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4359 Ed Vulliamy, Seasons in Hell: Understanding Bosnia’s War (New York: St.

tarefa de responder antes de vós. Sendo generosos, vós ireis perdoar-me por falar como um epicurista contra um estóico, algo que não seria apropriado para nenhum de vós, uma vez que nenhum dentre vós participou de nenhum destes grupos. Eu acredito também que o meu discurso agradar-vos-á, não por conta de alguma dádiva especial, mas porque desvendarei todos os subterfúgios dos estóicos. Estes me são bem conhecidos porque eu investiguei seus esconderijos com muita atenção. E, se o famoso Gneo Flavio51 fez algo de satisfatório aos romanos ao apresentar-lhes o calendário52 que estava guardado secretamente como os livros Sibilinos53, a fim de que os dias agendados para os procedimentos judiciais pudessem ser conhecidos por todos, o meu discurso não vos agradará, já que eu arrancarei os olhos desses corvos; isto é, os estóicos, trazendo luz aos seus mistérios, os quais, certamente, não parecerão menos ridículos quando revelados do que aqueles registros do calendário. No entanto, eu não direi nenhuma palavra a não ser que vós me concedais e permitais de bom grado.

(2) E então Bripio disse:

- Continua, por favor, Vegio. Eu respondo pelos outros, quem eu sei que te escutarão com tanta alegria e tão boa vontade que, mesmo se tu não tivesses pedido esta tarefa, eles próprios a teriam designado a ti. E neste momento, com felicidade ainda maior escutar-te-emos, uma vez que te exaltaste a tratar da defesa deste assunto e não nos escapa

51 Gneo Flavio, jurista romano do século IV.

52 Fasti: antigo calendario romano que organizava os dias permitidos para diferentes eventos e atividades. 53 Cícero, Pro Murena, XII, 25.

80 a vivacidade, espírito e força com que estás acostumado a proceder. Tem consciência, então, que de ti esperamos tudo isso.

(3) Ao que Vegio respondeu:

- Agrada-me muito que vós estejais desejosos em ouvir-me sem ofensas e com aquela boa vontade e atenção que eu já esperava. Mesmo assim, por favor, não espereis um discurso ornamentado. Se eu assim o fizesse, comparado a algum orador famoso e esplêndido, eu desapareceria como uma estrela ao encontrar-se com os raios de sol. Eu vos peço só mais uma coisa: que meçamos conteúdo contra conteúdo, e argumento contra argumento, e não eloqüência contra eloqüência.

X.(1) E agora, retorno a ti, Catone, com quem devo lutar quase como se fosses o

chefe daquela gente de além-mar, distante dos nossos costumes. Para começar, de tudo o que disseste sobre a Natureza, eu poderia piamente, religiosamente e sem ofender aos ouvidos dos homens, responder que o que a Natureza criou e moldou não pode ser nada além de sagrado e digno de louvor, como este paraíso que nos rodeia, adornado de luzes para o dia e para a noite, e disposto com tamanha proporção, beleza e utilidade. Será preciso mencionar os mares, a terra, o ar, as montanhas, os campos, os rios, os lagos, as fontes e até mesmo as nuvens e a chuva? E os animais domésticos, as bestas selvagens, os pássaros, os peixes, as árvores e as plantações? Tu não conseguirás encontrar nada que não seja perfeito, provido e adornado ao máximo de racionalidade, beleza ou utilidade. Até mesmo a estrutura de nossos próprios corpos pode ser usada para comprovar esse fato, como nos mostra claramente Lactâncio54, um homem de gênio penetrante e eloqüente, no seu livro entitulado As obras de Deus55 - embora muitos outros pontos poderiam ter sido mencionados e não seriam menos importantes do que aqueles que ele nos recorda.

(2) E tu não deves surpreender-te se eu, embora pareça defender Epicuro ao

identificar, como ele, o bem máximo com o prazer, não negar que todas as coisas tenham sido criadas de acordo com a providência da Natureza - um ponto que ele repudiou. Além do mais, não foi ele quem inventou tal opinião concernente ao prazer. Ele seguiu alguns de seus predecessores, como Eudóxo56, um homem muito capaz e louvado pela sua vida até mesmo por seus inimigos. Ele não escreveu sobre o caráter acidental dos átomos, mas sim

54 Lactâncio (240dc. - 320dc.), autor do cristianismo e professor de retórica do Império Romano. 55 Lactâncio, De Officio Dei, 303 d.c.

81 sobre a estabilidade e providência do céu. Oras, é lícito pegar argumentos para a nossa própria tese de qualquer lugar que nos agrade! Desse modo também procedera Sêneca, um dos mais entusiastas partidários da corrente estóica, quem, de tão atraído por algumas idéias de Epicuro, às vezes parecia ser ele um epicurista, e Epicuro, um estóico. Esse procedimento deveria ser permitido a mim mais abertamente porque eu fui iniciado, não nos ritos da Filosofia, mas naqueles mais elevados e significativos da Oratória e da Poesia.

(3) Na verdade, a Filosofia é como um soldado ou um tribuno sob as ordens da Oratória,

sua rainha, como a chamava um grande escritor de tragédias57. Cícero permitiu-se falar livremente sobre filosofia sem atar-se a nenhuma corrente; e isto, ele certamente o fez com distinção58. No entanto, eu preferiria que ele tivesse lidado com esses argumentos não como um filósofo, mas como um orador, e que tivesse exercido a mesma licença, ou melhor, liberdade, ao reivindicar dos filósofos todos os subterfúgios oratórios neles encontrados - uma vez que tudo o que a filosofia afirma para si é na verdade nosso. E, se alguém se opusesse, desejaria que ele tivesse impunhado a espada que recebera da Eloqüência, rainha de todas as coisas, contra esses furtivos filósofos e os tivesse punido como a criminosos. Realmente, quão mais claro, solene e magnífico os mesmos assuntos são tratados pelos oradores do que pelos obscuros, esquálidos e anêmicos filósofos! Declarei tudo isso para esclarecer que eu desejo abordar um assunto que os filósofos têm discutido violentamente de acordo não com o seu próprio uso, mas com o nosso, como eu vejo Catone fazer sabiamente com muita frequência.

- XI. (1) Fazes bem - disse Bripio - ao tentares restituir à Oratória esse amplo

patrimônio jogado fora por agentes que eu desconheço. Se, de fato, nós procurarmos diligentemente em outras épocas da história, veremos que os oradores já falavam no centro das cidades sobre os maiores e mais importantes assuntos, antes mesmo que os filósofos começassem a falar sobre isso pelos cantos. E mesmo em nosso tempo, embora os filósofos possam ser chamados de líderes, são os oradores - como os fatos nos mostram - quem devem ser designados como líderes e reis. Por isso, eu aprovo teu intento de falar como um orador e não como um filósofo, e eu te exorto, com certeza, a segui-lo até o fim.

57 Eurípides, Hécuba, 816.

82 - XII. (1) Terei cuidado em fazer o meu melhor - respondeu Vegio. E fazê-lo ainda melhor, graças a ti, Bripi. Agora, voltando ao teu argumento, Catone, a primeira razão que não me satisfaz é que vós estóicos, infelizes e inflexíveis, desejais que não exista nada que não seja vicioso e vil; vós medis tudo com uma insignificante sabedoria que é em todos os aspectos perfeita e completa. Assim, enquanto vós vos divertis voando prodigiosamente e esforçadamente para zonas mais altas, as vossas asas, não sendo naturais, mas feitas artificialmente de cera, derretem e, como o tolo Ícaro, vos fazem cairdes no mar. De fato, pelos deuses, que tipo de afetada sutileza é essa que descreve o homem sábio de um modo tal que não se encontre entre nós nenhum exemplo, por vosso próprio testemunho; e declara que ele só é feliz, só amigo, só bom e só livre? (2) Todavia, eu suportaria tudo isso se da vossa lei não derivasse que qualquer um que não seja sábio, seja necessariamente um tolo, um réprobo, um exilado, um inimigo e um desertor – o que significa que somos todos assim, já que nenhum de nós possui ainda tal sabedoria. E para que ninguém, por acaso, consiga tornar-se sábio, vós bárbaros fizeram os vícios mais numerosos que as virtudes e inventaram uma infinidade dos mais detalhados tipos de pecados, que não são mais numerosos que as doenças do corpo, as quais tu, Catone, dizes serem pouco conhecidas pelos médicos. Se apenas uma dessas doenças afetam o corpo, a sua saúde inteira não está completamente perdida. Mas, se ao menos um mínimo mal espiritual acomete um homem, como é necessariamente o caso, vós já supondes que não apenas a este homem falta completamente a honra da sabedoria, mas também que ele está totalmente deformado por toda a vergonha e infâmia. Por Hércules! É surpreendente que, enquanto os médicos dizem haver apenas um único estado de saúde e muitas doenças, em contrapartida, vós afirmais que a virtude não é uma só - apesar de que, pensar assim, é o mesmo que dizer que possuindo uma virtude, possuímos todas.

(3) O que eu deveria dizer? Tu sobrepujas os médicos em todos os aspectos. Mais

até do que eu gostaria. Tu não acreditas que exista uma única virtude, e sim nenhuma. Quem tiver uma virtude, possui todas e, uma vez que ninguém possui todas, ninguém tem nenhuma. Onde podem as virtudes ser encontradas senão no homem? Pelos deuses! Não entendeis que quando dizeis que não há franqueza em ninguém, estes libelos e calúnias recaem sobre vós mesmos, quem, nós sabemos e vós próprios admitis, não sois sábios? Vós deveríeis tomar mais cuidado com vossas infâmias. Para esfregar lama na cara dos outros,

83 vós não fazeis objeção a vos rodeardes de porcarias, como se vós vos regozijásseis pela vergonha e vitupério dos outros, falando e ouvindo coisas ruins e exercitando a vossa língua e ouvidos aos insultos e maldades, ao invés das boas palavras. (4) Eu falo em geral e não de ti, Catone, que, como já disse e acredito, é um homem sábio. E eu o digo com muito mais prazer porque, assim, contrario os decretos estóicos que dizem que a ninguém é possível ser sábio. Portanto, Catone, chamar-te-ei de sábio mais freqüentemente para que aprendas que recebeste um benefício mais grandioso dos epicuristas (nós somos, sem dúvida, homens benevolentes!) que dos teus estóicos, de quem eu gostaria de arrastar-te para longe, completamente. Pareceu-me que tu disseste algo semelhante à doutrina deles quando recriminavas a risada em si mesma, tirando fora, assim, não apenas a parte mais agradável da arte para a qual tu és dedicado, e através da qual te adornas; mas também condenando o que a natureza deu somente a nós, diferente de todos os outros animais. Pois, naturalmente não conseguimos falar uma língua, mas podemos rir. Até mesmo os mudos riem, não entre os outros, mas entre eles mesmos, quase até o ponto de explodir de tanta risada – um tipo de felicidade que a natureza nos concedeu como presente. Tu censuraste isso, eu acredito, a fim de tirar partido daquele tom enternecedor que certamente tu trouxeste de casa.

(5) Mas vamos parar de falar apenas de ti. Eu não falo contra ti, mas contra todos

aqueles que, no confronto com eles mesmos e todos nós, obtiveram nosso demérito e imaginam que os pecados sejam infinitos - o quê não será motivo de culpa se mesmo quando o medo, a esperança, a felicidade, a dor, o arrependimento, a alegria e outros são moderados, eles sejam reprovados? Portanto, se os ouvidos dos homens rejeitam vossas punições, a culpai a vós mesmos, estóicos; especialmente porque vossas palavras nunca são inofensivas. Como disse Pérsio:

Este estóico banhou-se em vinagre azedo59

Estás bravo com o teu servo? Tu também te tornaste um servo. Dançaste com teus companheiros no casamento de um amigo? Deverias ter sido acorrentado. Tu já te vestiste

84 de um modo levemente provocativo? Merecias andar pelado. Já cometeste algum erro? Não há espaço para o perdão!

(6) O que mais eu poderia desejar para aqueles homens, senão que eles praticassem

entre si mesmos o que dizem contra nós, de modo que eles punam, batam e matem uns aos outros e nos ofereçam, assim, um espetáculo digno de aplauso. De fato, não faltam pessoas que confirmem com ações este capricho absurdo, como aqueles que permaneceram em silêncio durante toda a vida com uma severidade perpétua; e até mesmo, com uma brutal compostura no agir e vestir. Tal qual Diógenes, quem foi apropriadamente chamado de cínico; isto é, canino, porque viveu muitos anos dentro de um barril, como se ele tivesse tido um taverneiro no lugar de uma mãe. Ele andava descalço e sem abrigo - com exceção de sua cabeça que era coberta por um cabelo despenteado -, e todas as suas demais características são mais notáveis pela estranha feiúra do que pela beleza. (7) Se ao menos os nossos estóicos fossem assim... Entretanto, eu posso ver, Catone, que tu particularmente não observas este costume, pois que tu não te afastarás de todas as convenções e os modos da vida pública e civil. Tu te comportas sabiamente e gravemente, pois, sendo um orador, deves parecer-te com um. Portanto, eu nutro esperanças de que não será muito difícil arrancar-te da tua opinião preconcebida. Mas, tu dirás: “eu nem ao menos aprovo o grupo dos cínicos, e sim o dos estóicos, mais moderados e próximos do comportamento comum”.

Embora seja difícil separar os estóicos dos cínicos, eu, com as minhas próprias mãos, te guiarei por esse caminho (como se diz), a fim de levar-te de volta às boas graças da Natureza; a menos que, contra a minha intenção, tu não te livrarás desta empáfia estóica! Eu te reconduziria à paz contigo mesmo, como Mitio de Terêncio fez com o seu irmão Demea60. Através desses dois irmãos, o autor parece ter representado os dois grupos dos quais estamos falando, e dado razão ao nosso e condenado, repudiado e zombado do teu, pois o primeiro destes está em consonância com a natureza e o outro, contra ela – aquela mesma Natureza com a qual estou tentando te persuadir a fazer as pazes.