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2. KAYNAK ÖZETLERİ

2.6. Varikosel

Wierzbicka (2003, p. 92) chama atenção para o fato de que, nos Estados Unidos e na Inglaterra, é incomum que se ouça pessoas dizendo, abertamente, a os seus interlocutores

‘you’re wrong’ ou ‘that’s not true’. A tradição, em vez disso, encoraja os indivíduos a dizer ‘I don’t think so’. A autora cita Blum-Kulka (1982 apud WIERZBICKA, 2003, p. 92), que relata que não é comum, em inglês, se expressar recusas dizendo-se apenas ‘no’.

Wierzbicka sugere, ainda, que apenas o rótulo ‘directness’ ou ‘indirectness’ não leva em conta o que é realmente enfatizado na cultura em questão. Ela sugere que exista certa

‘directness’, bastante ligada à questão da assertividade na cultura americana. Entretanto, em

contraste com outras culturas (com a israelita, por exemplo), a directness americana vem acompanhada de um evitamento daquilo que ela chama de ‘bluntness’, ou seja, um modo

abrupto, não mitigado, de dizer ‘não’.

Logo, para a cultura angloamericana,56 a dissenção seria assim descrita (p. 92):

I say: No

I don’t want you to feel something bad because of this I will say something more about it because of this

Daí o estranhamento dos entrevistados quando da análise das negações proferidas

por S1 no evento de fala ‘Is Belo Horizonte the best city in the world?’. Não houve uma

tentativa, por parte de S1, de tentar mitigar a sua discordância com relação à opinião de S2.57 Entretanto, não é nossa hipótese que esse tipo de discordância expressa por S1 seja típica da cultura brasileira. Não houve, nesse caso, por parte de S1, uma preocupação com a face de S2, o que fez com que ele se engajasse em uma confrontação com S1. Portanto, muito embora confrontos abertos não sejam necessariamente encorajados na cultura brasileira, eles certamente existem e podem, como nesse caso, ser resultado da violação de uma regra pragmalinguística que, também, como na cultura americana, prevê a mitigação da negação. Entretanto, acreditamos que essa mitigação possa ser feita por meio de pistas de contextualização prosódicas e gestuais (com o uso de certas expressões faciais) que, ao contrário daquela utilizada por S1 em suas negativas (acentos extra-fortes em ‘No’ e ‘I

disagree’), não ameacem a face do ouvinte.58

56

Wierzbicka contrasta, também, a cultura angloamericana com a cultura afroamericana.

57

Cf. APÊNDICE A – Nota 2, para um fenômeno semelhante.

58

A respeito de casos de dissenção, Roberto DaMatta (2005, p. 38), como já mencionado anteriormente, argumenta que, no Brasil, “opinar sobre isso ou aquilo é necessariamente ser contra ou

Em estudo a respeito de estratégias de polidez utilizadas em momentos de dissensão em interação entre falantes brasileiros e alemães, Schröder & Viterbo (no prelo)

chegam à conclusão de que a dicotomia ‘direto-indireto’ não é capaz de levar em conta

peculiaridades do contexto situacional. Ao contrário do que é geralmente esperado, houve momentos, na interação analisada pelas autoras, em que os participantes brasileiros utilizaram expressões de dissensão mais diretas do que os alemães, por não fazerem uso de estratégias de polidez. Entretanto, também ao contrário do que geralmente se espera (de acordo, por exemplo, com BROWN & LEVINSON, 1987), essas expressões não aparentaram causar constrangimento – como resultado de face ameaçada – aos ouvintes. As autoras sugerem, portanto, que não seja necessariamente o tom direto do falante que ameace o ouvinte e, sim, a intenção que este confere ao enunciado do seu interlocutor. Para uma contribuição que exprima uma crítica para o Brasil, exemplificam as autoras, o ouvinte poderia voltar a interpretação para o próprio conteúdo daquilo que foi proferido ou poderia, alternativamente, julgar essa contribuição em termos atitudinais, no nível relacional, e supor que houve intenção, por parte do falante, de subestimar os brasileiros.

Sérgio Buarque de Holanda (1995) associa a polidez ao individualismo das

sociedades modernas. Assim, “armado dessa máscara [a polidez], o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social” (HOLANDA, 1995, p. 147). Para Buarque de Holanda

(1995, p. 147), a polidez “detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a disfarce que permitirá a cada qual preservar intactas sua sensibilidade e suas emoções”. Entretanto, argumenta o autor, com a grande influência do tipo primitivo de família patriarcal na sociedade brasileira, a urbanização do país toma um contorno próprio que faz com que os indivíduos recorram sempre à vida doméstica na criação de modelos de relacionamento social, inclusive aqueles relacionamentos da esfera pública.

O “homem cordial” descritivo da personalidade brasileira, ao qual Sérgio Buarque de Holanda se refere, é, portanto, ao contrário ao que a própria expressão pode nos levar a pensar, avesso à cordialidade entendida como noções ritualísticas e formulaicas de vida (como aquelas demandadas para o uso adequado de estratégias de polidez). A cordialidade é entendida, pelo autor, em outros termos:

a favor de alguém e não do assunto em pauta”. No caso do evento de fala ‘Is Belo Horizonte the best

city in the world?’, isso faz sentido, já que uma conversa a respeito de uma cidade – Rio de Janeiro –

fez com que a interação assumisse contornos cada vez mais confrontativos entre os dois alunos participantes.

[j]á se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização seria a cordialidade, daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a generosidade, a hospitalidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade, há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. (HOLANDA, 1995, p. 146).

Apesar da descrição notadamente essencialista típica da Antropologia da época

(visível, por exemplo, no uso de expressões como ‘traço definitivo do caráter brasileiro’), o

trecho corrobora a asserção de que a polidez brasileira – muito mais regida por pistas de

contextualização do que por expressões no nível da ‘foreground message’ (como seriam

aquelas utilizadas em inglês americano, por exemplo) – é mais dependente do ouvinte. Isso pode criar dificuldade, em termos de comunicação intercultural entre brasileiros e americanos, uma vez que a polidez brasileira depende muito mais de um conhecimento das pistas de contextualização enfatizadas na socialização primária e secundária, que não podem ser inferidas por interlocutores que não tenham passado por um processo de socialização similar.

Logo, a aversão à polidez, da qual trata Sérgio Buarque de Holanda, se refere a enunciados nos quais a polidez se faz presente no nível superficial da linguagem (no nível da

foreground message), ou seja, em seu nível mais claro e explícito. É possível, portanto, que,

para brasileiros, o uso de expressões do tipo dos whimperatives, por exemplo, seja, geralmente, desnecessário, já que as pistas de contextualização, por si sós, são capazes de expressar a intenção do falante ao seu interlocutor. Assim, um ‘could you open the window

please?’, em comunicação intracultural entre americanos, e ‘abre a janela?’ (com pista de

contextualização prosódica apropriada para pedidos), em interação entre brasileiros, podem ter o mesmo efeito nos respectivos ouvintes da mesma cultura, mas não necessariamente em ouvintes de uma cultura alheia.

A esse respeito, Edward Hall (1976) faz uma distinção entre culturas de ‘alto contexto’ e culturas de ‘baixo contexto’. As primeiras são aquelas em que existe a

possibilidade de se deixar muitas coisas não ditas, já que a própria cultura é capaz de explicá- las; poucas palavras podem transmitir uma mensagem complexa de maneira eficiente para membros do mesmo grupo. As últimas são culturas nas quais os falantes precisam ser mais explícitos para comunicarem suas mensagens. Em comparação com a cultura americana, a

cultura brasileira é classificada como de mais alto contexto, o que corrobora a nossa análise a respeito da polidez em ambas as sociedades.

Benzer Belgeler