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Um sistema de regulação global portador de uma estatalidade mitigada sofre influências diretas do ambiente macroeconômico internacional. Tratando-se de um fenômeno específico da virada do milênio, a compreensão dos mecanismos regulatórios pressupõe a ampla pesquisa acerca da primeira crise econômica global do século XXI, cujos efeitos mais contundentes tornaram-se aparentes no ano 2008.

Não se trata, obviamente, de uma análise minudente dos mecanismos e variáveis causadores da crise. O objetivo primordial desse estudo é compreender como a alteração da correlação de forças econômicas, causada por uma desastrosa gestão de investimentos globais, não foi capaz de reverter a mitigação da estalidade nos processos regulatórios.

Com efeito, a reassunção do Estado como protagonista de regramento de alguns setores (até como forma de apresentar uma resposta aos efeitos sociais da crise econômica) não altera, substancialmente, a estrutura jurídica formatada nesse período que costumamos denominar de globalização. Os efeitos da crise econômica cíclica de 2008 ainda perduram no momento da redação desta tese e encontram-se espraiados por todos os cantos do globo, com especial contundência na Europa.

Devemos ressaltar, inicialmente, que a eclosão da crise econômica global não se deveu a um fato ou uma variável específica. Foi um conjunto de decisões imediatistas e descompromissadas com o interesse coletivo causador de um verdadeiro cataclismo econômico que impôs um processo recessivo duradouro e gerador de profundos conflitos no plano social. As cautelas tradicionais na gestão dos investimentos econômicos foram abandonadas como fundamento básico para a criação de uma “falsa” exuberância econômica. Como ressaltou Paul Krugman (2009, p. 155), referindo-se ao contexto estadunidense e europeu anterior à crise:

O que efetivamente aconteceu, contudo, foi o completo abandono dos princípios tradicionais. Até certo ponto, essa negligência foi induzida pela exuberância irracional das famílias, que se deixaram impressionar pelo aumento contínuo do valor de mercado das casas e resolveram entrar no mercado de qualquer maneira, sem se preocupar com o montante das prestações.

A canalização e a gestão desses recursos, até para alimentar essa exuberância irracional, passou a se processar fora dos padrões bancários tradicionais, mediante a utilização de um engenhoso mecanismo paralelo de securitização dos investimentos. Nesse sentido, o sistema deixou de ser regulado de forma ortodoxa e, com o fito de se obterem rentabilidades artificiais, foram abandonadas as cautelas exigidas para lastrear os investimentos. Fugindo das amarras do sistema bancário tradicional, as grandes corporações financeiras passaram a gerir investimentos de extremo risco, sem as garantias historicamente exigidas (KRUGMAN, 2009, p. 166-167).

A falta de uma estrutura regulatória adequada possibilitou a criação de “bolhas” de prosperidade, capazes de oferecer uma rentabilidade financeira considerável para a classe média dos países centrais e ganhos estratosféricos para a elite das corporações financeiras. A impossibilidade de continuação do ciclo artificial de geração de riquezas inexistentes acabou por contaminar todo o sistema econômico e produzir uma das maiores crises financeira da história da economia. Nesse sentido, o fundamento principal da ruptura econômica do final da primeira década do século XXI foi uma ausência de regulação específica da estrutura dos atores financeiros nos planos local e global. A partir da ruptura da estrutura de securitização dos investimentos estadunidenses, vivenciou-se a estagnação de toda estrutura econômica internacional, até então contaminada por rentabilidades artificialmente construídas (MARAZZI, 2011, p. 61-62):

[...] o fosso temporal no qual se engendra a crise de governança estadunidense é a origem da transformação da crise regional em crise imediatamente global. Seguramente, isso é devido à disseminação dos riscos e dos títulos podres que nesse período contagia os portfólios dos bancos, seguradoras, hedge e equity funds, fundos de pensão e de investimento de todo o mundo.

Para muitos, por outro lado, a eclosão da crise de 2008 foi produto de uma característica incontornável e estrutural do sistema capitalista16. Essa postura determinista não é capaz de afastar a clara premissa de que o colapso financeiro do

16 Não objetivo no nosso trabalho o debate acerca das crises cíclicas do capitalismo e os

seus vícios estruturais. De forma resumida, é possível esclarecer que a justificativa da crise, pelo menos em uma análise marxista, são as próprias deficiências estruturais do capitalismo. Nesse sentido, a crise de 2008 foi uma crise de acumulação, inexoravelmente, produzida a partir da estruturação do modelo capitalista.

início do século decorreu de uma severa crise de regulação dos mercados. A construção de um modelo leniente de estruturação das finanças privadas permitiu a ação predatória de agentes financeiros e a geração de profundos prejuízos sociais e econômicos em escala global.

Muito embora possa parecer uma posição paradoxal, os prejuízos decorrentes do afastamento do Estado como agente regulador das relações econômicas não caracteriza a impossibilidade de construção de um sistema normativo de estatalidade mitigada. As deficiências apresentadas na condução dos parâmetros dos investimentos globais apenas reforçam a tese de impossibilidade sistêmica de o Estado-nação, com seus instrumentos tradicionais, impor um regramento adequado para as relações econômicas em foros globais.

Os problemas de regulação, na maioria dos casos, foram gerados pela ação específica e localizada de determinados agentes econômicos, com propósitos e objetivos extremamente delimitados. No caso específico da propagação dos investimentos de rentabilidade artificialmente construída, verificou-se a omissão dos países centrais em promover o controle das atividades de investimento a partir dos instrumentos tradicionais (KRUGMAN, 2009, p. 171):

À esquerda, é comum culpar a desregulamentação pela crise – especificamente, a revogação parcial, em 1999, do Glass-Steagall Act, passando a permitir que bancos comerciais entrassem no negócio de bancos de investimentos e que, portanto, assumissem mais riscos. [...] Contudo, a crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram reguladas.

A falta de atuação do Estado, em um ambiente no qual sua ação reguladora era possível e indispensável, abriu espaço para o florescimento de entidades privadas destinadas a oferecer credibilidade às transações financeiras de duvidosa consistência. Nesse particular, o vácuo normativo estabelecido acabou sendo ocupado pelas chamadas agências de classificação de riscos. Tais agências, por meio da avaliação positiva dos investimentos, deram a “legitimidade” necessária à concretização das operações escusas. Em um ambiente desprovido de qualquer tipo de controle, esses verdadeiros “auditores” de riscos legitimaram o imponderável e afiançaram o inatingível. Por meio de uma confluência de interesses corporativos,

milhares de investidores e milhões de empregos foram expurgados do sistema econômico.

Os escombros da crise econômica global trouxeram efeitos específicos no plano de uma regulação global, colocando em dúvida a própria viabilidade de um sistema jurídico global. A resposta, no entanto, volta-se, pelo menos no campo europeu, pela retomada consistente do processo de integração global. Como acena Jürgen Habermas, no prefácio da obra Sobre a Constituição da Europa (2012, p.01):

Desde 2008, observamos os árduos processos de aprendizagem do governo alemão, movendo-se relutante e, a passos curtos em direção à Europa. Após dois anos e meio de insistência inicial por caminhos nacionais isolados, de barganha por ajuda financeira, de sinais ambíguos e de concessões adiadas, parece se impor finalmente a visão de que fracassou o sonho o ordoliberalismo quanto a critérios de estabilidade livremente acordados que deveriam ser seguidos pelos orçamentos nacionais.

A resposta diante da crise sistêmica não se apresenta como um retorno à estatalidade ortodoxa e ao recrudescimento dos padrões tradicionais de regulação. Os efeitos nefastos da crise em escala global escancararam a própria ineficácia dos sistemas reguladores nacionais e a ineficiência de autorregulação de determinados setores financeiros. Não significou, por outro lado, a eliminação de uma realidade consistente de declínio de atuação do Estado-nação, mas sim a reafirmação da necessidade de que os entes privados adotem um referencial diverso de regulação. A estrutura estatal típica ainda continua inadequada para atingir ou regrar certas relações jurídicas travadas além das fronteiras. O cataclismo econômico não mudou essa realidade, apenas a tornou mais cruel e explícita17.

17 Mesmo para autores distantes da orientação marxista, há uma nítida tendência em

reconhecer os efeitos sociais devastadores das crises capitalistas cíclicas. Em relação ao ambiente sócio-econômico anterior à crise de 2008, reconhece-se a modulação de uma estrutura econômica de nítida exclusão e concentração de renda. Dentro dessa linha de raciocínio, assevera Luiz Carlos Bresser-Pereira (2010, p. 43): “[...] meu argumento é que os ricos nos países desenvolvidos ganham com a globalização financeira, que é desastrosa para países em desenvolvimento, na medida em que estes se tornam incapazes de neutralizar a tendência da taxa de câmbio à sobrevalorização e acabam ficando excessivamente endividados. A crise financeira de 2008 mostrou que, no final, a globalização também é desastrosa para os países ricos.”. O ambiente global, inundando por uma excessiva permissibilidade regulatória, permite a acentuação das disparidades econômicas em todas as sociedades, sejam elas desenvolvidas ou periféricas.

É relevante ressaltar, por outro lado, que não é unânime a concepção de que a crise econômica de 2008 promoveu um retrocesso no processo de fragmentação regulatória. Para autores como o estadunidense Ian Bremmer, a crise econômica não trouxe modificações contundentes na estruturação da economia internacional, pois o Estado continua a exercer um papel atuante e interventivo no domínio econômico. Construiu, assim, a tese de que o mundo contemporâneo vivencia um verdadeiro capitalismo de Estado (2011, 17-21).

Sendo assim, o desequilíbrio da crise econômica sistêmica da primeira década do século XXI apenas agravou a correlação entre o Estado e a sociedade, incrementando os processos interventivos daquele (BREMMER, 2011, p. 31):

Em 2008, essa tendência a um maior nível de poder do Estado atingiu um ponto de desequilíbrio. Durante a crise financeira e a recessão global, um enorme colapso dos mercados submeteu a globalização a seu primeiro verdadeiro teste de esforço, as autoridades políticas tanto do mundo desenvolvido quanto do mundo emergente assumiram a responsabilidade por decisões normalmente atribuídas às forças de mercado – e em uma escala que não se via há décadas.

Os argumentos acima elencados, dotados de uma postura nitidamente abstencionista do Estado-nação, devem ser compreendidos em outro contexto. Não se nega ou esconde a ideia básica de forte intervenção do Estado nas relações econômicas, que se tornou mais evidente a partir da crise de 2008. Essa interferência na economia foi e continua sendo necessária para restabelecer certo equilíbrio nas relações sociais18. Ao contrário da visão dos liberais ortodoxos, a

18O impacto social devastador da crise de 2008 é ressaltado de forma criativa e inusitada pelos autores David Stuckler e Sanjay Basu, no recente livro The body economic – Why austerity kills – Recession, budget battles and politics of life and death (2013). Sendo os autores experientes pesquisadores da área de saúde pública, utilizaram sua expertise para analisar os efeitos das crises econômicas e das severas políticas de austeridade fiscal, a partir da prevenção e do tratamento de enfermidades. Por meio de uma criteriosa pesquisa, apresentaram resultados inquietantes acerca da correlação entre a redução de benefícios sociais e o empobrecimento dos cidadãos e do próprio Estado. Chegam à impressionante conclusão de que a adoção de austeridade fiscal apresenta um efeito paradoxal, pois, além de representar um aumento significativo de doenças na sociedade, implica um aumento exponencial da dívida pública (2013, p. 139): “What are the health effects of the choice between austerity and stimulus? Today there is a vast natural experiment being conducted on the body economic. It is similar to the policy experiments that occurred in the Great Depression, the post-communist crisis in Eastern Europe, and the East Asian Financial Crisis. As in those prior trials, health statistics from the Great Recession reveal the deadly price of austerity a price of austerity a price that can be calculated not just in the ticks to

intervenção do Estado mostrou-se a única saída viável para debelar os efeitos nefastos da crise, conforme relatam pensadores de correntes ideológicas diversas como Paul Krugman (2009, p. 199-201) e Antonio Negri (2011, p. 363-364).

O fato de o Estado dispor de meios para intervenção nas relações econômicas não implica dizer que ele é capaz de regular integralmente as relações jurídicas transnacionais. As questões que exorbitam as fronteiras tradicionais do Estado- nação não podem ser reguladas exclusivamente pelos padrões tradicionais. A pontual inserção estatal na estrutura econômica não apaga essa realidade incontornável.

Se a crise econômica sistêmica provocou a necessidade de uma reorganização de forças entre os agentes internacionais no plano econômico, não foi capaz de apagar os entraves essenciais contidos nas demandas regulatórias. Ora, a demanda por um regramento global acerca do fluxo de informações na internet (conforme explorado no subitem anterior) não desaparece diante da retração de economia. O baixo desempenho econômico poderia, no máximo, reduzir o fluxo dessas informações19, todavia não é capaz de eliminar essa característica indelével da pós- modernidade.

A eventual incursão do Estado-nação no âmbito econômico, com a participação direta em alguns setores antes de exclusividade da iniciativa privada, não é elemento capaz de alterar substancialmente a correlação de forças no plano global. O próprio diagnóstico de índole marxista reconhece a característica fundamental do capitalismo contemporâneo de interligação no plano externo. Conforme destaque feito por Carlo Vercello (2011, p. 131-132):

economic growth rates, but in the number of years of life lost and avoidable deaths. Had the austerity experiments been governed by the same rigorous standards as clinical trials, they would have been severe and often deadly. The benefits of the treatment have failed to materialize. Instead of austerity, we should enact evidence-based policies to protect health during hard times. Social protection saves lives. If administered correctly, these programs don’t bust the budget, but as we have shown throughout this book they boost economic growth and improve public health.”. O contexto no qual foram apresentadas as conclusões nos remete à reflexão acerca do modo de intervenção do Estado em função da garantia do bem-estar social. Assim sendo, a imposição de medidas extremas de austeridade fiscal pode significar, em última análise, uma falsa percepção regulatória da estrutura estatal.

19 Acrescente-se que, aparentemente, não existe nenhum dado empírico que confirme essa

assertiva. Na realidade não se vislumbra, em uma análise superficial, a possibilidade dessa retratação do fluxo de informações pelo meio digital.

Por um lado, no capitalismo cognitivo, a competitividade das empresas depende cada vez mais de condições externas e da sua capacidade de capturar os rendimentos relacionados à produtividade diferencial, que emerge de um território em função de seus recursos cognitivos e da qualidade do sistema de formação e de pesquisa pública.

Vê-se, portanto, que a ocorrência de uma ruptura econômica cíclica, embora possa arrefecer o volume das transações comerciais e a integração entre os países, não é capaz de modificar estruturalmente as condições de uma fragmentação regulatória. As condições gerais que demandaram a instauração de uma estrutura supraestatal de regulação das relações jurídicas não se vinculam a eventual equilíbrio ou harmonia das estruturas econômicas. O ambiente global, mesmo diante da retração das trocas mercantis, continua sendo impregnado de problemas e desafios que ultrapassam os limites do Estado-nação.

Obviamente não se pode ignorar o fato de que a crise econômica de 2008, principalmente em relação aos chamados países centrais, escancarou uma série de problemas sociais que acabavam sendo camuflados por uma exuberância econômica irracional. O decréscimo progressivo e continuado da renda dos trabalhadores de tais países, por muitos anos, foi atenuado por uma oferta de crédito abundante e barato, capaz de manter, artificialmente, o nível de consumo compatível com o crescimento econômico almejado20.

Os desafios supranacionais relacionados ao meio-ambiente, ao fluxo de informações pela internet, às questões das patentes, ao comércio exterior, às relações laborais não são simplesmente superados ou apagados pelos

20 O diagnóstico da crise econômica a partir da progressiva diminuição da renda do

trabalhador e a substituição por uma oferta abundante de crédito é de matriz nitidamente marxista, não sendo aceita pelas correntes liberais. Sem adentrar na essência do debate, a avaliação de cunho marxista apresenta-se mais fiel com a realidade das alterações socioeconômicas do final do século, pois identifica uma mudança substancial entre o foco da mais-valia (MARAZZI, 2011). O uso dos instrumentos de facilitação do crédito e a acentuada retratação do crescimento da renda do trabalhador possibilitaram um crescimento econômico desprovido de consistência. A avaliação liberal, entretanto, aposta apenas nos desequilíbrios dos processos de controle dos capitais como causa da crise e ignora aspectos estruturais relacionados à renda do trabalhador (KRUGMAN, 2009; BREMMER, 2011). Esse impasse teórico atesta uma contradição de ambas correntes que ignoram a parte do processo formador da crise em prol de suas convicções. Com efeito, a análise marxista, embora seja certeira na elucidação das questões centrais, propugna por uma solução de ruptura sistêmica, obviamente incompatível com o sistema econômico prevalente. Os liberais, por seu turno, ignoram as deficiências estruturais da sociedade, todavia, paradoxalmente, apresentam-se mais precisos na avaliação dos problemas macroeconômicos.

desequilíbrios econômicos sistêmicos. Não há qualquer indicação de que esses e outros problemas do século XXI tenham sido ignorados diante da retração econômica.

A estrutura global das relações jurídicas continua a existir, mesmo diante de um cenário econômico desfavorável às trocas. Os desafios regulatórios, diante da impotência da matriz estatal ortodoxa, não são simplesmente eliminados, continuando a incidir no quotidiano de todos nós.

Trata-se de uma tendência inexorável, fundamentada na mudança paulatina dos referenciais sociais, na qual as relações entre os indivíduos encontram-se, irremediavelmente, contaminadas. As oscilações econômicas apenas interferem na intensidade dessas relações, todavia não são capazes de modificar sua essência.

2. A PROMISCUIDADE DOS ESPAÇOS NORMATIVOS INTERNO E

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Benzer Belgeler