A noção de sequência argumentativa de Bronckart (2007) teve base no conceito de Adam (1992), que propôs o conceito de sequências textuais como organizações estruturais do texto, levando em consideração aspectos composicionais, esquemas organizados cognitivamente e empiricamente observáveis no texto.
A sequência argumentativa é encontrada quando identificamos no texto “dois movimentos: demonstrar-justificar uma tese e refutar uma outra tese, ou certos argumentos de uma tese contrária.” (ADAM, 1992, p.146). Para que possamos reconhecer o esquema argumentativo, precisamos ter consciência de que são necessários dados (premissas); estas devem ser sustentadas por suportes, que seriam os argumentos para chegarmos a uma conclusão. Adam (1992) propõe, inicialmente, um esquema simplificado:
Quadro 3: esquema simplificado da sequência argumentativa (ADAM, 1992 p.
147)
Sabemos que a caracterização não é tão simples: é preciso considerar que existem as restrições, mesmo que subjacentes. Toda tese que será defendida deve considerar a refutação, os contra-argumentos, por isso o autor propõe um esquema mais complexo que abrange as restrições e que está organizado de acordo com as macroproposições seguintes:
Sequência argumentativa
Dados ___ Asserção conclusiva C (Premissas)
Fatos
Sustentação
Quadro 4 – Esquema típico da sequência argumentativa (ADAM, 1992 p. 118)
Segundo Adam (1992), temos, como contra-argumentação, dois pontos da estrutura: P. arg. 0 e P. arg. 4. As outras três macroproposições (P. arg. 1, 2 e 3) têm apoio na tese anterior (P. arg. 0), no caso particular da refutação, e a conclusão (nova tese) - (P. arg. 3) - pode ser reformada e retomada ou não por uma conclusão que a reitere no fim da sequência; “a tese anterior (P. arg. 3) pode estar subentendida” (ADAM, 1992, p. 118).
É importante considerar o diferencial das duas pesquisas e apresentar nossa motivação em decidir trabalhar com Bronckart (2004). Para Adam (1992) “ as sequências são unidades estruturais relativamente autônomas, que integram e organizam macroproposições, que, por sua vez, combinam diversas proposições” (Bronckart, 2004 p. 218). Dessa forma, podemos conceber que Adam (1992) defende o conceito de sequência como protótipo e a partir dessa organização de modelos, os textos se concretizam a partir da disposição das macroproposições e das proposições.
Acreditamos que a abordagem de sequência de acordo com Bronckart (2004) adequa-se mais ao nosso trabalho, uma vez que considera esse processo de forma mis dinâmica:
Tratando-se do próprio estatuto das sequências, embora nos pareça útil definir protótipos, não pensamos que estes sejam modelos cognitivos preexistentes às sequências efetivas e capazes de gerá- las.(...) consideramos que os protótipos são apenas construtos teóricos, elaborados secundariamente a partir do exame das sequências empiricamente observáveis nos textos. Se esses protótipos podem desempenharum papel de modelo para o agente-
Sequência argumentativa
TESE + DADOS então provavelmente CONCLUSÃO anterior (Premissas) (nova tese)
P. arg. 0 P. arg. 1 Sustentação A menos que P. arg. 3
produtor de um texto, é apenas como generalização das diversas práticas planificadoras observáveis no intertexto, em suas dimensões práticas e históricas e podem, portanto, como todas as propriedades desse intertexto modificar-se permanentemente.” Bronckart (2004 p. 233)
O que Bronckart defende, que nos é de interesse para nossa pesquisa é a ideia de que os protótipos servem de base para a organização das sequências, mas é a partir das decisões de ordem interativa que temos as sequências construídas, com o estatuto dialógico. Como acreditamos que as funções discursivas são dinâmicas, pois dependem do contexto enunciativo, adotamos a noção de sequência argumentativa proposta pelo autor.
Com a reformulação proposta por Bronckart (2007), que será trabalhada em nossa pesquisa, temos a ocorrência de quatro fases da sequência argumentativa :
1. Premissa: também chamada de dados, é a tese inicial.
2. Argumentos: passagens que fazem a orientação para uma provável conclusão
3. Contra-argumentos: passagens que funcionam como uma restrição em relação à orientação argumentativa.
4. Conclusão: organiza a argumentação e constrói uma tese final.
É importante destacar que Bronckart (2007), assim como Adam (1992), considera a heterogeneidade sequencial, ou seja, é possível que se tenha uma sequência dominante com a presença de outras inseridas no texto.
Outro ponto relevante considerado por Bronckart (2007) é que o modelo das fases pode ocorrer de forma simplificada, deixando algumas passagens implícitas isso já estava em Adam, como os argumentos e contra-argumentos, ou ainda de maneira mais complexa, com a exposição de uma tese anterior e o entrelaçamento de argumentos e contra-argumentos.
Poderemos compreender melhor essa organização de fases com o exemplo apresentado por Bronckart (2007).
(1) PREMISSA: Minha tese é a de que uma criatura não pode ter pensamento enquanto não tiver linguagem [...].
ARGUMENTOS: Como salientei acima, essa tese foi frequentemente defendida, mas sobre que bases? [...] Essas
considerações vão no sentido da tese da necessidade da linguagem para o pensamento, mas elas não demonstram [...]
CONTRA-ARGUMENTOS: Contra a ideia da dependência do pensamento em relação à linguagem, evoca-se a observação banal de que conseguimos explicar e, algumas vezes, predizer o comportamento dos animais sem linguagem, atribuindo-lhes crenças, desejos e intenções [...]. Mas isso não impede que seja incorreto concluir que animais mudos (...) têm atitudes proposicionais [...]
ARGUMENTOS: Penso ter mostrado que todas as atitudes proposicionais requerem um pano de fundo de crenças [...]
CONCLUSÃO: Consequentemente, sustento que o conceito de verdade intersubjetiva é uma base suficiente para a posse de crenças e, em decorrência, de pensamento em geral. E talvez apareça, suficientemente, que o fato de ter o conceito de uma verdade intersubjetiva depende da comunicação no sentido linguístico pleno.
Neste capítulo fizemos uma discussão sobre as fases da sequência argumentativa, que será utilizada na análise da dissertação. Percorremos a explicação de Adam (1992) e aprofundamos em Bronckart (2007), pois este é a base de nossa análise.
Considerando as partes da sequência argumentativa de Bronckart, tentamos relacioná-las às funções discursivas, Com a explanação do que consideramos funções dircursivas, que será feita a seguir, poderemos mostrar como essa relação ocorre.