(...) como nƒo ver nestas profecias da antiga cria‚ƒo mexicana um espelho para o nosso pr†prio tempo, para nossa obstinada diverg•ncia entre a promessa da vida e a certeza da morte, entre a avan‚ada consci•ncia humanista, cient„fica, verbaliz‹vel, ‰tica, e a fatal inconsci•ncia pol„tica da destrui‚ƒo, do sil•ncio e da morte.
Carlos FuentesNuevo tiempo mexicano
O cr„tico liter‹rio Santiago Juan Navarro em seu ensaio Entre el revisionismo histórico y la literatura de resistencia (1995) comenta que a tend•ncia revisionista da fic‚ƒo hist†rica p†s-modernista se constitui em um “p†s-modernismo de resist•ncia”. E acrescenta que, frente as estrat‰gias do simulacro que dominam a sociedade de consumo e o elitismo da cultura institucional, autores como Carlos Fuentes apresentam em suas obras uma dinŽmica de enfrentamento cultural em que as estrat‰gias de representa‚ƒo hegem‘nicas sƒo inscritas, e ao mesmo tempo subvertidas, ao propor uma profunda reflexƒo sobre a hist†ria e sobre a forma textual em que ‰ transmitida e recriada.
A obra de Fuentes exemplifica um n•mero substancial das caracter„sticas formais atribu„das ao p†s-modernismo liter‹rio. (...) Uma grande parte dos romances do boom responde € tend•ncia da desconstru‚ƒo inerente € p†s-modernidade (...) a radical decomposi‚ƒo de toda autoridade (e em especial €s conven‚•es liter‹rias dominantes) como princ„pio que rege os textos p†s- modernistas. A obra de Fuentes ‰ transgressora no uso extremo de um ponto de vista que desconstr†i os pressupostos b‹sicos do romance realista. Por um lado, utiliza narradores que discutem abertamente a arbitrariedade do romance convencional e as limita‚•es de toda perspectiva hist†rica. Por outro lado, se vale de vozes narrativas m•ltiplas e de pontos de vista m†veis que
contradizem o poder monológico das representações convencionais e comunicam uma impressão polifônica. Esta apertura formal é expressão de uma ideologia que celebra a pluralidade como um valor supremo e se opõe aos sistemas culturais vigentes. No lugar do elitismo, as proporções monológicas, e a centralização que caracterizam à cultura institucionalizada, Fuentes propõe uma ideologia baseada na diferença que celebra o papel dos grupos marginalizados e as culturas locais. (...) obras como Terra Nostra ou
Cien años de soledad podem descrever-se como romances à busca
de uma síntese utópica das culturas de Hispano-América. Esta inclinação totalizadora adota matizes pós-modernistas pela sua condição ambígua, fragmentária e plural. (...) em algumas ocasiões é explicitamente parodiada como ocorre em Terra Nostra com a metáfora de El Escorial. (...) Ademais do seu interesse na materialidade dos elementos narrativos e a sua relação com os outros universos discursivos, estas obras tratam com igual (ou superior) profundidade questões de ordem epistemológica e político. Qual é a natureza do passado e de suas consequências? Como se produz o nosso conhecimento do passado? Como se transmite dito conhecimento? Como se sanciona uma versão particular da história? Como podemos produzir versões alternativas e como podem ser consideradas politicamente efetivas? Estas são questões que vão além de uma mera exploração ontológica do universo textual no âmbito especifico do pós-modernismo. (Navarro, 1995, p.196-197). Escrita entre 1968 e 1975, ano em que foi publicada, Terra Nostra representa uma época em que a Espanha e a maior parte dos países da América Latina vivem a repressão de regimes totalitários. Santiago Juan Navarro observa que Carlos Fuentes busca em seu romance uma chave que permita explicar a conjuntura histórica do mundo hispânico da segunda metade do século XX. Ao longo da revisão histórica registrada na obra, tenta diagnosticar o labirinto político hispânico desse período aludindo às manifestações fascistas e à agonia de Francisco Franco na Espanha, o terrorismo de Estado praticado no Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Guatemala e Republica Dominicana; a corrupção e monopólio do poder no México e ao caudilhismo e à dependência político-econômica de toda a região do Caribe em relação aos Estados Unidos da América. Comenta que o escritor mexicano reescreve grande parte da história ocidental, centrando sua atenção na alvorada da Idade Média e no enfrentamento cultural entre a Espanha imperial e o México pré-hispânico.
Fuentes busca em seu romance respostas para a encruzilhada histórica em que se encontra Hispano-América durante a segunda metade do século XX. Para isso, o romancista mexicano reescreve boa parte da história (...) mas a característica mais destacada e
surpreendente do romance ‰ o uso de uma hist†ria ap†crifa que acaba por desalojar a versƒo herdada das cr‘nicas oficiais. Em Terra
Nostra a hist†ria tradicional de cronologias exatas – sucess•es
din‹sticas, grandes fa‚anhas e empresas ‰picas – cede lugar a um aparente caos de personagens e de vozes narrativas em que ‰ dif„cil estabelecer a agencia hist†rica. O resultado ‰ uma versƒo alternativa do passado onde os elementos fant‹sticos, €s vezes, parecem verdadeiros. A sensa‚ƒo de caos que podemos experimentar durante os primeiros momentos da leitura, progressivamente, cede lugar € impressƒo contr‹ria: tudo no romance parece responder a um grande desenho em que o leitor ‰ convidado a estabelecer conex•es entre os elementos mais dispersos.
(Navarro. 2002, p.50).
A obra est‹ dividida em tr•s grandes partes: O Velho Mundo, O Mundo Novo e O Outro Mundo. Emoldurada pela palavra que legitima e amalgama a tem‹tica hist†rico-liter‹ria dos tr•s mundos de Terra Nostra, a tese estabelece a rela‚ƒo tr„ptica entre os mundos estruturados como um tr„ptico liter‹rio organizando seus epis†dios cronologicamente. Trata-se de in•meros fragmentos que no romance sƒo apresentados como uma sucessƒo de flashbacks, por meio de narrativas entrecortadas, em conex•es sugeridas pela obra que se estabelecem sutilmente. A f‹bula do Descobrimento, da Conquista e da Coloniza‚ƒo das terras da Nova Espanha forma o eixo condutor no processo narrativo do romance, que mesclando ingredientes ind„genas e europeus amalgama os sujeitos, os discursos e as representa‚•es para emoldurar o encontro-confronto dos tr•s mundos num duelo de vers•es narrativas. Os motivos b‹sicos que determinam os cen‹rios sƒo o Imp‰rio romano de Tib‰rio C‰sar, a Espanha do s‰culo XVI e XVII, a Am‰rica do Descobrimento-Conquista e a cidade escatol†gica da Paris de 1999.
Terra Nostra (1975), consta de setecentas e oitenta e tr•s paginas, cento e quarenta e quatro segmentos narrativos divididos formalmente nas tr•s partes da obra. O relato se inicia e termina no mesmo lugar geogr‹fico, na cidade de Paris de 1999, primeiro e •ltimo epis†dio. Os cento e quarenta e dois epis†dios restantes acontecem na Espanha do s‰culo XVI e XVII e em suas ‹reas de influ•ncia na Am‰rica e no MediterrŽneo.
A obra se traduz pelo complexo jogo entre a Hist†ria linear e a oficiosa, elaborada por Carlos Fuentes mediante as lacunas deixadas pela primeira. No plano metodol†gico proposto para este estudo, as partes do tr„ptico foram divididas seguindo a organiza‚ƒo interna da obra. Cada uma das partes do Tr„ptico se
corresponde com um dos mundos referidos e a estrutura‚ƒo tem‹tica interna da obra. A primeira parte ‰ a mais extensa,O Velho Mundo relata uma f‹bula hist†rica que tem como referencial os s‰culos XVI e XVII, ‰poca da dinastia dos ”ustria no trono da Espanha. O correlato o constitui a Espanha autorit‹ria, f•nebre e dogm‹tica cujo foco se situa na Espanha imperial e, em particular, no reinado de Felipe II. O foco discute as estruturas monol„ticas do poder representadas na figura do monarca no Pal‹cio de El Escorial. Centrada na Espanha imperial, em particular, no reinado de Felipe II, a personagem o Senhor representa uma s„ntese das personagens hist†ricas de Carlos V, de Felipe II e dos outros reis dessa dinastia. O Mundo Novo reinventa os mitos pr‰-hispŽnicos e as cr‘nicas da Conquista na figura da personagem o Peregrino que chega a Tenochtitl‹n onde participa do mito de Quetzalc†atl no Vale de An‹huac do s‰culo XVI. O Outro Mundo retorna € Espanha do s‰culo XVI, onde o Velho Mundo se articula de maneira diferente marcado pela contraposi‚ƒo € exist•ncia de O Mundo Novo.
Segundo Navarro, em Terra Nostra coexistem tensamente a fragmenta‚ƒo e a totaliza‚ƒo, pois no mesmo espa‚o convivem o disperso e o monumental. As tr•s partes do romance se correspondem nos tr•s Žmbitos distintos para dramatizar a visƒo particular do devir hist†rico: a Espanha medieval centralizada na figura do Senhor no Velho Mundo “elabora uma radiografia do poder tirŽnico que aflige os povos hispanofalantes ao longo dos s‰culos”. Comenta que O Velho Mundo nƒo pretende reproduzir objetivamente a realidade hist†rica ou utiliz‹-la como simples fundo de uma trama fict„cia. A reescrita do passado anseia iluminar as ‹reas obscuras da hist†ria lineal que permitam explicar a origem das formas de poder que dominam a esfera pol„tica do mundo hispŽnico moderno. Como um todo no romance, a visƒo historiogr‹fica que apresenta nƒo busca refletir objetivamente a realidade hist†rica ou us‹-la como simples transfundo de uma trama fict„cia. No processo de contextualiza‚ƒo, Felipe II personificado na figura do Senhor ostenta a personalidade mais rica e complexa na obra.
Pela f‹bula do descobrimento e a conquista da Am‰rica, o Mundo Novo visita os mitos mesoamericanos num tempo circular e a reinven‚ƒo que Carlos Fuentes faz dos mitos pr‰-hispŽnicos e das cr‘nicas da Conquista. E em O Outro Mundo surgem os movimentos her‰ticos € sombra do Renascimento em oposi‚ƒo € ortodoxia do mundo do Senhor. Ressalta o poder da imagina‚ƒo representado na
figura da casta intelectual, escritores, artistas e cientistas, e na met‹fora auto- reflexiva do Teatro da Mem†ria de Val‰rio Camillo. A esse padrƒo geral se somam os ciclos tem‹ticos em que se agrupam os epis†dios, as redes simb†licas e a cont„nua s‰rie de bin‘mios que faz com que todas as personagens, situa‚ƒo ou ideia se defina por oposi‚ƒo ao seu contr‹rio.
O projeto historiogr‹fico de Fuentes aponta, na verdade, para uma reescrita do passado que permita iluminar as ‹reas obscuras da hist†ria oficial. No caso de “O Velho Mundo”, busca-se uma explica‚ƒo da origem das formas de poder que dominam a esfera pol„tica do mundo hispŽnico moderno. Lembremos que no momento de produ‚ƒo de Terra Nostra (1969-1974), a Espanha e a Hispano- Am‰rica vivem ou sob regimes militares totalit‹rios, ou entƒo em fr‹geis democracias onde as formas de representa‚ƒo popular estƒo sujeitas aos interesses e vontade das oligarquias dominantes e do capital estrangeiro. Esta primeira parte do romance indaga precisamente nas ra„zes desta situa‚ƒo, ou seja, no momento em que se criaram as bases para a atual condi‚ƒo de dom„nio e depend•ncia que padecem os pa„ses de fala espanhola. Para isso situa a a‚ƒo principal do romance na Espanha dos ”ustria, per„odo em que a pen„nsula alcan‚a seu cenit imperial e a Am‰rica latina come‚a a sofrer os efeitos de uma coloniza‚ƒo deficiente. (Navarro. 2002, p. 57).
Subdividido em cinquenta e nove epis†dios, nƒo ordenados cronologicamente, O Velho Mundo os intitula de acordo com o seu conte•do, cada uma deles sugere as situa‚•es que seguem uma sequ•ncia. A narrativa se inicia com o primeiro epis†dioCarne, Esferas, olhos cinzentos junto ao Sena, na cidade de Paris, no verƒo do dia14 de julho de 1999. Nela ocorre o encontro de dois jovens, Polo Febo e Celestina. O jovem presencia acontecimentos extravagantes, como o nascimento de uma crian‚a com seis dedos em cada p‰ e estigmatizado com uma cruz vermelha gravada nas costas. Na sequ•ncia, o jovem recebe uma carta rubricada por Celestina e Ludovico explicando que com o nascimento daquela crian‚a se cumpre uma profecia. O beb• recebe o nome de Iohannes Agrippa. Celestina ‰ uma jovem de l‹bios tatuados que desenha nas cal‚adas das ruas de Paris. Numa tarde ardente e chuvosa de verƒo, o jovem se encontrar com Celestina,durante a tormenta, Polo Febo cai no rio do Sena. Com a inten‚ƒo de ajud‹-lo, Celestina joga uma garrafa verde e selada, mas Polo Febo desaparece levado pela correnteza. A partir da„, come‚a a rela‚ƒo das hist†rias que comp•em o romance.
Polo Febo ‰ um jovem mexicano que vive desorientado em Paris. – loiro e forte, e aleijado, perdeu um bra‚o, mas nƒo sabe explicar como. O jovem procura sua identidade no tempo e na Hist†ria, se reconhece como apenas um imigrante sem passado e sem futuro. A •nica coisa que sabe de si mesmo ‰ que, foi batizado dessa maneira por um “velho louco que nunca aceitou um passado que nƒo alimentasse o presente ou um presente que nƒo compreendesse o passado” (p.27). o narrador o descreve como Polo enigm‹tico, Polo peregrino, Polo aleijado, Polo apocal„ptico, Polo duplo, o homem sandu„che emparedado entre um “passado como mem†ria e um futuro como desejo” (p.29). Polo Febo fala de si, e se apresenta – “Eu sou s†, e apenas sou um pobre inv‹lido que ganho a vida como homem-sandu„che de um caf‰ de bairro, nƒo tenho outro emprego senƒo este, humilde e satisfat†rio, juro-lhes que nƒo tenho outro destino” (p.30).
A reflexƒo suscita os duplos latentes em Polo: luz e sombra; apocalipse e g•nese, homem-sandu„che emparedado num tempo circular, “Polo sereno, mutilado, trivial” (p.27). Todos os adjetivos atribu„dos a essa personagem sƒo esclarecidos ao longo do romance, na medida em que como protagonista e relator de hist†rias, vive grandes aventuras em busca da sua identidade.
O primeiro par‹grafo do romance apresenta uma enigm‹tica visƒo da origem humana. Polo Febo dorme e sonha e como pitonisa tenta desvendar os mist‰rios dos mundos sonhados:
Incr„vel o primeiro animal que sonhou com outro animal. Monstruoso o primeiro vertebrado que logrou se por sobre dois p‰s e assim espalhou o terror entre bestas normais que ainda se arrastavam, com alegre e natural proximidade, pelo lodo criador. Assombrosos o primeiro telefonema, o primeiro fervor, a primeira can‚ƒo e a primeira tanga. L‹ pelas quatro da manhƒ de um quatorze de julho, Polo Febo, adormecido em seu quartinho, no s†tƒo, de porta e janelas abertas, sonhou o anterior e dispunha-se a responder a si mesmo. Entƒo foi visitado dentro do sonho por uma figura mon‹stica, sombria, sem rosto, que refletiu em seu nome, continuando com palavras um sonho de puras imagens. (TN, p.13).
O sonho-reflexƒo de Polo Febo, sobre a g•nese do homem, inicia o relato do romance, uma esp‰cie de evoca‚ƒo das imagens sobre as origens do mundo, da esp‰cie humana e das coisas. Uma figura obscura aparece no seu sonho, simbolizando o papel aleg†rico da personagem, criatura de significa‚ƒo simb†lica e
cultural no Žmbito neobarroco, que condensa em si outros poss„veis significados provenientes do mundo das artes e da mitologia.
O nome Polo se remonta € imagem do sol, Apolo significa brilhante e ‰ representado como um jovem de bela estatura, dotado de uma beleza serena, inspirador dos adivinhos. Na Gr‰cia, era conhecido como filho de Zeus e Leta, mestre da harmonia celeste e terrestre, promotor da vida. Seus or‹culos versados, obscuros e amb„guos eram tidos como purificadores; na Roma antiga, era o deus da medicina e das parturientes, da poesia e da m•sica; Polo do latim medieval, polaris, as duas extremidades de um eixo imagin‹rio sobre o qual a Terra executa o movimento de rota‚ƒo. Por outro, Febo lado faz alusƒo a Fobo, € personifica‚ƒo do medo, que tinha um irmƒo chamado Deimos (o espanto). Em Polo Febo (luz e sombra) se anuncia a dualidade deste simb†lico personagem que permeia toda a obra.
A janela sempre aberta de seu quarto desempenha a fun‚ƒo de vest„bulo indicador da subversƒo do tempo, iniciadora de novas hist†rias a serem contadas e recontadas pelas m•ltiplas vozes narradoras no romance. A alegoria espelha-se no mito de Janos viajante das eras; do latimIanus, um dos principais deuses romanos. Era o primeiro deus a ser mencionado nas preces, e o primeiro a receber a por‚ƒo do sacrif„cio. Janos ‰ mencionado como o guardiƒo do universo, abridor e fechador de todas as coisas, olhando para o lado de dentro e para o de fora da porta. Passou a ser o deus dos in„cios – por exemplo, da primeira hora do dia e do primeiro m•s do ano – Ianuarius. Jano era representado com duas faces (bifrons), uma voltada para frente e a outra para tr‹s, sugerindo vigilŽncia constante ou simbolizando sua sabedoria, como conhecedor do passado e adivinho do futuro.
Diz o romance que o letargo on„rico ‰ o estado preferido pelas profecias para se manifestar em toda sua dimensƒo. Sƒo os monges, na maioria das vezes os encarregados por divulgar os segredos da alma durante o per„odo da Idade M‰dia. A figura de um monge an‘nimo, sujeito enigm‹tico, decifrador do passado, presente e futuro se introduz no sonho de Polo Febo para traduzir as imagens prof‰ticas. “A figura monacal ‰ anunciadora de novos tempos” (p.27).
Polo Febo percorre as ruas e assiste a acontecimentos extravagantes. O ambiente apresenta uma cidade apocal„ptica, esdr•xula, ultimamente confusa, diferente. Os •ltimos trinta e tr•s dias t•m sido de caos, de destrui‚ƒo e de trevas; ‰
um lugar onde paira a desconfian‚a e o sobressalto perante os fatos provocados por causas desconhecidas.
Transcorreram trinta e tr•s dias e meio, durante os quais, aparentemente, o Arco de Triunfo virou areia e a Torre Eiffel um jardim zool†gico. Ao povo lhe divertiu que a oxidada obra da Exposi‚ƒo Universal servisse como balan‚o de macacos, rampa de le•es, guarida de ursos e povoad„ssimo avi‹rio. Quase um s‰culo de reprodu‚•es, s„mbolos e refer•ncias a tinham reduzido ao mais triste e estranh‹vel estado de lugar comum. Agora o v‘o cont„nuo, a dispersƒo de pombas, as forma‚•es de gansos, as solid•es das corujas e as pencas de morcegos farsantes e indecisos no meio de tantas metamorfoses, entretinham e agradavam. A inquieta‚ƒo come‚ou quando uma crian‚a percebeu a passagem de um abutre que, desdobrando as asas na ponta da arma‚ƒo, tra‚ou um vasto c„rculo sobre Papsy e em seguida voou em linha reta at‰ as torres de Saint-Sulpice, onde se instalou em um canto do perp‰tuo andaime da eterna restaura‚ƒo desse templo e olhou, com avareza e irrita‚ƒo, as ruas desertas do bairro. (TN, p.14,15)
A imagem do her†i protagonista, Polo Febo belo jovem, loiro e forte ‰ rebaixada pelo adjetivo “Polo mutilado” que subverte o conceito tradicional do her†i: Polo Febo tem medo de perder sua •nica mƒo, “O verdadeiro motivo de seu medo (...) a simples imagem de sua •nica mƒo devorada pela fuma‚a” (p. 20).
Nƒo. Muito mais: continuo acreditando que o sol sai todos os dias e que cada novo sol anuncia um novo dia, um dia que ontem foi futuro; continuo acreditando que hoje prometer‹ um amanhƒ no instante em que virar uma p‹gina, antes imprevis„vel, depois irrepet„vel, do tempo. Polo Febo afastou primeiramente a franja ruiva de seus olhos, ajeitou com uma mƒo (pois nƒo tinha duas) a espessa cabeleira que lhe caia sobre os ombros. A fuma‚a o cercava, sua mƒo estendida, introduzida dentro da fuma‚a, tinha ro‚ado em carne alheia, corpos velozes, nus e alheios (...). Polo sentiu vergonha de ter sentido medo. O verdadeiro motivo desse medo (...) a simples imagem de sua •nica mƒo avan‚ada, devorada pela fuma‚a. Invis„vel. Sumida. Mutilada pelo ar. S† tenho uma. S† me resta uma (...). A calma voltou ao corpo do jovem mutilado. (...) E continuava ali, parado no meio da fuma‚a, exibindo uns cartazes que ningu‰m olhava.
(TN, p. 19, 23).
O ambiente apocal„ptico divide Polo Febo em sensa‚•es e sentimentos opostos: medo e curiosidade, perplexidade e aceita‚ƒo. O jovem biparte o mundo que o cerca: uma das partes est‹ voltada para o passado, para admitir e consagrar o momento presente; a outra, para um futuro voltado para uma mem†ria m„tica. Paris
celebra um ato p•blico, aparentemente trata-se de uma cerim‘nia religiosa, peregrinos, penitentes e povo em geral se misturam para olhar obla‚•es e sacrif„cios p•blicos. A festa dos penitentes na pra‚a nƒo distingue hierarquia entre os homens, todos participam. H‹ muita fuma‚a; o odor de sangue, cabelos e unhas queimadas invade a atmosfera, percebem-se corpos nus, h‹ distribui‚ƒo de alimentos, muitos risos e l‹grimas. O cheiro das ruas parece diferente; o ar dessa manhƒ de verƒo