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Nas aulas que observei, foram no mínimo dois professores trabalhando em parceria com uma mesma turma. Por vezes três, quatro professores desenvolviam o trabalho em conjunto, desde o planejamento, avaliação e desenvolvimento das aulas. As turmas possuíam cerca de 20 alunos cada. Eram duas horas de aula divididas em dois momentos: O primeiro momento numa sala de aula e o segundo no quintal da escola, a céu aberto. Esta dinâmica de um momento em sala de aula formal e outro no quintal

materializa uma possível metáfora que ilustra bem o processo didático dos Arautos, que articula o ensino formal e não formal: o meio do caminho entre a sala de aula e o quintal.

O primeiro momento é composto por diversas atividades. Destaco as que observei: aquecimento e relaxamento corporal; dinâmicas de grupo através das quais valores humanos foram trabalhados; abordagem de conceitos musicais teóricos, vivenciando-os através da sensação corporal; vídeos de apresentação de grupos de percussão nacionais e internacionais; vídeos sobre manifestações tradicionais afro- brasileiras, e escrita musical no quadro-negro da sala de aula. Também vi ocorrer a construção e confecção de instrumentos, treinamento dos ritmos e toques sem os instrumentos, utilizando as carteiras e outros recursos da sala.

Fabiana, ao falar desse primeiro momento, disse que as atividades, que eram e ainda são realizadas, são planejadas semanalmente conforme a necessidade avaliada pelos professores. Alguns exemplos que ela me deu: se os professores avaliam que é necessário trabalhar entrosamento e espírito de grupo, então se desenvolve uma atividade que trabalhe essas questões. Se avaliam a necessidade de discutir um fato ocorrido na comunidade, faz-se o debate. Se avaliam a necessidade de abordar algum elemento teórico, como por exemplo ‘contratempo’ devido à demanda observada na parte prática da aula anterior, se aborda o contratempo. Se os educadores avaliam que é necessário trabalhar algum aspecto técnico da execução rítmica sem o tambor, desenvolve-se atividade rítmica usando os recursos da sala de aula. Destes exemplos, pude presenciar uma aula em que se trabalharam aspectos técnicos do manuseio de baquetas, através do movimento de pulso e não de braço e posteriormente, no segundo momento da aula, constatei que havia uma dificuldade da turma com o manuseio das baquetas. Também

observei uma aula em que os alunos foram colocados para tocar as mesas da sala de aula com as mãos e eram orientados a não bater com força para não machucarem as mãos. Depois o professor Renato disse que se batessem forte nos tambores, assim como eles machucariam as mãos nas mesas, os tambores também ficariam machucados.

Segundo Fabiana e Inácio, esse primeiro momento tem como objetivo preparar e dar suporte ao segundo, que é composto da aula prática, de execução do instrumento, sanando as questões musicais e, principalmente, extramusicais que atrapalham o desenvolvimento do segundo horário. É neste primeiro momento que, de forma mais direta, se desenvolve o aspecto humano da educação (musical) social.

O segundo momento é de aula prática. A turma se colocava em formação do bloco de percussão, fora da sala de aula, no quintal da escola. A ordem de posicionamento dos alunos no bloco acontecia conforme o instrumento de cada um e a movimentação coreográfica de cada música a ser ensaiada. São três instrumentos: repenique comumente na fileira da frente, caixa-clara comumente na segunda fileira e então três fileiras de bumbos, que são de três tamanhos de aros 20, 22 e 26 cm de diâmetro, ou seja, dos agudos para os graves. Os próprios alunos pegavam seus instrumentos no armário46.

46 Esses são os instrumentos usados na escola municipal Hugo Werneck, pelo bloco Batuque Salubre1 Em outros lugares, o trabalho do Grupo varia como no caso do bloco Tamborilata coordenado por Inácio pelo Projeto Fica Vivo, da Secretaria de Estado de Segurança Pública, também na Comunidade do Morro das Pedras, em que os instrumentos são feitos de material reciclado1 Os repeniques são substituídas por meias latas de tintas, cortadas transversalmente e pregadas em tábua de madeira1 As caixa-claras são substituídas por latas de tinta de 20 Litros1 Os bumbos por tonéis grandes de combustível1

Figuras 10 e 11: Pátio de escola com vista para a parede do ginásio, e aula prática da turma da tarde no mesmo pátio, vista de costas para o ginásio1 Álbum de fotos da página do Grupo no facebook1

Todas as aulas que observei possuíam esse formato geral: Um professor se posicionava como regente, enquanto o outro se integrava ao bloco como professor auxiliar, ficando atento para acompanhar individualmente qualquer aluno que porventura demonstrasse dificuldade ou solicitasse auxílio. Primeiro o professor regente executava um fraseado rítmico no apito, sempre preso entre os lábios, ou na sua caixa-clara, posicionada a sua frente em um tripé. Esse fraseado rítmico se denomina chamada. Depois mostrava o ritmo a ser tocado em resposta à chamada por mimetismo vocal47, usando fonemas como ‘tá’, ‘prá’ e ‘bum’, e/ou por execução no seu instrumento. Ele às vezes demonstrava o ritmo por mimetismo vocal dando às notas nomes de números em sequência. Neste caso, a numeração das notas correspondia à sua ordem temporal no trecho rítmico e não há nenhuma relação com a duração de tempo de cada nota. Solicitava a repetição do ritmo por todos.

471 Vocalizações como recurso mnemônico em processos de aprendizagem percussiva são também comum em outras culturas como a Índia e países da África1

Exemplo musical 1: fragmento de partitura de uma transcrição da performance da música 'Reloginho', pelo Bloco batuque salubre no dia 03 de julho de 20101 Verifica-se que para iniciar a música, o regente executa na caixa clara a “chamada” e imediatamente, os alunos do naipe de surdo “2” (22 cm), iniciam a marcação no primeiro tempo subsequente e a música se desenvolve1

O professor regente passava a primeira parte da música, naipe de instrumento por naipe de instrumento, até que todos demonstravam domínio da primeira parte da música. Só depois que o grupo executava a primeira parte da música que o professor passava para segunda parte. Cada parte de uma música possuía sua própria chamada que era executada pelo regente no apito ou caixa-clara. O professor regente assim, estabelecia as chamadas através das quais o grupo de alunos executava as evoluções musicais combinadas mudando de uma parte da música para outra ou executando nuances de dinâmica sonora e coreográfica.

Cada música era acompanhada de uma movimentação corporal, que era sugerida pela própria execução musical e desenvolvida pelos próprios alunos até se chegar numa coreografia definida. Percebi que a movimentação corporal era entendida como uma extensão natural da execução musical. Os professores estavam abertos para sugestões dos alunos tanto de novos elementos musicais quanto corporais a serem somados à performance.

Benzer Belgeler