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Varsayımların değerlendirilmesi

4.4. Anket Sonuçlarından Elde Edilen Bulguların Değerlendirilmesi

4.4.3. Varsayımların değerlendirilmesi

O cenário de aceitação dos direitos humanos parece não ser tão consensual. Isso porque a própria definição de direitos humanos ainda está em disputa, a despeito dos marcos históricos que apontam para sua concepção contemporânea a partir da Carta das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A esse quadro se soma o fato de que a maioria da população hoje não é sujeito de direitos humanos, mas sim objeto de discursos de direitos humanos. Fica então a provocação - os direitos humanos servem à luta dos excluídos, dos explorados e dos marginalizados ou, pelo contrário, a tornam mais difícil? (SOUSA SANTOS, 2013:42).

Buscando elementos para responder a esse questionamento, parafraseando Cançado Trindade (2009, p. 108) para quem “O Estado existe para o ser

humano e não vice-versa”, é urgente trabalharmos sob a inspiração de que os direitos

humanos existem para o ser humano e não o ser humano para os direitos humanos. Como condição para isso, assumo como necessário situar os direitos humanos no quadro de uma discussão mais ampla que envolve a justiça.

No cenário brasileiro, os direitos humanos vêm sendo tomados como referência principal quando das reivindicações atreladas à formulação e execução de políticas públicas. Nesse contexto, aparecem questões relacionadas com o direito das mulheres, LGBT, crianças e adolescentes, idosos, negros, pessoas com deficiência, todos considerados em desvantagem social. (RODRIGUES e SIERRA, 2011).

67 No Legislativo, quanto a esse tema, há o projeto de lei de número 3214 do ano 2000, da Câmara dos Deputados que passou por várias modificações, que culminaram na inclusão dessa matéria no substitutivo da Câmara dos Deputados ao projeto de lei do Senado (SCD) de número 166 do ano 2010, que segue atualmente

em tramitação nessa última casa legislativa mencionada. Cf.

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=19288 e

http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=116731. Último acesso em 13/08/2014.

Os direitos humanos se erigem aí como instrumentos para organizar os movimentos sociais que lidam com esses temas, equacionando as reivindicações em direitos. Desse modo, questões antes afeitas ao Executivo e ao Legislativo, passaram a repercutir no Judiciário. Retomo isso adiante.

Em um quadro de justiça anormal, os direitos humanos aparecem como direitos cercados de incertezas e de controvérsias. Manifestação evidente de como os direitos humanos vêm sendo tratados no Brasil pode ser identificada no debate sobre as cotas raciais. No quadro nacional foram convocados a lidar com essa disputa Legislativo, Executivo e Judiciário.

No Judiciário, muito embora não tenha integrado parte da amostra dos acórdãos aqui em análise68, o debate sobre as cotas raciais, que encontrou repercussão no STF por meio da ADPF 18669 traz justamente os elementos que Fraser indicou como focos de anormalidade. Não é o propósito desta tese analisar em detalhes esse contexto, mas é importante registrar alguns pontos que merecem destaque dentro da discussão que aqui se propõe, trazendo considerações sobre pesquisa relacionada a esse tema.

Santos (2012) em investigação realizada entre 2005-2007, buscou discutir as percepções dos estudantes ingressantes no ensino superior público, por meio de cotas raciais. Quando tomamos o núcleo das argumentações esposadas pelos grupos pesquisados – Grupo A, com os estudantes contrários às cotas e Grupo B, com os estudantes favoráveis, vemos que, enquanto para os desse último grupo as políticas de cotas tomam como ponto de partida as discriminações em razão da raça, para os do primeiro grupo, a causa para essas mesmas políticas seria a pobreza, o que tornaria as cotas um equívoco. (Santos, 2012, p. 34).

A autora ali evidencia que o discurso em torno da “raça” traz

consigo o debate sobre o reconhecimento das desigualdades para além do fator renda (Santos, 2012, p. 32). Então o que temos é a justiça demandando para além da redistribuição,

igualmente o reconhecimento. Aqui já temos uma convergência com o foco do “que” da

justiça, na medida em que tão somente redistribuição ou mesmo reconhecimento, isolados, não dão conta de explicitar as reivindicações de justiça aí contidas.

68 A construção da amostra de análise foi melhor detalhada no capítulo 1, no qual considerei como marco para utilização do material a publicação até o ano de 2012.

Ao se identificar nas cotas raciais uma questão a ser tratada apenas no âmbito da justiça distributiva – ao seja, há a defesa de cotas para pobres ao invés de cotas para negros, temos a evidente identificação dessa disputa com a distribuição econômica. Com a identificação dessa questão somente com essa dimensão, se tem uma desqualificação de uma questão de justiça sob a dimensão do reconhecimento – injustiça seria tão somente a advinda da má distribuição, não do mau reconhecimento. Isso disfarça, camufla questões de reconhecimento.

Recorrendo à formulação de Fraser, o descompasso entre a defesa consensual dos direitos humanos e a ausência de homogeneidade do conceito sobre esses direitos fica contextualizada e se insere em um cenário de justiça anormal.

Assim, retomando o pressuposto apresentado quando da enunciação do problema de pesquisa desta tese, suponho os direitos humanos como instrumentais com potencial para lidar com a multidimensionalidade da justiça. Lidar com essa multidimensionalidade implica em enfrentar os focos de anormalidade expressos no desacordo sobre (i) quais são as reivindicações de justiça válidas, (ii) quem são os sujeitos que importam e (iii) qual é a previsão institucional que foi erigida para justamente acolher essas reivindicações e sujeitos.

Aproximar então o estudo dos direitos humanos do viés adotado por Nancy Fraser tem por fim, utilizando a própria terminologia que ela oferece, reenquadrar as demandas de direitos humanos, identificando nas disputas que os envolvem reivindicações em torno da justiça.

Nessa linha de argumentação, o enquadramento parece central para o estudo dos direitos humanos em tempos de justiça anormal. No recorte desta tese, o STF figura como o espaço que, por força do ordenamento jurídico constitucional, detém a atribuição de verter as reivindicações de direitos humanos em provimentos judiciais, os quais, suponho, interferem no que é concebido como “direitos humanos”.

A fim de situar o desenho institucional desse Tribunal nas suas interfaces com os direitos humanos, apresento no próximo capítulo um panorama da formatação do STF.

Benzer Belgeler