As Comunidades de Práticas se definem por meio do engajamento da prática e são essencialmente informais. Por “informal” não queremos dizer que a prática é desorganizada ou que as CP nunca tem qualquer estatuto formal. Mas que podem evoluir de forma orgânica e tendem a escapar das descrições formais e de controle. Nesta paisagem não vemos as estruturas reificadas de afiliações institucionais, mas também não é independente delas, no entanto, não se reduz a elas (WENGER, 2010).
O interessante desse aspecto é que foi fortemente nomeado e frisado por R2s. Notamos em suas falas e nas observações das práticas de campo um maior reconhecimento da aprendizagem nesses espaços, pois o vínculo grupal é maior por conta do maior tempo juntos nas trajetórias compartilhadas e reconhecidas de antemão por R2 dentro da CP:
O mais forte pra gente eram os momentos de sentar pra comer. (R2)
E entre a gente os almoços, as caronas e telefones, enfim, acho que a gente ficava, inventava e queria um momento só pra gente: ‘não, vamos fazer um momento somente quem está estressado’, mas lá no fundo a gente queria conversar sobre a Residência. A gente chegava e conversava sobre a Residência sobre os casos, sobre os processos e a gente nem se percebia e ia, e pesava, mas acho que de alguma forma pra mim era muito mais assim terapêutico mesmo, de atender essas demandas. (R2)
Muitas vezes eu me incomodei, às vezes cansado, exausto, mas o povo não pára de falar disso de Residência e ficou falando de Residência, mas é um negócio assim que agora a gente percebe que faz parte da nossa comunicação mesmo enquanto profissional. [...] A gente não vê o quanto a gente se empenha, o quanto a gente coloca energia nisso e eu acho que esses espaços informais de certa forma tinha[m] uma carga formal muito grande e assim o nosso processo formativo. (R2)
Às vezes no serviço você precisa de um espaço institucionalizado, uma reunião convocada pra você tá discutindo algumas coisas do processo de trabalho ou então pra tá conversando sobre algum paciente que tem uma complexidade maior e a gente até por ter uma aproximação muito grande, por ter um vínculo maior entre a gente e por ta muito mais próximo, então gera uma intimidade que assim a gente não precisa desses espaços institucionalizados. (R2)
Nesta fala acima percebemos a importância do aspecto presencial para sustentação da CP. A proximidade coletiva não pode nesse caso ser virtual, não pode manter distância demais, pois essa proximidade que também sustentará o engajamento mútuo.
Eu almoçava no posto, é o momento mais rico, assim é um dos momentos mais ricos do dia todo, porque é o momento que os trabalhadores, os profissionais se reuniam e começavam de fato mostrar a dinâmica do posto de saúde né, que muitas vezes ali quando tava de oito a doze aí todo mundo se fragmentava no seu setores né iam trabalhar e muitas vezes né tentavam colocar panos quentes em algumas fragilidades né lá do que tava acontecendo no posto e na hora que a gente se reunia pra almoçar toda energia né e começava ah, mas isso acontecia porque fulano de tal fez isso, errou, aí começava. Era um momento que ficava muito próximo e também foi um dos momentos que disparou muito essa questão da saúde do trabalhador, não só na hora do almoço, mas aí almoçar fora em outro espaço, mas no intervalo de um atendimento ou outro vinha a agente de saúde, vinha uma enfermeira né, vinha o auxiliar de enfermagem. (R2)
Muitas vezes serão nesses ditos espaços informais onde emergem muitas demandas, principalmente, como as de saúde do trabalhador. Em espaços como o corredor ou o café na cozinha do posto podem emergir contatos, discussões de caso e até demandas de cuidado em saúde dos próprios trabalhadores locais:
Como há um sofrimento intenso desses profissionais da saúde e eu acho que foram esses espaçozinhos, que pra eles [que] não compreendiam que era o tempo de trabalho e que eles entendiam que era um atendimento, ali sentados, e muitas vezes a gente conversava no corredor: ‘ah, estou passando [por] isso e tal e tal e aí eu comecei com essa dimensão, e acredito que a equipe toda também. (R2)
O aspecto interessante do aparecimento dessas demandas é que dentro dessa informalidade não se costuma vinculá-las como parte essencial do trabalho em saúde que é cuidar e discutir interprofissionalmente dos casos e cuidar de si mesmo enquanto trabalhador que também adoece dentro do sistema.
Mas essa dimensão do adoecimento mesmo dos trabalhadores da saúde, que foi uma coisa gritante, e que passou. Geralmente nos matriciamentos, [...] depois os
profissionais que estavam na sala começaram a colocar coisas pessoais, pessoais no sentido de como tava sendo sofrido os trabalhos dentro do posto, o processo de trabalho, questões pessoais mesmo de conflitos com familiares e tal. E aí foi despertando: ‘poxa, esses profissionais também precisam ser cuidados’. Mas por que? Porque é difícil mesmo nesse estar presente, nesse compartilhar, nesse se abrir pra essa relação, nessa escuta, nessa afetação que foi colocada. (R2)
Vemos acima que o momento formalizado do matriciamento foi fortemente potente, não pela programação de que isto teria que acontecer, mas como estratégia de atuação que emergiam demandas e necessidade de cuidado do trabalhador.
Todos os espaços citados são espaços dialógicos, momentos de se estar com o outro e de entrelaçar gerações na construção de novas perspectivas de ser outro profissional, ou outra pessoa, mas ter a confiança na dialogicidade dos momentos que eram provocados ou apenas para relaxar e reiterar esta confiança coletiva:
Um espaço sagrado assim é de oito a oito e meia né, que às vezes é esperando o carro da visita, às vezes é esperando chegar paciente, assim e esse horário é muito e sempre é propício. (R2)
[A gente se] encontra sempre e conversa essa horariozinho é muito rico assim, e o próprio caminho da visita na Kombi ali e repassa o caso ACS e tal, como é isso aqui, como é que é... (R2)
Às vezes o espaço do bar né, às vezes você já chega e começa a falar e não pode falar de trabalho né, aí quando é daqui a pouquinho está falando, e a gente até lá em Sobral na mesa de bar e começa a falar dos casos, a demanda segue né: território contínuo. É muito engraçado que às vezes você diz assim não pode falar de trabalho, aí volta a falar de novo e esse corredor é muito importante, [...] principalmente com médico e você fica lá plantada no corredor e só vai pra sala depois que falar comigo. [As] s crianças da escola vão desenhar o posto e desenharam a gente um monte de bonequinho no corredor e a gente perguntou quem é? ‘São vocês da Residência’. (R2)
Muito interessante a visão da criança usuária do posto sobre os residentes, que ficam diversas vezes esperando na porta do consultório uma brecha para poderem conversar com médicos e enfermeiros sobre os casos compartilhados. Durante uma visita de campo eu mesma pude perceber esta cena acontecendo, uma psicóloga esperando que o profissional médico do posto pudesse recebê-la para compreensão de um encaminhamento realizado para ela, mas que não havia história e nem justificativa para o encaminhamento. Essa necessidade de um espaço dialógico entre os profissionais da atenção primária é premente, no entanto, não é garantia de que reuniões de equipe sustentarão a esfera dialógica entre praticantes, pois esta esfera necessita de um projeto comum de paixão e confiança entre os indivíduos, mas havemos de tentar possibilitar esta dimensão da aprendizagem.