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A RMSFC de Fortaleza se caracteriza como um programa formativo que tem como objetivo especializar profissionais para atuarem nas equipes de referência – enfermeiros e dentistas e nas equipes NASF – fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais.

Assim sendo, a RMSFC atua em território concomitantemente com todos os profissionais acima descritos e que não estão na formação da Residência. Dessa forma, muitos encontros e desencontros presenciais e conceituais vão sendo tensionados nessas fronteiras. Percebemos que comparações são feitas com profissionais não residentes do NASF como:

Eu via tantos absurdos enquanto profissional do NASF que eu ficava vendo os outros [colegas de categoria], como eles atuavam e eu ficava ‘gente, não é pra ser assim’. E não que eu me acho o supra sumo, mas eu acho que eu sou pelo menos mediana.E eu queria poder passar o pouco que eu sabia pra alguém. Claro que [...] todas as meninas que são minhas residentes todas são profissionais formadas, mas nessa turma todas elas são formadas exatamente de uma forma meramente reabilitatória, porque infelizmente a [minha categoria] ainda tem esse viés muito forte, muito forte e isso tá começando a mudar na [minha universidade]. (P)

Os membros de uma CP podem contribuir com a sua competência ao participar de outros projetos e equipes multifuncionais que irão combinar o conhecimento de múltiplas práticas para que algo seja realizado. Dessa forma, criam-se ciclos de aprendizagem que combine com o desenvolvimento de capacidades nas pessoas. A Residência se prepara para formar equipes de trabalho trazendo para dentro da prática do trabalho as competências desenvolvidas dentro da comunidade:

Eles [os residentes,] são profissionais da unidade, [...] porque hoje e até a maneira como eu vi há tempos atrás, que eu falei que escutei de uma profissional da saúde da família dizer assim: ‘A Residência cria para a gente [NASF] continuar e hoje eu já vejo diferente. (P)

A relação com o NASF e Residência, ou seja, alguém que se integra à comunidade da Residência e trabalhou anteriormente no NASF percebe diferenças na atuação

em territórios diferentes – o que traz a singularidade das práticas em cada local da ESF. O que se coloca essencialmente é a diversidade que vai se apresentando nas atuações e que podem ser ricas quando compartilhadas nos diversos cenários.

Assim, em relação a mim como residente, eu acho que por trabalhar três anos no NASF – e por ter trabalhado no NASF, acho que seria tranquilo aqui, eu já tenho três anos de experiência de NASF - mas assim, eu senti muita dificuldade na realidade de como se configura a estratégia saúde da família na capital e no interior. Eu vi muita mudança assim, muita coisa diferente. (R1)

Muitas vezes essa diferença se coloca com práticas e princípios diferentes, por exemplo, substituir uma clinica-centrada no individuo:

Eu tive muita dificuldade. Quando eu atuei no NASF onde eu trabalhava eu trabalhava mais de fato como [profissional de uma categoria] clínica, inclusive a gente tinha um prédio no NASF que era separado das unidades de saúde, então tinha dois turnos só pra gente se deslocar pros postos de saúde mais longe, pros distritos mais longe. (R2)

A relação com outros atores do cenário da prática que podem fazer eclodir sentimentos de impedimentos e desempoderamento:

Quantas vezes eu tinha e tenho ainda muita raiva assim, raiva do coordenador do posto, que dá vontade de mandar pra puta que pariu, o pessoal do NASF, assim, puta que pariu! Você vê, o espaço protegido que é a Residência, mas a gente consegue sentir a potência daquilo [ESF] e a gente vê algumas pessoas desprezando aquilo e isso dá muita raiva. (R2)

Eu fiquei pensando, por exemplo, em relação ao processo de trabalho, integrar o NASF em algumas situações [da RMSFC], por exemplo, lá na equipe da gente, quando eu era residente e em alguns momentos de roda de equipes estavam [NASF] lá com a gente, a gente não conseguiu integrar quase nenhum dos momentos pedagógicos e são produtos que são imateriais, mas que estão ali, profissionais que esses sim vão ficar, são políticas públicas e devem ficar ou não com a precarização. (P)

Assim, mesmo quando as comunidades de prática ao vivo e definem-se dentro de um contexto institucional, seus limites podem ou não coincidir com as fronteiras institucionais. E mesmo quando as comunidades de prática são formadas mais ou menos ao longo dos limites institucionais, entrelaçarem todos os tipos de relações de caráter periférico que borram as fronteiras. Os limites institucionais apresentam distinções claras entre dentro e fora. Por outro lado, os limites da prática são constantemente renegociados, definindo formas muito mais fluidas e com texturas de participação (WENGER, 2010)

A fluidez de renegociação dos limites da prática acontece dentro da Residência e muito pouco dentro do NASF que acaba em muitos casos representando um modelo de atuação profissional recluso aos limites institucionais que eram impostos. Muitas vezes

notamos em nossa prática rotas de fuga para o NASF quando percebiam que algo precisava ser superado naquela atuação. Muitos colegas NASF timidamente se integravam as rodas de categoria para debater, escutar e participar de alguma forma das reflexões sobre as práticas compartilhadas. No entanto, em muitas situações havia impasses, principalmente, na construção desta prática dentro da ESF. Por exemplo, abaixo vemos que o processo de territorialização no qual passam os residentes no período de inserção no território não acontece nas práticas de inserção dos profissionais NASF quando adentram o campo de trabalho:

A Residência, esse processo que os meninos passam de territorialização que são três meses, um processo que eles vão conhecer o território, que eles vão conhecer onde é que eles tão pisando, o que eles vão fazer ali, conhecer as pessoas, conhecer a rede que está ali, eles fazem isso muito bem feito, com todas as adversidades e dificuldades e elas acontecem todo o percurso. Nós NASF nós não dizemos isso, simplesmente quando nós chegamos nós não sabíamos. A gestão chegou pra gente e disse assim, vocês vão conhecer o território. (P)

Benzer Belgeler