• Sonuç bulunamadı

Se nós só tomamos consciência de algo quando o nosso cérebro já fez seu trabalho, então como fica a questão sobre a responsabilidade? Antes, apenas pessoas consideradas insanas ou com desordem mental eram moralmente isentas de responsabilidade. Contudo, agora o jogo muda de figura, parece que tal conclusão indica que todos nós, os chamados “normais”, também podemos ser isentos.

Para Gazzaniga, apesar dessa aparente conclusão catastrófica, há uma saída para esse problema. Isto é, podemos pensar que pessoas, cérebros e a pessoalidade são coisas distintas. Assim, por um lado, é possível afirmar que pessoas são livres e, por isso, responsáveis, e, por outro lado, defender que os cérebros não são. Para ele, o que nós realmente não queremos quando defendemos o livre-arbítrio é que nossas ações sejam pré- determinadas, seja por fatores genéticos, ambientais ou cadeias causais externas. No entanto, isso não significa dizer que nós não queiramos ser agentes determinados. Para ele, nós queremos sim ser determinados, mas não por qualquer coisa, apenas por desejos e sentimentos. Segundo ele, é possível asseverar estas duas coisas tomando por base uma

96 Ou seja, e citando uma conversa com meu esposo, “o livre-arbítrio existe mas está fora das nossas cabeças. Parece Putnam falando sobre o conceito de significado”.

causalidade apenas estatística, onde o determinismo explica apenas as regularidades das leis físicas da natureza macroscópica, deixando as relações causais a nível das interações socias de fora.

Para ele, uma tal solução se baseia principalmente em teorias da evolução que demonstram e explicam processos iguais ao “Efeito Baldwin”. O Efeito Baldwin explica como

[...] comportamentos transmitidos culturalmente podem modificar o ambiente de modo que as pressões de seleção agora favorecem mutações aleatórias que têm mais sucesso reprodutivo no ambiente agora modificado. Isso cria um ciclo de feedback, chamado assimilação genética, quando o novo ambiente se reflete nos genes, ou na construção do nicho quando os seres humanos adaptam o ambiente (ao contrário de animais, que se adaptem ao ambiente). (DOYLE, 2016b)

Gazzaniga afirma que a relação causal mente e cérebro pode ser explicada desta mesma forma, pois o processo de feedback entre ambos ocorre entre níveis e de forma similares, isto é, as ideias mentais exercem causação descente no cérebro, e este exerce causação ascendente naquelas, que acaba por influenciar nossas decisões mentais que estão sendo feitas no nível neuronal.

Como podemos ver, aqui há um enorme passo dado pelos humanos na cadeia evolutiva. Antes, os humanos, assim como outros animais, eram obrigados a se adaptarem ao ambiente, mas agora o quadro muda de figura: agora é a natureza que precisa se adequar às mudanças causadas pela espécie humana, e esta, por sua vez, muda novamente devido às mudanças da natureza que foram causadas anteriormente por ela mesma.

Certo, esta questão sobre evolução humana e seu impacto em nossa contituição física e mental já vimos aqui, mas o que isso nos diz, de fato, sobre a responsabilidade? Bem, Gazzaniga defende que, embora, por um lado, o conceito de livre-arbítrio precise ser abandonado, pois ele está vazio de significado, por outro, é necessário rever nosso conceito do que seja a responsabilidade pessoal de nossas ações. Como vimos, para tanto, ele apresenta o conceito de responsabilidade como sendo um resultado de leis emergentes. Para explicar isso, ele lança mão do exemplo do tráfego de automóveis. A análise do tráfego não pode ser alcançada pelos estudos dos carros isoladamente, i.e., através da análise de cada peça do carro ou do funcionamento delas. É preciso um novo tipo de lei emergente que se aplica aos carros que estão em movimento, por ex., as leis de trânsito. Assim, e. g., eu não tiro a regra de que

tenho que parar em um sinal vermelho apenas da análise das peças dos carros que estão circulando em uma avenida, mas das leis de trânsito que possibilitam a circulação “fluida” dos carros nesta avenida. Segundo Gazzaniga, o cérebro e as pessoas devem ser analisados de forma similar. Isto é, ele defende que “a responsabilidade está em uma dimensão da vida que vem do intercâmbio social, e ela requer mais do que um cérebro” para existir (cf. GAZZANIGA, 2011, p.136). A responsabilidade é, para ele, algo que depende de interações e regras sociais, regras estas que são distintas das regras físicas que regem o cérebro. É dessa interação e dessas regras que emergem a liberdade e a responsabilidade humanas. Nas palavras de Gazzaniga:

O próprio conceito de responsabilidade pessoal implica que estamos participando de um grupo social, cujas regras podem ser aprendidas. Quando nossos cérebros integram a miríade de informações que leva a uma decisão de agir, as regras aprendidas antes do comportamento são parte desse fluxo de informações. Nesse grande número de decisões que o cérebro toma, jogar pelas regras geralmente compensa [é evolutivamente viável] (GAZZANIGA, 2012).

Por fim, podemos resumir a tese de Gazzaniga sobre o livre-arbítrio e a responsabilidade da seguinte forma:

Dado que Gazzaniga defende uma concepção de mundo, no nível macro, na qual todas as coisas são fisicamente determinadas e posto que o cérebro é algo físico, então ele também é um sistema determinístico. Logo, não há livre-arbítrio, pois este requer um Eu (self) sem determinações. Contudo, há liberdade e responsabilidade, pois elas se encontram nas interações sociais. E o mundo social é regido por leis que não são as mesmas do mundo físico. Portanto, embora nossos cérebros sejam determinados por leis físicas, somos, enquanto pessoas, responsáveis pois estamos em constante interação social.