Texto quer dizer Tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de entrelaçamento perpétuo64.
Ao longo da reflexão desenvolvida nesta tese, buscou-se a proposição de uma abordagem metodológica sociolinguístico-discursiva para a representação da informação em domínios dinâmicos que integrasse as duas dimensões do discurso, quais sejam, uma linguístico-enunciativa – referente às características internas do discurso, em termos de suas propriedades lexicais e de suas relações semânticas, e outra discursivo-situacional – concernente à situação de uso em que o discurso é produzido. Tal proposta considerou a dimensão linguística como aquela que modula a dimensão situacional sem determiná-la, e vice-versa, na medida em que o linguístico interage com o situacional, ressignificando-se mútua e dinamicamente. Buscando-se comprovar essa integração, a pesquisa adotou como objeto empírico os discursos proferidos pelos três principais candidatos à Presidência da República nas eleições brasileiras de 2010 e, ainda, a identificação das regularidades discursivas possibilitadas pela comparação de pleitos distintos.
É preciso insistir sobre um ponto que caracteriza a abordagem desenvolvida. Nossa proposta definiu-se em função de um desafio primordial: considerar a análise linguística como indissociável daquela do funcionamento de um discurso em situação. Sendo assim, a proposição aqui instituída demarca a passagem de uma perspectiva estritamente vinculada à língua para outra que ressalta as marcas discursivas e argumentativas inerentes às produções linguageiras em determinado domínio.
Tal proposta foi operacionalizada através do nosso jogo de desconstrução e reconstrução dos sentidos, no qual os termos foram extraídos dos seus contextos discursivos, para depois serem inseridos novamente na cena enunciativa. Para tanto, o jogo de desconstrução de sentidos considerou a superfície discursiva dos textos analisados, objeto delimitado pelos índices lexicais quantificados, viabilizados em nossa proposta pelo método lexicométrico e pelas redes terminológicas – estratégia que nos aproximava da dimensão linguística, essencialmente enunciativa. Por outro lado, o jogo de reconstrução de sentidos buscou dar conta da dimensão discursiva e situacional dos pronunciamentos aqui analisados, uma vez que se ocupou das configurações retóricas e argumentativas que os envolvem, bem como da carga semântica dos termos enunciados, olhando, detidamente, para os modos de organização discursiva que os colocam na encenação discursiva.
Assim, em um primeiro momento, direcionamos nossa abordagem para uma análise contrastiva do corpus, identificando, primeiramente, os termos comuns aos candidatos, os específicos e os diacrônicos, para em seguida caracterizar as polarizações semânticas no uso de tais termos, de acordo com as contingências da situação, das restrições estabelecidas pelo contrato de comunicação político, e, sobretudo, pelas estratégias argumentativas baseadas em fatos, verdades, presunções e valores. De maneira complementar, analisamos as semelhanças e as diferenças entre os discursos proferidos no pleito de 2010 e no anterior. Tal contraste possibilitou verificar as mudanças ou as perenidades dos discursos e sua generalidade ou especificidade lexicais dependentes do contexto de produção e da dinamicidade do domínio em questão.
Certamente, no âmbito dos estudos da organização da informação, a reorientação teórica e metodológica empreendida nesta tese, especialmente àquela dedicada ao tratamento de um objeto de conhecimento fundamentado na integração entre essas duas dimensões (linguística e situacional), representou um avanço efetivo tanto para a Ciência da Informação quanto para outros campos do conhecimento que lidam com problemáticas semelhantes. Afirmativa que ganha maior força quando acenamos, a partir de nossos estudos, para a viabilidade de uma formalização explicativa que dê conta da representação da informação através da análise de alguns processos discursivo-argumentativos que são constitutivos da maneira como
os sujeitos efetivam os discursos sociais, dada a contingência em domínios dinâmicos.
Além disso, há que se destacar outras contribuições da pesquisa. Tomar os termos como temas do discurso possibilitou a representação de variados universos de referência que eles permitem acessar, uma vez que, conforme demonstrado, eles são dependentes dos percursos interpretativos realizados pelos sujeitos na complexidade de um discurso situado, ou, dito de outra forma, os termos operam como descritores discursivos de uma indexação também discursiva, e não mais lexical,subordinada aodomínio analisado.
Convém ressaltar, ainda, a utilização de abordagens úteis para o desenvolvimento e o aprimoramento de métodos para a construção de instrumentos de representação da informação em domínios dinâmicos como: o mapeamento de redes terminológicas que permitiu plotar uma topologia das inter-relações entre os termos utilizados pelos atores sociais em suas estratégias argumentativas; o emprego da metodologia de análise de redes sociais que possibilitou a identificação de termos correlatos utilizados com o mesmo teor semântico pelos candidatos, de termos recorrentes e de termos que tendem a ficar próximos uns dos outros, de acordo com o período de campanha em que foram proferidos; assim como uma análise semântico-discursiva dos termos que evidenciou e clareou a ideia de que a utilização de certos vocábulos e as relações estabelecidas entre eles derivam do assunto em evidência, comportam diferentes nuances de sentido e servem como ponto de entrada para a representação dos tópicos da dinâmica do domínio em questão.
A análise dos verbos também merece ser mencionada como uma contribuição significativa da tese, haja vista ter possibilitado representar uma estruturação das ações inerentes ao dizer político, seja pelo tempo verbal que se ajusta de acordo com a posição de cada candidato (situação ou oposição), ou pela flexão de número utilizada como estratégia argumentativa que ora se posiciona remetendo à ideia de coletivo, ora referenciado à capacidade individual.
Nossa incursão nos discursos de candidatura dos dois pleitos esboçou algumas tendências discursivas mais regulares e outras mais distintas, dependentes da situação enunciativa engendrada e das afiliações partidárias dos seus enunciadores. Os “novos” discursos políticos têm a função de reciclar as ideias dos discursos anteriores ou atribuir a eles uma nova roupagem. Desse modo, o uso de determinadas formas lexicais que remetem a diferentes modalidades de sentido, à escolha de certos lugares-comuns e valores em detrimento de outros são, para nós, escolhas jamais gratuitas do discurso político e constituem a rede discursiva utilizada na estrutura dramatúrgica que o constitui. Sem levar isso em consideração, qualquer tentativa de organizar esses discursos, sociais por natureza, postar-se-á como uma atividade representativa redutora de sua complexidade e dinamicidade. Com isso, e em virtude do caráter social, linguístico e discursivo da metodologia proposta, acreditamos que essa metodologia possa ser aplicada a outros corpora do domínio político, segundo parâmetros distintos de tempo (em diferentes períodos históricos), de espaço (em contextos socioculturais diferentes: uma análise comparativa entre discursos proferidos no Brasil e na França, ou entre países da América Latina, por exemplo); de subgêneros (comparando discursos políticos eleitorais, discursos parlamentares, discursos de partido de uso interno e outros no espaço da política), ou, ainda, confrontando domínios distintos para estudar suas semelhanças e assimetrias (o domínio político, o midiático, o religioso, dentre outros).
Em nossos estudos, a aplicação da lematização foi preterida em virtude do objetivo desta tese, qual seja de avaliar as nuances e variações semânticas dos termos analisados. No entanto, a aplicação da lematização, operacionalizada no programa desenvolvido para criação das redes terminológicas, pode ser frutífera para o desenvolvimento de outros trabalhos no campo da organização da informação, bem como a utilização das rotinas empregadas para a geração de redes terminológicas em corpora diversos.
Para além das aproximações substantivas sobre o conteúdo lexical dos discursos e retórico-argumentativa em relação às encenações linguageiras, pode-se desenvolver uma aproximação discursiva mais verticalizada sobre o funcionamento gramatical,
especialmente no que tange à utilização de verbos enunciativos e performativos, de advérbios modalizadores e o emprego excessivo ou comedido de adjetivos, dentre outras formas gramaticais. Tais usos podem sinalizar traços linguísticos e clivagens discursivas associadas ao lugar social e ideológico do locutor/enunciador ou revelar certo “amaciamento discursivo”, por exemplo.
Por fim, é importante retomarmos aqui a indicação feita logo no capítulo introdutório desta tese, à qual sugeri aos leitores que a lessem não como um texto fechado, mas que a tomassem como um discurso, uma obra aberta por natureza. Tomá-la assim possibilita uma maior compreensão daquilo que vimos defendendo ao longo de todas essas páginas, que a linguagem é algo que está em ação, constituída e moldada no constante jogo das trocas comunicativas, porque o discurso é efetivamente um objeto dinâmico em perpétua reconstrução! Sendo assim, a pesquisa que ora se finaliza consolida em torno de si, no entrelaçamento do linguístico com o situacional, todo um vasto discurso, um discurso político e socialmente demarcado, mas também e por que não, um discurso de vida.