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A segunda parte dos experimentos envolveu a análise dos dados coletados e a exposição dos resultados obtidos. Os principais resultados obtidos foram estes:

1. Em geral, a maioria dos experimentos mostrou que o RP precede W. Com o RP tipo III a diferença entre o RP e W foi de menos do que – 100ms quando foi adotada a mudança MN. Contudo, ao adotar a cronometragem de início a partir do cálculo de 90 por cento da área a média ficou acima de 300ms. Assim como no RP tipo II, todos os atos no RP tipo III também são auto-iniciados espontaneamente. Apenas o RP tipo I tinha alguns atos que eram externamente induzidos, não sendo, assim, associados à liberdade de escolher quando agir. Com poucas exceções, o início do RP ocorreu antes do tempo da consciência relatada por quantidades substanciais de tempo.

2. Todos os participantes relataram que eles poderiam facilmente reconhecer e distinguir a consciência da experiência de “pré-planejamento” que ocorrereu em atos associados com os RPs tipo I.

3. Dado que a consciência de “pré-planejamento” estava completamente ausente em séries associadas com os RPs tipo II (ou III), então, foi considerado que os valores para as séries do RP tipo II (e III) deveria ser tomada separadamente daqueles para as séries do RP tipo I. 4. As séries com os RPs tipo I geralmente apresentam um início mais precoce do RP em relação a W do que aquelas com os RPs tipo II (ou III). No entanto, mesmo para as séries com os RPs do tipos II e III, os inícios dos RPs geralmente precediam W por valores substanciais.

O passo seguinte à obtenção do resultado dos dados foi a análise desses resultados. E para tanto, Libet apresentou dois critérios operacionais para a ordem temporal dos processos cerebrais vs intenção consciente, a validade e a confiabilidade, como um critério de avaliação dos dados obtidos na forma de relatos subjetivos. Segundo Libet, a confiabilidade sobre os relatos dos participantes parece completamente adequada, pois ao analisar o valor médio de W e a incidência do valor individual de W relativo ao início do tempo médio do aparecimento do RP, foi constatado que havia uma relativa consistência de tempo entre os relatos que eram feitos por cada participante nos três tipos de RPs, embora o

RP tipo III fosse mais variável e no RP tipo II houve alguns casos de estimulação externa (cf. Ibidem, p.637).

A validade pressupõe que eventos subjetivos em questão são apenas acessíveis por meio da introspecção e, para tanto, é necessário o relato do participante79. Aqui a equipe de Libet utilizou três tipos diferentes de métodos para avaliar os relatos dos participantes: “simultaneidade de juízos”, “tempo de um evento mental endógeno” e “evidência adicional relativa à validade dos tempos relatados”.

No método chamado de “simultaneidade de juízos”, Libet exige que, antes de

relatar, o participante observe ao mesmo tempo o surgimento de um evento mental, a intenção para mover, e a posição do ponto rotatório no osciloscópio de raios catódicos no momento do movimento. Apesar de o método aparentar objetividade, Libet reconhece que esse método pode cair em algum erro. Assim, para ter um controle maior desses potenciais erros, ele realizou as séries experimentais S onde o participante relata o tempo da tomada de consciência para um estímulo aleatório na pele. Essa série mostrou que o tempo de S foi o mesmo que os tempos de M e W, todos em relação ao RP. Como a série S foi realizada com estímulos externos, então foi possível determinar objetivamente se o relato do participante estava errado ou não. O que a série mostrou foi, em geral, uma diferença maior de tempo entre W e o RP (cf. Ibidem, pp.637-8).

No segundo método, o “tempo de um evento mental endógeno”, o tempo que é

relatado pelo participante aqui não pode ser direta ou objetivamente validado como foi feito nas séries S. Aqui o relato do participante é a evidência primária da sua experiência introspectiva. Um problema significante, segundo Libet, é que é possível que o participante acabe por afetar o relato com uma pré-tomada-de-consciência que ele pode ter ao se preparar para executar um ato voluntário, semelhante ao obtido com RP tipo I. Contudo, essa contaminação faria com que o W fosse mais negativo do que o indicado pelas séries, fazendo com que a diferença entre W “real” e o RP fosse maior (cf. Ibidem, p.638). Entretanto, mais uma vez, Libet e sua equipe mostraram confiança nos relatos dos participantes para as séries com o RP tipo II sem apresentar argumentos satisfatórios para afastar a hipótese de que os

79 Segundo Libet, “a aceitação desta premissa, e do nosso procedimento operacional específico para o relatório introspectivo necessário, apresenta vários problemas que podem afetar a validade do tempo relatado de W. Em particular, fatores que podem afetar a transmissão entre a experiência introspectiva do participante e seu relato verbal devem ser considerados” (Ibidem, p.637).

RPs tipo II e III pudessem conter algum tipo de pré-planejamento como ocorreu nos RPs tipo I80.

No terceiro método, a “evidência adicional relativa à validade dos tempos relatados”, que também objetiva fornecer um teste para os tempos relatados que fosse de

validade confiável, Libet e sua equipe realizaram dois modos independentes e sem suposições adicionais para cronometrar o tempo dos relatos, e que já foram mencionados acima: o modo absoluto (A) e o modo ordenado (O). Ambos os modos apresentaram tempos semelhantes para W e para os tempos de M e S.

A partir dessas verificações, por um lado, Libet conclui que os participantes souberam distinguir a experiência e o tempo de ciência para querer mover (W) tanto de S, uma sensação na pele, quanto de M, ciência do movimento real. Por outro, o início do RP I e II foi em geral parecido tanto nas séries em que foi pedido para relatar W ou para relatar M, quanto para as séries onde não foi pedido relato algum. Isso indicou que independente do conjunto mental que era associado a cada tipo de relato ou ausência de relato, a diferença de tempo entre o RP e W não era afetada de forma significativa.

Outro ponto é que os participantes confirmaram que buscaram anotar as primeiras tomadas de consciência para qualquer intenção ou impulso para mover. Diferenciando-os do tempo de M (cf. Ibidem, p.639). Além disso, os participantes ficaram mais atentos ao tempo de W quando primeiro foi realizada as séries de M ao invés das séries de W. Aumentando, assim, a negatividade do tempo médio de W em relação ao tempo zero do EMG em 50ms.

Desse modo, a principal conclusão do artigo de Libet foi a de que,

O cérebro evidentemente ‘decide’ iniciar ou, pelo menos, prepara-se para

iniciar o ato em um tempo antes de haver qualquer percepção subjetiva reportável de que tal decisão tenha acontecido. Conclui-se que a iniciação cerebral, mesmo de um ato voluntário espontâneo, do tipo aqui estudado,

pode e geralmente se inicia inconscientemente. O termo ‘inconsciente’

refere-se aqui simplesmente a todos os processos que não são expressos como uma experiência consciente; isso pode incluir e não distingue entre os processos pré-conscientes e subconscientes ou outros possíveis processos inconscientes não-relatáveis (Ibidem, p.640).

80 Libet apresenta uma crítica que pode ser feita a este método, a de que há ainda a possibilidade de que exista uma fase anterior não recordável do impulso consciente e que ela não é armazenada como uma memória de curto prazo. Contudo, ele tenta rebater essa crítica sem argumentos objetivos, mas no final ele admite que essa crítica ainda não pode ser excluída porque não foi testada experimentalmente (cf. Ibidem, p.639). Conclusão que eu tento a concordar.

Além dessa conclusão, Libet e sua equipe não apenas propôs, mas também testou experimentalmente uma hipótese geral de que é necessário um período de tempo substancial de atividade cerebral apropriada, pelo menos 500ms, para suscitar todas as experiências conscientes específicas. Caso não houvesse esse tempo a atividade neuronal deveria permanecer em níveis inconscientes, o que não ocorreu. E, consequentemente, sugeriu a necessidade de haver um período de tempo similar para alcançar uma experiência de intenção consciente para executar um ato voluntário.

Com isso, Libet reconhece que seu experimento fica limitado para apenas alguns tipos de atos, mas defende que o ato motor estudado é um exemplo ideal de um ato endógeno e livremente voluntário, pois ele apresenta “ausência de qualquer significado maior na flexão rápida e simples da mão ou dedos, e a possibilidade de realizá-lo com tempos caprichosamente fantásticos, parecem excluir fatores psicológicos externos ou outros fatores como controlando o agente” (Ibidem, pp.640-641).

Por fim, segundo Libet, embora estas considerações pareçam introduzir certas restrições sobre o potencial do indivíduo para iniciar e controlar conscientemente seus atos voluntários, permaneceria, pelo menos, dois tipos de condições em que o controle consciente poderia ser operativo: 1. a existência de um potencial veto consciente81 e 2. a possibilidade de iniciação e controle consciente não estaria excluída pelas evidências do artigo de Libet para àquelas ações voluntárias que são não-espontâneas e rapidamente executadas (cf. Ibidem, p.641).