D- VERGİ HUKUKUNDA SÜRELER
3- Sürelerin Uzaması
A escovação acontece duas vezes ao dia: após o almoço e após o jantar.
Enquanto as crianças comem, a professora pega o recipiente onde estão todas as escovas, também juntas (e algumas sem identificação), e coloca creme dental em cada uma delas. Após as refeições, Renata e Carla revezam-se na tarefa de acompanhar as crianças no momento da escovação dos dentes. Eventualmente, ambas fazem isso juntas. Quando vai sozinha com as crianças, Carla costuma solicitar que todas fiquem juntas no canto da parede e de cócoras, na intenção de não se sujarem com o creme dental (fotografia 29). Após acabarem a escovação, a orientação é que se dirijam até a pia para limpar a boca, mas muitas crianças acabam cuspindo no chão, perto do ralo, ficando suscetíveis às bactérias que lá se encontram e sujando o local. Quando isso
acontece, não há qualquer tipo de intervenção por parte da auxiliar. Em uma das vezes em que Renata acompanhou as crianças nesse momento, pareceu surpresa com esse costume. A cena abaixo é ilustrativa disso:
Hoje é Renata quem está acompanhando as crianças na esco vação. Ao chegarem ao banheiro a professora coloca água na boca de cada criança, molha suas escovas, que já estão com creme dental, e algumas delas se encaminham para o canto da parede e ficam de cócoras como costumam fazer se estão acompanhados por Carla. Quando Renata percebe essa atitude
repreende as crianças, dizendo: “Ei, que história é essa? Levantem daí, o
chão é sujo! O ralo é cheio de bichinhos, de bactérias que fazem mal pra vocês! Fiquem em pé mesmo!
(NOTAS DE CAMPO, 2/4/2009)
A atitude da professora demonstra sua preocupação com a saúde das crianças, entretanto evidencia a cisão existente entre sua prática e a de sua auxiliar que, em tese, deveriam ser compartilhadas. Ao retornarem à sala, após esse episódio, Renata sequer comentou com Carla a conduta das crianças naquele momento, que tornou a se repetir durante todo o período em que estive na creche. Em algumas situações, a professora tornava a repreender as crianças, em outras parecia não se incomodar com o que estavam fazendo e nada dizia. Essa inconstância na conduta de Renata, que permeia a sua prática de forma geral, e a discrepância entre suas orientações e as de Carla, provavelmente, confundem as crianças em relação ao que devem ou não fazer e dificultam a construção, por elas, de valores importantes para a constituição de sua individualidade, como, por exemplo, as noções morais de regras e limites.
Outra situação que chama a atenção, nesse momento da rotina, é o fato de as crianças não bochecharem água após terem concluído a escovação. Quando terminam, a professora ou a auxiliar simplesmente passam a mão molhada sobre seus lábios, como se com isso eliminasse o excesso de creme dental presente na boca. Como esse material não é específico ao uso infantil69 e inadequado à ingestão, certamente acarreta danos ao organismo das crianças, além, é claro, do incômodo que deve ocasionar. Talvez a falta de verbalização das crianças acerca de algum descontentamento nesse sentido dificulte a percepção do problema. Por outro lado, se as crianças não costumam falar sobre isso, a insatisfação transparece em suas feições e atitudes após esse momento. Fazer careta, cuspir várias vezes no chão e passar a mão na boca são ações comuns das crianças após a escovação. Infelizmente, a professora parece não compreender o que elas têm a dizer por meio de suas múltiplas linguagens e, portanto, não as leva em consideração nos momentos de planejar, desenvolver e avaliar as atividades diárias.
Algumas vezes, ao chegarem da escovação após o almoço, as crianças têm que aguardar enquanto Carla termina de organizar a sala para o sono. O atraso acontece quando o porteiro demora a ir pegar os colchonetes que ficam guardados dentro do almoxarifado. É ele o responsável em levá-los até a sala. Diante dessa circunstância, Renata costuma ficar sentada, esperando com as crianças do lado de fora. A espera não se estende muito, uma média de cinco minutos, mas, como é ociosa, as crianças ficam agitadas e algumas correm pelo pátio e sobem nos brinquedos, acarretando a ira da professora, que insiste que todas permaneçam sentadas e em silêncio. Em algumas ocasiões, ela até tenta cantar baixinho com as crianças ou lhes contar uma história, mas elas não parecem muito interessadas e, além disso, logo que a sala fica pronta tudo é interrompido imediatamente, sem que lhes seja prestada a menor satisfação.
Após Carla colocar todos os colchonetes no chão, Renata vai chamando o nome de cada criança e lhes apontado o local onde devem deitar (fotografia 30). Apesar de não haver qualquer identificação nas colchas, as crianças não podem escolher ao lado de
quem preferem ficar já que, segundo a professora, isso acarretaria “muita conversa” e
atrapalharia o descanso. Aqui dormir não parece sinônimo de cansaço ou sono, mas sim de dever, obrigação. Mais uma vez, as crianças são impossibilitadas de escolher, opinar, questionar, protestar... Qualquer manifestação, nesse sentido, é imediatamente tolhida, como demonstra a situação descrita abaixo:
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Renata está embalando uma das crianças quando Henrique se aproxima e
fala: “Tia, eu...”. A professora nem o deixa terminar e vai logo dizendo: “Volte já pro seu lugar! Não tem negócio de conversa agora não! Eu mandei dormir!” O menino obedece.
(NOTAS DE CAMPO, 7/5/2009)
O momento de dormir prolonga-se das 11h30min às 14h e, para ajudar as crianças a relaxar, a professora as vira de bruços e lhes balança as costas de um lado para o outro, como se as embalasse. Apesar de não haver qualquer demonstração afetiva nesse ato, a estratégia tem-se mostrado eficaz, e a maioria das crianças adormece mais rapidamente com esse auxílio.
A partir de 12h, as professoras e auxiliares seguem para o refeitório e as crianças que estão dormindo permanecem sozinhas na sala. Aquelas que não conseguem adormecer são retiradas de perto das demais e levadas ao pátio, local visível pelos adultos, que almoçam um pouco mais adiante. Ali, devem permanecer deitadas e em silêncio.
Esse se constitui um dos momentos mais angustiantes da rotina. Perceber os adultos dialogando contentes enquanto há crianças acordadas e isoladas no outro extremo do pátio, olhando para o teto sem poder falar, observando caladas o que se passa. E, sem poder, sequer, sentar, chega a ser sufocante. Ainda assim, as crianças, como sempre primorosas em seus ensinamentos para os adultos, conseguem transparecer alegria nesses momentos, brincando com suas próprias mãos e conversando
consigo mesmas, fazendo crer que, mesmo diante de situações tão adversas, ainda existe razão para sorrir. Talvez a situação pareça bem pior para um observador do que é, de fato, para elas...
De qualquer forma, ao longo da pesquisa, a hipótese da existência de duas realidades distintas, ia-se confirmando. Na ilha de Lia, os adultos se divertem entre si e não permitem a aproximação das crianças; afinal, ilha é ilha, pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Já no barco de Rosa, as crianças navegavam por mundos inimagináveis aos adultos, podendo ir aonde seus sonhos as guiem. Lugares onde podem ser o que quiserem e onde podem realizar as mais surpreendentes fantasias. Pena que a viagem dure tão pouco, somente o tempo de o barco esbarrar na ilha70...
Geralmente, após a refeição, os funcionários ficam conversando até o início das atividades da tarde, mas, algumas vezes, as professoras e auxiliares voltam à sala e se deitam próximo às crianças para também tentar descansarem. Outras vezes, aproveitam esse tempo para prepararem atividades que serão realizadas no dia seguinte, para preencherem o diário ou mesmo para realizarem reuniões pedagógicas.
Apesar de o horário estipulado para as crianças despertarem ser o mesmo, independente da hora em que adormeceram, algumas acordam antes do tempo previsto e, nesse caso, devem permanecer imóveis e caladas para não perturbar o descanso das outras. Quem não obedece fielmente a essa ordem é tratado de forma ríspida, como demonstra a cena descrita a seguir:
Chego à creche às 13h30min. Cumprimento as professoras, que estão conversando em torno da mesa do almoço e sigo para a sala de Renata. Pego uma cadeira, levo para o pátio e permaneço observando o sono das crianças. (...) Poucos minutos após minha chegada, Ester desperta. A menina levanta a cabeça, me olha e sorri. Seu olhar é intenso, como se quisesse ir ao me u encontro, mas algo a impedisse. Retribuo o sorriso e continuo a observar o que se passa na sala. Após alguns instantes, Ester senta e começa uma brincadeira solitária de colocar e tirar a fralda do rosto. Em meio ao aparente faz-de-conta, sussurra baixinho algumas palavras consigo mesma. Por alguns momentos fico encantada com a brincadeira da menina e também sorrio, mas em poucos minutos constato o provável motivo da apreensão de Ester em se aproximar de mim. Como sempre muito séria, a auxiliar da turma C chega, entra na sala e coloca um colchonete ao lado da menina, que, ao perceber sua presença, já vai tornando a deitar, como se previsse que era esse o desejo da mulher. A auxiliar, por sua vez, complementa a ação da garota colocando a fralda sobre seus olhos. Ester, contudo, ainda se mexe, movimentando os braços e as pernas para cima. Tal comportamento parece provocar a ira da auxiliar, que pega bruscamente seus braços, os abaixa e vira a menina em direção da parede, de costas pra ela. Ester, aparentement e conformada, se aquieta por alguns instantes, mas basta a distração da auxiliar para que volte a
70
Quando as professoras ou auxiliares percebem as crianças brincando ou sussurrando, logo tratam de repreendê-las solicitando silêncio.
brincar com sua fralda. Percebendo, porém, a insistência da garota, a auxiliar vai novamente ao seu encontro e lhe toma definitivamente a fralda.
(NOTAS DE CAMPO, 23/4/2009)
Percebe-se, assim, que o clima afetivo na hora de dormir é tenso para adultos e crianças. Desde o começo, as professoras e auxiliares parecem ansiosas para que todas durmam rápido, o que é compreensível tendo em vista que quanto mais cedo isso acontecer, mais cedo elas poderão ir para o almoço. Por outro lado, além do embalo não é realizado nenhum outro trabalho que ajude as crianças a relaxar. Nesse ponto, a organização do ambiente deve ser fundamental. Colocar uma música tranquila, reduzir a luminosidade do local, permitir a utilização de fraldas, chupetas ou bichinhos trazidos de casa e disponibilizar livros para aqueles que não estão com tanto sono são exemplos de atividades que podem facilitar com que as crianças se aquietem e adormeçam com mais facilidade. Além disso, a individualidade de cada criança também se manifesta na hora do sono. Respeitar, por exemplo, a posição escolhida por cada uma para descansar proporciona maior segurança emocional e consequentemente um sono mais sossegado. Também é muito importante observar se as necessidades fisiológicas das crianças estão supridas. Se alguma delas não se alimentou bem no almoço, certamente, terá dificuldades para dormir.
As crianças que demoram mais a adormecer e não acordam sozinhas na hora determinada, são ajudadas pela professora ou pela auxiliar, que procuram fazer isso de forma delicada, tocando levemente em seus braços. Algumas vezes, as crianças urinam no colchão e o que poderia se configurar em mais uma fonte de crítica parece ser compreensível para as profissionais:
No momento de acordar as crianças, Renata percebe que uma delas fez xixi no colchonete e comenta com sua auxiliar que provavelmente isso aconteceu porque foi servida uma quantidade muito grande de suco no almoço. Em seguida, pega um fantoche de sapo, coloca na mão e brinca com o garoto
imitando a voz do animal: “Ei, menino, porque você fez xixi na cueca?” O
menino sorri, a brincadeira se prolonga por mais alguns instantes , e a auxiliar o leva até o banheiro para se lavar e trocar de roupa.
(NOTAS DE CAMPO, 23/4/2009)
Momentos como o descrito acima, em que a professora responde de forma positiva a um comportamento fora dos padrões estipulados, são raros e poderiam constituir-se interessantes momentos de reflexão. De modo geral, contudo, não parecem
ser as crianças, suas necessidades e desejos o foco da ação na creche, e sim a realização inquestionável do que está previsto na rotina.