelos usuários. No entanto, reconhecemos também que a construção de autonomias demanda, além de conhecimentos, desejo e coragem para mudar o que está instituído.

O estudo evidenciou a necessidade de uma melhor articulação das ações de educação em saúde e as ações clínicas, sobretudo nos grupos de caminhada e no grupo de idosos. Contudo, essa articulação é bem perceptível no curso de gestantes. Experiência que poderia servir de referência para as demais atividades por sua atuação de forma horizontalizada e dialógica.

É importante salientar ainda a necessidade do desenvolvimento de trabalho intersetorial por iniciativa do setor saúde, no sentido de estimular a construção de cidadania na busca de respostas para as necessidades sociais em saúde, com vistas à melhoria das condições de vida, a partir da articulação das políticas públicas. Assim, amplia-se o olhar sobre o processo saúde-doença, compreendendo e exigindo a atuação do Estado em seu enfrentamento, somando-a à ação dos indivíduos/sujeitos.

As atividades de educação em saúde analisadas com base nos eixos já descritos anteriormente evidenciaram que há uma responsabilização com o cuidado integral por parte da equipe e construção de vínculo equipe-usuário, porém, a sustentabilidade das ações desenvolvidas exige condições de infraestrutura e de gestão dos processos de trabalhos para sua incorporação no cotidiano das práticas das equipes.

A análise nos mostrou que há intencionalidade de integração das ações no planejamento, mesmo que seja ainda incipiente no cotidiano das práticas. Estas ainda se dão de forma fragmentada e demandam investimentos na qualificação dos atores do processo de trabalho em saúde (trabalhadores, gestores e usuários) através de educação permanente que busque qualificar as práticas de gestão e de atenção à saúde, com reorganização dos serviços de maneira a garantir respostas efetivas às necessidades de saúde dos usuários.

Identificamos a necessidade de investimentos nas ações intersetoriais e de reconhecimento das redes sociais no enfrentamento dos problemas de saúde. As redes, quando percebidas pela equipe e consideradas como espaço de produção de saúde, podem ser potencializadas promovendo-se valorização das diversas expressões culturais locais tal qual foi constatado no desenvolvimento de atividades como o “Pastoril do Peixe-boi Encantado” cuja ideia foi aproveitada para trabalhar as ações ligadas à qualidade de vida e ao bem-estar da população; o Auto de Natal, no qual se aproveita a encenação do nascimento do menino Jesus correlacionando-o à situação social evidenciada no bairro; e o grupo “Terapia e Arte”, que surgiu a partir do olhar de uma ACS sobre a ociosidade das mulheres do bairro, potencializando a troca de saberes acerca de trabalhos manuais.

O diálogo desenvolvido com os usuários através das citadas expressões culturais evidenciou um movimento ao encontro de um novo fazer em saúde respeitando os desejos, interesses e tradições presentes no território, numa demonstração de respeito ao que é significativo para os usuários em seus processos de enfrentamento às adversidades da vida. Ou seja, compreendendo a cultura como um contexto a ser considerado em suas práticas de educação em saúde, pois é através da cultura que as pessoas expressam suas visões de mundo. As interações intersubjetivas no cotidiano das práticas de cuidado são evidenciadas no desenvolvimento do trabalho em equipe a partir da construção de vínculos afetivos com os usuários, com uma presença significativa do uso de tecnologias relacionais. No entanto, percebe-se ainda a necessidade de mais investimentos no campo do saber/fazer dos profissionais no propósito de transformar a escuta tradicional normativa em uma escuta como ferramenta de diálogo relacional, na perspectiva da construção subjetiva como sugerem Merhy (2007a) e Ayres (2009).

Desenvolver ações de educação em saúde na perspectiva da integralidade requer uma proposta educacional que proporcione aos usuários a condição de sujeito, o que implica na promoção da autonomia. Trata-se de ação que deve ser desenvolvida como parte constituinte dos projetos terapêuticos, sejam estes individuais ou coletivos.

A Educação Popular, a nosso ver, por proporcionar o reconhecimento da própria condição social do cidadão, com vistas à transformação social, mediado pela ação-reflexão- ação, pode propiciar a melhoria das condições de saúde de forma consciente e responsável. Os elementos aportados anteriormente reafirma a importância da institucionalização das ações de educação em saúde mediante um processo de educação permanente, promovendo o diálogo constante entre equipes, usuários e gestores locais, respeitando-se e potencializando-se as iniciativas locais. Alternativas profícuas nesse propósito seriam oficinas locais mediadas pelo matriciamento das equipes. Nesse sentido, ressaltamos a importância da implantação de NASF com discussão junto às equipes acerca das necessidades da população.

A análise produzida a partir da observação dos processos vivenciados neste estudo aponta a necessidade de um melhor reconhecimento por parte dos gestores locais de que ações semelhantes as que ocorrem na USF Felipe Camarão II são atividades que apresentam grande potencialidade na conquista da integralidade ao proporcionarem a todos os atores implicados no trabalho em saúde – trabalhadores, usuários e gestores - possibilidades de participação e de corresponsabilização.

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Benzer Belgeler