No segundo capítulo de sua obra, o autor dedica algumas páginas a arrolar as origens clássicas da licantropia. Como era de praxe em seu tempo, Sabine Baring-Gould vê a necessidade de validar seu trabalho reportando-se às origens de seu tema.
Baring-Gould (1889, p.20) afirma como origem da palavra Licantropo o mito, apresentado por Ovídio em sua obra Metamorfoses, a respeito do rei Lycaon, que teria desafiado a onisciência de Zeus ao oferecer-lhe um bolo de carne humana e por isso foi amaldiçoado, sendo transformado em lobo pela divindade.
Segundo o autor, a peculiaridade do nome da personagem teria dado origem à palavra usada para denominar criaturas que alternam entre a forma de humanos e animais. O termo licantropia, em inglês Lycanthropy, seria portanto derivado do mito de Lycaon e de seu nome.
Deve-se observar que o berço da Licantropia foi a Arcádia, e já foi sugerido, de forma bastante plausível, que a causa pode ter sido a seguinte circunstância: os nativos eram pastores e, consequentemente, sofriam muito com os ataques e depredações dos lobos. Naturalmente, instituíram um sacrifício para libertarem-se da praga, garantindo a segurança de seus rebanhos. Esse sacrifício consistia em oferecer uma criança, e foi instituído por Lycaon. Por ser um sacrifício humano, e devido a peculiaridade do nome de seu criador, o mito surgiu.
Por outro lado, a história é muito conhecida; assim, é difícil atribuirmos uma origem acidental ou imputarmos uma fonte local.
Montague Summers (1933, p.22), por sua vez, rejeita o uso deste termo para classificar seres capazes de mudar da forma humana para animal:
magia negra, práticas ocultistas ou outras ações de caráter demoníaco.
“Lycanthropy” ou “Loucura lupina” é uma variedade de insanidade zooantrópica, como dito por uma recente autoridade, uma insanidade endêmica.
Summers não concorda com o uso do termo Lycanthropy como sinônimo de were-
creature74; no entanto, ele não contesta a afirmação de Baring-Gould quanto à origem deste termo, apesar de acentuar que desde o século primeiro antes de Cristo este termo é usado para se referir a um transtorno mental e não às transformações físicas de humanos em animais. (SUMMERS, 2003, p.13)
Na língua portuguesa, no entanto, como destaca Summers, não há conflito entre tais termos. Licantropia é a única palavra em português, segundo o autor, que pode se referir aos diversos tipos de were-creatures presentes nas diferentes culturas ao redor do mundo. Summers menciona que a palavra portuguesa lubis-homem [sic] se refere única e exclusivamente aos licantropos capazes de se transformar em lobos, sendo uma tradução da palavra inglesa werewolf.
Ainda neste capítulo, Baring-Gould mostra outros exemplos de metamorfoses entre homens e animais nos mitos e lendas da Grécia e Roma antigas. Segundo o autor, Heródoto e Pomponius Mela mencionam que na Cítia havia uma etnia chamada Neuri, dada à feitiçaria e que a cada ano transformava-se em lobos durante determinado período.
Além da conhecida obra de Apuleius, O Asno de Ouro, na qual uma personagem, ao usar um unguento mágico se transforma em asno, Baring-Gould também se refere a Plínio, o velho, Agriopas e Petrônio, autores do mundo antigo com narrativas sobre licantropos.
Plínio, o velho, segundo o autor, conta que no festival de Júpiter Lycaeus, um membro da família Antaeus foi conduzido a um lago na Arcádia e transformado em lobo, sendo que voltaria ao normal depois de nove anos, se não consumisse carne humana enquanto nesta forma.
Agriopas relata o caso de Demaenetus, um atleta olímpico que, ao assistir um sacrifício humano na Arcádia, no mesmo festival de Júpiter Lycaeus, foi transformado em lobo, passando dez anos nesta forma. Depois de readquirir sua forma humana, a personagem teria participado dos Jogos Olímpicos em Atenas.
Já Petrônio conta a história de uma viagem dele à Cápua, juntamente com um soldado que o estava escoltando. A certa altura, no entanto, o escolta do autor transformou-se em lobo a atacou uma fazenda próxima, sendo ferido pela lança de um dos fazendeiros. Ao visitar a casa do soldado, o autor o encontrou sendo cuidado por um médico, com o mesmo ferimento que o
74
Were-creature, literalmente “homem-criatura” em inglês arcaico e na língua saxã. Denota criaturas capazes de alternar entre a forma humana e uma forma animal. Um werewolf, por exemplo, (literalmente “homem-lobo”) seria uma were-creature capaz de adotar a forma de um ser humano ou de um lobo, enquanto um werebear (literalmente
fazendeiro havia dito ter causado ao lobo.
Nestas narrativas é curioso observar que as transformações relatadas por Plínio, o velho, e Agriopas aconteceram na Arcádia, justamente no festival de Júpiter Lycaeus, o que reforça a tese de Baring-Gould de que tal cidade-estado grega teria sido o berço da palavra Licantropia.
Embora seja amplamente utilizada para se referir à origem da palavra licantropia e da própria figura do licantropo, a origem grega apontada por Baring-Gould não é a mais antiga. Nas sagas mesopotâmicas75 há indícios de entidades capazes de alternar entre a forma humana e uma forma animal; é possível que na pré-história76 também já houvesse tais figuras no imaginário.
A civilização romana e a civilização grega77 da Antiguidade Clássica eram bem vistas pelos vitorianos e pelas potências coloniais europeias. Tais civilizações, cujos escritos foram de muitas formas recuperados e ressignificados, com o intuito de corroborar o discurso em voga, eram
tidas como “ancestrais” das potências coloniais europeias, como fundadoras do “mundo ocidental”,
da racionalidade, da filosofia, da ideologia colonial e do ideal de “masculinidade” vitoriano. Remeter-se à Antiguidade Clássica, até meados do século XX, era uma forma de valorizar uma teoria ou estudo, conferindo-lhe um sentido de veracidade e importância. (DEANE, 2008; GAY, 1993)
Não apenas os gregos eram vistos como bastiões da “masculinidade” e da ideologia colonial. Os povos da antiga Escandinávia também eram valorizados no imaginário vitoriano,
considerados como “másculos” 78
.
75
Na Epopeia de Gilgamesh, o herói Gilgamesh, em diálogo com a deusa Ishtar, a acusa de ter transformado em animal seus consortes mortais por puro capricho.
76
A autora Karen Armstrong (2005) afirma que é recorrente em culturas de tecnologia neolítica e paleolítica, a ideia de que seus sacerdotes (xamãs) assumiam formas animais. A autora levanta a hipótese desta crença ter sido comum na pré-história europeia, quando os seres humanos ainda viviam em regime de pesca, coleta de vegetais e caça. 77
A “civilização grega” mencionada no século XIX é uma abstração moderna que toma como base a civilização da cidade-estado de Atenas. Durante o que se convencionou chamar de Antiguidade Clássica, diversas cidades-estado da região do Mar Egeu apresentavam valores e culturas distintas, pouco ou nunca mencionadas pelos autores vitorianos.
78
Embora normalmente associados à ideia de barbárie e selvageria na cultura pop, os escandinavos, no imaginário
vitoriano, eram considerados precursores do conceito de “masculinidade”. Bradley Deane (2008) menciona que,
embora vistos como primitivos e pouco civilizados, os antigos vikings eram tidos como povos “másculos”, corajosos, impetuosos, honrados , castos, devotados à sua fé e à uma hierarquia social estruturada e portanto um exemplo a ser seguido pelos ingleses do século XIX. É importante lembrar que esta representação que os ingleses tinham dos vikings provavelmente não correspondia à representação que outros povos tinham dos mesmos, ou mesmo a que os escandinavos do século XIX tinham de seus ancestrais. Os ingleses atribuíam a ancestralidade do
ideal de “masculinidade” a diversos povos que, em algum momento, habitara ou entrara em contato com as ilhas
britânicas, como os normandos, celtas e saxões.
Até mesmo adversários, como os povos de etnia zulu da África, que haviam se oposto à colonização inglesa, eram
vistos como “másculos”, e lhes eram atribuídas características de castidade, devoção e bravura que os ingleses