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14 de novembro, 15h.

uarta-feira. Conforme havia combinado com uma das participantes do grupo “Conviver”, vou ao seu domicílio realizar entrevista. É uma participante do grupo “Conviver para melhor viver” e tem 65 anos. Ao chegar a sua casa, ela diz que está ansiosa por minha chegada. Antes de iniciarmos a entrevista, percebi que ela tinha uma necessidade muito grande de conversar. Ela foi logo falando sobre o que achava do atendimento nos serviços de saúde, falou de suas experiências com os familiares em casos de doenças. Falou com bastante entusiasmo sobre as conquistas da filha de 40 anos. Após uns trinta minutos de conversa eu tive que interrompê-la para iniciar nossa entrevista. Iniciei solicitando que ela me falasse da sua experiência no grupo, como foi que ficou sabendo, por que e quando resolveu participar.

Percebemos em um momento de sua fala a importância do trabalho do ACS no acolhimento à comunidade, reconhecendo suas necessidades e fazendo encaminhamentos para as ações coletivas de educação em saúde:

Há tempo que [...] (ACS) me adiantava essa conversa sabe. Dizia: por que a senhora não participa? Aí quando foi, faz uns quatro anos, eu comecei ali [...]. Aí... eu fazia uns curso lá na esperança, que sempre eu faço... aí comecei a participar dali desse. Participo também da ginástica três dias por semana. Mas às vezes eu só vou os dois porque eu já ando muito durante a semana e participo também desse negócio aí, né. Aí passei a participar dali daquela reunião à tarde né? [Entrevistada 2]

Apesar de minhas tentativas de focalizar a entrevista na questão da atividade coletiva, a necessidade da usuária de falar acerca de suas necessidades de saúde e da forma como eram atendidas se colocava em plano principal. Então a usuária foi falando sobre suas experiências de atendimento e suas reivindicações. Percebia as falhas na organização do atendimento na Unidade de saúde e suas deficiências. Ouvindo-a atentamente, fui percebendo o quanto ainda estava presente em suas recordações as experiências do modelo de assistência que antecedeu a ESF. Antes da ESF as UBS eram organizadas com equipes multiprofissionais constituídas de pediatras, ginecologistas, nutricionistas, psicólogos, entre outros. No entanto, funcionavam sob a lógica das consultas individuais e desarticuladas umas das outras. As sequelas desse

modelo biomédico com ações fragmentadas existem e resistem, sobretudo, no que se refere à organização da demanda, a qual ainda mantém a lógica centrada na doença cuja organização do serviço ainda não conseguiu solucionar. Organizar a demanda segundo os princípios do acolhimento às necessidades de saúde ainda consiste em um grande desafio para gestores e trabalhadores. Destacamos a fala da usuária:

Não só eu, mas muita gente que vem lá do pé do morro tarde da noite, né... pra pegar ficha né... acho isso muito errado, né? Era pra ter mais médicos, né? [...] Ter uma pediatra, ter realmente uma dentista... como alí já teve dentista... o pessoal ia de meia noite, de madrugada... tinha gente que dormia lá... passava a noite... para tirar uma ficha... tinha gente que vendia ficha como no INSS ou como no IPE tinha umas pessoas que passava a noite lá e vendia a ficha por cinco reais, dez reais, né [...] mas ali deveria ter assim... inclusividade assim... um médico pediatra mesmo pa atender criança, né? Já que tem Doutor [...] era pa ter a de idoso e a pediatra mesmo de criança né? [...] aí eu acho assim, que ali devia ter mais médico... um atendimento melhor, né. [Entrevistada 2].

O depoimento da usuária nos remete a pensar em um dos aspectos do Acolhimento que é a acessibilidade aos serviços de saúde que ela nos traz em forma de insatisfação, pelo fato do serviço não estar organizado com adequação tecnológica e, consequentemente, apresentar baixa resolutividade. Isso nos instiga a refletir sobre os inúmeros equívocos vivenciados no cotidiano dos serviços. Um deles é a redução do sujeito pela objetivação da doença, o que condiciona a organização da demanda centralizando a doença como a necessidade de saúde, desconsiderando o contexto ao qual o usuário está inserido e, portanto, exigindo a soberania do conhecimento técnico-científico na conformação da oferta (PINHEIRO et al., 2010). Em consequência disso, os serviços ofertam procedimentos prescritivos, ao invés de produção de atos de saúde, gerando as intermináveis filas para consultas médicas.

Cecílio (2001) faz um alerta importante para a organização dos serviços de saúde no tocante à distinção entre demanda e necessidade. A demanda pode ser compreendida como um pedido explícito e que de certa forma vai sendo modelada pela oferta dos serviços. As necessidades de saúde podem ser a busca de algum tipo de resposta para qualquer uma das condições a que são submetidos os usuários.

Para Franco e Merhy (2007) o trabalho em saúde se traduz em encontros entre trabalhadores e usuários, nos quais se operam processos tecnológicos (trabalho vivo em ato) que visam a produção de relações de escutas e responsabilizações. Faz-se importante que a equipe compreenda que todos acolhem e todos serão acolhidos de forma a resignificar o

trabalho, proporcionando uma relação prazerosa entre os trabalhadores e os usuários. Nessa perspectiva, se reorganiza o processo de trabalho, modificando a ideia de demanda trazida pelo usuário que muitas vezes confunde com a ideia de cuidado, e produzindo intervenções sobre as necessidades concretas dos usuários. Nesse sentido, os autores propõem

Agir com um acolhimento como um dispositivo que interroga processos intercessores que constroem “relações clínicas” das práticas de saúde e que permite escutar “ruídos” do modo como o trabalho vivo é capturado conforme certos modelos de assistência, em todo lugar que há “relações clínicas” em saúde; além de expor a “rede de petição e compromisso” que há entre “etapas” de certas linhas de produção constituídas em certos estabelecimentos de saúde, interrogando centralmente as relações de acessibilidade (FRANCO; MERHY, 2007 p. 39).

Para poder construir esse projeto de acolhimento é preciso analisar o que estamos produzindo nos nossos encontros cotidianos com os usuários. Sobretudo ouvir os usuários em suas condições de sujeitos para que possamos buscar caminhos novos, novos coletivos, novas perspectivas. Abrir-se para ouvir o outro demanda um despojamento das ideias preconcebidas, demanda responsabilização e compromisso com a fala do outro e, muitas vezes, não estamos preparados para tal atitude. Acolhimento é atitude ética, educacional e emancipatória.

Apesar das falhas na organização da ESF é possível perceber indícios de mudanças na forma de fazer dos profissionais, rumo a uma melhor escuta das necessidades de saúde dos usuários.

Assim, por causa dessas, tipo: isso aí, ginástica é uma terapia, né? Essa, como é, educação física, né?, é uma terapia e a ocupação da mente com as coisa do artesenato né? Essas reuniões, tudo é muito bom pra pessoa, né? inclusive na idade da gente. Sabe aí, aí graças a Deus, esse negócio que me dava... aquela coisa tonta no meu corpo, aí ali eu caía... caí muitas vezes na hora do banheiro.. .caí duas vezes em cima de fogo [...]... a mudança né, como a menina lá falou... a mudança de vida, mudança dessas coisas né? A terapia. A física né? La na fundação eu gosto, e a atividade física dos artesenato ali. Aquela animação ali do posto de saúde, ali da reunião da gente que era lá do conselho e não é mais... aí mudou e foi melhorando muito a minha cabeça, tá entendendo? [...] acredito nisso, também... a fé em Deus né, nas correntes...né? tinha mais insônia, hoje em dia num é mais (Entrevistada 2).

Nesse momento percebe-se que a usuária, semelhante às demais participantes do grupo, compreende a importância dos encontros proporcionados pela atividade coletiva para seu processo de enfrentamento ao adoecimento. O que poderíamos inferir que o processo de

trabalho desenvolvido naquela Unidade de saúde, apesar de suas fragilidades, tem proporcionado mudanças na concepção saúde/doença por parte dos usuários.

MUDANÇAS NA CONCEPÇÃO DE SAÚDE E A MELHORIA DA QUALIDADE DE

Benzer Belgeler