Em seu estudo sobre anáfora indireta, Marcuschi (2000) investigou alguns aspectos da hoje denominada anáfora indireta (AI)3, geralmente constituída por expressões nominais definidas ou pronomes interpretados referencialmente sem que lhes corresponda um antecedente (ou subsequente) explícito no texto. Trata-se de uma estratégia endofórica de ativação de referentes novos e não de uma reativação de referentes já conhecidos, o que constitui um processo de referenciação implícita. Segundo o autor, um caso típico de AI seria este:
(13) Essa história começa com uma família que vai a uma ilha passar suas férias. /.../ Quando amanheceu eles foram ver como estava o barco, para ir embora e perceberam que o barco não estava lá. (MARCUSCHI, 2001, p. 217).
De acordo com a análise feita pelo autor para este exemplo, o barco é uma expressão referencial nova nesse texto, mas surge como se fosse conhecida, pois ancora na expressão nominal antecedente uma ilha, que lhe dá suporte. Casos assim são frequentes em todos os gêneros textuais, tanto na fala como na escrita.
Em seu trabalho, Marcuschi (2001) segue de perto o que foi dito por Schwarz (2000) em Indirekte Anaphern in Texten. E trabalha com a definição de anáfora indireta, que considera que as noções estreitas de anáforas não são suficientes para descrever o fenômeno. Segundo Marcuschi, as anáforas indiretas não se restringem à realização através de pronomes
3 Entre os trabalhos mais completos sobre o tema encontra-se a obra de Monika Schwarz (2000): Indirekte Anaphern in Texten.
e da referência em sentido estrito. Essa classe de anáforas, ignorada pelos gerativistas, ameaça noções de texto e coerência atuais, constituindo um problema central para as teorias formais da referência. Por fim, reintroduz, no contexto da gramática, aspectos sociocognitivos relevantes que permitem repensar tópicos gramaticais na interface com a semântica e a pragmática.
Marcuschi (2001) afirma que a AI é um caso de referência textual, ou seja, é um recurso de construção, indução ou ativação de referentes no processo textual-discursivo que envolve atenção cognitiva conjunta dos interlocutores. Uma análise detida das características centrais da AI mostra que essas anáforas não dependem de uma congruência morfossintática nem da necessidade de reativar referentes já explicitados. Obviamente que toda referência é “textual”, mas, com essa observação, o autor quer chamar a atenção para o fato de que certos tipos de anáfora indireta exigem maior elaboração e atenção conjunta dos interlocutores, pois lida com associações ad hoc, que relacionam determinados referentes associáveis somente naquela enunciação específica.
Assim, segundo Marcuschi (2001), podemos dizer que o estudo das AI, além de ser uma oportunidade para rever as relações entre pragmática e cognição e exigir análises mais cuidadas da noção de modelos mentais e do funcionamento semântico da língua (em especial do léxico e dos papéis temáticos), tal estudo propiciaria uma produtiva revisão de noções de língua, categoria, referência, inferência, texto e coerência.
Essa perspectiva utilizada por Marcuschi revela sua visão ampla sobre o conceito de anáfora indireta e tem o objetivo de considerar os aspectos cognitivos e interacionais envolvidos na realização de uma anáfora, visão a que somos adeptos, até então, tendo em vista a ênfase que o autor deu à pragmática e à cognição.
No entanto, a partir desse ponto, o autor passa a especificamente definir a anáfora indireta de acordo com Schwarz (2000), distanciando-se do que para nós seria uma abordagem sociocognitivo-interacional: a definição de AI, tal como proposta por Schwarz (2000, p.49), é a seguinte:
... expressões definidas que se acham na dependência interpretativa em relação a determinadas expressões da estrutura textual precedente e que têm duas funções referenciais textuais: a introdução de novos referentes (até aí não nomeados explicitamente) e a continuação da relação referencial global.
Marcuschi acrescenta à definição de Schwarz, além das expressões definidas, as expressões pronominais. Assim, para o autor, a definição de anáfora indireta foi reelaborada da seguinte forma:
No caso da Anáfora Indireta, trata-se de expressões definidas [e expressões pronominais] que se acham na dependência interpretativa em relação a determinadas expressões [ou informações constantes] da estrutura textual precedente [ou subsequente] e que têm duas funções referenciais textuais: a introdução de novos referentes (até aí não nomeados explicitamente) e a continuação da relação referencial global. (MARCUSCHI, 2001, p. 223).
A nosso ver, apesar de o autor propor inicialmente uma abordagem mais cognitiva e pragmática, ele vem mostrar, com essa definição, um apego aos aspectos formais, estabelecendo ainda restrições formais para a realização de uma anáfora, característica que nos levaria a considerá-la uma definição que se aproximaria da concepção estreita de anáfora indireta.
De acordo com Schwarz (2000, p. 50), as características da AI são:
a) a inexistência de uma expressão antecedente ou subsequente explícita para retomada e presença de uma âncora, isto é, uma expressão ou contexto semântico de base decisivo para a interpretação da AI;
b) a ausência de relação de correferência entre a âncora e a AI, dando-se apenas uma estreita relação conceitual;
c) a interpretação da AI ocorre como a construção de um novo referente (ou conteúdo conceitual) e não como uma busca ou reativação de elementos prévios por parte do receptor;
d) a realização da AI se dá normalmente por elementos não pronominais, sendo rara sua realização pronominal.
Para a autora, o seguinte exemplo seria um caso de anáfora indireta pronominal:
(14) Ontem fomos a um restaurante. Ele foi muito deselegante e arrogante. (SCHWARZ, 2000, p. 50).
Marcuschi explica que a interpretação de uma anáfora realizada por pronome é dificultada por conter pouca informação sobre o referente, distinguindo-se do exemplo dado anteriormente, no qual o barco, apesar de ser “novo” no texto, aparece como já conhecido. Observaremos, posteriormente, na análise da Teoria da Acessibilidade, que Ariel (2001) tem uma opinião distinta em relação a essa perspectiva. Para a autora, quando há a ocorrência de uma expressão referencial anafórica realizada através de um pronome, essa expressão indica um alto grau de acessibilidade, pois, se não houve a necessidade de detalhar o termo a ser referido, isso se deve ao fato de o termo já ser relevante no momento textual anterior, ou seja,
o contexto ativou o frame de restaurante, trazendo à tona os elementos esperados nessa situação, manifestando, assim, o fator de saliência.
A expressão Ele ativa um referente novo e, ao ancorar num universo textual precedente, de certo modo também reativa “um restaurante” no qual encontramos um contexto no qual poderíamos inferir que este referente seria o garçom, porém essa expressão pode ativar vários referentes e não necessariamente o garçom. Desse modo, apesar de não podermos especificar exatamente qual é o referente dessa expressão, uma frase como essa seria facilmente compreendida dentro de uma dada situação sociocomunicativa, inserida no conhecimento partilhado dos interactantes no momento da interação. Diferentemente do que afirmam os autores, essa não é uma expressão de entendimento mais difícil, mas, sim, é indicativa de um grau de acessibilidade mais alta, tendo em vista a união dos fatores que são responsáveis na identificação de referentes: “conhecimento enciclopédico, discurso anterior e atos de fala” (ARIEL, 1996, p. 10).
O trabalho de Marcuschi (2001) deixa claro que sua perspectiva teórica está voltada para uma abordagem mais pragmática e cognitiva na definição de anáfora indireta; o autor considera que os processos cognitivos e as estratégias inferenciais são decisivos na atividade de textualização, bem como nos processos de realização/interpretação das anáforas. Sentimos falta, no entanto, de exemplos que demonstrem isso, que fujam do apego formal e se expandam de modo a entrar em contato com exemplos reais em que possamos encontrar a necessidade da utilização dessa perspectiva, pois, nos exemplos presentes no seu trabalho, o que podemos ver é uma análise voltada para a forma como foi introduzida a expressão anafórica.
Após este percurso nos estudos sobre as anáforas indiretas, iremos apresentar o conceito que utilizaremos para definir as anáforas encapsuladoras em nosso trabalho.