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Inicialmente, em nossa pesquisa, não iríamos analisar o processo referencial dêitico, porém, devido à recorrência deste processo nos gêneros textuais que coletamos, resolvemos inseri-lo em nossas análises. Para isso, passaremos agora a apresentar a definição de dêixis que será considerada nesta pesquisa, tendo em vista a relevância dos trabalhos de Cavalcante na área, sobretudo Cavalcante (2011), que tomaremos como referência também para esta definição.

A partir de Bühler ([1934]1982), temos observado o interesse para certas expressões referenciais cujo significado completo depende de aspectos da situação enunciativa. Interpretar esse tipo de expressão exige dos interlocutores o conhecimento do lugar ou do tempo em que se encontra o enunciador. Temos como exemplo destas expressões

palavras como eu, você, aqui, ali, hoje, ontem, aquilo etc., pois mudam de referente em função da perspectiva que o falante toma no ato da enunciação.

Vejamos, em (17), um exemplo apresentado por Cavalcante (2011), no qual o enunciador se coloca como o lugar de origem do sistema dêitico, ou seja, o ponto de referência para as coordenadas de espaço e tempo da situação de comunicação.

(17)

D.:

Aqui, estou eu novamente... Eu não a esqueço nunca, DOIDA GENIAL!!! Adooooooooooooro você!!! Um beijão...

Saudade das suas aulas maravilhosas e de você, é claro! Responder.

(CAVALCANTE, 2011, p.93)

Neste exemplo (17), o dêitico “aqui” representa o momento e o lugar, em que o enunciador “D.”, representado em outra sequência pelo dêitico pessoal “eu”, envia sua mensagem ao interlocutor, representado no discurso pelos termos “a” e “você”.

A princípio, a dêixis era classificada apenas com base nas coordenadas de pessoa, tempo e lugar, pelo fato de este processo fazer referência à situação em que o enunciado é produzido, sendo reconhecida, somente, as dêixis de pessoa, tempo e espaço. A partir de Fillmore (1971), houve um acréscimo aos três tipos tradicionais: a dêixis textual e a social. Posteriormente, a dêixis de memória foi acrescentada aos cinco tipos já existentes. Vejamos, em seguida, um quadro em que resumimos a diferenciação entre os tipos de dêixis encontrados em Cavalcante (2011).

Quadro 2 – Tipos de Dêixis.

Tipo Caracterização Exemplo

Dêixis de pessoa

Identifica os interlocutores na situação de comunicação, por isso só abriga os dêiticos de primeira e segunda pessoas. As distinções básicas da

dêixis de pessoa são: a primeira pessoa, a segunda pessoa e a terceira pessoa.

(18) A dor a mais A dor a mais Foi só muito amor Muito amor demais Foi tanta a paixão Que meu coração, amor, Nem soube mais

Inventei a dor

E como ela nos doeu (...)

(Vinicius de Moraes, citado por Cavalcante, 2011, p.95)

Dêixis de espaço

Oferece uma especificação de localização do falante e seu interlocutor no ato comunicativo.

(19) A figura abaixo foi retirada do site UOL. A homepage, que tem estrutura semelhante à primeira página de um jornal, traz as chamadas das notícias principais de determinado momento do dia (...)

(artigo acadêmico – Vicente de Lima Neto, citado por Cavalcante, 2011, p.104)

Dêixis de tempo

Situa o ponto de origem do falante e seu interlocutor no momento da enunciação.

(20) É preciso salvar vidas

A bióloga Mayana Zatz é uma das maiores

especialistas em células-tronco do país, com quase 300 trabalhos científicos publicados. Nascida em Israel, mora no Brasildesde os 7 anos. Atualmente, ela é pró-reitora de pesquisa e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. (...)

(Entrevista – Veja,5/3/2008 citado por Cavalcante, 2011, p.99)

Dêixis social

Representa formas que codificam relacionamentos sociais entre os participantes da conversação. Partem do centro dêitico do falante.

(21) ... Venha na mesma hora, espero no portão e mamãe não vê. Se o doutor não vier é sinal que não tem a mínima simpatia.

(Dalton Trevisan, citado por Cavalcante, 2011, p.113) Dêixis de memória Convida o coenunciador a buscar, na memória, um conhecimento partilhado sobre um referente não mencionado no cotexto.

(22) “Sabe aquele desejo incontrolável de ter alguma coisa que não dá para esperar até o mês que vem? O Sudameris sabe.”

(Cavalcante, 2011, p.113) Dêixis

textual

É a que se orienta pela posição do último enunciado no cotexto. (CAVALCANTE, 2011, p.105)

(23) Palas e poses

RIO DE JANEIRO – Lidas assim, nuas, sem outros balangandãs verbais que ajudem a lhes emprestar sentido, as palavras acima parecem agora foragidas do teatro grego ou de um poema medieval. (...) (artigo de opinião, Ruy Castro, Folha de S. Paulo- 13/03/07, citado por Cavalcante, 2011, p.105)

Fonte: (CAVALCANTE, 2011, p. 95-113, apud VASCONCELOS DE SÁ, 2014).

Segundo Levinson (2007), a dêixis é definida, no processo de elaboração de sentidos dos enunciados, como a maneira pela qual as línguas codificam ou gramaticalizam aspectos do contexto de enunciação ou do evento discursivo.

Além disso, podemos citar Lahud, que observa o seguinte:

As circunstâncias discursivas tornam-se uma parte da expressão do sentido completo (...). O conhecimento das circunstâncias que acompanham as palavras torna-se, então, uma condição necessária para a “exata compreensão” do pensamento expresso por um enunciado contendo dêiticos. (LAHUD, 1979, p. 67-8)

Lahud se apoia na noção de enunciação como entorno comunicativo, com base em Benveniste (1988), visto que o autor também distingue as noções de pessoa (representando os participantes da enunciação, os interlocutores, aqueles que “falam” na comunicação) e de não pessoa (representando os não participantes do ato comunicativo). Benveniste (1988) relacionou ainda a categoria de pessoa às formas gramaticais eu-tu/você, que a língua disponibiliza para manifestá-las.

Foi a partir da noção de pessoa que o autor propôs uma separação entre pronomes dêiticos, aqueles que realmente eram indicadores de subjetividade, e os pronomes anafóricos, aqueles que representavam a não pessoa (os pronomes de terceira “pessoa”: “ele”), como não participantes da enunciação. Assim, o autor terminou por entrelaçar duas distinções: a de dêiticos vs. anafóricos e a de pessoa (eu/tu) vs. não pessoa (ele) – os pronomes dêiticos manifestariam a categoria de pessoa, ao passo que os anafóricos realizariam a não pessoa.

São consideradas expressões dêiticas as unidades ou morfemas linguísticos que têm uma função dêitica como básica ou central, possibilitando dois tipos de uso dêitico: o uso gestual, no qual a interpretação está relacionada à monitoração áudio-visual-tátil; e o uso simbólico, em que a interpretação é relacionada, apenas, aos parâmetros espaço-temporais básicos do evento de fala.

Os dêiticos textuais indicam os segmentos, locais/momentos do próprio texto em que são utilizadas as expressões a que se referem. Diferentemente dos demais tipos de dêixis, que apontam para o entorno enunciativo situacional, o ponto de referência é o lugar e o momento do texto onde aparece a expressão mencionada. E é por retomarem outros referentes já mencionados no cotexto, que eles apresentam, antes de tudo, um caráter anafórico. São sempre, portanto, formas híbridas, pois se comportam, simultaneamente, como dêiticos e como anafóricos.

Esses dêiticos textuais/ anáforas encapsuladoras localizam no cotexto, como se pode perceber, porções do discurso em andamento. Em grande parte das ocorrências, tais dêiticos não retomam um objeto específico mencionado, uma ou mais vezes, mas remetem a conteúdos inteiros diluídos no texto que vão configurando um referente na mente dos interlocutores. Por este motivo, são, a um só tempo, anáforas encapsuladoras e dêixis textual, considerando-se os critérios distintos que definem uma e outra classificação.

Tais expressões cumprem a função de organizadores textuais, porque portam uma sinalização dêitica, aumentando o foco de atenção sobre o referente e a eficácia da argumentação que se desenvolve.

Podemos destacar, então, a importância dos estudos de Cavalcante na caracterização do processo referencial da dêixis e, ainda, na classificação e análise dos processos referenciais de anáfora e de introdução referencial.

Benzer Belgeler