• Sonuç bulunamadı

VERGİLER..................................................................................................................................... 71-73

Quetzalc†atl se foi sem saber que tinha sido o protagonista simultŽneo da cria‚ƒo e da queda. Semeou, na terra, o milho; mas nas almas dos mexicanos semeou uma infinita suspeita circular.

Carlos FuentesTiempo Mexicano

Diferente da ruptura radical da linearidade narrativa realizada na primeira parte – O Velho Mundo, nesta parte central do romance – O mundo novo, os acontecimentos descritos apresentam uma narrativa que se acomoda a uma estrutura cronol†gica bastante precisa. Esta segunda parte a f‹bula hist†rica foca sua aten‚ƒo no conflitante encontro entre a cultura espanhola e o mundo asteca em um per„odo que se assemelha ao do reinado de Felipe II, apresenta a experi•ncia da viagem do Peregrino- Polo Febo na sua viagem de descobrimento, conquista e fuga do Novo Mundo. Esses acontecimentos sƒo narrados e descritos em primeira pessoa pelo Peregrino ao Senhor no Pal‹cio.

A segunda parte do romance ‰ a mais breve das tr•s que comp•em Terra Nostra, sua narrativa consta de dezenove epis†dios que relatam o itiner‹rio do Peregrino desde seu encontro com Pedro no litoral espanhol (p.357) at‰ o M‰xico- Tenochtitl‹n, no cora‚ƒo do imp‰rio asteca (p.457, 473). Os epis†dios seguintes (p.372, 378) reproduzem livremente as cr‘nicas do Descobrimento e da Conquista da Am‰rica. Os primeiros epis†dios descrevem o Peregrino em sua travessia oceŽnica junto a Pedro, o velho defensor das utopias sociais; a chegada de ambos € Praia das P‰rolas; a morte de Pedro; os encontros do Peregrino com os nativos da regiƒo e, principalmente, a sua viagem desde a costa do Golfo at‰ Tenochtitl‹n, a

capital do reino asteca. Os •ltimos recortes (p.480,487) descrevem a fuga do Peregrino e a sua reapari‚ƒo na mesma praia desde onde havia empreendido sua viagem exploradora. O Mundo Novo cria uma ampla rede de alus•es em que se sobrep•em epis†dios significativos da saga de Quetzalc†atl, o rei deus dos astecas, e o percurso de Hern‹n Cort‰s em sua conquista de M‰xico-Tenochtitl‹n.

Quando o Peregrino-Polo Febo relata ao Senhor sua aventura nas terras mesoamericanas, dois motivos se entrecruzam em sua narrativa formando um duplo eixo estruturador: o mito de Quetzalc†atl e o descobrimento-conquista da Am‰rica. Tanto o componente m„tico como o hist†rico sƒo submetidos a um processo de sele‚ƒo e de adapta‚ƒo que d‹ lugar a um universo original no qual Carlos Fuentes apresenta a sua visƒo particular do “traum‹tico encontro entre as duas civiliza‚•es” (1992, p.82).

Santiago Juan Navarro comenta que a forma como Carlos Fuentes interpreta esses acontecimentos hist†ricos configura progressivamente a visƒo hist†rica do autor em rela‚ƒo ao mundo hispŽnico, o qual real‚a as dificuldades da modernidade em penetrar no mundo espanhol, medieval e fechado e, consequentemente, em Hispano-Am‰rica como espelho espanhol. A entrada da Modernidade foi obstaculizada em v‹rios n„veis: econ‘mico, mediante a expulsƒo dos judeus; pol„tico, mediante a repressƒo do movimento comunero; religioso, mediante a repressƒo sistem‹tica do pensamento heterodoxo.

Por enquanto as comunidades se rebelavam em Castela (e em Arag†n, atrav‰s do movimento paralelo da GermŽnia), os filhos e irmƒos dos advogados, artesƒos, lavradores e fidalgos que lutaram contra Carlos V, lutavam por Carlos V no M‰xico, o Caribe e a Terra Firme. De forma que uma das grandes ironias da nossa hist†ria ‰ que, no mesmo momento em que Carlos V derrotou as for‚as comuneras em Villalar em 1521, Hern‹n Cort‰s, derrotou as for‚as astecas em Tenochtitl‹n. No fundo, o problema para Espanha e para a Am‰rica espanhola haveria de ser o mesmo: Que classe de ordem seria constru„da no dia seguinte das duas vit†rias coincidentes, contra os ex‰rcitos da comunidade em Villalar e contra os ex‰rcitos astecas em Tenochtitl‹n? Infelizmente, a resposta foi que na Espanha, uma ordem vertical e autorit‹ria se imporia sobre o movimento da ordem horizontal e democr‹tica. E no Novo Mundo, as estruturas verticalmente organizadas do Imp‰rio asteca (e mais tarde do Inca) seriam simplesmente substitu„das pelas estruturas verticais e autorit‹rias dos Habsburgo espanh†is. Pode ser de outra maneira? Pudemos ter criado um sistema democr‹tico depois da Reconquista da Espanha e a conquista do Novo Mundo? Esta pergunta se

suspender‹ para sempre sobre os destinos da Espanha e da Am‰rica espanhola. (1992, p.164).

A Am‰rica que a ortodoxia dos reis espanh†is Carlos V e Felipe II conceberam uma ideia que se opunha dramaticamente €quela que os conquistadores realmente conheceram. Para os primeiros, o Novo Mundo era sin‘nimo de extensƒo do territ†rio da Nova Espanha, espa‚o prop„cio para o exerc„cio e perpetua‚ƒo do poder absoluto e da ortodoxia, “um espelho malformado do Velho Mundo” (1972, p.122). J‹ para os outros, os viajantes que esperavam encontrar no para„so terreno a realiza‚ƒo da utopia, a concretiza‚ƒo de seus sonhos de riqueza e de gl†ria, encontraram um Novo Mundo in†spito, violento, territ†rio de solidƒo, de in•meras doen‚as e de morte.

O cr„tico acrescenta que a ortodoxia se conceitua como doutrina satisfeita de dogmas conclusos e excludentes. Sobrevive no conservadorismo, convenciona estruturas invari‹veis e fora dela nƒo h‹ outras verdades; fomenta o sil•ncio, a imobilidade por perpetuar o discurso un„voco. Frente € ortodoxia e €s suas irrefut‹veis certezas surge, em oposi‚ƒo a esta, a heresia, como movimento individualista cujo pensamento desafia a certeza. Diz Carlos Fuentes que Am‰rica nasceu como resposta her‰tica € ortodoxia de um Imp‰rio que se esfor‚ava em a sujeitar a sua pr†pria imobilidade.

(...) o descobrimento da Am‰rica foi traduzido, para o Renascimento, como o lugar da utopia. Mas rapidamente no Novo Mundo como na Europa a distŽncia entre os ideias e a realidade transformou o para„so americano num inferno. Os europeus transladaram para a Am‰rica os sonhos de suas pr†prias utopias fracassadas, e estas se transformaram em pesadelo € medida que o poder colonial se estendeu, e em vez de ser os beneficiados da utopia, os povos abor„genes das Am‰ricas se transformaram nas v„timas do colonialismo, despojados da sua antiga f‰ e de suas terras heredit‹rias, e obrigados a aceitar uma nova civiliza‚ƒo e uma nova religiƒo, por enquanto o Renascimento europeu seguia sonhando numa utopia no Novo Mundo. (1992, p.206).

Em Cervantes, o la crítica de la lectura, Carlos Fuentes evoca a figura de Don Quijote para revisar o contexto pol„tico-liter‹rio da Espanha que inspira Miguel de Cervantes y Saavedra para sua cria‚ƒo, Don Quijote de La Mancha (1605). Na primeira p‹gina, explica a rela‚ƒo entre Terra Nostra a seu ensaio,

De forma certa, o presente ensaio é fruto do romance que me tem mantido ocupado durante os últimos seis anos, Terra Nostra. As três datas que constituem as referências temporais do romance podem muito bem servir para estabelecer o transfundo histórico de Cervantes e de Don Quijote: 1492, 1521, 1598 (1976. p.46).

As datas mencionadas correspondem aos fatos relacionados ao período do Descobrimento e da Conquista do Novo Mundo, assim como também aos da construção do Palácio El Escorial. Ao revisar o passado, combina literatura e história numa tentativa de explicar o universo espanhol e a sua relação com o México, Carlos Fuentes escreve em Advertência, nas primeiras paginas do ensaio:

Tardamos três séculos em adquirir nosso nome, nossa estirpe e em reivindicar, ao mesmo tempo a independência mestiça, a nossa mãe. Para reencontrar a Espanha, o México teve que reencontrar-se a si mesmo através das lutas pela independência política e em seguida pela independência econômica; contra sucessivas invasões e mutilações territoriais; mediante uma busca constante da nossa identidade nacional, mestiça, herdeira ao mesmo tempo da civilização indígena e da civilização espanhola: a reforma de Juárez, a revolução de Zapata e o Estado Nacional de Cárdenas: o México, ao conhecer-se, acabou por reconhecer a sua autêntica herança espanhola e por defende-la com a paixão de quem resgatou seu pai da incompreensão e do ódio. (1976, p.9-10).

Carlos Fuentes comenta que, no nível oficial, a conquista de América supôs a exploração de um modo deficiente, pois a Espanha se encontrava mais perto do obscurantismo medieval que da abertura do pensamento do Renascimento europeu, mas, por outro lado, isso também significou a entrada na América de uma realidade tricultural.

A partir da derrota das comunidades de Castela em Villalar e dos astecas em Tenochtitlán, Carlos V não apenas consolidou o Estado centralista espanhol, como também o fizeram a França e a Inglaterra, e como não o puderam fazer a Alemanha e nem a Itália. Carlos transformou a Espanha, de uma comunidade puramente peninsular, empenhada na sua própria cruzada contra o Islã e chamada a encontrar um compromisso entre seus componentes triculturais, num império continental que (...) tudo abarcou em Holanda, Itália, Túnez e as Américas. (...) Lutou contra as nações indígenas das Américas através de seus violentos capitães (Hernán Cortés e Francisco Pizarro), mas ao mesmo tempo, lutou por tirar dos conquistadores o

domínio feudal do Novo Mundo mediante a legislação de Índias que protegia as comunidades indígenas e restringia, de jure, os poderes

de facto adquiridos pelos conquistadores. Lutou contra o novo poder

islâmico, o império otomano, que se havia atrevido a estender-se do Mediterrâneo ao Danúbio, chegando até as portas de Viena. Lutou contra seu rival francês, Francisco I, durante um extenuante período de um quarto de século; padeceu o amotinamento de suas próprias tropas impagáveis que saquearam a cidade pontifica, Roma, enquanto Carlos batalhava contra os protestantes na Alemanha e, finalmente, se mostrava incapaz de submetê-los, aceitando sua derrota em Habsburgo em 1555(1992, p.164-165)

Carlos Fuentes argumenta que a obra mais importante da literatura espanhola é Don Quijote de La Mancha. No ensaio, aborda de maneira especial a relação entre a Espanha e o Novo Mundo.

Don Quijote (...) é o livro exemplar da decadência espanhola. O

fidalgo está demasiado velho para viver suas aventuras. A era épica da Espanha há concluído. Cervantes inventou um fantasma para informar à Espanha do fim da épica. Don Quijote disse à Espanha: Estás esgotada, regressa à casa. E se Deus é bom para você, morrerás em paz. O sonho da utopia havia fracassado no Novo Mundo. (...) Não nos diz esta confrontação que a história da Espanha, e logo as das colônias americanas, é na realidade a história, e o dilema, de ser duas nações, duas culturas, duas realidades, dois sonhos, tratando desesperadamente de ver-se, de encontrar-se, de entender-se? Dois valores constantes, duas esferas da realidade, levitando às vezes, pulando sobre o vazio, executando um salto mortal (...)? É por isso que as duas figuras do romance de Cervantes, Don Quijote e Sancho Pança, retém tal validez em seu contraste e uma atração tão universal em sua configuração. Neles, o dilema da Espanha se reconhece por todos os homens e em todos os tempos; lutamos com o ideal e com o real. Lutamos entre o desejável e o possível. Enfrentamos exigências abstratas e tentamos reduzi-las a tamanho irônico mediante o absurdo. Gostaríamos de viver num mundo razoável de justiça concreta. Somos, às vezes, personagens épicos como Don Quijote, mas passamos a maior parte do tempo vivendo vidas picarescas como Sancho Pança. Gostaríamos de significar mais do que realmente somos (...). Somos todos homens e mulheres de La Mancha. E quando compreendemos que nenhum de nós é puro, que somos (...) em parte cristão, em parte judeu, com algo de mouro, muito de caucásio, de preto, de índio, sem ter que sacrificar nenhum dos nossos componentes, então compreendemos a grandeza e a servidão da Espanha, seu império, a sua Idade de Ouro e a sua inevitável decadência. (...) La Mancha, na verdade, adquiriu todo seu sentido nas Américas. (1992, p. 202, 203) A figura simbólica de Don Quijote de La Mancha entrelaça a história da Espanha e da Hispano-América. Ambas são percebidas como produto das

contradi‚•es provocadas pelo encontro de ‰pocas e de valores opostos: o Renascimento, o Humanismo, o individualismo, a heresia, a heterodoxia enfrentando as ideias ortodoxas dos ideais da Idade M‰dia, da Contrarreforma, do pensamento est‹tico.

Don Quijote abandonou sua aldeia e seus livros para sair pelos campos de Montiel, deixou para tr‹s o mundo bem ordenado da Idade M‰dia, s†lido como um castelo, onde tudo tinha seu lugar, e ingressa no valente Mundo Novo do Renascimento, agitado pelos ventos da ambiguidade e a mudan‚a, onde tudo est‹ em d•vida. (...). Com seu livro Don Quijote de La Mancha, Cervantes funda o romance moderno na na‚ƒo que com maior firmeza rejeita a modernidade. Pois se a Espanha imp‘s ao mundo um •nico ponto de vista, dogm‹tico, ortodoxo, Cervantes, essencialmente imagina um mundo de m•ltiplos pontos de vista, e o faz mediante a s‹tira na apar•ncia inocente dos romances de cavalaria. E mais, se a modernidade se baseia em m•ltiplos pontos de vista, estes, por sua vez, se baseiam nos princ„pios da incerteza. (...). O fracasso narrado por Cervantes ressoa nos lamentos dos viajantes an‘nimos das •ndias que partiram em busca de El Dorado e que acabaram devorados pela inclem•ncia da natureza, da doen‚a, da morte ou, simplesmente, pelo esquecimento, “o Novo Mundo se revelou de imediato como uma natureza desproporcionada, excessiva, hiperb†lica, incomensur‹vel. Esta ‰ uma percep‚ƒo constante da cultura ibero-americana, que nasce do sentimento de assombro dos exploradores originais (1992, p.187).

O fim da utopia adŽmica na Am‰rica acaba por sinalizar o fim da ‰pica europeia. A derrota final de Don Quijote, o retorno € razƒo, acaba com seus ideais e com seus sonhos demonstram a fragilidade dos ideais quando enfrentados € penosa realidade. Esse enfrentamento representa, metaforicamente, a vulnerabilidade hist†rica do Imp‰rio Espanhol. A sua grandeza, seu poderio e o desejo de universalismo ca„ram perante a fragilidade econ‘mica que o obrigaram a se submeter € depend•ncia de produtos provenientes das na‚•es inimigas, que por sua vez se fortaleceram e enriqueceram gra‚as €s verbas vindas da Espanha. Conflito an‹logo € da brilhante loucura de Don Quijote em oposi‚ƒo € inexor‹vel lucidez dos que possu„am a razƒo. Sonho e realidade. Am‰rica era o sonho e a Espanha a realidade.

Cervantes inventa um par d„spar, um fidalgo empobrecido que se imagina como um cavalheiro errante dos tempos antigos, acompanhado por um p„caro, seu escudeiro Sancho Pan‚a: entre

ambos, estende uma ponte entre os extremos da Espanha, o picaresco e o m„stico; o realismo da superviv•ncia e o sonho imperial. (...) No mesmo ano, 1605, sƒo publicados Don Quijote, El

Rey Lear e Macbeth. Dois velhos loucos e um jovem assassino

aparecem no cen‹rio do mundo para nos lembrar a todos a gloria e a servidƒo € qual a humanidade est‹ sujeita. Shakespeare entoa a loa do “valente mundo novo”. Cervantes lamenta o passo da Idade de Ouro. (1992, p.186).

Carlos Fuentes comenta que, no in„cio de s‰culo XVI, a Espanha vive um paradoxo: de um lado, a heresia democr‹tica das Comunidades de Castela e suas aspira‚•es de igualdade; do outro, a verticalidade imperial de Carlos V que acabou com os comuneros nos campos de batalha de Villalar. Parte desse esp„rito rebelde dos comuneros viaja para O Novo Mundo nas caravelas daqueles que deixaram o passado no Velho Mundo. Adentraram-se no mar rumo € utopia do Novo Mundo trazendo consigo uma aspira‚ƒo de liberdade e de mudan‚as que ressurge tr•s s‰culos mais tarde com o esp„rito de Independ•ncia por parte dos pa„ses das col‘nias na Am‰rica e se prolongam nos longos conflitos das for‚as liberais contra as conservadoras. A Am‰rica e Don Quijote se assemelham pela original anedota que ambos viveram, foram inventados sem que Colombo nem Cervantes compreendessem a importŽncia nem a transcend•ncia de sua cria‚ƒo e da sua descoberta.

A obra de Cervantes re•ne num mesmo espa‚o os ideais da nobreza, a honra dos cavalheiros e a sagacidade dos escudeiros; paralelamente convivem malandros, p„caros, camponeses, barbeiros e mendigos, que em seu conjunto retratam a sociedade da velha Espanha que transita por suas ruelas, tabernas, calabou‚os e pra‚as carregando os sonhos de mudan‚as do povo que veio para conquistar a Am‰rica. Hispano-Am‰rica nasceu da “fome do Ocidente, de suas tabernas e dos sub•rbios, das ruelas e das tabernas, dos mercados e dos calabou‚os; da excentricidade, da tardan‚a e do desassossego, da contradi‚ƒo, da torpeza, da inconsequ•ncia e da sobreviv•ncia. (1992, p.25).

Das tr•s partes nas quais se divide a obra, O Mundo Novo apresenta o espa‚o prop„cio para que romance reinvente uma grande variedade de temas mito- hist†ricos, a interpreta‚ƒo da lenda de Quetzalc†atl e a visƒo liter‹ria da conquista que se desprende da obra. Com o objetivo de delimitar com a maior precisƒo poss„vel o transfundo hist†rico e m„tico sobre o qual Terra Nostra recria as

diferentes variantes da lenda no Žmbito da fic‚ƒo, a tese interpreta, de acordo com a obra de Carlos Fuentes, os textos referentes € Conquista da Nova Espanha; hist†rias, cr‘nicas e rela‚•es entre conquistadores e mission‹rios; assim como outras fontes liter‹rias contemporŽneas € obra do autor mexicano.

Carlos Fuentes privilegia a fic‚ƒo por sobre a Hist†ria; isso quer dizer que, no n„vel historiogr‹fico, o escritor prefere “ouvir o discurso €s vozes tradicionalmente silenciadas no registro hist†rico” (1992, p.54). Em entrevista a Marie - Lise Gazarian Gautier, publicada em Carlos Fuentes: Territorios del tiempo (1999), Carlos Fuentes comenta.

Acredito que nƒo ‰ poss„vel ter um presente vivo com passado morto. O passado ‰ presente e se nƒo somos conscientes disso teremos graves problemas hist†ricos, pol„ticos e sociais. (...). Durante trezentos anos nƒo tivemos passado. A Col‘nia espanhola criou um mundo cultural em que era muito dif„cil expressar-se como uno mesmo. –ramos silenciados. Pensemos, por exemplo, no caso do famoso Frei Bartolomeu de Las Casas. Seu grande livro em defesa dos ind„genas, onde descreve o trato brutal imposto pelo sistema da Conquista, foi escrito arredor de 1530 e nƒo foi publicado senƒo at‰ o fim do s‰culo XIX. – incr„vel! Da mesma forma, o Inca Garcilaso de la Veja exaltou em sua obra o passado ind„gena da Col‘nia como o virreinado espanhol no Peru, por‰m seus trabalhos nƒo foram publicados at‰ muito depois. Sor Juana de la Cruz foi silenciada, apagada. Assim que temos um passado calado e acredito que temos que capturar o passado e lhe dar vida de alguma forma. Dar-lhe relevŽncia a nossa vida atual. Nƒo podemos viver com trezentos anos de sil•ncio. (...) sou latino-americano, mexicano e um homem do terceiro mundo, e a identidade est‹ no centro de nossas preocupa‚•es. Nƒo temos uma identidade que possamos assumir facilmente (...). Acredito que isso provem de uma dupla tradi‚ƒo, a cosmogonia e a civiliza‚ƒo ind„gena e a grande tradi‚ƒo da literatura espanhola (1999, p.145, 146).

Descreve o M‰xico como uma pirŽmide pol„tica, econ‘mica e cultural, “ao viajar da costa, desde Acapulco no Pac„fico ou Veracruz no Golfo, se ascende at‰ o cume que ‰ Ciudad de México”. E faz refer•ncia a Octavio Paz que tamb‰m descreve o M‰xico a pirŽmide, em Nuevo Mundo y conquistas (1989),

As geografias tamb‰m sƒo simb†licas: os espa‚os f„sicos se resolvem em arqu‰tipos geom‰tricos que sƒo formas emissoras de s„mbolos. Plan„cies, vales, montanhas: os acidentes do terreno se tornam significativos apenas se inserem a hist†ria. A paisagem ‰

hist†rica e da„ que se transforme em escrita cifrada e texto Hierogl„fico. As oposi‚•es entre mar e terra, plan„cie e montanha, ilha e continente, selva e deserto sƒo s„mbolos de oposi‚•es hist†ricas: sociedades, culturas, civiliza‚•es. Cada terra ‰ uma sociedade: um mundo e uma visƒo do mundo e do inframundo. (1989, p.36)

Em rela‚ƒo € cultura mexicana, Carlos Fuentes, busca a releitura dos fatos do passado, aproxima a literatura ao mito e o mito a hist†ria. Ao aproximar esses diferentes campos, os redimensiona criando um mundo percebido no espelho, em que prevalece o conceito do duplo como no mito do deus cultural Quetzalc†atl, met‹fora da hist†ria do M‰xico.

Quetzalc†atl acreditou sempre ser um deus at‰ que um dem‘nio chegou com um espelho e lhe mostrou que tinha rosto, “Entƒo nƒo sou um deus! Tenho cara como os homens’, e fugiu do M‰xico, prometendo voltar. O ex„lio de Quetzalc†atl ‰ um mito que reflete