A relação entre a transcendentalidade de situações em que se dá o reconhecimento mútuo entre sujeitos e a institucionalização dessas relações é o tema desse tópico. No quadro de análise dessa relação, aparece a diferença entre imaginação transcendental e conceito utópico, bem como a tensão incontornável entre o nível comunitário das relações humanas, marcado pela vivência do reconhecimento efetivo entre sujeitos – vivência centrada na solidariedade ao próximo – e o nível institucional das relações humanas, marcado pela necessária administração da morte e pela lógica objetivante dessas relações, inerente a qualquer instituição.
A análise hinkelammertiana dessa ―transcendentalidade ao interior da vida real‖ aponta para o potencial emancipador da relação sujeito-sujeito, quer em direção à ―universalidade‖ de todos os seres humanos, quer em direção ao desenvolvimento duma ―teologia subjetiva‖.
O sujeito transcendente ―transcende todas suas objetivações‖. No entanto, não apenas as instituições, mas também a linguagem não pode evitar tratar o sujeito como objeto. Se, em termos definitivos, esse ―limite é intransponível‖, a necessidade de falar desse sujeito que transcende todas as objetivações obriga a adotar uma linguagem que ―não pode ser senão uma linguagem de apelação‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 341).
A linguagem apelativa do mito permite vislumbrar aquelas situações em que ―o sujeito é sujeito para o outro, sem transformar-se nunca em seu objeto‖. Nesse contexto, a ―vivência subjetiva entre sujeitos‖ expressa a transcendentalidade ―que é a contrapartida, a partir do real, daquilo que os conceitos transcendentais são a partir da teoria do real‖. Hinkelammert destaca duas situações transcendentais, narradas pelo evangelista Lucas: a do amor ao próximo e a da festa (2002a, p. 341).
A primeira situação é conhecida como a parábola do samaritano (10, 25-37) e Hinkelammert assim a interpreta:
O samaritano encontra um infeliz no caminho, indo ajudá-lo em seu sofrimento. [...] Assume sua desgraça e faz com que ele possa sair dela. Não o conhece e, por isso, não calcula eventuais vantagens. Teria feito com qualquer outro aquilo que fez. A relação é diretamente subjetiva, passando
longe de qualquer comunicação objetivada ou instituição. O que há é um reconhecimento entre sujeitos, através do qual se produz a comunidade entre eles, passando longe da comunidade de bens que eles têm, no caso de bens que um tem e outro não. É uma situação na qual tudo é fluido, dissolvendo- se qualquer ―eu‖ e ―tu‖; qualquer norma fica suspensa e a comunicação torna-se direta pela captação de uma situação, passando longe de qualquer linguagem. A partir do reconhecimento entre sujeitos, ocorre sua identificação (2002a, p. 341-342).
A segunda situação transcendental pode ser considerada como ―complementar‖, tratando-se da identificação entre sujeitos no contexto da festa, que Lucas descreve, também, em forma de parábola (14, 15-24):
Ela começa com uma festa formal, na qual alguém dá um banquete e convida outras pessoas. Tudo é objetivado por rituais. Quando os convidados se desculpam por não comparecer, a festa então ultrapassa os limites dados pelas normas, transformando-se em festa da qual estão convidados a participar todos aqueles que estão disponíveis. A festa é aberta. E até aqueles que vacilam são chamados a participar. Trata-se de banquete, ou seja, de festa sensual, que passa longe de qualquer norma social ou ritual, passando a ser reconhecimento festivo de todos, que anula todas as categorias sociais. A festa varre as desigualdades e até a propriedade daquele que estava convidando (2002a, p. 341-342).
A festa descrita pelo evangelista Lucas expressa a imaginação da felicidade humana em sua plenitude, evocando outra festa cara aos primeiros cristãos: a do grande banquete do Reino de Deus, na nova ―terra sem morte‖.
Embora seja impossível concretizar a imaginação transcendental, ela ―parte do reconhecimento entre sujeitos efetivamente experimentados, transcendentalizando-os... em situação de perfeição‖, enquanto ―os conceitos transcendentais partem de objetivações das relações sociais entre sujeitos e os levam ao limite de conceito de perfeição institucional‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 343).
A imaginação transcendental surge a partir de uma vivência da plenitude de vida, experimentada no reconhecimento entre sujeitos em situações de espontaneidade humana fluida e totalmente priva de normas e institucionalidade. Essa vivência alcança seu ápice de fluidez e plenitude de vida quando o reconhecimento entre sujeitos desemboca na identidade desses sujeitos. Esta identidade se celebra, sobretudo, no amor ao próximo e na alegria da festa sensual; a imaginação transcendental que daí decorre elimina a morte do gozo dessa vida plena.
A experiência extraordinária que o ser humano vivencia enquanto sujeito inscreve-se no quadro da relação intersubjetiva de reconhecimento mútuo em comunidade de bens. As situações descritas pelo evangelista Lucas apontam para utopias de convivência humana além da lógica das instituições.
A tensão incontornável entre o nível comunitário e institucional desemboca no processo histórico de emancipação que, partindo da satisfação das necessidades básicas, perpassa a história das dominações, questionando suas estruturas inadequadas ou repressivas.
De fato, na imaginação transcendental mencionada, ―a fome ou qualquer sofrimento é consolado e a satisfação resultante é vivida como festa‖, apontando para uma concepção do ritmo da vida ―no qual o sofrimento deixa de desembocar na morte e no qual a consolação posterior é ilimitada em termos de festa‖. Estamos no polo oposto da imagem abstrata e desconexa com a vida real do céu burguês, que é ―um céu de almas puras, próprio da expressão transcendente dos conceitos transcendentais‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 343, 344).
Nessas imaginações transcendentais, a espontaneidade do reconhecimento de todos os sujeitos corresponde à imagem duma natureza amiga do ser humano, ―que responde aos desejos humanos‖ e na qual o trabalho se torna fluido também, como ―jogo das forças físicas e espirituais‖. Portanto, trata-se de uma imaginação transcendental ―que implica a historicidade da vida humana imaginária‖, uma ―história na qual são criadas novas formas de ser‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 344, 345).
O caráter transcendental da imaginação consiste exatamente na ausência da morte na terra nova. Dessa forma, a liberdade que os seres humanos ali experimentam desaparece nas utopias da concorrência ou do planejamento perfeitos, por elas serem constituídas a partir de especificidades institucionais, cujo cerne é a administração da morte, sem a qual não há obrigação nenhuma. Por isso, as utopias do mercado total ou do planejamento total revelam sua inconsistência, destinando os seres humanos a viver da perfeição sistêmica que elimina os riscos de não-funcionalidade.
Porém, ―o risco-chave da vida humana é a morte. Assim, os conceitos transcendentais da institucionalização forçosamente abstraem a morte. O sujeito de tais conceitos é imortal‖. Entretanto, existe o risco que a imaginação transcendental possa ser considerada factível através de uma ação direta. Nesse caso, a imaginação transcendental se torna mitificação transcendental, sendo que o mito transforma a imaginação numa ―possível meta empírica, da
qual o homem se aproxima prescindindo, em maior ou menor grau, da institucionalização das relações entre sujeitos‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 348).
Não devemos esquecer que nas situações centrais da imaginação transcendental, a saber, a do amor ao próximo e a da alegria da festa, os seres humanos envolvidos são ―sujeitos corporais e sensuais‖ e que, portanto, ―não podem se relacionar a não ser se expressando corporal e sensualmente‖. Disso decorre que ―toda a relação intersubjetiva só pode se dar através da atividade transformadora da natureza que, como trabalho, é o meio através do qual o sujeito pode se expressar corporalmente‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 348-349).
Por essa razão, a fluidez do ambiente em que ocorrem as relações intersubjetivas implica a fluidez ―de toda atividade de trabalho e de seus resultados‖, de forma que as situações centrais mencionadas formam ―um só conjunto‖. No plano da imaginação transcendental, portanto, elas podem ser vistas ―em sua união pelo trabalho humano‖, levando ―a conceber em plenitude a satisfação de todas as necessidades e a possibilidade de viver plenamente o ritmo da vida compartilhando tudo com todos‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 349).
O reconhecimento entre sujeitos que se dá na relação intersubjetiva espontânea não garante, por si só, a manutenção da vida humana. Antes de tudo, precisa de uma comunidade de bens partilháveis e, de forma subsidiária, duma instituição que reconhece as necessidades básicas e se oriente para satisfazê-las. Neste sentido, as ―instituições são muletas imprescindíveis devido à impossibilidade de uma sociedade humana ordenada por essa espontaneidade da relação entre sujeitos que se tratam como sujeitos. É por isso que são subsidiárias. Se não forem tratadas assim, devorarão o sujeito‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 350).
Todavia, resta válido o fato de que qualquer sistema institucional não pode satisfazer o conjunto de todas as necessidades, pois carece, inerentemente, da relação subjetiva de reconhecimento entre sujeitos e partilha de bens em comunidade, visando, potencialmente, não excluir ninguém. Deste fato, se deduz que sempre haverá uma ―tensão entre o nível de satisfação das necessidades básicas [alimentação, saúde, habitação educação, etc.] institucionalmente organizado e a própria satisfação das necessidades‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 352).
A partir dessa tensão, surgem o dinamismo do processo histórico e os valores de uma sociedade. Com efeito, é novamente a imaginação transcendental que, idealizando a satisfação subjetiva das necessidades, fornece o quadro de referência para a mudança institucional, a qual, por sua lógica interna, volta a objetivar o sujeito para institucionalizar a satisfação das novas necessidades surgidas.
A dominação, no entanto, paira constantemente sobre esse processo histórico. Quer pela necessária administração da morte que a instituição implica, quer pelo fato de que toda coordenação incorpora ―um elemento de dominação, enquanto é a instância de organização de todo o processo de produção e, portanto, da organização da eficácia formal e técnica do processo produtivo‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 354).
A mediatização institucional é imprescindível. Por ela se bloqueiam ou promovem os processos emancipatórios surgidos no reconhecimento vivido entre sujeitos. Esse reconhecimento ―vai além de qualquer fronteira discriminatória erigida entre eles, enquanto é pensado no sentido do limite da imaginação transcendental. Compartilhando com outros e reconhecendo-se mutuamente, o sujeito rompe as fronteiras e os limites, rumo à universalidade de todos os homens‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 353).
As emancipações precisam de uma resposta institucional às necessidades que surgem do desenvolvimento das relações de reconhecimento entre sujeitos. A resposta satisfatória dada em termos econômicos às necessidades básicas é o ―centro de toda institucionalidade‖, bem como ―a última instância no sentido de que nenhum direito político é sustentável sem se inscrever nesse quadro material‖ (HINKELAMMERT, 2002a, p. 353).
Dessa forma, para que o sujeito possa viver livremente em suas relações subjetivas, a resposta institucional deve abranger também o plano político, no qual as reivindicações emancipatórias adquirem status de direitos.
Desse processo desencadeado pela tensão incontornável entre a vivência da relação intersubjetiva — entendida como reconhecimento espontâneo entre sujeitos que compartilham dos bens que possuem em comunidade — e a imprescindível mediatização institucional – que trata o sujeito como objeto – resulta o que Hinkelammert chama de ―inversão‖:
Por um lado, somente a partir da vida que se revela no reconhecimento dos sujeitos que vivem em comunidade é que se percebe que essa vida tem sentido, o que, na imaginação transcendental, adquire o sentido de vida plena. Por outro lado, somente em meio à inevitabilidade da mediação institucional, que é dominação e, como tal, administração da morte, é que
essa vida pode ser afirmada. Por conseguinte, a morte não é apenas parte da vida, mas sim, em certo sentido, é também o seu suporte. Ou seja, trata-se da vida que se vive por sua própria inversão e que se sustenta passando por seu contrário (2002a, p. 355).
Essa reflexão de Hinkelammert, se de um lado confirma a contraditoriedade paradoxal da condição humana, de outro lado, sinaliza para a possibilidade dum reconhecimento entre sujeitos em comunidade como transcendentalidade ao interior da vida real, em que a própria vida adquire sentido e da qual decorre a imaginação transcendental duma vida plena.
Com efeito, essas relações humanas de reconhecimento mútuo entre sujeitos, marcadas pelo serviço amoroso ao pobre e excluído e pela celebração festiva da vida, se dão para além e antes de qualquer classificação social ou cálculo econômico exigido pelo sistema, abrindo um ―espaço teológico‖ para a produção duma ―teologia subjetiva‖.