4. KENTSEL KUŞAK ALANLARI 25
4.4 Kentsel Kuşak Tiplerinin Farklılaşma Dinamikleri 34
4.4.3 Endüstri dönemi ve sonrası 38
A heteronomia é a fase quando a fonte e a legitimação das regras estão no outro e dependem dele. Significa acatar normas segundo o que o outro dita, sendo, dessa forma, regulado pelo outro. Esse outro é o adulto, representado pelos pais, professor, diretor, avô ou avó, ou seja, pessoas que se relacionam entre si e dão direções sobre o que se deve ou não fazer.
Esta moral tem como característica o egocentrismo e a submissão. O egocentrismo significa que a criança, na fase de heteronomia, ainda não se coloca no lugar do outro, sendo submissa ao juízo do adulto, o qual faz e dita o que é certo, justo e bom, regulando, assim, a ação alheia. Logo, a criança adentra no mundo moral com a consciência do dever emanado pelo adulto e, por estar em fase de heteronomia, fica mais suscetível de aceitar as ordens, mesmo sem compreendê- las, necessitando de um gestor.
A criança recebe do adulto e do ambiente externo o exemplo das regras codificadas, os anúncios do dever. Quando Piaget estudou sobre o jogo de
bolinhas entre as crianças, encontrou que elas jogam juntas, mas cada uma joga para si, sem cuidar da codificação das regras para, depois, considerar a regra literalmente.
Em relação à consciência das regras, percebemos que é considerada sagrada, imutável, até de origem divina, sendo toda possível modificação considerada errada, como uma transgressão ou falta. Segundo Piaget, “mesmo o consentimento unânime de todas as crianças nada valeria em relação à verdade da tradição” (PIAGET, 1932/1977, p.53).
A fonte, a obediência e o respeito estão sempre no outro. Sendo assim, a heteronomia:
É a moralidade não contratual. Este tipo de moral é circunstancial, ou seja, depende de fatores exteriores, como pressões condições, ordens, etc. A heteronomia é resultante das relações de respeito unilateral, que é o respeito que a criança sente pelo adulto, engendra em submissão, pois o justo define-se pela obediência (VINHA, 2003, p.15).
Já que a obediência às regras provém de outras pessoas, há o respeito unilateral dos pequenos pelos mais velhos e a coação dos adultos para com os mais novos.
Na heteronomia, a base da relação é o respeito unilateral, quando as instruções são seguidas, dando continuidade às normas de geração em geração. Esse respeito unilateral é uma relação assimétrica. Existe a figura de autoridade ou de prestígio, a qual dá ordens e direções, exercendo pressão sobre o outro, que sente para com aquele o sentimento de dever, de respeito e obedece. Isso constitui um tipo de relação social em uma via de mão única, ou seja, do adulto que age e determina sobre a criança e dessa que as acata porque o respeita.
A consciência do dever é essencialmente heterônoma, isto é, devo fazer porque o outro disse ou mandou. O “dever”, neste caso, é a aceitação das instruções recebidas do exterior, independente da consciência e se impondo de forma obrigatória quaisquer que forem as circunstâncias e intenções. Além disso, quando falamos em respeito, para Piaget, é sempre uma mistura de amor e temor (medo). Com isso, a criança respeita e obedece, porque no respeito intervêm esses dois sentimentos, ela ama e teme o adulto.
Piaget descreve que a coação externa encobre e disfarça o egocentrismo e até o reforça. Menin (1996, p.50) descreve esse egocentrismo infantil como:
[...] capacidade emocional, intelectual, social e até perceptiva das crianças pequenas. Sendo egocêntricas, centradas em si mesmas, elas não conseguem perceber que há pontos de vista diferentes do próprio; elas não conseguem se colocar no lugar do outro e enxergar qualquer coisa do mundo de sua perspectiva que não seja a própria.
O que percebemos nas relações dos pequenos, então, é o egocentrismo somado à atitude de coação dos adultos, quando esses os mandam obedecer a regras. Dessa forma, a criança começa a imitar os mais velhos, os professores e a agir como se tudo fosse fornecido pronto.
A coação exercida pelo adulto ou pelo mais velho na relação, seja o professor ou o diretor, e o egocentrismo inconsciente da criança são unidos, gerando o respeito unilateral. A criança “não pode estabelecer um contato recíproco com o adulto, porque fica fechada no seu eu“ (PIAGET 1932/1977, p.53), uma vez que, no egocentrismo, a criança confunde o eu com o mundo exterior.
Vale ressaltar que a coação da figura de maior poder, como de alguma autoridade, impõe opiniões, costumes e regras prontas. A criança, nesse caso, não compreende a razão de ser das regras, por isso é considerada heterônoma. Para tornar-se consciente de seu eu, é necessária a libertação do pensamento e da vontade do outro.
O egocentrismo infantil caracteriza-se por uma indiferenciação entre o eu e o meio social. Um bom exemplo disso é quando uma criança, ao saber onde se localiza a casa de sua avó, fala para a professora de sua avó, como se aquela a conhecesse.
Um outro exemplo é quando uma criança, no horário do lanche, entra na sala dos professores e diz “gente, gente, sabe o Fulano, ele está me batendo.” Nesse caso, porque a criança conhece o aluno, considera que todos presentes ali na sala de aula, deveriam saber quem ele é também. Tais crianças contam do mundo, da vida ou do final de semana como se todos estivessem voltados para ela própria.
Sendo assim, percebe-se que a criança, ao considerar o seu próprio mundo e o adulto como aquele que sabe mais, entende que este tem o poder de regular sua vida, dando-lhe ordem e controlando suas ações. É importante frisar que o sentimento de obrigação, conforme Piaget, nasce com o respeito que a criança tem para com aquele que emana as normas. Ela obedece, porque teme e respeita a figura de quem lhe solicita determinadas obrigações e deveres de comportamento.
A criança, egocêntrica, obedece ao adulto, porque está na presença de uma relação assimétrica, isto é, desigual com o adulto ou alguém que respeita e que está presente em um dado momento de sua vida, estabelecendo regras, que ainda permanecem exteriores à consciência do indivíduo.
Na ausência da figura do adulto, o sujeito com características heterônomas fará determinadas coisas porque o outro disse, sendo o adulto considerado superior a elas. Ao contrário do que Piaget postulou, na moralidade autônoma, não é apenas saber quais regras são boas, mas encontrar a essência dos motivos, reconhecendo os princípios que as regem e sabendo o porquê de obedecer. Na heteronomia, há obediência. Porém, não por convicção da pessoa ao obedecer às regras por elas serem legítimas, boas e adequadas.
Como exemplo na heteronomia, Vinha (2003) afirma que se uma pessoa corre o risco de ser punida em certa situação, ela não irá roubar, ou mentir, ou desrespeitar, pois o outro, dado que esse regula a sua ação pode flagrar. Por outro lado, se não há condições de ser pega cometendo tais ações, há grandes chances de cometer “o ato”, desconsiderando a regra, pois sua obediência depende da presença e do olhar do julgamento alheio. Assim sendo, a heteronomia está em dependência da regulação do outro.
A heteronomia, segundo a obra de Piaget (1932/1977), traduz-se pelo realismo moral, o qual apresenta três características principais. A primeira é que a pessoa heterônoma considera como ato bom, justo ou adequado toda obediência às regras que outros impõem, seja o adulto ou alguém que detém a autoridade.
A segunda característica do realismo é que a regra é considerada de forma literal e não no seu sentido mais profundo, sendo interpretada de maneira rígida, ao “pé da letra”. O sujeito não é capaz compreender as razões das regras e é limitado em pensar além daquilo que é dito ou observável.
A terceira característica diz que os atos são julgados não pela intencionalidade, como quebrar algo ou trombar em alguém propositadamente, mas
pela motivação daqueles que os realizaram. Em função das conseqüências, as ações são julgadas a partir da objetividade, das conseqüências materiais observáveis.
Nota-se que a heteronomia é uma forma primitiva de consciência das regras, sendo considerada importante, pois é a partir dela que surgem condições para outras formas de pensar e agir se desenvolvam, denominadas de autonomia.
Como explica La Taille (2001), a heteronomia avança em relação ao estado de ausência de regras em que a criança estava (anomia) e colabora para que surja um sentimento de controle e obrigação moral, pois, nessa fase, os deveres são reforçados. Considera-se a heteronomia relevante ao preparar o terreno, servindo de base para as novas construções que as crianças poderão fazer.
Além disso, Piaget (1932/1977, p.155) confirma que, mesmo que a coação não seja a única forma de relação educacional, “em educação, não é possível evitar completamente, dar à criança ordens incompreensíveis para ela”. Ressalta ainda que, em determinada idade, naturalmente há situações de sujeitos heterônomos, que apenas obedecem, sendo incapazes de compreender a real necessidade de normas as quais regem as condutas. Na coação, há imposição de regras já elaboradas. Na cooperação, há um método de elaboração das próprias regras, que são racionais.
Vinha (2003) descreve que a maioria dos adultos mantém uma relação de heteronomia, sendo exemplos de tal condição a responsabilização do outro pelas nossas atitudes, sentimentos e reações. O interessante é que, se não houver uma tomada de consciência das formas de legitimar as regras, indo além para os princípios e valores que as sustentam, repetimos a forma com que fomos educados moralmente, com forte influência de coação e obediência impensada.
Uma vez admitindo a correlação entre identidade e valores a partir da exposição de La Taille (2001; 2002), podemos considerar que as pessoas heterônomas somente seguem valores quando são influenciadas por certos contextos e pessoas. Ao mudar o contexto, muda-se de ação, a pessoa heterônoma sofre pressão do mundo externo e molda-se por isso, adaptando-se à situação. Assim, deixa de observar ou passa a observar valores a partir de uma referência externa.
Nesse caso, pode-se admitir a hipótese de que os valores morais são periféricos e não centrais, ou que no sistema de representações de si, os valores morais são pouco integrados entre si. A pessoa heterônoma cede às pressões, permanece vulnerável a qualquer influência, e, por isso, manifesta ações controversas, ora age de acordo com certos deveres morais, ora não.
Outro fato a ser destacado é que se somos heterônomos, tendemos para a heteronomia em nossas relações interpessoais, reforçando em nossos alunos, filhos, sobrinhos, a forma de legitimar valores conforme aprendemos, alegando que eles devem nos ouvir e obedecer, porque, senão, algo irá acontecer.
O que representa tal “senão” na fase de heteronomia? Significa que se não obedecer ao amigo, irá contar o que aconteceu, senão alguém irá ver e castigar, ou, ainda, porque a câmera está filmando, ou uma vez que não fizer, sofrerá uma dura punição, ou quem detém maior autoridade chegará e ficará sabendo.
Enfim, lançamos mão de várias estratégias que deixam claro que o importante é obedecer, seguir por medo e sem pensar, acatar o que o outro diz, pensa e julga. Dessa maneira, não esclarecendo os motivos da obediência e do valor inerente a uma ação, dos motivos que validam uma regra social e da própria razão de existir daquela regra. A heteronomia representa sempre a conformidade e aceitação das regras sem questionamento, dado que as normas permanecem exteriores às convicções pessoais e ao próprio entendimento.
Os valores e princípios mais importantes irão oferecer convicção pessoal de que aquela ação é boa, bem como elucidar as devidas conseqüências naturais se não forem respeitadas determinadas condutas. As perguntas constantes que devem nos acompanhar nesse trabalho abordam “o que queremos em termos de sermos humanos: alunos que só obedecem porque são coagidos e que se desenvolvem em ambientes de respeito unilateral?”.
A heteronomia, enquanto fase inerente à condição do ser humano, serve de base para que as condições de autonomia e as relações de respeito mútuo possam ser construídas. Além disso, possui a função de estabelecer, nos primeiros anos, um ambiente que gera sentimentos de dever e obrigação, permitindo a criança entrar em contato com as regras, normas e deveres.
Alia-se a essa descrição de heteronomia, o pensamento de Menin (1996, p.94) ao destacar que “o problema com as relações de coação é que elas
tendem a perdurar muito mais que o necessário, perpetuando relações de mando- obediência, que não teriam razão de ser”.