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2.2. Veri Madenciliği

2.2.3. Veri Madenciliği Süreci

Apresentaremos neste item a relação dos sujeitos de pesquisa com a migração. Procuraremos estabelecer as relações entre a migração de trabalho para os Estados Unidos e a realização do curso universitário. Antes da realização da pesquisa, já prevíamos que os entrevistados teriam algum contato com esse fenômeno, podendo observá-lo através de amigos, parentes ou conhecidos. Imaginávamos a possibilidade de que esse contato seria um dos parâmetros utilizados por eles para analisar sua própria vida, a realização do curso e as opções profissionais. Um dos elementos mais importantes dessa comparação seria, a nosso ver, o econômico – quem emigra está ganhando dinheiro realizando atividades pouco valorizadas e quem estuda está investindo em uma carreira que não é promissora financeiramente. A interpretação das entrevistas confirma que a perspectiva da emigração de trabalho está presente nas análises dos entrevistados e mostra que, além do econômico, outros elementos são levados em conta na comparação entre as decisões de emigrar para trabalhar ou ficar na cidade e realizar o curso superior, como a relação com o saber, as relações com a família e com a cidade. São elementos que justificam a permanência no município, considerados mais importantes do que ganhar dinheiro. Os entrevistados declaram também, como justificativa para não terem emigrado, a dificuldade em deixar o que os prende, aqueles e aquilo de que gostam.

Raquel, Cíntia e Jaqueline são, entre os entrevistados, as que possuem contato mais direto com pessoas emigradas – um irmão e vários primos de Raquel, um irmão, primos e o ex-marido de Cíntia e o marido e todos os irmãos de Jaqueline estão nessa situação.

Como vimos no item anterior, Raquel utiliza a presença dos irmãos como uma ponte para o sonho de estudar em uma universidade “de filme”, mas a idéia de ir para trabalhar é, se não descartada, pelo menos adiada. O irmão afirma que ela tem que se formar, pois a vida lá é muito dura, há muito trabalho. Raquel traça seus planos futuros com base na atuação profissional na área da educação, planeja portanto seguir os encaminhamentos de seu curso. A emigração seria um complemento desses planos, a possibilidade de prosseguir seus estudos.

Cíntia estabelece uma relação de oposição entre fazer o curso superior e ir

para os Estados Unidos. Convive bem de perto com a situação, pois um de seus irmãos está naquele país há doze anos (foi para lá aos quinze), possui uma situação regular e estável, montou uma empresa e pode receber quem quiser ir trabalhar com ele. Esse irmão não possui nenhuma intenção de retornar. Pergunto o porquê, ela responde:

C: Ele fala que aqui, pra ele que não... Ele sente muito por não ter estudado, ele parou de estudar na quinta série. Foi o único irmão que não quis estudar, nunca gostou. Não gosta de estudar mesmo, fala: - “Eu nasci pra trabalhar”. (...) Ele começou a trabalhar muito cedo, mexer com boi, então assim tudo desviava a atenção. (...) Aí foi pra América, conheceu o trabalho e começou a ganhar, a fazer a vida dele, e falou que nunca vai se adaptar no Brasil. Pra quem não tem estudo, ele tá mais do que certo. Sem estudo, o que ele vai conseguir aqui? Qual emprego que ele vai conseguir?

Entendemos que as atitudes de ficar no Brasil e fazer faculdade opõem-se às de emigrar e assumir atividades pouco qualificadas. O diploma, lá, não teria muito valor, como Cíntia relata na fala de seu irmão: “Então não existe terceiro grau, lá você é analfabeto, se você não falar a língua”. Falando de seu ex- marido, Cíntia mostra sua concepção de que o “estudo” define a postura:

C: E não tem estudo também, é o que eu te falo. Falta de estudo o que que faz com as pessoas. Se sujeita, como se diz, põe o dinheiro na frente, né? Porque

quando você tem estudo, qualquer lugar que você vai está carregando essa bagagem, sem estudo a gente fica se submetendo a tudo.

Ela afirma que gostaria de conhecer os Estados Unidos e de estudar naquele país, “fazer um curso”, mas nunca de trabalhar, de assumir a vida que os emigrantes levam.

Jaqueline talvez seja a que receba os mais fortes apelos para emigrar, pois

seu marido está em Portugal e pede que ela vá para lá. O maior argumento de Jaqueline para recusar o convite é a necessidade de acompanhar as filhas, que estão se preparando para o vestibular. Além disso, diz que não suportaria viver longe delas e de sua família. Comparando-se com seus irmãos que estão nos Estados Unidos (é a única dos cinco que não foi), ela se diz mais apegada, com maior dificuldade para mudar. Além disso, cumpre uma missão nesse grupo familiar – administra os negócios dos irmãos no Brasil e toma conta da mãe.

Os outros entrevistados possuem contato menos direto com a emigração. Talvez isso explique que, para eles, a perspectiva de emigrar seja mais distante. Também nesses casos, percebe-se a oposição entre emigrar para trabalhar e fazer o curso superior.

Iolanda explica os motivos da emigração para os Estados Unidos:

I: O que acontece em Valadares? A gente trabalha, trabalha, trabalha, trabalha, quinze anos e não tem um carro, não tem uma casa própria muitas vezes. (...) E quando a pessoa vai pros EUA, o quê acontece? Ela consegue juntar um dinheirinho, compra uma casa aqui, compra alguma coisa, a situação de vida muda.

Ela afirma que não iria, pois não gosta de trabalhar “pesado”, prefere tentar mudar de vida com as perspectivas abertas pelo curso universitário.

Para Cleonice, a emigração para os Estados Unidos é responsável pela desestruturação das famílias, e é uma “fraqueza de pensamento” deixar-se “seduzir” pela idéia. É importante que as “cabeças pensantes, as pessoas mais preparadas, estudadas”, fiquem na cidade, na região, preocupadas em melhorá-la. Afirma que ninguém de sua família próxima emigrou, porque possuem um forte vínculo familiar. Ela também acredita que é possível construir uma vida na cidade e que a recompensa financeira da emigração não compensa a distância da família.

Para Henrique, é a responsabilidade como pai que impede a emigração. Não deixaria os filhos para ir, pois entende que faz mais falta perto deles, mesmo não ganhando muito dinheiro. Ele também não suportaria a distância de sua família: “Eu tenho um amor tão grande que eu acho que eu não me dou bem.”

Cássia não pensa em emigrar para trabalhar. Mas estaria disposta a viajar

para estudar.

C: Eu gostaria assim, olha pra você ver o meu sonho – todos os meus sonhos tão ligados com .. com educação. Sabe o que eu tinha vontade? De fazer um intercâmbio. Eu só penso nos EUA por esse lado, financeiro não. Eu tenho vontade de conhecer como é que é a educação num país do primeiro mundo.

Núbia compartilha da esperança de conseguir viver bem na cidade, sem

emigrar, e não suportaria a “solidão” do emigrante.

N: eu acho que se a pessoa tem boa vontade e coragem, eu acho que dá pra conquistar tudo aqui. E... eu não sou contra quem vai buscar lá os sonhos deles não, mas eu acho assim que, você ir, ficar longe dos seus, ficar... sei lá, na solidão, sozinha, é muito mais difícil. A vida já é uma tristeza, já é uma dificuldade, então é mais fácil você batalhar por aqui mesmo, enquanto você tá conseguindo sobreviver.

A relação dos entrevistados com a emigração revela, assim, alguns elementos importantes, que nos levam a levantar a hipótese da existência de uma relação de oposição entre emigrar para trabalhar e fazer o curso superior. Podemos supor que a valorização social do diploma permite aos estudantes sustentar sua decisão, pois nenhum deles comentou, por exemplo, o estímulo da família ou do grupo social para que eles mudem de opção. Podemos pensar que a emigração de trabalho e a realização do curso superior são duas opções dos moradores da região de Governador Valadares para serem reconhecidos socialmente - ambas justificam os esforços que lhes são inerentes. Quando pensamos nos motivos pessoais que fizeram com que esses sujeitos optassem pelo segundo caminho, lembramos, como apontado anteriormente, da relação com a família e com a cidade. Além disso, podemos dizer que, em alguns casos, a relação com o saber (com o aprender e com o saber-objeto) é suficientemente estabelecida para justificar a permanência e afastar a idéia da partida. Ressaltamos ainda a presença, em todas as entrevistas, da possibilidade de migrar para estudar e a ausência da previsão de “mudança” de planos – terminar o curso e migrar para trabalhar. Parece que não há possibilidade da coexistência das duas opções, ou que a escolha do curso superior deve ser acompanhada de seus desdobramentos – trabalhar com educação e continuar estudando.

EIXO V: A posição social subjetiva: na trajetória escolar, a atividade sobre

Benzer Belgeler