2. GENEL BİLGİLER
2.8. Voltametri
O termo Narcisismo das pequenas diferenças, utilizado por Freud, surge em sua obra, em 1918, no artigo O tabu da Virgindade (FREUD, 1921/1982). Neste artigo, ele utiliza o termo, cuja criação ele atribui a Crawley, referindo-se às diferenças que fazem de cada indivíduo um ser particular. Freud utiliza o termo para apresentar as diferenças existentes entre homens e mulheres que causam sentimentos de estranheza e hostilidade nas relações humanas e, nesta oportunidade, relaciona o termo com a rejeição narcísica das mulheres pelos homens (FREUD, 1918/1982, p. 207).
Três anos depois, Freud (1921/1982) retoma o termo em seu trabalho dedicado à psicologia dos grupos que, como será visto, amplia o conceito e o remete às relações sociais e não apenas às relações entre homens e mulheres.
Finalmente, Freud (1929/1982) emprega mais uma vez o termo Narcisismo das pequenas diferenças em seu texto mais sociológico, Mal-estar na civilização, relacionando-o com os desenvolvimentos da cultura e sem apresentar grandes novidades em relação ao texto de 1921.
Para uma melhor compreensão do termo, é importante retomar, antes de discuti-lo, o texto Sobre o narcisismo: uma introdução (1914/1982), em que o autor apresenta o conceito narcisismo e suas implicações.
Compreende-se, aqui, que o termo “narcisismo das pequenas diferenças” está inteiramente relacionado com o conceito “narcisismo”, que Freud cunha para explicar aspectos da vida psíquica dos indivíduos. Portanto faz-se importante uma breve introdução desse conceito antes de entrar na questão do “narcisismo das pequenas diferenças” propriamente dita.
No texto de 1914, Freud (1914/1982, p. 101) define narcisismo como o investimento sexual que o sujeito direciona para os objetos do mundo exterior, referindo-se, inicialmente, à escolha de objetos de amor que as crianças fazem no mundo exterior. Ao fazer isso, Freud localiza uma polaridade na relação do sujeito com o mundo - o eu e o objeto – identificando, assim, a existência do que chama de libido do eu e libido do objeto.
Entendendo libido por energia sexual, Freud conduz a entender que as duas libidos são inversamente proporcionais, pois trata-se da mesma pulsão sexual que ora é voltada ao eu, ora ao objeto.
O desenvolvimento da libido do eu resulta no enfraquecimento da libido do objeto, ou seja, nesta condição o sujeito alimenta a fantasia de internalização da energia sexual e o mundo externo torna-se persecutório. No outro polo, o desenvolvimento máximo da libido do objeto resulta no estado amoroso.
As situações acima representam estados de desequilíbrio, pois, no estado amoroso, toda a libido está voltada para o objeto, tornando o eu frágil, inteiramente voltado para o que acredita ser seu ideal. Por outro lado, quando a libido está inteira voltada para o eu, o mundo exterior, o objeto, torna-se estranho, portanto persecutório.
É exatamente a libido do objeto que será responsável pela idealização do mundo e dos outros por parte do sujeito. Quando investido sexualmente, o objeto alvo de amor torna-se ideal e, portanto, passa a corresponder à fantasia de atender aos mandos desse ideal.
Na relação familiar isso acontece na manifestação do amor dos pais pelo bebê, que, aos poucos, vai se dando conta do lugar idealizado que ocupa no imaginário parental e, assim, vai constituindo seu ideal do eu, correspondendo ao
máximo às idealizações dos pais, com o intuito de manter o amor dos mesmos. Há a fantasia de que, sem a realização do ideal parental, seu amor deixaria de existir.
Lambotte (1996, p. 352) lembra que, através do narcisismo, percebe-se como a constituição da imagem de si mesmo está associada à relação com o outro, ou seja, não se pode dizer apenas que um sujeito ama a si mesmo, mas apenas que ama a si mesmo através do outro.
Já no texto de 1914, Freud (1914/1982, p. 108) anuncia a questão sobre a qual se debruçará em 1921, afirmando que o problema do ideal do eu é muito importante para a compreensão da psicologia dos grupos, graças ao seu aspecto social. O medo que originalmente se manifesta como o de perder o amor do pai desenvolve-se para um número indefinido de pessoas.
Como se verá mais à frente, o indivíduo que coloca um líder grupal no lugar ocupado anteriormente pelo pai busca satisfazer o ideal que este líder deseja aos seus seguidores. Desta forma, os membros de um grupo investem amorosamente o líder e, assim, constituem o seu ideal do eu.
Lacan (1998, p. 102), ao teorizar sobre o Estádio do Espelho, relaciona a constituição do narcisismo com a imagem especular percebida pelo olhar do outro, que atribui ao sujeito um lugar no mundo, de modo que, quando o indivíduo vê a si mesmo, ao mesmo tempo em que se percebe visto, constitui-se como o momento fundador do eu, o que forma concomitantemente o ideal do eu e o eu ideal.
É importante notar que a fundação do eu só se dá através do olhar do outro, de modo que Lacan, por meio do Estádio do espelho, afirma a importância do social na constituição do sujeito. É a partir daí que se estabelece a dialética social: eu – outro.
Pode-se notar, a partir da teorização lacaniana, que o ideal do eu, a imagem com a qual o sujeito busca identificar-se, o eu ideal e o conjunto de regras às quais o sujeito se submete para viver no coletivo formam-se unicamente através da relação com o diferente.
Retomando a questão do narcisismo das pequenas diferenças, pode-se descrevê-lo, assim, como uma identificação do sujeito com o líder de um grupo, que
representa para ele e para os outros membros um pai, o que faz de todos os indivíduos pertencentes ao mesmo grupo irmãos. Assim, o líder assume o papel de ideal de eu e ama a todos de forma igual, e o sujeito identificado com ele ama a todos os que seu líder ama.
Porém o sujeito vê naquele que ama a outro líder um estranho e, ao perceber diferença, valoriza outras e passa a odiá-lo. Este mecanismo fortalece os laços identificatórios entre os “irmãos”, uma vez que os tornam iguais, ou seja, filhos de um mesmo pai, porém alimenta o ódio ao estrangeiro.
Quando o sujeito percebe a unidade de seu grupo e a diferença no outro, a identificação falha. É como se a imagem especular não encontrasse correspondência com a realidade, causando estranhamento e sentimentos agressivos para com aquele que difere, ou seja, aquele que não identifica o mesmo líder no grupo.
O narcisismo das pequenas diferenças revela a unidade que há nos grupos. O sujeito, ao pertencer a um grupo, abre mão de sua individualidade e assume a imagem grupal. Assim, pode-se dizer que dentro de um grupo a libido do objeto transborda, provocando o estado amoroso nos membros entre si e deles todos em relação ao líder.
Essa unidade grupal volta sua libido narcísica para outro grupo e não encontra referência identificatória, o que faz a libido retornar para a unidade grupal, tornando-se libido do eu e reconhecendo o outro grupo como persecutório, digno de ódio.
Para a psicanalista Betty Fucks (2007, p. 3), o narcisismo das pequenas diferenças está na base da constituição do eu, do nós e do outro. As pequenas diferenças são, portanto, angustiantes e alimentam a agressividade, podendo manifestar-se sob a forma de racismo. Deste modo, a diferença manifesta, nas palavras da autora, “o horror ao que é mais íntimo e que, tomado pelo eu como um objeto externo, constitui-se em objeto do ódio na segregação e no extermínio.” (FUKS, 2007, p. 8).
O conceito de narcisismo das pequenas diferenças revela que os homens são incapazes de amar aquilo que não seja sua própria imagem, como no mito de
Narcíso. Está demarcada, portanto, uma dialética entre o nós e os outros. Estão dados todos os ingredientes para formar a segregação - o nós, os outros, o amor de nós a um líder, o ódio para os outros que amam outro líder - que situam o narcisismo das pequenas diferenças na dimensão agressiva do sujeito, o que torna os regimes totalitários modernos expressão máxima da destruição em nome do amor.