Os estudos que visam tecer correlações entre a moral e a personalidade (o Eu) perpassam pela constatação de que a moral não diz respeito apenas ao conhecimento e “obediência” de regras e deveres, mas à busca de uma boa vida.
Essa vida “boa”, desejável, é representada por um conjunto de aspirações, de conceitos e auto-conceitos construídos por alguém. Ao pensarmos em aspirações e sonhos, o Eu é definido por La Taille (2002/ 2004) como representações de si, um conjunto de qualidades, características, expressões que definem uma pessoa, uma individualidade.
A pergunta “que vida viver?” relaciona-se a “para que viver?” e também a “quem ser?”. Destaca-se, assim, a temática da identidade pessoal, da construção de uma personalidade moral. Assim sendo, as respostas dadas a pergunta “como quero viver” são inseparáveis das repostas dadas a “quem eu quero ser”, em estreita dependência de projetos e anseios pessoais, concebidos juntos na formação da personalidade moral ao longo da infância e da adolescência.
Logo, a expansão de si próprio representa motivação psicológica a ser contemplada para que um indivíduo experimente o sentimento de bem-estar subjetivo. Tal expansão significa e representa a necessidade que todo ser humano tem de se ver como indivíduo de valor. Os indivíduos sentirão obrigação para com determinados deveres e normas se essas representam ou expressam valores para aqueles que a seguem e estão ligadas à própria auto-afirmação. Valores esses que forem agregados na interação com outros, mas que se referem e constituem a própria personalidade. Em outras palavras, identificamos no plano ético as
motivações, os rumos e os objetivos traçados que explicam as ações e opções no plano moral.
Dessa forma, La Taille (2002), apresenta um dos caminhos que os estudos recentes têm se debruçado ao destacar as teorias que procuram integrar a moral e a personalidade.
Nesse caso, no estudo psicológico das relações entre moralidade e personalidade (o Eu), o julgar e o agir estão estritamente relacionados ao conjunto de representações que uma pessoa faz de si. Isso constata a complexidade das condutas humanas, já que os chamados deveres morais estão ligados aos conceitos que as pessoas possuem de si mesmas, sendo um dos fatores que integram a sua moralidade, interferindo significativamente nas condutas humanas.
Cabe afirmar que estudar a moral é entender e verificar a sua complexidade, não bastando um desenvolvimento intelectual para um agir moral, mas também pensar em termos de objetivos pessoais, valores, auto-conceitos e idéias que as pessoas nutrem e constroem para si mesmas.
Questões levantadas na obra acima citada de La Taille remetem ao fato de que a representação que a pessoa faz de si é sempre valorativa, o que implica sempre um juízo de valor. A imagem que fazemos de nós enquanto seres humanos ao formar nossa identidade situa-se perante valores, interpretados de forma mais ou menos positiva, entre desejável ou indesejável. Os valores não são neutros e, sim, tidos como bons, desejáveis ou menos desejáveis e implicam uma escala de valor e de julgamentos.
É relevante destacar que a representação que o sujeito tem de si mesmo forma um sistema. Esse sistema é explicado pelo lugar que situam os valores e pela integração dos mesmos (combinação entre si).
Verificamos então, que, dependendo dos objetivos que irão orientar o projeto de vida das pessoas (até serem reformulados ou substituídos por outros), os indivíduos agregam valores à sua personalidade, de forma que alguns podem ser valores morais (eqüidade, solidariedade, respeito), contribuindo para a harmonia das relações, e outros podem ser desprovidos de cunho moral, valores não morais (ter fama, ter prosperidade financeira, ser belo, ser inteligente, ser sedutor, ser trabalhador).
Segundo La Taille (2002; 2006) e Araújo (1999), os valores são definidos como resultados de investimentos afetivos e situam-se de forma mais
central ou periférica na personalidade humana, variando de indivíduo para indivíduo. Isto explica o lugar dos valores e o investimento afetivo que se destinará perante ele.
Em algumas pessoas, valores morais, como o respeito pelo outro, justiça e honestidade são apresentados como centrais, situados na subjetividade como valores importantes. Na construção da auto-imagem, na formação de sua personalidade, esses valores são agregados e presentes. Dessa forma, podemos dizer que as ações dessa pessoa tendem a se direcionar por escolhas que traduzam estes valores de justiça, honestidade e solidariedade, ainda que outros elementos interfiram na ação ou escolha moral.
Em outras pessoas, valores como ser belo, rico, uma pessoa viajada, que conhece lugares podem ser seus “objetivos de vida”, relacionados como vida boa e desejável, e estes irão reger suas condutas. Essas pessoas tenderão por opções que, a despeito da justiça e da honestidade, outros valores podem ser norteadores para ações, dado que a beleza ou a riqueza podem aparecer como valores centrais, representantes da imagem de si mesmo.
Logo, esse indivíduo investirá mais esforços, ânimo, tempo e habilidades para corresponder a essa imagem. Quando a pessoa passa por uma situação de choque valores, por exemplo, entre “ser uma pessoa honesta” ou ser “uma pessoa bem vestida, de status”, os valores que estiverem agregados de forma central à personalidade apresentarão maiores investimentos.
A identificação pessoal com determinados valores e objetivos de vida tendem para ações diversificadas, que buscam encontrar meio e possibilidades de satisfazer os objetivos que norteiam o projeto de vida.
Percebemos atualmente a influência da mídia em propor produtos, sejam alimentícios, de vestuário, de cosméticos, que irão fazer o homem mais belo, atraente, seguro, boa pessoa, de modo que usufruir determinados produtos está relacionado a uma determinada imagem.
Tal imagem, vendida pela mídia, veicula os valores de ordem do ter (determinada aparência ou bens materiais) e ainda pode ser reforçada e encorajada pela família, outros meios de comunicação e amigos. Assim, na agregação de valores à personalidade, que irão formar a identidade pessoal, há influências simultâneas de família, escola, sociedade, cultura além de fatores econômicos, identificando relações complexas na formação da personalidade.
Em nossa cultura percebe-se a crescente influência que os valores não morais tais como fama, sucesso, aparentar ser vencedor, elegância, juventude, entre outros relacionados à glória tem sido influentes na vida dos jovens (La Taille, 2006). Os valores estão sendo relacionados cada vez mais à esfera privada. Este dado é comprovado pelos estudos de Tognetta e Vinha (2008), que ao questionarem sobre o que indignariam os estudantes, encontraram que 76% dos jovens de escolas públicas e privadas responderam que se indignariam diante de situações de injustiças acometidas contra si ou os seus próximos.
A mídia propõe padrões de beleza e vestimenta, como um belo corpo masculino ou feminino, ditando atitudes para o agir em relação aos sentimentos, paquera e namoro. Além disso, propõe modelos de ser adolescente e modelos para criação de filhos. Enfim, há uma gama de valores sendo veiculados em nem sempre repensados em termos de valores morais ou não morais.
A segunda forma de explicar o sistema de representações de si diz respeito a integração. Nesse sentido, La Taille (2002/2004) descreve que em algumas pessoas os valores estão integrados entre si, enquanto em outras os valores apresentam-se isolados, aplicando, assim, um conceito de sistema e níveis hierárquicos dos valores em integração.
Um exemplo esclarecedor é o indivíduo poder possuir em seu sistema valores como justiça, coragem e humildade integrados, enquanto outros poderiam se ver como justos e generosos, com nenhum outro valor associado. Encontraremos que os valores integrados são mais fortes que os valores isolados, possuem uma maior dinâmica motivacional. Quanto mais integrados os valores, eles terão maior força de ação e motivação e de investimentos afetivos, mais coerentes serão as ações do que aqueles para o quais os valores estão isolados ou pouco integrados.
Portanto, diante desses estudos psicológicos da moral, podemos dizer que as relações de autonomia ou de heteronomia moral remetem primeiramente à construção da personalidade, da identidade moral, que possui um sistema de valores que se interpenetram de forma central ou periférica, podendo estar integrados ou isolados.
Sabe-se que desafios a partir dos estudos em moralidade são apresentados aos educadores. As ações educativas não devem priorizar pelo desenvolvimento do juízo moral ou o desenvolvimento de estruturas cognitivas, pois,
embora importantes, não definem as ações. Deve-se considerar que as ações educativas torna-se de amplitudes maiores quando apresentamos as teorizações que existem entre o pensar e o agir moral, correlacionadas com representação que o indivíduo faz de si mesmo e com a formação da identidade.
Tal fato torna-se mais complexo em termos pedagógicos, já que representa um tema multifacetado. Os educadores têm diante de si a tarefa de formação. Portanto, há necessidade de repensar os valores propostos, ao começar pela escola.
Vale questionar quais valores estão em evidência na escola, no ambiente da sala, da quadra, no jogo, bem como quais valores são destacados, almejados, valorizados pela nossa cultura brasileira. São valores que prezam pela honestidade, dignidade, respeito, solidariedade e justiça entre todos? É relevante perguntar que tipo de interações escolares entre alunos-alunos, professores-alunos definem o ambiente escolar. Seriam interações cujo valor moral está em evidência?
Alguns, ao deparar-se com tais perguntas, poderiam argumentar, de modo não muito otimista, que as crianças já aprendem valores e constroem uma imagem de si mesmas muito antes de freqüentarem a escola, ou ainda que outros ambientes destacam-se no processo de formação infantil, permitindo que elas agreguem valores nesses outros ambientes, ou que o “problema moral” está no cerne da própria sociedade, encontrando raízes mais profundas de tradição histórica e cultural. Assim, o que faria a escola com suas horas semanais?
Essas reflexões não são colocadas no intuito de serem respondidas no presente trabalho, mas devido ao significado que encerram na construção de pensar e agir moral não podem ficar de fora quando se pretende estudar sobre a autonomia e heteronomia moral.
Aprender a educar sobre valores éticos e morais significa pensar também em todas as questões que ultrapassam o ambiente escolar, fazer a “leitura” do contexto em que estamos, repensar na formação e organização histórica, cultural, econômica da sociedade em que vivemos. Significa também oportunizar aos alunos que pensem criticamente sobre determinados assuntos, sobre os próprios valores, possibilitar escolhas, sentimentos, não lhes oferecendo respostas prontas, mas ajudando-os a desenvolver-se nas relações humanas, a despeito do fato de que outras instituições colaboram na formação moral.
Vinha, em recente palestra “A escola e a construção de personalidades éticas” (setembro de 2008), apresentou alguns fatores que podem interferir significativamente no desenvolvimento de personalidades éticas. São eles: (1) o professor, suas concepções, críticas e elogios; (2) o ambiente oferecido na escola, seja de coação ou de autonomia; (3) um espaço no horário curricular que trate de temas específicos e que promova o desenvolvimento do juízo moral; (4) o fato de ensinar moral com tema transversal e interdisciplinar e, por fim, (5) as relações estabelecidas entre escola e comunidade, quando essas unem-se para privilegiar atitudes que promovam a autonomia. A escola, dessa forma, não trabalha solitariamente, mas une esforços com a comunidade a qual serve.
Educar pensando em termos de autonomia e heteronomia significa também entender tais conceitos dentro da epistemologia genética, reelaborando os conhecimentos juntamente com estudos sobre a identidade e formação da personalidade, que integra a afetividade. Na seqüência, trataremos de desenvolver os temas de autonomia e heteronomia.