3. VERİ GÖRSELLEŞTİRME
3.2 Veri, Enformasyon ve Estetik Görselleştirme
38 Segundo a FIBGE, o Estado de Minas Gerais foi dividido em 67 microrregiões e a Fundação João Pinheiro, por sua
A expressão Clube de Mães tornou-se mais conhecida no Brasil, entre os anos 1970 e início dos anos 1980, quando surgem, em várias partes do país, diferentes formas de manifestações coletivas populares. Em sua maioria, esses clubes espalhados por todo o país, foram constituídos, nesse período, por mulheres pertencentes, em grande parte, às camadas populares, tendo em comum as condições socioculturais e econômicas, caracterizadas pela carência de bens e de serviços elementares. Desses, destacam-se: assistência médica, habitação, saneamento básico, educação, transporte, infraestrutura e serviços sociais. Decorridas quase três décadas desde o surgimento dos primeiros grupos, e apesar de sua expansão, as condições materiais relativas à oferta de serviços elementares de qualidade modificaram-se muito pouco para grande parcela desses grupos.
Sem dúvida, o momento histórico no qual essa e outras formas de organizações surgiram e se desenvolveram guarda relação direta com a dinâmica interna da sociedade brasileira. Trata-se de um período singular e recente da história política do país, caracterizado pelo processo de redemocratização, após duas décadas de ditadura militar. Os anos 1980 correspondem, portanto, a um período em que a sociedade civil se organiza em torno, principalmente, de projetos de redemocratização, mas associam-se a eles outros aspectos de dimensões econômicas e sociais entram em cena.
Dessa forma, embora com origem na esfera política, vários temas atingem, de forma direta e/ou indireta, os diferentes sujeitos sociais que se organizam em busca de direitos de cidadania39. Esses movimentos simbolizam o retorno da mobilização de
diferentes setores da sociedade civil, em torno das questões sociais mais urgentes, em situação oposta ao período de desmobilização e de repressão provocado pelo aparato do
39 Sobre movimentos que surgem entre as décadas de 1970 a 1990, Gohn realiza um mapeamento seguido de
interessante análise. São descritos alguns que ficaram conhecidos por sua atuação como o Movimento Contra a Carestia (1981); o Movimento dos trabalhadores para a construção das Centrais Sindicais com a realização da I Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (CONCLAT) realizada em Praia Grande São Paulo (1981); Movimento de Invasões de Terras na Fazenda Itupu, São Paulo(1981). Resultante de mobilizações dos trabalhadores, está a criação da confederação Geral dos trabalhadores CGT (1982); da Central Única dos Trabalhadores CUT (1989) e da Força Sindical (1993). Outros movimentos ainda se destacam como: o das Diretas Já (1984); dos Mutuários do Banco Nacional da Habitação – BNH (1984); o Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua (1985); Movimentos em Defesa da Escola Pública(1988).Também nos anos 1990 surgem movimentos com diversos propósitos como o Movimento pela Ética na Política e dos Caras Pintadas - ambos pró irpeachrent do presidente Collor (1992); a Ação da Cidadania Contra a Fome Pela Vida (1993-1995); a Central dos Movimentos Populares (1993); o Conselho da Comunidade Solidária (1995), além de inúmeras outras manifestações de reivindicações sociais.
regime militar até o final da década de 1970. (GOHN, 1995; SADER, 1988; MIRANDA, 1987).
Nesse período, muitos desses movimentos coletivos encontraram na chamada ala progressista da Igreja Católica, uma forte aliada. Nesse contexto, ela passa a desempenhar um importante papel uma vez que para ela convergem muitos desses grupos. Daí, são desenvolvidas as pastorais e as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s)40, que passam a coordenar diferentes movimentos populares em todo o país. Ao
orientar e assessorar seus participantes, a Igreja Católica desempenha, também, um importante papel político, ocupando um vazio de poder então existente, considerando-se o contexto histórico em que as lideranças foram afastadas e silenciadas.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) surgiram no Brasil a partir de 1956, visando suprir a carência de ministros ordenados. Com a introdução da Teologia da Libertação,41 também o trabalho das CEB’s passou a ser desenvolvido, tendo por
referência uma interpretação da Bíblia e do Cristianismo, cujo ponto de partida é a perspectiva dos pobres e de suas experiências. Na sociedade brasileira, a exemplo de outras sociedades, os padres que comungavam dessa concepção defendiam a existência de uma religião libertadora, que privilegiasse a discussão e a busca de alternativas para minimizar as graves dificuldades vividas pelas camadas populares evidenciadas pelas questões sociais como as desigualdades sociais resultantes da má distribuição de renda e responsável por um quadro de brutal miséria, discriminação social e racial, além do analfabetismo.
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Segundo o Prdjetd da Cdrunidade Sãd Jdrge, as Comunidades Eclesiais de Base São “Comunidades porque reúnem pessoas que têm a mesma fé, pertencem à mesma Igreja e moram na mesma região. Motivadas pela fé, essas pessoas vivem em torno de seus problemas de sobrevivência, de moradia, de lutas por melhores condições de vida e de anseios e esperanças libertadoras. São Eclesiais, porque estão congregadas na Igreja, como núcleos básicos da comunidade de fé. São de base, porque são integradas por pessoas que trabalham com as próprias mãos, como domésticas, operários, subempregados, aposentados, trabalhadores rurais, excluídos da sociedade etc. As Comunidades Eclesiais de Base foram denominadas também em sua forma abreviada, como CEB’s”.
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Originária da América Latina, a Teologia da Libertação tem suas origens nas Conferências da Igreja Católica, realizadas em Medelin (1968) e em Puebla (1971), quando toma forma o projeto de opção preferencial pelos pobres. O ponto de partida é a análise da realidade e do lugar dos pobres em situações de injustiça no continente. Eles deixam de ser vistos pela Igreja Católica como objetos de caridade e passam a ser considerados como sujeitos potenciais de realização de transformação social. A Teologia da Libertação é uma produção teórica combinada a uma linha de ação da ala progressista da Igreja Católica. Ela utiliza as Ciências Sociais como um instrumento para a análise da sociedade e dos seus mecanismos de opressão nos países periféricos.É uma teologia que privilegia a práxis:surge das práticas, reflete sobre elas, passa a sustentá-las e a legitimá-las (GONZÁLEZ GARCIA 2006: p. 32-34).
Elas constituíram, portanto, um importante braço social da ala progressista da Igreja Católica questionando a injustiça social.42 Seus integrantes buscavam auxiliar as
pessoas e os grupos na conquista de uma vida digna, à luz dos ensinamentos dos evangelhos, apoiada em princípios da Teologia da Libertação. Ao contrário do que comumente se imagina as CEB’s nem sempre resultaram de um planejamento realizado pela Igreja Católica. Entretanto, uma vez existentes, elas passaram a contar com total apoio da Igreja através de agentes de pastoral, como relatado a seguir:
A presença dos agentes de pastoral vai ser fundamental, tanto no começo da sua formação, como na animação e acompanhamento. Esses agentes podem ser padres, leigos e, principalmente, religiosas [...]. Círculos Bíblicos, grupos de novenas, clubes de mães, grupos de catequistas e pastorais como a operária, da moradia, da saúde, das mulheres, da juventude, da terra, entre outras, formam o tecido de uma multiplicidade de relações e organizações que ligam as situações concretas do cotidiano com a política, integrando o religioso e o social. Em muitos casos, surgem lideranças que, a partir do trabalho de conscientização, darão lugar à formação de movimentos sociais, assim como a partidos e sindicatos, ou servirão de apoio às iniciativas tomadas por estas entidades (GONZÁLEZ GARCIA, 2006, p.35).
Outra característica interessante das CEB’s no Brasil dos anos 1970 a 1980, contexto do regime militar, diz respeito ao papel que elas passam a ter por se configurarem em espaços nos quais as pessoas podiam se reunir com certa autonomia, ao contrário de outras entidades como associações e sindicatos, muitas vezes, fechados ou monitorados pelo Estado autoritário. (LESBAUPIN, 2003).
Desse modo, presentes em todo o Brasil, com características diversas, as CEB’s tiveram um importante papel social e político por terem, em comum, a efetiva participação popular e se constituírem como espaço de discussão sobre questões da realidade. E ainda, ajudaram “a introduzir práticas sociais voltadas para a participação por meio de métodos democráticos e colaboraram também para o fortalecimento dos movimentos populares em todo o Brasil” conforme (GONZÁLEZ GARCIA, 2006, p.37).
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O trabalho do setor progressista da Igreja Católica de apoio aos movimentos populares se verificou no município de Ipatinga e na região metropolitana do Vale do Aço, pela atuação de alguns padres. Entre eles, cito os padres José Maria De Man, José Jorge Abdala, Bertollo, Ernesto, Cícero. Este último, tido como revolucionário pelos militares da região, foi preso político do regime militar. Outra religiosa muito conhecida foi Irmã Lila, pertencente à Congregação Sagrado Coração de Jesus. Ela residiu no município de Timóteo entre os anos de 1974 a 2000, quando faleceu. Destaco, ainda, os padres franciscanos, Franco e Miranda que realizaram o seu trabalho principalmente junto à Comunidade São Jorge do Bairro Bethânia.
A realidade dos Clubes de Mães e de outros movimentos coletivos que surgem em Ipatinga a partir da década de 1970 ilustram as considerações acima. Esses movimentos estabeleceram um canal direto com a Igreja Católica, dela recebendo apoio permanente. Independentemente dos desdobramentos que essas entidades assumiram ao longo dos anos no município, a contribuição da Igreja Católica foi indiscutível, como destacou Sara.43
“Mas na década de 80 eu cdldcd a Igreja. [...] Entãd a Igreja vai assurir esse papel irpdrtantíssird, das ndvas idedldgias pdlíticas vdltadas nessa valdrizaçãd hurana, nesse recdnhecirentd e na integraçãd sdcial. Esse rdrentd da carinhada da Tedldgia fdi ruitd irpdrtante para nós. Na década de 80, a Igreja trduxe ruitds padres de fdra dd Brasil cdr ruita experiência na área sdcial, para drientar d trabalhd que ia ser feitd. O apdid que veid da Igreja se deve principalrente à participaçãd da rulher na Igreja e nas pastdrais. A rulher é raidria dentrd da igreja e ela é ruitd irpdrtante dentrd da Igreja, principalrente nas igrejas er que d trabalhd estava vdltadd para a Tedldgia da Libertaçãd, que dá ura valdrizaçãd ruitd grande à rulher.” (Sara. Entrevista em 25/09/2007).
Mesmo que a falta de tempo seja utilizada para justificar, em parte, a ausência de maior participação masculina nas atividades eclesiais, a presença das mulheres, muitas vezes, foi e continua sendo associada a uma natural vocação feminina para isso. Os compromissos ligados à religião são, na cultura brasileira, papéis destinados às mulheres como constituição de parte do mundo feminino.
Dessa maneira, essas atividades extradomésticas das mulheres são bem recebidas pelas famílias, por estarem associadas, primeiro à doçura, meiguice, mansuetude, paciência à espiritualidade religiosa; e, segundo, por vincularem aos demais aspectos da sua subjetividade fruto de atributos incorporados por elas, considerados socialmente positivos e reforçados pelo discurso religioso cristão (MACHADO E MARIZ, 1997). Isso explica a maciça resposta das mulheres ao chamado da Igreja Católica, dirigido aos seus fiéis, para o enfrentamento dos problemas de pobreza e opressão para tornando-as sujeitos de sua própria história.
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Na fase inicial desta pesquisa, Sara, assistente social, foi mais uma das informantes privilegiadas. Ela trabalhou no início dos anos 1980 com os grupos de mulheres como participante das CEB’s no município. Anos mais tarde, no final da década de 1990, ela atuou nas organizações coletivas existentes, como funcionária técnica da Prefeitura Municipal de Ipatinga, através da Secretaria de Ação Social, não tendo, na atualidade, qualquer vínculo empregatício com esse órgão público. Mais uma vez, lembro que todos os nomes citados são fictícios.
Assumir funções de liderança nas atividades religiosas das comunidades; participar de um trabalho intenso de formação e conscientização; participar de clubes de mães; organizar-se para reivindicar água, luz, transporte, creche, moradia, preço acessível para os produtos; apoiar greves..., todas estas ações estimularam e legitimaram outras possibilidades para as mulheres em relação ao que lhes permitia o espaço doméstico. Elas mesmas reconheceram o papel da Igreja nas mudanças que aconteceram em suas vidas. A participação nas
lutas abriu para elas novos horizontes, permitiu novos contatos, e mesmo
chegou a desestabilizar relações familiares tradicionais (MACHADO E MARIZ, 1997, p. 10).
Embora a relação entre escolhas religiosas e questões de classe e gênero seja extremamente complexa, estudos como os de Miranda (1987); Machado e Maríz, (1997); González Garcia (2006) corroboraram algumas posições que ajudaram a melhor compreender o percurso de alguns Cubes de Mães, Grupos e Associações existentes em Ipatinga que se relacionaram com a Igreja Católica. Esses estudos apontam que a motivação das mulheres lhes permite reformulações e mudanças no que diz respeito aos valores e concepções relativas à realidade que as cercam como a si mesmas.
No município de Ipatinga, como em outras cidades, a denominação Clube de Mães passou a ser dada aos grupos de mulheres que, no início da década de 1980, surgiram e desenvolveram-se nos diferentes bairros do município. Dessa forma, embora a expressão clube de mães seja usada no singular, ficou claro o surgimento de grupos nos vários bairros de Ipatinga desde então. À medida que, em um determinado bairro, as mulheres sentiam a necessidade de se organizar em torno de uma demanda, um objetivo comum passavam a realizar suas reuniões de forma sistemática, um Clube de Mães era formado.
Nesse período, além do Clube de Mães formado em cada bairro, surgiram, também, outras duas associações contando com a participação exclusiva de mulheres: o Movimento das Lavadeiras e Domésticas e o Movimento das Mulheres Marginalizadas. Sobre o primeiro, Vera, assim se expressa:
“A épdca d Mdvirentd das Lavadeiras e Ddrésticas, lideradd pdr ura das participantes e cdntandd cdr a participaçãd das CBs, tinha dutrd dbjetivd, que era d da cdnsciência de classe, pdrque erar trabalhaddras e nãd tinhar carteira assinada, direitd a férias, a repdusd reruneradd. Entãd, d dbjetivd era criar ura assdciaçãd de lavadeiras que deserbdcasse nd sindicatd. Tarbér tinha a questãd dd sindicatd a gente charava as pessdas que tinhar ura inserçãd raidr nd sindicatd; a gente charava para dar
subsídids para que elas desenvdlvesser a cdnsciência de classe.Só que issd nãd avançdu ruitd nãd.” Vera. Ex religiosa. Entrevista em 03/ 07/2007).
Uma das integrantes do primeiro Clube de Mães, hoje Associação de Mulheres do Bethânia, D. Ruth, foi naquela época, a líder do Movimento das Lavadeiras e Domésticas e apresentou-me o seguinte relato a respeito:
“Eu era lavadeira. [ ...] Ela a assdciaçãd fdi e nãd fdi pra frente, sabe pdr quê? Pdrque as patrdas, quandd elas cdldcavar ura ddréstica, elas nãd tinhar lavadeiras.Elas (as erpregadas) tinhar que fazer de tudd. Cuidar da casa, dlhar renind, lavar, fazer tudd, tudd. E as ddrésticas nãd tinhar carteira assinada. Hdje têr carteira assinada graças a essa assdciaçãd que a gente participdu, eu era a cddrdenaddra dessa assdciaçãd... e eu brigava resrd, tá? Ela se fdrrdu cdr ds padres, eles re ajudavar. A gente fazia reuniãd pra tdda banda, era nd Cariru (bairrd), nd centrd, tinha d dia de Asserbléia, juntava tanta gente, rinha filha, vdcê precisava ver! E aí, eles (ds frades) cdreçarar a trabalhar na cdrunidade. Teve ur dia que eu tinha que fazer ur encdntrd nd Bdr Jardir das lavadeiras e ddrésticas. Aí, tinha uras rulheres nd ônibus e falandd: “Ter ura velha aí da perna seca (eu era ragrinha) que tá aí rexendd cdr as lavadeiras. Pdr que entãd, ela nãd pega essas lavadeiras erpregadas e leva pra dentrd de casa? Er vez de arrurar a casa dela ela fica aí, rexendd cdr a vida dds dutrds!” ras falavar, falavar. E eu dentrd dd ônibus e elas tarbér. Eu ficava ber quieta, nãd falava nada (risds)” (Ruth. Entrevista em 18 /06/2008).44
Esse depoimento não apenas confirma as informações da entrevistada anterior como também as enriquece evidenciando a existência das lutas de classe, que se interpõem entre as mulheres impedindo-as de aproximarem todas elas. As questões objetivas vividas por aquelas mulheres, evidenciam, de um lado, a luta pela sobrevivência, pelo fim da exploração e por melhores condições de trabalho que envolve as empregadas domésticas e lavadeiras. Por outro, por parte das patroas, a ideia da expropriação e exploração do trabalho que as impede de se perceberem também mulheres, vivendo numa mesma sociedade que discrimina e desqualifica a atuação feminina nos variados aspectos e situações presentes na realidade em que vivem.
A outra associação, formada nesse período pelas profissionais do sexo, denominada Movimento das Mulheres Marginalizadas foi, segundo os relatos de Vera45,
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Vera, como já mencionado anteriormente, não apenas testemunhou o surgimento de grupos, como participou, de forma direta e ativa, da constituição de alguns grupos de mulheres na região durante o período mencionado como religiosa ao lado das CEB’s. Seu relato, assim como os de outras mulheres que participaram do surgimento e expansão dos grupos, seja ao lado da Igreja Católica, seja como funcionária da PMI, seja mesmo participante de um dos grupos, foi de fundamental importância para a reconstituição da história dos grupos nesse contexto vivido, uma vez que, os poucos registros existentes estavam fragmentados. Seus relatos e informações colaboraram e completaram os obtidos pela análise de documentos da Secretaria da Ação Social (PMI) e da Associação de Mulheres do Bethânia, primeiro grupo a existir no município conforme já dito.
na época muito perseguida por policiais. Eles, sob diversos pretextos, prendiam e usavam de violência contra elas. Em entrevista, fez, ainda, uma alusão a esse movimento comparando-o à atualidade:
“O rdvirentd de rulheres rarginalizadas hdje nãd existe rais. Existe hdje ur prdjetd charadd Prdjetd Videiras, que realiza ur trabalhd de evangelizaçãd cddrdenadd pela Igreja Evangélica. Ter inclusive ura sede que fica próxira ad prdstíbuld na praça nd centrd. Nd inicid era d frei, ds padres franciscands e d padre Ernestd. Era ur trabalhd ruitd bdr, pdrque nãd trabalhavar só cdr as rulheres rarginalizadas. Trabalhavar tarbér cdr as crianças, filhds que erar alfabetizadds” (Vera. Entrevista em
03/07/2007).
Embora esse movimento não mais exista e o trabalho atual, realizado com as profissionais do sexo, tenha assumido um perfil mais assistencialista, considero de grande importância, registrar o relato de Sara,46 quando entrevistada na primeira fase da
pesquisa. Ela forneceu dados de informantes privilegiadas, possibilitando reconstituir a história dos grupos ao longo da década de 1980, além de destacar o papel da atuação da Igreja Católica nesse movimento:
“Fui trabalhar na creche. Er 87 eu entrei nd Mdvirentd das Mulheres rarginalizadas, que fdi ur rdvirentd de ur ganhd ruitd grande para rinha pessda. Lá eu re tdrnei rulher, capaz de definir e escdlher ds reus plands. Fui cdnhecer rulheres, passei a arar d ser da rulher, a adrirá-la e pdder analisar. Fdi ura experiência gratificante. Eu tenhd ruitd que agradecer a Deus pdr essa experiência, pdr este rdrentd ruitd feliz. [...]. Eu entrei a partir de ura necessidade, pdrque precisava de alguér para trabalhar cdr essas crianças, cdr as crianças das prdstitutas. Esse rdvirentd ia trabalhar diretarente cdr as prdstitutas da Zdna Bdêria na rua Araxá, dnde existiar as bdates. Existia er tdrnd de 60 a 80 rulheres. [...] Ndssd dbjetivd, dd rdvirentd, era trabalhar cdr essas rulheres, ras nura linha rais de cdnscientizaçãd, da prdrdçãd pessdal, da própria rulher, da autd-estira. Mas d trabalhd fdi evdluindd e elas traziar seus filhds, pdrque essa dependência, tddds ds fatdres que envdlver a rulher, d ser da rulher nãd tinhar ... [...] Quandd d prdjetd estava a tddd vapdr, eu vi cdrpanheiras rdrrendd. Cdrpanheiras, as rulheres prdstitutas, nós virds ruitas delas rdrrendd. Nós trabalhards ruitd cdr elas a questãd da vidlência nas dficinas. Nós discutirds cdr elas... Elas tarbér queriar ura dficina de alfabetizaçãd, para que elas pudesser fazer cdntas, pdrque ali que elas se sentiar lesadas pelds ddnds de casas. Nós sdfrerds perseguiçãd pelas ddnas de casa, nds xingavar. Era ur grupd grande. Que cddrdenava d prdjetd, ras nós tínhards d padre Ernestd, d frei Eduardd, d frei Jacy, d frei Gian. Essas pessdas erar d supdrte externd que a gente tinha, fdra a própria cdrunidade pdlítica.” (Sara. Entrevista em 25/09/2007).
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Inicialmente, Sara participou, como voluntária, desse Movimento como crecheira. Posteriormente, já na graduação de Serviço Social, ela atuou com a assistente social das atividades como estagiária da Secretaria de Ação Social nos Grupos de Mulheres da PMI.
Esse relato, rico sob vários aspectos, pareceu-nos importante por vir de uma mulher que participou da constituição de um dos grupos que, embora com pouco tempo de existência, possibilitou a vivência de situações e experiências com forte caráter pedagógico. Seu relato mostra, ainda, a experiência vivida por seus membros,