Na creche são servidos três lanches ao longo do dia.
Antecedendo esses momentos, a professora segue com as crianças em fila para o banheiro, no intuito de lavarem as mãos para, posteriormente, irem ao refeitório67. Lá não costumam esperar muito tempo para serem servidas.
O primeiro lanche acontece por volta das 8h e, geralmente, é oferecido mingau ou vitamina de frutas acompanhada de biscoitos doces. A maioria das crianças come bem (fotografia 19). No segundo lanche, que acontece por volta das 9h15min, são servidas frutas, sendo as mais comuns banana, maçã, mamão e melão. Talvez por terem comido há pouco mais de uma hora, a aceitação das crianças não seja tão boa. O terceiro lanche acontece após o período do sono, às 14h10 min. Geralmente, também, são servidas frutas, mas vez por outra é oferecido iogurte ou suco artificial. Este a maioria das
66 Em uma das sessões de observação, quando cheguei à creche , sob forte chuva, percebi as professoras
bem agasalhadas, algumas, inclusive, usando blusas de mangas compridas, enquanto as crianças estavam, como sempre, de calção e descalças.
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Algumas vezes essa sequência é modificada, e as crianças vão primeiro para o refeitório e só depois ao
banheiro para “fazer xixi” e lavar as mãos.
Fotografia 18- Crianças olhando imagens de um livro no início da manhã.
crianças aceita bem e pede para repetir, o que é permitido sempre que haja comida sobrando após todos já se terem alimentado.
Os momentos de lanche duram de 10 a 15 minutos, em média, e costumam ser descontraídos. Porém, não se configuram como ocasiões de interações promotoras de desenvolvimento entre professoras e crianças. Após servirem seus “alunos”, o que fazem de forma rápida, apenas colocando o prato de plástico a sua frente, as docentes aproveitam para conversar entre si, não realizando nenhum tipo de estímulo contundente quando as crianças se recusam a comer, a não ser que percebam que alguma delas está adoentada. Apenas diante dessa situação, outros alimentos são oferecidos. Na maioria das vezes, Renata costuma usar o tempo em que as crianças estão no refeitório para organizar a sala para a atividade seguinte (afastar as mesas para o canto da parede, colocar as cadeiras em círculo, separar o material no caso da realização de alguma atividade etc). Nesse momento, Carla fica com as crianças.
Apesar do aparente cuidado da professora em preparar a sala, sua ausência nos horários dos lanches incita a ideia de que, para ela, esses momentos são pouco
importantes e não se configuram como parte das atividades ditas “pedagógicas”. O
horário do lanche, todavia, não deve atender apenas às necessidades nutricionais das crianças. Partilhar e trocar alimentos entre colegas, aprender a prepará-los, cuidar deles com independência e adquirir hábitos de higiene que preservam a boa saúde são
exemplos do que pode ser trabalhado nesses momentos. Além disso, a atmosfera afetiva criada durante a refeição também é muito importante para que esse momento seja aproveitado ao máximo pelas crianças. Sentir prazer e alegria enquanto comem pode instigar nas crianças o desejo de se alimentar melhor experimentando todos os alimentos, mesmo aqueles que não lhes pareçam muito agradáveis.
Tendo em vista todas essas possibilidades, o momento do lanche também deve ser planejado pelo professor. Ele pode, por exemplo, dispor os móveis de forma a facilitar a interação entre as crianças, proporcionar ocasiões em que as crianças possam participar da higiene do local onde será desfrutado o lanche, antes e depois de ele ocorrer; prever formas diferentes de servi-lo, como self service e piquenique, estimulando a socialização e, ao mesmo tempo, o cuidado com a higiene etc. Certamente Renata não percebe ou não valoriza todas essas possibilidades.
A integração das funções de cuidar e educar as crianças, de forma inseparável, representa um avanço significativo no olhar pedagógico, mas essa compreensão ainda se constitui um desafio a ser alcançado. Para alguns profissionais da Educação Infantil, as práticas mais ligadas ao corpo, como o sono, a higiene e a alimentação são tarefas de cuidado, enquanto as atividades mais intelectuais como pintar, desenhar e escrever são tarefas educativas. Pensando assim, muitas instituições assumem a postura de que os auxiliares cuidem das crianças e os professores as eduquem. Atitudes como estas fortalecem a separação e não a integração corpo/mente, educar/cuidar. Além disso, essa divisão de responsabilidades promove a discriminação social entre os profissionais da educação, admitindo que alguns delas pensam e realizam trabalhos relacionados ao desenvolvimento cognitivo enquanto outros executam atividades manuais referentes aos cuidados físicos.
No trabalho desenvolvido nas instituições de Educação Infantil, o que deve ser lembrado é que não se pode cuidar das crianças sem educá-las, como também não se pode educá-las sem cuidar delas. Portanto, professores e auxiliares não deveriam realizar um trabalho desagregado, desunido, em que um acredita que educa e o outro acha que apenas cuida das crianças. Pelo contrário, ambos devem ter a consciência de que a todo o momento estão educando e cuidando das crianças, tarefas que devem assumir com responsabilidade e respeito.
A educação e cuidados básicos das crianças na dimensão afetiva, nutricional, de saúde, de higiene e intelectual são essenciais. Educação e cuidados que respeitem os
direitos das crianças à vida, à saúde, à liberdade, à educação, à brincadeira, ao movimento e à exploração dos espaços, à aprendizagem e à ampliação da cultura devem ser pensados com seriedade.
4.3.3 “Vai, vai,vai começar a brincadeira...”: a atividade livre em sala
Apesar de estar previsto na rotina, o momento da atividade livre também não parece ser fonte de planejamento, pois sempre acontece da mesma forma.
Logo que as crianças retornam do primeiro lanche, a professora, que já afastou as mesas para o canto da sala, despeja os brinquedos do cesto no chão sem outro objetivo aparente senão o de manter as crianças ocupadas até a hora da atividade subsequente.
Renata costuma utilizar esse momento para preparar a atividade pedagógica que será oferecida às crianças no momento posterior, para organizar os materiais que se encontram no armário ou para preencher o diário de sala. Com isso, não dispensa muita atenção ao que se passa entre as crianças, perdendo inúmeras oportunidades de contribuir com seu desenvolvimento e aprendizagem. Sua real preocupação parece ser as atividades que devem desenvolver durante o dia e não as crianças e o seu bem-estar, o que possivelmente contribui para a redução considerável do número e da qualidade das interações que estabelece com elas. Quando acontecem, essas interações são, em sua maioria, por iniciativa das crianças, que costumam se aproximar para perguntar alguma coisa ou para expressar a sua curiosidade em relação ao que a professora está fazendo. Em todos os casos, esse contato é evitado e, logo que a criança vai em sua direção, Renata se apressa em enfatizar que aquele momento deve ser utilizado para brincar com os colegas. Assim, sua ação se resume em distribuir os brinquedos e depois anunciar o momento em que as crianças devem guardá-los.
Dessa forma, a professora não participa das brincadeiras infantis. Suas intervenções são sempre no sentido de evitar ou acabar com conflitos, que são comuns, tendo em vista a disputa pelos poucos brinquedos que estão inteiros, repreender verbalmente as crianças ou mesmo aplicar castigos àquelas que fazem alguma coisa que não é permitida, como, por exemplo, ficar embaixo das mesas ou tirar as cadeiras do lugar.
Vez por outra Renata aparece com uma novidade na sala, fruto de algo que aprendeu em experiências de formação das quais participou ou que observou em visitas
a outras instituições. Vale ressaltar o caso de uma tenda que montou na sala, que chamou muito a atenção das crianças, e possibilitou diversas interações relevantes entre elas. Infelizmente, durante as observações realizadas, a professora entrou na tenda para brincar com as crianças uma única vez. Além disso, em função do pouco espaço da sala e do sol que incide sobre ela no período da tarde, a tenda não fica armada continuamente, e as crianças têm poucas oportunidades de usufruir dela.
Tudo isso é preocupante, tendo em vista que é no momento da brincadeira que as crianças mais demonstram seu potencial criativo, dando vida, em sua imaginação, a restos de brinquedos que aparentemente não serviriam mais para nada. Desse modo, bonecas sem braço viram verdadeiras princesas e pedaços de plástico se transformam em utensílios de beleza. É dessa forma que as crianças vão transformando um ambiente pouco promissor em um local mais agradável e prazeroso para elas. Além disso, na busca de satisfazer sua necessidade de brincar, costumam burlar as ordens estabelecidas pela professora e, muitas vezes, são repreendidas, como, por exemplo, quando pegam livros no momento destinado ao uso exclusivo de brinquedos. Correr pela sala e usar os jogos de encaixe da forma não convencional, como relatado anteriormente, também são ações condenadas por Renata, o que reduz mais ainda as poucas opções de brincadeiras de que as crianças dispõem. Talvez por isso muitas delas fiquem bastante tempo observando o que se passa fora de sua sala (fotografia 20) ou, simplesmente, deitadas no chão (fotografia 21). Nesse último caso, não se sabe se por monotonia, cansaço ou ambos, mas em nenhuma das vezes que isso foi observado a professora chegou junto às crianças para saber o que estava acontecendo.
Fotografia 20- Criança olhando para fora da sala no momento da atividade livre
Fotografia 21- Criança deitada no chão no momento da atividade livre
Dessa forma a brincadeira, atividade privilegiada para o desenvolvimento infantil, é negligenciada, o que evidencia o desconhecimento da professora em relação à importância dessa atividade para as crianças.