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3.2 GÖRGÜL İNCELEME

3.2.6 Varyans Ayrıştırması

Em trabalhos mais recentes, Hinkelammert, analisando o pensamento de Paulo, aprofunda o conceito de sujeito. Traduzindo da versão em espanhol da bíblia de Jerusalém a palavra ―Cristo‖ por ―Messias‖ e ―Evangelho‖ por ―Boa Nova‖, preferindo, portanto, os termos hebraicos aos gregos, Hinkelammert retoma a primeira carta aos Coríntios para fazer presente o que ele chama de ―jogo das loucuras‖ (2010, p. 151).

Nesse tópico, descreve-se esse ―jogo das loucuras‖ que se dá por intermédio da relação entre a sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo. Com a análise de Hinkelammert aqui exposta, pretende-se explicitar a constituição ―espiritual‖ do sujeito em Paulo, bem como a epistemologia implícita na sabedoria de Deus, compreendida como lugar a partir do qual é possível descobrir o que a realidade é.

Há uma polarização entre a sabedoria do mundo e a sabedoria de Deus, entre a do poder adquirido pelos seres humanos e a da força de Deus que se revela nos plebeus e desprezados pelo mundo, tornando manifesta ―a loucura da sabedoria do mundo‖ (1Cor 1,20). Trata-se de uma loucura no sentido de uma ―caracterização‖, adotada por Paulo para designar a sabedoria do mundo assim como aparece aos olhos de Deus, isto é, como aparece aos olhos dos seres humanos que veem com olhos de Deus. Há um deslocamento da inteligência e sabedoria do mundo que a torna louca. Ao contrário, aos olhos da sabedoria do mundo, a sabedoria de Deus é loucura.

A pregação de Paulo e dos apóstolos tem como mensagem central a ressurreição do Messias crucificado. ―Assim, enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos o Messias crucificado: escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os chamados, tantos judeus como gregos, um Messias, força de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1, 22-24)‖ (apud HINKELAMMERT, 2010, p. 153).

Diante do Areópago, em Atenas, Paulo, apresentando a ressurreição dos mortos como ponto chave da pregação, experimenta pessoalmente o desprezo e a zombaria dos filósofos que o tratam como um charlatão, como um louco (At 17, 16-34). No entanto, para Paulo, que

vê com os olhos de Deus, ―a loucura divina é mais sábia do que os homens, e a fraqueza divina, mais forte do que os homens (1Cor 1, 25)‖ (apud HINKELAMMERT, 2010, p. 153).

Na introdução à carta aos Coríntios, aparece o projeto de libertação de Paulo. Como pano de fundo há outro conflito, interno à comunidade, mas decorrente do conflito expressado no ―jogo das loucuras‖. Com efeito, a comunidade, afetada pela sabedoria do mundo, pelo desejo de poder, briga ―pela institucionalização da igreja, pelo ato do batismo‖. Daí se entende porque Paulo começa a carta, afirmando: ―Pois não foi para batizar que o Messias me enviou, mas para anunciar a Boa Nova. E não com palavras sábias, para não esvaziar de conteúdo a cruz do Messias (1Cor 1, 17)‖ (apud HINKELAMMERT, 2010, p. 151).

Portanto, é a serviço desse ―projeto messiânico da Boa Nova‖ que a igreja é chamada a atuar e não para o poder, como queria a sabedoria do mundo. Esta sabedoria entra em conflito com a sabedoria de Deus e gera o que Hinkelammert define em termos de ―jogo das loucuras‖. Para Paulo, ―invídia e discórdia‖ – ―ser‖ de Paulo ou de Apolo, no sentido de afiliação exclusiva – procedem da sabedoria do mundo. As palavras do apóstolo não deixam espaço à ambiguidade no julgamento dessa sabedoria: ―Ninguém se engane! Se alguém dentre vós julga ser sábio segundo este mundo, torne-se louco para chegar a ser sábio; pois a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus (1Cor 3, 18-19)‖ (apud HINKELAMMERT, 2010, p. 152).

A luta pelo poder na comunidade significa, para Paulo, o abandono do projeto messiânico da Boa Nova, cujo núcleo está na eleição por parte de Deus dos que ―não são‖, pela sabedoria do mundo: loucos, fracos, plebeus e desprezados. Nas palavras do apóstolo:

Vedes, irmãos, quem foi chamado! Não há muitos sábios segundo a carne nem muitos poderosos nem muitos de família nobre. Mas Deus escolheu os loucos do mundo para confundir os sábios. E, Deus escolheu os fracos do mundo para confundir os fortes. O plebeu e desprezado do mundo Deus escolheu; o que não99 é, para reduzir a nada o que é (1Cor 1, 22-28; apud

HINKELAMMERT, 2010, p. 153).

O que para Paulo designa a sabedoria de Deus implica, para Hinkelammert, uma dialética: a ―do que é e do que não é. O ser – o que é – é reduzido a nada, tratando-se do que não é‖. Ou seja, ―O que não é não é o Nada, mas sim é o que muda o mundo. Aqui está o

ponto de vista que permite a orientação por meio da verdade (é o velado, desvelado pela verdade). Para São Paulo trata-se do reino de Deus (1Cor 4, 20)‖ (2010, p. 153).

Isso nos remete ao que Hinkelammert já havia afirmado a respeito do reino da liberdade em Marx. Enquanto conceito transcendental, ―é o ponto de vista que lhe permite analisar‖ o que as relações mercantis não são para poder dizer o que são (1983, p. 74-75). A dialética que Paulo apresenta se explicita na afirmação de que ―na fraqueza está a força‖, e na de que ―os eleitos de Deus são os plebeus e os desprezados‖. Este conjunto de determinações forma, segundo Hinkelammert, o ―lugar epistemológico‖, a partir do qual ―se conhece a realidade e desde o qual há de se atuar‖. Esse lugar é, para Paulo, a ―sabedoria de Deus‖ (2010, p. 154).

O que está por trás da ―sabedoria de Deus‖, porém, é o Espírito de Deus, assim como por trás da sabedoria do mundo, está o espírito do mundo. É o espírito que permite a Paulo descobrir a sabedoria de Deus, pois ―o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus‖ (1Cor 2, 10). Na dialética apresentada por Paulo, o ver só é possível através dum ―espelho‖ (1Cor 13, 12); nele, o ver ―cara a cara‖ não é possível, pois no ―espelho vemos o que é, mas não vemos o que não é, quer dizer, este cara a cara entre uns e outros (Marx: ‗as relações diretas entre as pessoas‘)‖ (HINKELAMMERT, 2010, p. 157).

No entanto, ―o homem naturalmente não aceita as coisas do Espírito de Deus; são loucura para ele‖ (1Cor 2, 14), pois julga ―naturalmente‖ o que é, a partir do que é, por isso não pode entender as coisas do Espírito, as ―realidades espirituais‖. Mas, o ser humano que recebeu o ―Espírito que vem de Deus‖ (1Cor 2, 12) entende essas ―realidades espirituais‖ enquanto realidades das quais se pode falar ―desde o que não é sobre o que é‖. E Paulo diz expressamente que ―o que não é, é o reino de Deus (1Cor 4, 20)‖ (HINKELAMMERT, 2010, p. 156).

Portanto, ―ver desde o que não é‖ é ver por meio do Espírito recebido por Deus, quer dizer, segundo Paulo, transformação do ser humano em ―homem do espírito‖ que ―julga a respeito de tudo; e por ninguém pode ser julgado‖ (1Cor 2, 15) (apud HINKELAMMERT, 2010, p. 156).

Para Hinkelammert, é nessa perspectiva espiritual e dialética que aparece a concepção paulina de sujeito: ―Este Espírito de Deus é o sujeito, não um espírito exterior que se dirige ao

sujeito. É a faísca divina no interior do ser humano, que não tem nada de gnóstico100. O sujeito é a instância do Espírito de Deus‖.

Esse sujeito julga

segundo o ponto de vista da sabedoria de Deus porque descobre que a verdade do mundo não se pode descobrir se não vendo-a desde o ponto de vista da sabedoria de Deus. Julgando assim, resulta: ‗Ao contrário, o homem de espírito julga a respeito de tudo; e por ninguém é julgado‘. Ninguém pode julgá-lo, nem instância humana nem divina. É agora sujeito a partir do Espírito de Deus (2010, p. 157-158).

A expressão paulina: ―Meu juiz é o Senhor‖ (1Cor 4, 4) representa outro tipo de juízo, no sentido de que o Senhor julga, na medida em que o ser humano, enquanto ―homem do Espírito de Deus‖ emite julgamentos. Para Hinkelammert, esse tipo de julgamento não implica ―infalibilidade‖ e sim ―liberdade. O espírito faz livre‖. Hinkelammert acredita que essa expressão tenha, como pano de fundo, uma reflexão de Paulo que ―fundamenta esta constituição do sujeito‖. Paulo estaria referindo-se à mensagem cristã central: a ressurreição de Jesus, o Messias (2010, p. 158).

―Não somente há ressurreição dos mortos‖, assinala Hinkelammert, ―mas também há ressurreição em cada um enquanto se assume a fé do Jesus Messias. Ele resuscita em cada um. O sujeito se constitui nesta ressurreição, e julga como ser do espírito descobrindo o ponto de vista da sabedoria de Deus‖ (2010, p. 158).

O conflito surgido na comunidade de Corinto leva Paulo a desenvolver um pensamento crítico, no sentido de ser ele ―o primeiro que expõe categorias básicas‖ deste pensamento, como testemunham sua crítica da lei e da autoridade101. No sujeito apresentado

100O termo ―gnóstico‖ deriva do gnosticismo, uma tradição metafísica, um dualismo metafísico. O gnosticismo

―afirmava a existência de dois princípios supremos de onde provinha toda a realidade: o Bem, ou a luz imaterial, e o Mal, ou a treva material. Para os gnósticos, o mundo natural ou o mundo sensível é o resultado da vitória do Mal sobre o Bem e por isso afirmavam que a salvação estava em libertar-se da matéria (do corpo), através do conhecimento intelectual e do êxtase místico. Gnosticismo vem da palavra grega gnosis, que significa conhecimento. Para os gnósticos, o conhecimento intelectual pode, por si mesmo, alcançar a verdade plena e total do Bem e afastar os poderes materiais do Mal‖ (CHAUI, 2002, p. 223-224).

101 O pensamento crítico tem como sua referência fundamental o pensamento de Marx, sobretudo o que foi

considerada a sua concepção materialista da história. A produção e reprodução da vida humana constitui o pressuposto desse pensamento, isso explica a importância que Marx atribui à economia política, enquanto ciência que analisa o espaço de reprodução da vida humana. A partir desta concepção, não apenas a teoria do valor-trabalho, mas também a teoria e crítica do fetichismo — dos deuses falsos, dos fetiches em nome dos quais as vidas humanas são sacrificadas – tornam-se pontos-chave do pensamento crítico que mantém sua validade para a realidade contemporânea. Para Hinkelammert, a partir destes pontos-chave, há de ser reconstituído o pensamento crítico, reinterpretando o pensamento de Marx numa perspectiva fenomenológica da vida real, na

por Paulo, forma-se e explicita-se o ponto de vista da loucura divina, que, por escolher o desprezado, o fraco, o louco, desvela a irracionalidade da sabedoria do mundo, seu realismo utilitarista que reconhece ―o que é‖ como única realidade, negando ―o que não é‖. Mediante o espírito, o ser humano descobre em si mesmo a ―loucura divina‖ e se torna sujeito (HINKELAMMERT, 2010, p. 169).

Paulo percebe que o conflito da comunidade de Corinto leva, no rastro do conflito mais amplo entre as duas sabedorias, ao desdobramento do cristianismo – o da libertação e o que procede da sabedoria do mundo – e à correspondente cisão entre o Deus do poder (assumido pela teologia ortodoxa, sobre o qual se constituirá a cristandade) e o Deus dos fracos e desprezados, o Deus que reduz ―a nada o que é‖ (os poderes que assentam na sabedoria deste mundo‖. O cristianismo de libertação que Paulo apresenta tem, na sabedoria de Deus, seu critério de verdade, encarnada no ser humano que, descobrindo o ponto de vista dessa sabedoria divina através do Espírito, se constitui como sujeito, portador da Boa Nova do Messias crucificado e ressuscitado.

Trata-se de um Messias cuja sabedoria, diz Paulo, não sendo ―deste mundo nem dos chefes deste mundo, votados à ruína‖, mas sim de Deus, ―misteriosa, escondida, destinada por Deus desde antes dos séculos para a nossa gloria‖ resulta ―desconhecida‖ para ―todos os chefes deste mundo – pois se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Gloria‖ (1Cor 2,6-8). Tratando-se de uma sabedoria que julga o que é a partir do que não é, a sabedoria divina não é reconhecida102, muito menos assumida. Considerada como loucura,

qual, a ―dialética da presença duma ausência‖, que é ―dialética transcendental‖, permite fazer presente a ausência de outro mundo ―e que tem que atravessar o mundo dado‖. No âmbito desta ―reconstituição do pensamento crítico‖, empreendida por Hinkelammert, o transcendental que caracteriza a dialética, ―significa aqui o impossível que faz viável ver o possível‖. Á luz da dialética da presença da ausência de relações sociais diretas entre as pessoas, Marx analisa, de forma cada vez mais aprofundada, as estruturas de dominação do capitalismo, as quais, ―revelam o que não são, quer dizer, que o ser humano não é reconhecido como ser humano, mas sim é desumanizado‖. Portanto, para Hinkelammert, a reconstituição do pensamento crítico deveria incluir essa dialética – que em Engels desaparece – para a compreensão do materialismo histórico (2010, p. 125, 130). Ao falar em ―fenomenologia da vida real de Marx‖, Hinkelammert não alude a nenhuma essência, quer se distanciar da concepção fenomenológica de Husserl e de Heidegger, pois as fenomenologias deles ―partem das coisas que vemos, porém, não das coisas com as quais vivemos‖ (2010, p. 132). Segundo Chaui, para Husserl, que foi professor de Heidegger, ―não há ‗coisa em si‘ incognoscível. Tudo o que existe é fenômeno e só existem fenômenos. Fenômeno é a presença real de coisas reais diante da consciência; é aquilo que se apresenta diretamente, ‗em pessoa‘, ‗em carne e osso‘, à consciência‖. O fenômeno é ―a essência‖, quer dizer, ―a significação ou o sentido de um ser, sua ideia, seu eidos‖ (2002, p. 238). Para aprofundar o pensamento destes dois filósofos, ver Chaui (2002), sobretudo, as páginas de 235 a 244.

102 Para Hinkelammert, a palavra ―desconhecer‖, usada neste contexto da carta aos Coríntios, ―não se refere a um

saber. Refere-se a um reconhecer e a um assumir‖. Havendo já dito o que é a sabedoria de Deus, Paulo especifica, agora, essa sabedoria: ―misteriosa, escondida, destinada para ‗a nossa gloria‘. Mata-se Jesus por não reconhecer esta verdade que ele encarna‖ (HINKELAMMERT, 2010, p. 154-155).

leva à morte o Messias que a encarna, leva à perseguição (e até à morte) quem a assume e a prega como projeto para o mundo (apud HINKELMMERT, 2010, p. 154).

Benzer Belgeler