MATERYAL VE METOT
3.2. VER LER N DE ERLEND R LMES
Para a compreensão da personalidade humana, de seu sistema de motivos e da atividade como sua unidade explicativa fundamental, um conceito trabalhado por Vigotski (1996) merece receber nossa atenção: o conceito de vivência.
[...] A vivência, segundo Vigotsky, é uma ‘unidade’ na qual estão representados, em um todo indivisível, por um lado o meio, ou seja, o experimentado pela criança; por outro, o que a própria criança aporta a essa vivência e que, por sua vez, se determina pelo nível já alcançado por ela anteriormente. (BOZHOVICH, 1988, p. 123, tradução nossa).
O trecho de Bozhovich, acima citado, traz alguns elementos necessários à reflexão sobre a relação entre atividade e desenvolvimento da personalidade e, em especial, aporta a esse trabalho o conceito de vivência, imprescindível à compreensão da base emocional da atividade humana.
Em primeiro lugar, o trecho sugere a imprescindibilidade do meio. Temos discutido, ao longo deste trabalho, que o meio, entendido sob a perspectiva histórico-cultural como meio
social é o lócus da essência humana. Desse modo, é o elemento sem o qual não há
desenvolvimento histórico e, portanto, não há humanização, nem personalidade. Constitui o primeiro princípio do conceito de vivência, porque provê a experiência social e a apropriação de significados, por meio da atividade do indivíduo. O meio é a base fundamental de onde partem os reflexos psíquicos cognitivos e afetivos. Além disso, o meio, ainda, determina a situação social de desenvolvimento do sujeito, reservando exigências e expectativas sociais com as quais cada pessoa se relaciona e sob as quais atua.
O segundo princípio constitutivo da unidade denominada, por Vigotski, como vivência é aportado pelo sujeito da atividade. Cada pessoa, ao relacionar-se com o meio social, insere- se num movimento de objetivação, de atividade criadora. A reprodução dos significados humanos, em cada indivíduo, configura-se como re-produção, como um novo e inédito produzir, tendo em vista que os sentidos atribuídos aos objetos e relações são singulares, pautados em experiências próprias. Lembramos que a consciência é definida pela imagem subjetiva do real. Como ser ativo, cada homem apropria-se e objetiva-se, humaniza e humaniza-se, transforma e transforma-se.
Um terceiro aspecto, ressaltado no texto, está intrincado, diretamente, com o segundo: a possibilidade de atribuir sentidos, de objetivar-se depende, sobremaneira, das capacidades já formadas, na e pela atividade do indivíduo.
Bozhovich revela que
[...] a formação da personalidade da criança se determina pela correlação entre o lugar que ela ocupa no sistema das relações humanas, acessíveis a ela (e, por conseguinte, entre as correspondentes exigências que lhe são postas) por um lado, e por outro, pelas particularidades psicológicas formadas como resultado de sua experiência anterior. Precisamente, dessa correlação surge a posição interna da criança, ou seja, o sistema de suas necessidades e aspirações (representadas subjetivamente nas vivências correspondentes) que, ao interpretar e mediar as influências do meio, se
converte na força motriz direta que desenvolve nele novas qualidades psíquicas. (1981, p. 142, tradução nossa).
A vivência une, portanto, as capacidades já desenvolvidas pelo sujeito em todas as suas experiências anteriores, a apropriação dos significados e os sentidos a elas atribuídos ⎯ realiza a unidade entre o cognitivo e o afetivo. Medeia a relação entre as capacidades já formadas e as novas formações do psiquismo, constituindo o sistema de motivações que conduzem a atividade de cada indivíduo. Entendemos que o conceito de vivência evidencia a unidade entre o objetivo e o subjetivo e explicita, uma vez mais, que é a atividade a unidade explicativa da personalidade do homem concreto.
Sabemos que a formação da personalidade está condicionada pela relação complexa entre condições internas e externas, cujo movimento se origina na vivência e, simultaneamente, dá origem a ela. Assim, o homem relaciona-se com a realidade e, nesse processo, atribui sentidos ao mundo e a si, os quais estão profundamente matizados afetivamente. As vivências são, pois, resultantes da interação entre experiências anteriores e condições atuais ⎯ constituem o elemento mediador de novas relações do homem com o mundo ao seu redor, de novas significações e sentidos, de novas necessidades, atuando na formação do sistema de motivos complexos que impulsiona a atividade individual. Desse modo, a atividade do sujeito está complexamente motivada e produz diferentes formações afetivo-cognitivas, de acordo com as vivências de cada um. Estudar a personalidade e seu desenvolvimento implica, portanto, refletir sobre a biografia, sobre a história do homem concreto e, nela, sobre o seu desenvolvimento afetivo.
[...] Entendemos, portanto, sob a denominação de personalidade, a totalidade psicológica que caracteriza um homem singular. [...] A personalidade não é essencialmente uma “maior complexidade” da individualidade biológica, sendo sim, de parte a parte, o efeito da biografia, que é, ela própria, fundamentalmente determinada pelas relações sociais e pela sua lógica. (SÈVE, 1979, p. 606).
Na biografia ― e, assim, na dinâmica da personalidade ― as vivências assumem importância fundamental. Segundo Bozhovich,
Se a imagem, a representação, o conceito, são o reflexo do mundo de objetos que rodeiam o homem, então as vivências são o produto do reflexo de suas inter-relações com a realidade. Esse reflexo não é menos importante para a conservação da vida do sujeito que o reflexo da própria realidade, já que atua precisamente como regulador de tais inter-relações. Por isso, não é casual que qualquer reflexo da realidade, inclusive a sensação mais elementar, esteja matizado por um ou outro tom emocional, que determina a atitude do sujeito frente à realidade. (1988, p. 133, tradução nossa).
Geneticamente, essa é a função primária da vivência: a formação do sistema de motivos que caracteriza a personalidade. Nesse sistema, incluem-se as emoções, os sentimentos, os afetos50, os desejos e tendências que regulam a atividade do indivíduo. Dada a
complexidade funcional do psiquismo humano, é preciso levar em conta que as vivências têm, em si mesmas, importância para o sujeito. Assim, alguém que se emociona pela primeira vez ao ouvir uma melodia pode desejar sentir novamente a emoção experimentada. Nesse caso, a vivência, de meio de orientação da atividade transforma-se no próprio objetivo e conduz ao surgimento de novas necessidades, ou seja, necessidades de vivências.
Um dos erros fundamentais da Psicologia tradicional, de acordo com Vigotski (2001a), é a separação entre cognição e afetividade. A não compreensão da psique como um sistema que integra diferentes funções e sistemas na atividade leva à fragmentação do entendimento da psicologia do homem concreto. Nas palavras do autor russo
[...] Como se sabe, a separação entre a parte intelectual da nossa consciência e a sua parte afetiva e volitiva é um dos defeitos radicais de toda a psicologia tradicional. Neste caso, o pensamento se transforma inevitavelmente em uma corrente autônoma de pensamentos que pensam a
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Segundo Smírnov et al. (1961), os afetos são compreendidos como uma manifestação emocional intensa, condicionada por uma influência externa qualquer. Para os autores, os afetos são muito fortes e caracterizados pela perda de controle da vontade e consciência do sujeito sob a sua ação. Bozhovich (1981, p. 123, tradução nossa) apresenta um outro conceito, discordante deste primeiro. Para ela, “[...] os estados afetivos são vivências emocionais prolongadas e profundas, diretamente relacionadas com as necessidades e aspirações ativas, que têm para o sujeito uma importância vital. Neste sentido, todas as pessoas possuem uma vida afetiva mais ou menos intensa, sem a qual se converteriam em seres passivos ou indiferentes.” Neste trabalho, assumimos a conceituação de afeto e vivência afetiva dada por Bozhovich. Consultar: SMÍRNOV, A. A., et al. Psicología. México: Grijalbo, 1961. e BOZHOVICH, L. I. La personalidad y su formación en la edad infantil: investigaciones psicológicas. Habana: Pueblo y Educación, 1981.
si mesmos, dissocia-se de toda a plenitude da vida dinâmica, das motivações vivas, dos interesses, dos envolvimentos do homem pensante e, assim, se torna ou um epifenômeno totalmente inútil, que nada pode modificar na vida e no comportamento do homem, ou uma força antiga original e autônoma que, ao interferir na vida da consciência e na vida do indivíduo, acaba por influenciá-las de modo incompreensível. Quem separou desde o início o pensamento do afeto fechou definitivamente para si mesmo o caminho para a explicação das causas do próprio pensamento, porque a análise determinista do pensamento pressupõe necessariamente a revelação dos motivos, necessidades, interesses, motivações e tendências motrizes do pensamento, que lhe orientam o movimento nesse ou naquele aspecto. De igual maneira, quem separou o pensamento do afeto inviabilizou de antemão o estudo da influência reflexa do pensamento sobre a parte afetiva e volitiva da vida psíquica, uma vez que o exame determinista da vida do psiquismo exclui, como atribuição do pensamento, a força mágica de determinar o comportamento do homem através do seu próprio sistema, assim como a transformação do pensamento em apêndice dispensável do comportamento, em sua sobra impotente e inútil. A análise que decompõe a totalidade complexa em unidades reencaminha a solução desse problema vitalmente importante para todas as teorias aqui examinadas. Ela mostra que existe um sistema semântico dinâmico que representa a unidade dos processos afetivos e intelectuais, que em toda idéia existe, em forma elaborada, uma relação afetiva do homem com a realidade representada nessa idéia. Ela permite revelar o movimento direto que vai da necessidade e das motivações do homem a um determinado sentido do seu pensamento, e o movimento inverso da dinâmica do pensamento à dinâmica do comportamento e à atividade concreta do indivíduo. (VIGOTSKI, 2001, p. 16-17).
De acordo com as idéias postuladas por Vigotski, toda atividade humana integra, necessariamente, dois aspectos: o reflexo intelectual da realidade e, fusionado a ele, o reflexo emocional ⎯ sentidos e significados como elementos que se amalgamam na formação das capacidades e no desenvolvimento da personalidade.
É importante ressaltar que todo o processo de formação da personalidade acontece em íntima relação com a apropriação de significados, pelos homens, nas relações sociais. O processo tem mão dupla: a internalização dos significados sociais provoca o aparecimento das experiências emocionais, dos sentidos pessoais que permitem, progressivamente, que ele atue de forma a atender, também, as motivações afetivas. As vivências emocionais consolidam, assim, o desenvolvimento emocional do bebê, da criança, do homem. Daí ressaltarmos que não existe possibilidade de cisão entre intelecto e emoção, em toda conduta humana.
A integração da esfera afetiva na construção do macrossistema da subjetividade permite compreender as emoções como expressão do sentido de todo o processo ou configuração subjetivos, o que de fato supera a fragmentação histórica entre o cognitivo e o afetivo, situando a relação entre esses processos em uma nova qualidade da psique que é seu sentido subjetivo. [...] Uma experiência ou ação só tem sentido quando é portadora de uma carga emocional. (GONZÁLEZ REY, 2003, p. 249).
Ao tratar das emoções e de sua função na personalidade, Leontiev revela que
[...] As emoções não subordinam a atividade, mas são seu resultado e o ‘mecanismo’ de seu movimento. [...] As emoções cumprem a função de sinais internos; internos no sentido de que não são o reflexo psíquico imediato do próprio objeto da atividade. A particularidade das emoções reside em que refletem as relações entre os motivos (necessidades) e o êxito ou a possibilidade de realização exitosa de uma atividade do sujeito que responda a eles. Além disso, não se trata aqui da reflexão sobre estas relações, mas de seu reflexo sensorial direto, da vivência. Por fim, elas surgem com a atualização dos motivos (da necessidade) e antes que o sujeito faça a valoração racional da sua atividade. (1978b, p. 154, tradução nossa).
Perceber as emoções como resultado da atividade, permite que compreendamos, de forma mais extensa, a importância do fazer significativo para o desenvolvimento completo do homem. Segundo Leontiev (1978b), as emoções surgem como sinais da satisfação ou insatisfação de necessidades e motivos, anteriores à racionalização. São efeitos independentes da vontade, estados ideais e situacionais. Não refletem os objetos da realidade, mas a relação entre eles e as necessidades humanas. As emoções são despertadas, na atividade humana, pela correspondência entre os resultados dos fazeres e o sentido pessoal que assumem. Assim, ao realizar uma atividade, posso me emocionar, positiva ou negativamente, em dependência do sucesso ou insucesso alcançado. O mesmo pode acontecer em relação às ações, sempre caracterizadas por um tom emocional. Smírnov et al. esclarecem que
A aparição de vivências emocionais positivas ou negativas depende de que se satisfaçam ou não as necessidades e exigências que apresenta a sociedade [para o indivíduo e/ou para a coletividade, o que caracteriza as necessidades produzidas social e historicamente, não-naturais]. [...] As emoções são sinais de que os atos se realizam com ou sem êxito e influem para que o sujeito realize umas ou outras ações. As emoções influenciam grandemente a regulação da atividade e a conduta do sujeito. (SMÍRNOV et al., 1961, p. 355, grifos do autor, tradução nossa).
De acordo com Smírnov et al. (1961), podemos compreender que as emoções constituem experiências afetivas simples, relacionadas com as sensações. Historicamente, desenvolveram-se sobre a base das necessidades naturais, o que explica, ainda hoje, sob a influência decisiva das necessidades produzidas historicamente, que as experiências emocionais causem, na pessoa, modificações orgânicas como a palpitação, as lágrimas, a sudorese, entre outras. A condição histórica das necessidades humanas, entretanto, transformou o caráter das emoções. Se, inicialmente, sua manifestação esteve ligada diretamente à satisfação de necessidades orgânicas, como a fome, por exemplo, a produção histórica de necessidades pela atividade humana permitiu que as emoções passassem a se manifestar a partir de experiências e necessidades socialmente produzidas. Nesse sentido, podemos emocionar-nos ao ouvir uma música, ao observar uma paisagem, ao saber notícias sobre alguém ou algum fato. Sem que tenhamos consciência dos motivos, as emoções se apresentam. É importante lembrar que as emoções podem se manifestar motivadas por qualidades isoladas dos objetos e situações.
Um aspecto relevante a ser, ainda, ressaltado sobre as emoções é o de que as experiências emocionais circunstanciais são generalizadas e dão origem a atitudes emocionais permanentes: os sentimentos. Isso significa que repetidas vivências emocionais relacionadas a um objeto ou situação podem se tornar constantes. É o caso, por exemplo, do bebê, cujas necessidades são satisfeitas pela mãe. As emoções positivas geradas pela satisfação das necessidades de alimentação e cuidado geram, na criança, uma atitude afetiva em relação à mãe, um sentimento não circunstancial. Sua presença, que, inicialmente, gerava emoções positivas ao atender às necessidades do bebê, passa, num segundo momento, a gerar alegria por si mesma, ainda que sem nenhuma relação com necessidades fisiológicas. Da mesma maneira, repetidas experiências negativas em relação a um objeto, pessoa ou situação, podem produzir sentimentos negativos.
Os sentimentos constituem uma forma de vivência afetiva diferenciada das emoções, por se relacionarem não a propriedades isoladas dos objetos e situações, mas a objetos e fenômenos em conjunto. São especificamente humanos, por seu caráter historicamente condicionado e caracterizados pelo caráter constante e prolongado. Caracterizam-se, segundo Leontiev (1978b), como vivências emocionais estáveis, que se cristalizam sobre determinados objetos/pessoas e são expressos ⎯ e, também, impulsionados ⎯ por meio da linguagem51
(dos significados sociais). De acordo com Leite (1999, p.96), “Os sentimentos pertencem à esfera ideológica, porque encontram-se cristalizados nas significações sócio-históricas que são a consciência social de um determinado momento e constituem um sistema de sinais do que ocorre no mundo.”
Podemos compreender, portanto, que os sentimentos são vivências emocionais estáveis, relacionadas às condições históricas de vida e educação do homem (SMÍRNOV et al., 1961). Cada momento histórico está marcado por alguns valores e atitudes considerados fundamentais à época. As relações sociais promovem a vivência desses valores e atitudes, o que gera, no homem, sentimentos capazes de regular a sua atividade. São exemplos de sentimentos o patriotismo, a solidariedade, o amor.
Cabe salientar, ainda, que “As emoções e sentimentos se determinam não só por aquilo
que os determina diretamente em um momento dado, mas também por amplos sistemas de conexões temporais criados com a experiência passada.” (SMÍRNOV et al., 1961, p.365,
grifos dos autores, tradução nossa). Esse pressuposto confirma a tese de que as vivências realmente consolidam o sistema de motivos da atividade humana. Elas medeiam a relação entre antigas e novas experiências, agindo sobre o desenvolvimento da personalidade, através da influência que exercem sobre a transformação da atividade do indivíduo.
51 Segundo SMÍRNOV et al. (1961, p. 365, tradução nossa), “A palavra e a linguagem são meios que permitem
influenciar amplamente as emoções do indivíduo e regulam sua conduta afetiva. Por meio da palavra se podem motivar emoções e sentimentos em outras pessoas, podendo influir para que não se desenvolvam reações indesejáveis nelas. A linguagem, ainda que seja interior, intervém sempre na regulação das próprias emoções e sentimentos.”
Tal entendimento contribui para a reflexão sobre o papel da Educação em relação ao sistema emocional. Compreendemos que é papel primordial do educar para-si a formação de necessidades humanizadoras. É, portanto, função da educação, também, a oportunização de vivências emocionais positivas relacionadas à atividade da criança e a formação dos chamados sentimentos superiores (SMÍRNOV et al., 1961, p. 367), que são os sentimentos morais, estéticos e intelectuais. A proposição de atividades ⎯ o que implica que as ações sugeridas sejam envolventes e com sentido ⎯, atrai emocionalmente a criança e permite a generalização de experiências emocionais positivas em relação aos conhecimentos, ao trabalho em grupo, à satisfação da curiosidade, à descoberta, à expressão pessoal, ao mundo e às relações entre as pessoas.
É importante lembrar que “O conteúdo dos sentimentos dominantes no indivíduo é
uma característica psicológica fundamental de sua personalidade.” (SMÍRNOV et al., 1961,
p. 373, grifos dos autores, tradução nossa). E a formação de uma hierarquia de sentimentos está condicionada pelo desenvolvimento de atitudes do sujeito frente à realidade, às condições de vida e de educação. Tais atitudes se desenvolvem por intermédio da educação e “A
condição fundamental para educar os sentimentos é a de organizar a vida e a atividade da criança de tal maneira que ela tenha a possibilidade de viver sentimentos de alto valor educativo que enriqueçam sua experiência emocional [...]” (SMÍRNOV, et al. 1961, p. 381,
grifos dos autores, tradução nossa) e de, progressivamente, tomar consciência de suas emoções e sentimentos, dos motivos de sua atividade.
Quando o homem desenvolve sua atividade [...], nos diferentes níveis que esta atividade pode ser desenvolvida, este processo adquire valor não só para a representação cognitiva de tal realidade, por meio de imagens ou conceitos, mas também para o desenvolvimento de qualidades e atitudes que também se formam no homem como um reflexo de sua atividade [...] e que, uma vez desenvolvidas, garantem novos níveis de penetração criativa do homem sobre sua realidade [...], que é portadora de todo potencial regulador da personalidade. (GONZÁLEZ REY, 1985, p. 28, tradução nossa).
Em síntese:
A atividade constitui a unidade explicativa fundamental do desenvolvimento da personalidade. Foi por seu intermédio que, historicamente, o homem pôde desenvolver as características especificamente humanas de seu psiquismo: a consciência, o pensamento, a linguagem, os sentimentos.
A Teoria da Atividade de Leontiev (1978a, 1978b) traz, para a compreensão do desenvolvimento da personalidade na ontogênese, aportes fundamentais. Revela que, por intermédio de uma atividade marcada pela presença de motivos, o homem realiza ações e operações cada vez mais complexas, formando as capacidades psíquicas importantes para a vida cotidiana e para o trabalho. Assim, é na e pela atividade que as funções psíquicas superiores são formadas, permitindo a cada indivíduo a sua re-produção como ser humano.
O caráter ativo do homem pressupõe que, ao refletir psiquicamente o mundo e as relações, ele se aproprie de significados socialmente desenvolvidos e atribua, a eles, sentidos próprios. O processo de humanização no interior do qual o sujeito se desenvolve implica, portanto, que ele relacione experiências anteriores, condições atuais de vida e de educação ⎯ a situação social de desenvolvimento em que se encontra ⎯ e as capacidades formadas no decorrer da sua biografia. Inserem-se, pois, nessa relação, as vivências afetivas, que constituem os motivos da atividade.
Cognição e afetividade imbricam-se na atividade. Porque, para estar em atividade, o homem deve conhecer as formas de atuação através das quais pretende alcançar os resultados que correspondam aos motivos que o incitam. Apropria-se de conhecimentos, usos e costumes; reflete e idealiza as ações. Ao atuar, busca objetivos que correspondam aos seus desejos, aos seus sentimentos, às suas necessidades afetivas. Toma consciência das próprias possibilidades, hierarquiza motivos, opta pelas atividades que correspondam a sua concepção
de mundo. Pode tornar-se um indivíduo cada vez mais universal e livre. Aproxima-se da individualidade para-si (DUARTE, 1996). Dadas as condições adequadas de vida, desenvolve-se como personalidade capaz de regular a própria atividade e de dominar a própria conduta.
Discutiremos, a seguir, o conceito de desenvolvimento postulado pela teoria histórico-