sobre esse problema. Em minha opinião, pelo que posso julgar, só encontro duas causas para a perversidade humana; e ambas derivam da sua própria natureza. A primeira é que o exército dos vícios é mais numeroso que o das virtudes, de modo que, mesmo se quisermos, nós não podemos vencer na luta contra tais forças. A outra causa (a qual me parece monstruosa) é que nós não queremos vencer estes terríveis, importunos e perigosos inimigos, nem mesmo se pudéssemos. O nosso mau nos engendrou um certo amor calamitoso que se deleita pelos nossos próprios males; e os vícios, que são as pragas das nossas almas, são a fonte do nosso prazer. Por outro lado, a honestidade, mestra e integrante das bênçãos divinas, parece a muitos àspera, azeda e amarga. Mas sobre isto, falarei mais tarde.
IV. (1) No momento, por gentileza, vamos considerar o que apontamos antes; isto é,
vamos falar sobre o número desproporcional de inimigos. Vamos deixar claro com um exemplo. Sem dúvida, a ganância tem sido sempre condenada, tal qual no caso de Marco Crasso29, como um vício quase doméstico, um traço hereditário de família. Mas, oposto a esse vício, não há apenas a virtude que chamamos magnanimidade, mas há também um outro vício chamado prodigalidade. Agora, qual homem tão famoso quanto ele nós podemos elencar no grupo dos magnânimos? Talvez Pompeu e César, os aliados de Crasso? Absolutamente, não! Eu considero que eles estivessem, muito provavelmente, entre os pródigos, pois eu li que fundaram teatros, jogos e premiações, e fizeram vários tipos de doações a homens que não mereciam.
(2) Mas vamos observar agora o que é com certeza uma outra virtude: a gravidade.
Quem, entretanto, poderia ser chamado de sério no lugar de triste, rígido ou austero; ou, ao contrário, de indulgente, delicado e afeminado? Oras, realmente, em muitos lugares, Cícero acusa Catão de muita austeridade. E também, ele próprio, que acusava a aspereza de outro, foi acusado de ter pecado pelo vício oposto. Pois, se nós acreditarmos nos seus malévolos inimigos, mesmo que eu não concorde com eles, podemos considerar, ao contrário, que ele era às vezes um tanto leviano e instável. Por isso Platão desaprovava os filósofos que aspiram à paz e à solidão por amor aos seus estudos, pois, enquanto tentavam evitar ofender os outros, eles sucumbiam ao vício contrário e abandonavam aqueles a quem deveriam
70 defender30. Por isso, quando agem, não podem viver inocentemente - se fôssemos acreditar neles-; e se não agem, podem ser comparados a desertores e fugitivos. Mas vamos parar de falar sobre pessoas. O que nos importa agora é olhar a coisa em si.
(3) A fortaleza tem por antítese a covardia e a temeridade; a prudência, a malícia e a
estupidez; a cortesia, a vulgaridade e a rusticidade; e assim sucessivamente com todas as outras qualidades sobre as quais Aristóteles tratou, como sempre, com o máximo zelo naqueles livros intitulados Ética – embora ele não tenha mencionado a prudência entre as virtudes morais e a tenha relegado entre as virtudes intelectuais31. Eu descarto aqueles filósofos que designam a uma única virtude, não apenas dois, mas muitos vícios como seus contrários. Eu vos imploro a observar e considerar o quão injusta é esta pluralidade de vícios criados, uma vez que não há nenhuma cor contrária ao branco além do preto, nenhum som contrário ao agudo além do grave e nenhum gosto contrário ao doce além do amargo. Todas as outras cores, sons ou gostos não são ditos contrários, mas variados; não opostos, mas diversos.
(4) Todavia, uma virtude como a diligência é colocada entre dois contrários: a
curiosidade e a negligência. E então é posicionada de modo que, quando tu retiras o teu pé de uma, corre o risco de cair na outra. Como diz o provérbio: “Quando eu fujo de Cila, sou arrastado para Caribdis”32. Como eu dizia sobre os filósofos solitários e Cícero diz: “Ó
juízes, enquanto vós procurais evitar o vitupério - que de qualquer modo vós não mereceis - de serem considerados cruéis, encontrar-vos-ei com outro, o de serem considerados tímidos e preguiçosos”33. Exemplos desse tipo nós temos à disposição mais de mil.
(5) Também não me indigno porque muitos vícios foram descobertos. Eu o admito,
suporto e tolero. Porém, me enraiveço porque pouquíssimas virtudes foram encontradas e, coisa mais indigna ainda, porque os vícios, apesar de divergentes entre si, são consensualmente contra nós; quase como se houvesse um pacto: reúnem-se contra nós e nos rodeiam. Nós que, não tendo feito o suficiente para evitar um pecado, corremos ainda o risco de sermos condescendentes com outro vício, e não de um gênero diverso, como esmorecer da
30 Platão, Górgias, 486b; A República, VII, 519b-c. 31 Aristóteles, Ética a Nicômaco, VI, 3 e 5.
32 Na mitologia Grega, Cila e Caribdis são dois monstros citados na Odisséia que guardavam a passagem de Ulisses pelo estreito de Messina. Na terra, abitava Cila, monstro de seis cabeças, e no mar, Caribdis, a personificação de um redemoinho.
33Rhetorica ad Herennium, 4, 48, 25. Trata-se de uma obra composta no ano 70, do século I a.c, quando Cícero era ainda muito jovem, e que por longo tempo se acreditou fosse de Cícero.
71 covardia para a avareza, mas de um mesmo tipo, como esmorecer da avareza, já mencionada, para a prodigalidade – ambos vícios que se opõem à generosidade. E quão grandiosa será uma tarefa como esta? Quanta prudência, vigilância e diligência devemos empregar contra esse dúplice inimigo que nos ataca por dois flancos: pela frente e pelas costas? Contra tal inimigo não seria suficiente apenas a face bifronte de Jano34, mas também seriam necessárias duas mãos adicionais para a retaguarda, dois pés e, finalmente, um corpo inteiro. (6) E agora devo me questionar (o que quase me impele a chorar) sobre a freqüência na qual ocorre de sermos devastados simultaneamente por dois vícios opostos, como se por ventos opostos; igual ao que lemos de Catilina? Ele que era, ao mesmo tempo, avarento e pródigo, guloso e falso frugal, negligente quanto à sua própria reputação e muito ambicioso? Enfim, um homem coberto por todos os tipos de vícios35. Hoje em dia não faltam catilinos, nem ficaremos um dia sem eles. De fato, os patriotas, como Cícero e Catão, sempre foram raros, e mais ainda o serão. Mas voltemos à Catilina. Como podem elementos contrários e incompatíveis coexistirem? Pelos Deuses, que o compreendem, eu não entendo! Pode a água se misturar com o fogo, o leve com o pesado e o alto com o baixo? Similarmente, não há nenhuma relação entre a ira e a tranquilidade, a temeridade e o medo, o orgulho e a humildade. E, no entanto, vemos esses “Ciclópes e Centauros”, como escreveu Estácio, “vivendo juntos como se conspirando contra nós”36.
(7) Logo, quem duvidará que a Natureza não tem agido muito injustamente contra
nós ao atuar não como uma mãe, mas, se é lícito dizer, como uma madrasta, nos impondo leis mais cruéis do que as de Licurgo? Este exigia dos espartanos tributos e taxas maiores do que aquelas requeridas dos bastardos, escravos e prisioneiros. Nunca se viu sujeição por tiranos, mesmo os mais cruéis, tão pesada quanto essa imposta pelas regras da virtude segundo a qual devemos viver somente com muita fatiga e dor. Eu não disse essas coisas para lamentar as vicissitudes do vosso destino, ou até mesmo do meu, pois que nós, com muito trabalho e vigília, maiores do que a racionalidade humana parece ser capaz, conseguimos nadar até a superfície. Entretando, eu me compadeço da condição daqueles não
34 Jano foi um deus romano representado com duas cabeças,
o qual originou ao nome do mês de Janeiro. 35 Cícero, Contra Catilina (In Catilinam), II, 4, 7; Salustio, De cat. con., 5.
36 Publius Papinius Statius (45-96a.c), poeta romano da Idade da Prata da Literatura Latina. É mais conhecido por sua aparência como um grande personagem do Purgatório de Dante: uma secção do poema épico A Divina Comédia. Estácio, Tebaide, I, 457-459.
72 dotados de diligência e que, por assim dizer, não sabem nadar. E vós sabeis o quão grande é a multidão que, não injustamente, nós chamamos por aquele nome familiar, turba ignorante.